segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Sétima Arte em Cenas - "Superman - O Filme"

Link para os textos do especial:


Superman – O Filme (Superman – 1978)
Tarantino explicou em sua obra "Kill Bill" as razões que o levam a preferir o herói de Krypton em detrimento de outros. No filme, David Carradine diz em seu monólogo que as histórias dos quadrinhos não são as melhores, nem as mais bem desenhadas. Seus vilões não são os mais interessantes, mas a sua mitologia é rica e fantástica. O Batman é Bruce Wayne, ele acorda como Bruce Wayne, torna-se o Cavaleiro das Trevas ao vestir seu uniforme, mudando sua voz e suas atitudes. O Superman já acorda sendo Superman, ele é o último filho de um planeta extinto, o seu disfarce é Clark Kent. Ao assumir a identidade do repórter do Planeta Diário, o filho de Krypton pode conviver com os mortais e estar próximo para defendê-los. Clark Kent exemplifica o modo como o herói vê os seres humanos: uma caricatura, tola e desajeitada.

O herói criado na década de 30 teve, desde seu início, uma conexão forte com o mundo do cinema. O nome para a cidade de Metrópolis nasceu da admiração dos criadores pelo filme alemão de mesmo nome, dirigido por Fritz Lang, assim como seu nome foi inspirado nos atores Clark Gable e Kent Taylor, tendo sua aparência física sido inspirada pelo cômico Harold Lloyd. É impossível falar do personagem sem mencionar Christopher Reeve. O primeiro filme marcou época por uma combinação de motivos, uma direção séria e competente de Richard Donner, que acreditava que devíamos realmente crer nesse herói, algo feito possível graças à escalação de Reeve para o papel. Um roteiro inteligente e adulto de Mario Puzo, que escreveu "O Poderoso Chefão", e uma trilha sonora inesquecível de John Williams que se tornou uma referência. É impossível desvincular qualquer um dos fatores que criaram esse clássico sem afetar o produto final.

Reeve mostrou-se um homem de caráter e moral inabaláveis após seu trágico acidente e reforçou mais ainda sua imagem como um verdadeiro herói. Ele acreditava na verdade e na justiça que o personagem defendia, a sua interpretação transparecia esse comprometimento. Na icônica cena de salvamento, onde vemos o homem de aço voando para salvar Lois Lane, nota-se que ele não duvida em nenhum momento de que irá impedir a queda daquele helicóptero. Como a propaganda nos cinemas dizia à época, ele realmente nos fez acreditar que um homem poderia voar. Quando foi fazer o teste de elenco para o primeiro filme, ele em nada se parecia com um "homem de aço", muito magro e terrivelmente nervoso, ostentou o famoso "S" no peito e buscou não aparentar ser um deus indestrutível, mas, sim, um educado e galante visitante das estrelas disposto a se ambientar em um planeta estranho. Sua postura chamou a atenção do diretor, que conseguiu ver além do que o físico franzino e o suor de nervosismo transpareciam. Ele viu naquele jovem que havia acabado de se profissionalizar como ator, sem nenhuma experiência significativa na área, os elementos que tornaram Superman um personagem tão importante no mundo: caráter, dignidade e educação. Como o diretor mesmo citou em algumas entrevistas, o jovem transbordava as qualidades essenciais para o personagem, somente foi preciso lapidar seu corpo com exercícios para que alcançasse o porte físico necessário. O mito irá viver eternamente. Enquanto houver esperança e uma necessária e lúdica ingenuidade em cada ser humano, poderemos sempre contar com o sorriso generoso e confortador dele, antes do fade out.

As adaptações de quadrinhos hoje são regra, com os produtores conseguindo qualquer astro importante e respeitado em seus cartazes, porém, houve uma época em que as adaptações de quadrinhos não eram apenas a exceção, como exalavam também uma aura de amadorismo, afinal, era considerado entretenimento para crianças pequenas e infantilizados adultos. Quando o diretor Richard Donner convocou Marlon Brando, simplesmente o ator mais respeitado na época, para interpretar o pai biológico do Superman, o mundo tremeu. Com ele no elenco, foi mais fácil encaixar outros nomes respeitados, como Glenn Ford, Gene Hackman, Terence Stamp, Trevor Howard, Maria Schell e Susannah York. E, tenho certeza, sem o jovem Christopher Reeve vivendo o herói, o filme seria hoje apenas uma curiosa nota de rodapé. Ele representava, fora das câmeras, todas as características nobres do personagem, enquanto a magia do cinema se responsabilizou pelos superpoderes.

