quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

TOP - 2015


1 - Divida de Honra (The Homesman), de Tommy Lee Jones
“... Ela é uma mulher madura que sobrevive sozinha no Velho Oeste, enfrentando o preconceito da sociedade machista, rejeitando a subserviência ao provar competência em seu trabalho, porém, como uma alma sensível, capaz de aliviar as angústias diárias tocando imaginariamente as teclas de um piano bordadas em tecido, ela deseja ser verdadeiramente amada. O cenário rude, desolado, reflete metaforicamente a negação da sensibilidade, um berço de homens estúpidos que cospem suas mulheres de suas vidas, ao primeiro sinal de problema, figuras vistas como minimamente humanas, dispensáveis. Ao se dispor à difícil tarefa de conduzir três mulheres que perderam a sanidade, por conseguinte, impiedosamente despejadas por seus maridos, até uma cidade onde irão receber tratamento, Mary ousa vestir o manto de sacrifício por uma causa cujo escopo sequer poderia compreender. A alegoria é potencializada pela brutalidade que Tommy Lee Jones, enquanto diretor, não se intimida de mostrar. Ela, por outro lado, havia demonstrado na cena em que consegue estabelecer conexão emocional com uma das vítimas, após gentilmente abraçar a ilusão que a mantém viva, a disposição libertária para a mudança de pensamento. Ela, a mulher na sociedade, está aberta à discussão, mais preparada que qualquer homem. Ele, o machista impotente, segue surdo aos pedidos de respeito e igualdade. O faroeste é utilizado então como veículo estético para uma trama que nos conduz à gradual percepção desse homem, o Adão desencantado, que aprende a conviver com o feminino...” 


2 - Divertida Mente (Inside Out), de Pete Docter e Ronnie Del Carmen
“... Quando a mãe prende o cabelo, atitude que representa o resgate da diversão, o pai interrompe para atender ao telefone, a negação da pureza, o abraço no capitalismo, a ambição por ascender no emprego, o gradativo afastamento da família. O momento, comum em nossa existência, onde os pais passam a deixar a responsabilidade da criação dos filhos para a televisão, babás, o elemento externo. A menina não compreende nada disso, ela apenas sente falta, sofre em silêncio. A mente, representada pelos agentes de cada sentimento, começa a entender que a felicidade, as esferas douradas, vão minguando. A mensagem mais bonita, aquela que ficará na memória semanas após a sessão, fala diretamente a um dos problemas mais sérios na sociedade moderna, ocasionado pela imaturidade emocional: a incapacidade de lidar com os altos e baixos da vida. A obsessão equivocada pela imagem vencedora, uma falsa felicidade meticulosamente trabalhada para impressionar outrem nas redes sociais, mascarando a natureza humana com um verniz frágil. E essa recusa em lidar com a imprevisibilidade das ondas desse oceano acaba ocasionando o extremo oposto, a mais profunda depressão. A dor, a derrota, tem papel fundamental, uma função importante, como na cena em que a Tristeza resolve um problema apenas por ter escutado o desabafo melancólico do amigo imaginário. A Alegria, por si só, não consegue se colocar na pele de quem sofre, ela foge, vira a cara. A maturidade emocional só é alcançada quando a pessoa aprende a equilibrar esses impulsos naturais...”


3 - Birdman, de Alejandro González Iñárritu
“... O roteiro inteligentemente critica a indústria, apontando o dedo para algo que estamos presenciando, atores veteranos que estão evitando o risco, retornando aos seus papéis populares clássicos, ao invés de estarem experimentando novas emoções, reinventando-se sem a preocupação com o aplauso do público, o que é essencial para um ator. Como é explicitado nos intertítulos que iniciam a obra, tudo se resume à necessidade de se sentir querido. Esse é o real vilão da trama, o Coringa do Birdman: o desejo de se sentir amado, não somente pelo público, mas também pela filha problemática, vivida por Emma Stone, alguém cujo relacionamento foi prejudicado pela rotina profissional que ele escolheu. A busca pelo carinho dos outros, o reconhecimento artístico, que acabou afastando-o daqueles mais próximos. A crítica à sociedade, um ambiente que o protagonista não consegue aceitar, pode ser simbolizada na excelente cena que acompanha sua corrida, trajando apenas uma cueca, em plena Broadway. O evento bizarramente onírico, o que realça o contexto metafórico, conduz o personagem a descobrir que ele pode se esforçar em sua Arte por toda sua vida, arriscar nas mais diversas interpretações, que nada disso irá se igualar ao sucesso popular obtido pelos incríveis acessos nas redes sociais advindos de uma tolice qualquer. Vivemos em um período onde a vergonha alheia recebe atenção no horário nobre da televisão, enquanto os verdadeiros artistas morrem esquecidos. Essa melancólica constatação potencializa ainda mais o conflito interno do protagonista...”