A cena que insere o filme nesse especial ocorre por volta de uma hora de projeção, após o roteiro nos apresentar os primeiros passos de Kal-El na Terra e suas primeiras tentativas de emular os seres humanos, como o atrapalhado Clark Kent, em Metrópolis. É o momento da grande revelação, a celebrada cena do resgate do helicóptero. A meu ver, uma aula de como a trilha sonora pode funcionar como elemento narrativo. O compositor John Williams faz uma sutil referência ao tema que emoldura o trágico sacrifício dos pais do herói em Krypton, ligando a “morte” do bebê enviado ao espaço com o “renascimento” do adulto em sua vida pública. Ele utiliza no início instrumentos de sopro como forma de potencializar a urgência do momento, o desespero de Lois Lane em um helicóptero que perde seu piloto, ficando preso no topo do edifício do Planeta Diário. O povo começa a se aglomerar na calçada, enquanto a repórter se agarra a um fio, a queda é iminente, a trilha enfatiza isso. Quando ambulâncias são mostradas chegando ao local, Williams insere uma linha melodicamente mais terna, como que celebrando o potencial humano para a bondade, ainda que nesse caso não seja suficiente.

Clark aparece na calçada e percebe o chapéu de sua colega no chão. Na trilha, sutilmente, tomando o tempo, escutamos os primeiros movimentos do tema do herói, que vai tomando ritmo, ainda que despido de qualquer grandiosidade, quando o personagem busca um local para trocar de roupa. Ao finalmente revelar o símbolo numa corrida em direção à câmera, Williams apresenta a fanfarra de Superman em pequena escala, com maior ênfase nos elementos musicais que representavam sua origem alienígena. Ele resgata Lois, a fanfarra dá lugar brevemente ao tema de amor, tocado de forma calorosa, até que um som dissonante sinaliza a queda do helicóptero. E, quando Superman impede a queda, numa finalização emocionante, a fanfarra do herói é apresentada de forma apoteótica, pela primeira vez, com a orquestra completa, simbolizando o triunfo máximo do personagem: a sua harmonia interna, amalgamando os elementos sonoros alienígenas e humanos.

domingo, 6 de dezembro de 2015

"Scanners - Sua Mente Pode Destruir", de David Cronenberg


Scanners – Sua Mente Pode Destruir (Scanners – 1981)
Reunidos numa organização clandestina, os scanners preparam a derrubada do governo estadunidense e, a partir daí, a dominação mundial. O governo, para combatê-los, começa a contratar os seus próprios scanners.


O meu primeiro contato com o trabalho de David Cronenberg foi com a exibição de “A Mosca”, na “Tela Quente” global, no início de 1990. Eu tinha seis anos, então você pode imaginar o impacto daquelas imagens. Ao lado de “O Exorcista”, também conhecido através de uma madrugada maldita na televisão, burlando a proibição de meus pais, foi o responsável por minha paixão na infância pelo cinema de terror. “Scanners” representa pra mim o período inicial do VHS, as fitas que meu pai trazia da locadora no final de semana. Anos depois, por volta de 1996, conheci a abominável sequência: “Scanners 2 – A Força do Poder”, no inesquecível “Cine Trash”, que era apresentado pelo José Mojica Marins nas tardes da TV Bandeirantes. Ao rever o original pra esse texto, na excelente edição lançada pela distribuidora Versátil, senti uma nostalgia profunda.

Não me recordava muito da trama, apenas do combate final e da celebrada cena da cabeça explodindo no primeiro ato. E, apesar do protagonista, vivido por Stephen Lack, ser um ator bastante limitado e com pouco carisma, o roteiro é muito mais interessante do que aparenta ser na superfície, exatamente como a trilha sonora de Howard Shore, que realça o elemento destrutivo da habilidade especial dos scanners, uma maldição biológica. Essa visão depressiva contrasta, por exemplo, com a utilização da telecinese em “Carrie”, de Brian De Palma, lançado poucos anos antes. Na obra de Cronenberg, não há sequer um momento em que os personagens usufruam desse poder como crianças com um brinquedo novo. Não há êxtase, não há deslumbramento, até a vitória final é apresentada com amargor, algo importante sempre se perde no processo. Essa percepção madura, a vitimização dos personagens, insere o filme na lista dos bons sci-fi de sua década, superior a vários outros projetos tematicamente similares.

* O filme foi lançado em DVD pela distribuidora Versátil, na caixa “Clássicos Sci-Fi – Vol. 2”, que inclui também, além de extras, os filmes: “O Homem dos Olhos de Raio-X”, “O Monstro do Ártico”, “Matadouro 5”, “No Mundo de 2020” e “Robinson Crusoé em Marte”.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Cine Noir - "Crime e Castigo", de Josef von Sternberg


Crime e Castigo (Crime and Punishment – 1935)
Peter Lorre interpreta o inteligente jovem Roderick Raskolnikov, atormentado por sentimentos de culpa por ter assassinado uma velha senhora, além de um crescente sentimento de paranoia gerado pela presença constante e ameaçadora do inspetor Porfiry.