4 - O Abutre (Nightcrawler), de Dan Gilroy
“... A melhor sequência, dentre várias que poderia destacar, representa a esperteza do roteiro em inserir o espectador na pungente crítica que direciona ao jornalismo baixo e imediatista que é realizado nos dias de hoje. Como eu sempre digo: a sociedade não cria os abutres, ela os alimenta. O momento mais inteligente ocorre quando ele adentra o quarto do bebê. Nós não sabemos absolutamente nada sobre aquela família, apenas visualizamos um quarto decorado de forma infantil, com um berço posicionado no centro. É quando o roteiro implacavelmente nos insere na crítica. O personagem se aproxima lentamente do berço, fazendo com que nós compartilhemos o mesmo frenesi daqueles que perdem vários minutos na frente da televisão acompanhando uma perseguição de carro ou um sequestro em tempo real. Nós, os abutres que somos alimentados por esse jornalismo cretino. Nós que não conseguimos desviar os olhos, numa mistura de sentimentos humanamente ambíguos, por um lado, desejando que o bandido seja preso logo, por outro, desejando que ele consiga driblar a polícia por mais tempo, para que aquela emoção da caçada nos tire de nosso cotidiano apático. A intenção é nos estimular a repulsa por algo que não vimos. O espectador comenta com sua companhia na sessão: “Nossa, ele filmou até o bebê morto, que monstro insensível”. Alguns minutos depois, como que com um sorriso sarcástico de quem provou sua tese com louvor, o filme revela que não havia bebê algum no berço, aquele quarto, provavelmente, estava sendo preparado para uma criança que ainda não nasceu. E, mais além, descobrimos que a mansão era de traficantes de drogas. Todo o investimento emocional do espectador, tanto o real, quanto o do noticiário na obra, foi manipulado pela irresponsável estação de televisão, que, numa atitude coerente à podridão de todos os atos anteriores, decide se negar a evidenciar essa conclusão. O mais importante para um jornalismo imediatista é que o público, resumido a números numa conta bancária, se mantenha na frente da televisão, ou folheando as páginas do jornal, pelo maior tempo possível. Contar a eles que a pobre família vítima dos assassinos era, na realidade, um bando de criminosos, iria afastar o público. Quando o jornalismo perde o senso de moral, ele se torna uma busca desesperada por manchetes sensacionalistas, simplificando qualquer discurso a imagens de impacto, visando o choque, nunca a reflexão...”


5 - Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road), de George Miller
“... O toque mais interessante foi transformar o Max de Tom Hardy em um coadjuvante de luxo, inteligentemente subvertendo, em tom claro de crítica, as funções usuais dos personagens em uma obra do gênero. Ao quebrar as expectativas do público, reservando para o herói todos os clichês narrativos que são normalmente relegados às mulheres, que podem ser resumidos na cena em que o ombro de Max serve de apoio para a mira da protagonista, vivida por Charlize Theron, Miller evidencia o desleixo da indústria na criação de heroínas fortes. As sequências longas de ação entorpecem os sentidos, não dão trégua, é uma aula de eficiência, sem o artifício comum de confundir o público, como forma de mascarar a pouca habilidade daquele que está no comando. A câmera aqui age como se estivesse filmando as danças de Fred Astaire, ela apenas capta o desenvolvimento natural dos conflitos, deixando para a montagem o trabalho de impor o ritmo e o tom. Nos aspectos técnicos, o filme é impecável. A fotografia de John Seale, coerente à ousadia narrativa já citada, uma atitude que respeita o cinema de guerrilha que foi o clássico australiano, rejeita a paleta visual óbvia de poucas cores, moldura de dez entre dez filmes ambientados em cenários pós-apocalípticos. Ao final, o que se mantém na mente de quem assiste é a postura desafiadora, soco no estômago, típica de filme B, um charme raro dentre tantas obras formulaicas do gênero que a indústria despeja anualmente. Não reinventa a roda, e nem precisaria, mas, sem dúvida, o septuagenário diretor deixou muito cineasta garotão, esses que são fabricados pelo hype de Hollywood, com inveja...”


6 - Capital Humano (Il Capitale Humano), de Paolo Virzì
“... A trama, com sua impecável estrutura em quatro capítulos, incita uma reflexão sobre a queda do império humano, partindo de um evento simples, o atropelamento fatal de um ciclista que não recebeu socorro. Ao costurar as narrativas de seus personagens envolvidos de alguma forma no acidente, o roteiro provoca questionamentos essenciais, críticas severas a um modo de vida cada vez mais egoísta, onde a capacidade de empatia se curva perante a necessidade de se obter vantagens. No primeiro capítulo observamos a rotina de Dino, uma espécie de variação do Kringelein de “Grande Hotel”, alguém disposto a tudo para viver “a vida real” na alta sociedade, um verme que vibra por saber que foi convidado para uma mesa elegante em uma festa, já que anseia por aquele refinamento ilusório, ainda que, como é evidenciado em uma cena breve, não entenda a diferença entre diversas grifes de água. O texto é claro, a crítica se esconde por trás da gag. Coloque um tecido simples em uma vitrine de uma loja de grife respeitada, que, sem pestanejar, a clientela irá gastar o triplo do valor real do produto, apenas para garantir seu conforto existencial, a satisfação de um status tolo que mascara, por pouco tempo, o complexo de inferioridade...”


7 - O Conto da Princesa Kaguya (Kaguya-hime no Monogatari), de Isao Takahata
“... A beleza não reside na trama, sem novidade alguma para aqueles que já conhecem a história, mas, sim, na forma como ela é contada, utilizando uma técnica de animação que prima pela simplicidade, inspirada na pintura japonesa feita com tinta de caligrafia, o Sumi-ê, que leva em consideração o sentimento do artista em sua execução, tentando deixar transparecer a alma e a harmonia interna, elementos mais importantes do que o tema que o artista está trabalhando. Como forma de perceber a riqueza desse estilo, analise como o traço é classicamente bonito e suave, por exemplo, nas cenas em que vemos a bebê adorável aprendendo a andar, contrastando brutalmente com o traço borrado nas cenas em que a protagonista está emocionalmente perturbada. E, inserido no contexto da narrativa, vale destacar a crítica que é feita à submissão feminina na sociedade, a pressão que a jovem sofre dos pais, que entendem o ritual do casamento como a óbvia definição da felicidade, quando, na realidade, ela quer apenas conviver com seus amigos de infância, correndo descalça pelo campo, sorrindo e chorando sempre que esses sentimentos brotarem espontaneamente. As regras dizem que, no intuito de conquistar seus ricos pretendentes, ela deve aprender a conter todos os rompantes de emoção. Quando alguém aprende a andar imitando os movimentos das rãs, tendo a natureza, com sua maravilhosa imprevisibilidade, como modelo na vida, acaba se tornando impossível a aceitação conformista de qualquer ritual criado e imposto pelos humanos...”


8 - La Sapienza, de Eugène Green
“... A trama aborda um arquiteto de meia-idade, vivido por Fabrizio Rongione, que se descobre intensamente frustrado ao perceber que desperdiçava seu talento em construções padronizadas, edificações que serviam apenas a uma funcionalidade que não dependia de qualquer traço de personalidade do seu criador. Ele decide então embarcar em uma longa jornada para reviver os passos de seu ídolo na profissão, um mestre barroco romano do século dezessete. A bela alegoria trata verdadeiramente da erudita viagem interna de alguém que deseja se reencontrar com sua paixão inicial pelo trabalho que realiza, implacavelmente se desintoxicando da medíocre geografia urbana globalizada. O segundo ato ganha pontos com a entrada do jovem estudante, vivido por Ludovico Succio, completamente apaixonado pelo tema, muito esforçado, mas sem o aprendizado técnico, um reflexo do arquiteto de outrora no espelho da vida. Inicialmente pouco disposto a servir de tutor, mas eventualmente cativado pelo amor do discípulo pela arquitetura, o homem terá uma chance perfeita de recuperar o entusiasmo perdido, descobrindo ao constatar no horizonte crepuscular de sua vida que a real sabedoria, leitmotiv expresso já no título, reside na dedicada preparação para esse utópico e subjetivo conceito. O sonho que motiva o esforço, elemento que nunca deve se perder nas curvas frustrantes da vida...”


9 - O Julgamento de Viviane Amsalem (Gett), de Ronit e Shlomi Elkabetz
“... Como roteirista, eu sempre acreditei que o melhor caminho criativo é a restrição do ambiente em que ocorrem os conflitos dos personagens. E o trunfo dessa produção israelense reside na subversão do cenário usual dos dramas de tribunais, trabalhando com eficiência a claustrofobia de forma interna, palpável no desespero da esposa, já que o elemento externo, a sala dos juízes rabinos, iluminada e em tons brancos, não poderia aparentar ser mais confortável e harmoniosa. Os alívios cômicos brotam de forma inteligente no roteiro, com a função de salientar o absurdo da situação, a estupidez do machismo dominante em quase todas as ideologias religiosas. Em uma das cenas, o próprio irmão da personagem, ao testemunhar em sua defesa, inicia dizendo que, por mais que a ame, o marido dela canta tão bonito na sinagoga, parece até um pássaro, um homem perfeito. Ele complementa, para o choque dela, que já está vivenciando esse pesadelo burocrático há anos: “Uma mulher precisa ter limites”. As leis são criadas pelos homens, que se protegem em sua estupidez e insegurança. O marido, uma amarga incógnita, não se preocupa em fornecer sequer um argumento para sua insistência no matrimônio, chegando ao ponto de, numa demonstração de total consciência do favoritismo da justiça, simplesmente se ausentar dos apontamentos no julgamento. Esse julgamento patriarcal que abusa de conveniências, o que se escora no subjetivo elemento divino, é um dos alvos da trama, que expõe o ritual desumano de divórcio naquela sociedade, encabeçado por aqueles que acreditam deter uma autoridade superior, sempre posicionando a mulher abaixo de um mínimo nível de dignidade, precisando do consentimento do marido para obter a liberdade. Um dos muitos acertos da produção é nunca questionar esses procedimentos, estimulando a visão crítica que nasce da simples constatação, às claras, da tremendamente injusta escalada de absurdos inerentes ao fundamentalismo religioso...”


10 - A Festa de Despedida (Mita Tova), de Tal Granit e Sharon Maymon
“... O que não me sai da cabeça após a sessão, dentre todas as emoções despertadas por esse lindo filme israelense, é a ideia de um homem que se predispõe a aliviar o sofrimento de estranhos, enquanto parece ignorar a gradativa perda da sanidade de sua amada esposa. O conceito de que ele, confrontando as leis naturais com sua máquina de eutanásia, está operando uma fuga da sua própria realidade, reveste a trama com uma camada extra de complexidade psicológica. Os diretores Tal Granit e Sharon Maymon, com tremenda sensibilidade, comandam uma aula de construção de personagens, sem caricaturas, elementos que agem de forma orgânica e inesperada, num equilíbrio perfeito de humor e drama, vale salientar, em doses muito corajosas. O roteiro, ao compor arcos de personagens essencialmente inconstantes, realistas, entrega para o público uma grande variação de argumentos divergentes. O foco não é a morte, ou como devemos lidar com o sofrimento, mas, sim, com a importância de saber viver com qualidade o pouco tempo que compartilhamos nessa incrível experiência. Cenas como a da reunião nudista, reforçam o valor do companheirismo entre soldados cansados da longa batalha em uma trincheira que será invadida, em breve, pelo exército inimigo. Uma resposta inteligente e adulta para outros projetos mais celebrados, como “Para Sempre Alice”, que disfarçam o tom exploitation da miséria, o que seria o Datena para o jornalismo, com uma abordagem que se leva a sério demais, o que desumaniza os personagens. É, com sua humanidade tocante, um dos filmes mais lindos do ano...”

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Sábio Silêncio - Parte 12

Link para os textos anteriores do especial:


Diário
13 de Janeiro – 1920 – 20:30

Voltei para o salão e, sem cerimônia, fui abraçado por Mary Pickford, que me conduziu para um dos poucos ambientes vazios no local. Ela demonstrava certo cansaço, percebi que aquelas convenções sociais não a agradavam muito. Eu senti que era o momento de arriscar uma entrevista informal, então liguei o gravador e iniciei a conversa.

- Quer que eu ajude você a colocar todo esse povo pra fora? – ela explodiu numa gargalhada, enquanto se ajeitava no sofá.

- Eu já me acostumei com essas grandes festas, mas não consigo entender porque elas duram tanto tempo. Por dentro, ainda sou uma garota simples, de hábitos simples.

- Já que tocou no assunto, como você entrou nesse mundo? – ela ficou alguns segundos com o olhar perdido no horizonte.

- Eu comecei muito nova no teatro, não sou uma dama da sociedade, não nasci pra isso, tive apenas três meses de educação formal, valorizo tremendamente aquele que aprende por dedicação, sozinho, lendo bastante, o verdadeiro artista. Tudo isso – e ela gesticula largamente, como se envolvesse todo o ambiente em seus braços delicados. – É ilusão. Nada disso vai sobreviver ao nosso tempo, por isso mesmo farei questão de deixar registrado que todos os meus filmes serão destruídos após a minha morte.

- Você está brincando?

- Não poderia estar falando mais sério, querido rapaz. Não quero que os netos do meu público de hoje debochem de nossas produções. – ela percebeu meu choque, tentou descontrair o clima com um daqueles sorrisos que conquistaram o mundo.

- Eu acho um crime impedir que as gerações futuras conheçam um trabalho tão bonito como “Stella Maris”.

***


“Stella Maris”, dirigido por Marshall Neilan em 1918, é um dos filmes mais importantes da carreira de Mary Pickford, onde ela interpreta dois personagens física e psicologicamente antagônicos, com a ajuda de truques pioneiros de superimposição.  
***

- Você é muito gentil, eu também tenho muito carinho por esse filme, mas, entenda, não existe futuro para o cinema. E eu não quero ser vista como uma velha aberração de circo. - novamente, ressalto que fiquei impressionado com a visão limitada dos profissionais da época sobre aquilo que produziam.

- Mary, se nem a Influenza te matou, eu tenho certeza que não será essa preocupação que vai te tirar o sono.

- E não me tira mesmo, pode acreditar. Só acho que tudo tem seu tempo. Quando me maquiaram pro meu primeiro teste pra Griffith, eu parecia o Pancho Villa, uma coisinha esquisita. Olhei no espelho e tive vontade de sair correndo e desistir de tudo. E nem isso me desmotivou, segui em frente... – cortei seu discurso, segurando em sua mão, deixando a emoção do momento me levar.

- A queda não importa, o nobre é saber levantar. Você não faz ideia de como seu trabalho será valorizado no futuro, querida. Não me pergunte como, apenas acredite. – percebendo que me exaltei e cometi um equívoco, tentei conduzir sorridentemente a conversa para outro tema, manobra facilitada pelo som dos latidos dos cães do casal que irrompiam do lado de fora. – Com o Douglas, foi amor à primeira vista?

- Como não seria? Ele, como um galante cavalheiro, desde o nosso primeiro encontro, sempre me resgata nos braços, protegendo-me de qualquer perigo. – por mais sinceridade que ela colocasse em suas palavras, senti um tom de teatralidade em seu olhar vago, que, somado ao pouco tempo que o homem dedicava à esposa na festa, acabou me deixando uma impressão de relacionamento forjado para os holofotes, um acordo interessante para os dois.

- Eu percebi que você não se dá muito bem com o Charlie. Estou certo? – ela demonstrou claramente o incômodo com a pergunta.

- Charlie é um sócio figurativo, empresta o nome, não a alma... – Indisfarçavelmente confuso, cortei o discurso e tentei fazer com que ela fosse mais objetiva.

- Você está se referindo à parceria na United Artists?

- Também, claro. Ele não se envolve como Dougie, Griffith e eu. Ele está preocupado demais com o tamanho do seu nome no cartaz. – percebendo meu desconforto, ela se aprofundou no tema, desviando da amargura com o colega. – Na realidade, antes de nos unirmos, os atores eram até alvo de deboche dos produtores, que nos mantinham afastados dos estúdios. Eu soube que os produtores estavam planejando retirar cada vez mais a participação dos atores, dos roteiristas, no filme pronto. Os salários também seriam acertados seguindo um padrão, os artistas não teriam mais opinião sobre o corte final. Charlie gosta de levar a fama, mas eu convoquei a primeira reunião.

- Entendo perfeitamente a sua posição.

Nesse momento, alguns convidados entram no ambiente, interrompendo a entrevista. Mary pega meu braço, agradece por eu tê-la salvado por alguns minutos daquela turba, e então, com extrema graciosidade, some entre os vários ombros do salão ao lado. Olho para a mesa próxima, onde o livro de visitantes de Pickfair repousa elegantemente. Em um rompante de coragem irresponsável, encontro o espaço em branco, assino meu nome, com uma pequena observação carinhosa ao lado: “Mary, não apague o seu legado profissional”. Hoje, sabendo que ela viria a se tornar uma defensora dedicada da preservação dos filmes, que chegou a apoiar a criação de um museu dedicado à arte cinematográfica, gosto de pensar que, com ajuda de Lillian Gish, que também aconselhou ela nesse sentido, tive algo a ver com essa mudança de pensamento.

Continua...

Rebobinando o VHS - "Karma - Enigma do Medo" e "Ritual Macabro", de Fauzi Mansur

Link para os textos do especial:


Meus primeiros contatos com a obra do diretor Fauzi Mansur, um dos poucos guerreiros nacionais que ousaram trilhar o gênero do terror.


Karma – Enigma do Medo (1984)
No século 19, pessoas são massacradas por bandidos numa casa de fazenda. Cem anos depois, o local foi transformado num hotel-fazenda, onde se reúnem diversos hóspedes que são a reencarnação das vítimas e assassinos do passado. Fenômenos estranhos e mortes violentas começam a acontecer.
Ritual Macabro (The Ritual of Death - 1990)
Raro e valioso livro contendo informações sobre antigos rituais indígenas de pajelança é roubado por integrantes de grupo de teatro. Eles planejam encenar uma peça baseada nos textos, mas durante os ensaios um dos atores é possuído e começa a matar os demais, enquanto seu corpo se deteriora.


O VHS de “Karma” foi resultado de um dos muitos garimpos que eu fazia no mercado popular da Uruguaiana, um clássico do Rio de Janeiro. Foi quando conheci o trabalho do diretor Fauzi Mansur, um dos grandes nomes da Boca do Lixo. A imagem que guardei daquela sessão foi o espírito mostrado sempre em negativo, um recurso que garante alguns bons momentos, o único ponto positivo que posso salientar. Infelizmente, em revisão, foi muito difícil chegar ao final, o que não é um bom sinal, considerando que são apenas oitenta minutos. As péssimas atuações e uma montagem confusa acabam transformando a experiência em algo praticamente insuportável. A trama, ainda que simplória, só é mais ou menos compreendida quando você lê a sinopse. Vale, sem dúvida, como curiosidade, já que se trata de um slasher nacional, especialmente em seu terceiro ato, quando deixa de lado as convenções dos filmes de casas mal-assombradas e abraça a matança generalizada.

“Ritual Macabro” não foi lançado em VHS no Brasil, mas consegui na época em uma versão alternativa. Um projeto feito por Mansur visando o mercado internacional, rodado em São Paulo, com o elenco ditando todos os diálogos em um inglês “the book is on the table” bem sem vergonha, mas, por incrível que pareça, o resultado é bastante superior. O filme, desconhecido por aqui, conquistou um espaço nas rodas de fãs norte-americanos do gênero, tendo recebido boas críticas em sua estreia. O importante é que o roteiro consegue estabelecer uma aura eficiente de pesadelo, com algumas sequências visualmente impactantes, como a cena de sexo na banheira, onde o casal se suja com o sangue que verte da cabeça decepada de uma cabra real, ao lado de um índio espectral fazendo uma dança exótica. É o tipo de material doentio e revoltante que apenas um realizador completamente irresponsável, no melhor sentido, poderia pensar em conduzir. O filme só ganha pontos nos momentos onde o gore domina, razão pela qual o projeto recebeu classificação X nos cinemas norte-americanos. Tem cenas que me remeteram aos trabalhos de David Cronenberg, não tanto pela competência técnica, mas, sim, pela criatividade insana.

Esses filmes nunca serão lançados em DVD, mas, em uma procura rápida, podem ser encontrados completos no Youtube. E pensar que fiquei semanas aguardando para receber a cópia em VHS de “Ritual” na época. Como é fácil ser garimpeiro cinematográfico hoje em dia... 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Cine Giallo - "O Gato de Nove Caudas" e "Terror na Ópera", de Dario Argento


O Gato de Nove Caudas (Il Gatto a Nove Code – 1971)
Um repórter e um jornalista cego aposentado tentam resolver uma série de assassinatos e acabam se tornando alvos do assassino. 


Esse é o meu favorito da Trilogia dos Animais, peças fundamentais no giallo, com o diretor demonstrando tremenda evolução em seu segundo trabalho, uma maior segurança em seu estilo, marcado pela utilização generosa da câmera subjetiva, representando o ponto de vista do assassino, transformando ele em um caçador urbano que persegue suas vítimas de forma quase animalesca, referência intensificada no uso constante de planos de detalhe no olho do assassino. Após “O Pássaro das Plumas de Cristal”, Argento ousa quebrar alguns paradigmas estabelecidos por ele mesmo no anterior, minimizando a violência, potencializando o impacto das cenas com truques de edição, seguindo os ensinamentos do mestre Alfred Hitchcock. Destaco aqui a fantástica sequência do ataque na estação ferroviária, o ponto alto do filme, que contém uma mordaz crítica ao culto das celebridades, já que toda a comoção pública com a tragédia é interrompida e esquecida, minutos depois, quando uma atriz famosa desce do trem. A parceria entre o jornalista cego (Karl Malden) e o repórter (James Franciscus), além de funcionar pela ótima química dos atores, é favorecida também pela presença da pequena e adorável neta do jornalista, tão inteligente quanto os dois, inserindo doçura e um toque de conto de fadas sombrio ao produto final.


Terror na Ópera (Opera – 1987)
Uma jovem soprano é perseguida por um assassino doentio durante a montagem da ópera “Macbeth” em Milão.


Argento cria aqui sua última obra-prima, uma declaração muito pessoal de amor à arte, ao inserir elementos de terror nesse giallo com toques de “O Fantasma da Ópera”, de Gaston Leroux, um tema muito querido pelo diretor. É fascinante perceber a conexão entre as árias utilizadas na trilha e as sequências emolduradas por elas, algo que eleva exponencialmente a qualidade da obra e, especialmente para os amantes de ópera, grupo em que me incluo, a sua eficiência em revisões. Ao usar a oração de paz, a ária mais famosa de “Norma”, de Bellini, como pano de fundo para a cena em que a jovem, escondida em seu apartamento, tenta sobreviver ao ataque do assassino, o roteiro nos coloca na pele do povo que, confrontando a paz desejada pela personagem na ópera, busca aos gritos os deuses da guerra. O público do giallo quer ser surpreendido com cenas de assassinato mais criativas, ele quer ver sangue. É uma metáfora muito sutil, uma demonstração de inteligência e, acima de tudo, sensibilidade. E, reforçando essas qualidades, nos momentos mais violentos, somos presenteados com um heavy metal, som totalmente alienígena no contexto já estabelecido, provocando um despertar sensorial. Vale destacar também a excelente sequência em que Argento utiliza sua usual câmera subjetiva em um complexo sistema de gruas e guindastes, para nos colocar no lugar dos corvos em voos rasantes dentro do teatro.








* Os filmes estão sendo lançados em DVD pela distribuidora Versátil na caixa “A Arte de Dario Argento”, com exclusividade pela Livraria Cultura, contendo também, além de ótimos extras, os filmes: “O Pássaro das Plumas de Cristal” e “Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza”.