Aqueles que buscam uma adaptação mais fiel, em letra e espírito, da obra máxima de Dostoiévski devem assistir a versão russa de 1970, dirigida por Lev Kulidzhanov. Mas, ao contrário do que muitos afirmam, essa versão protagonizada por Peter Lorre não é ruim. É, de fato, uma adaptação bastante diluída, comandada por Josef von Sternberg, o mestre por trás de “A Última Ordem”, um dos melhores filmes da época silenciosa, e o cultuado “O Anjo Azul”. Em essência, é o protótipo do que viria a ser o Noir.

Acho fascinante a forma encontrada para salientar a ambiguidade do protagonista, o conflito entre a arrogância e o ímpeto por se minimizar perante a sociedade, elemento que é realçado visualmente com detalhes, como a figura de Napoleão (com quem ele se identifica) no quarto e o expressionista uso das sombras, que parecem aprisionar progressivamente o personagem. Raskolnikov utiliza o papel do jornal que celebrava sua conquista literária como forro para seu sapato furado. Ele, abusando da linguagem corporal, consegue ir além do roteiro, transmitindo a complexidade de emoções que movem suas ações, muito mais do que sentimento de culpa, um misto de nobreza e integridade, que conquista a admiração do inspetor que está em seu encalço. Mais do que fazer justiça, Porfiry, vivido por Edward Arnold, deseja conduzir o atormentado homem à redenção.

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Obras-Primas do Cinema”.

"O Ponteiro da Saudade", de Vincente Minnelli


O Ponteiro da Saudade (The Clock – 1945)
Joe (Robert Walker) é um jovem soldado que tem apenas dois dias de licença e vai passá-los em Nova York. Lá, conhece Alice (Judy Garland), uma secretária por quem se apaixona. Correndo contra o tempo, eles tentam se casar.


Essa joia pouco comentada de Vincente Minnelli é um dos romances mais adoráveis da década de quarenta. Simples em sua estrutura, porém, extremamente eficiente. Emoldurada pela fotografia elegante de George Folsey, Judy Garland exala encantamento em seu primeiro papel dramático, transmitindo camadas de emoção através de pequenos gestos, como quando consegue insinuar uma ousada sensualidade, em uma cena de beijo, com apenas um movimento sutil de sobrancelha. Um amor que nasce, em tempo de guerra, como uma tentativa de manter a ingenuidade da juventude. Os sons da cidade grande, com seus edifícios opressivos, os sinais da mudança iminente.

A trama esconde por trás de uma névoa de fantasia romântica algumas críticas sociais interessantes. Destaco toda a sequência da tentativa de casamento, com o casal buscando a satisfação ilusória naquele ritual. Quando o noivo se dá conta de que não se lembrou das alianças, numa cerimônia realizada às pressas e ao lado de uma janela aberta, em uma rua barulhenta, tentando escutar o que o juiz está dizendo, o roteiro evidencia o quão vazio é aquele espetáculo. O precioso tempo que era tão escasso para o casal, sendo desperdiçado em tom de caricatura. A forma como os dois passeiam por vários pontos importantes de Nova York, como o Central Park e o Museu de Arte, extravasando verbalmente a angústia do tempo que se esvai, acabou me remetendo ao “Antes do Amanhecer”, de Richard Linklater. Como se os personagens tentassem imprimir naqueles locais a essência daquele encontro, para que, no futuro, separados no tempo e espaço, pudessem ser identificáveis nos rostos sorridentes de casais estranhos.

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Obras-Primas do Cinema”.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Exibição dos curtas "Übermensch", "Teresa" e "Surpresa!" no Cine Joia


Na noite do dia 2 de Dezembro, com elenco, familiares e amigos, vivi uma das experiências mais emocionantes da minha vida. Da chegada dos convidados ao Cine Joia de Copacabana, sorridentes e empolgados, em plena Quarta-Feira e ao som de uma chuva fina, senti que o evento representava algo especial para todos, não apenas o prestígio gentil concedido a um jovem cineasta e escritor. Não se tratava de uma formalidade social. Era como se cada pessoa enxergasse naquela realização um vislumbre dos seus próprios sonhos, algo que, especialmente no Brasil de hoje, imerso em um mar de lama ética, com os valores invertidos, ganhava ares épicos. 

Em uma sociedade cada vez mais dependente do vitimismo conveniente, onde os incompetentes dignitários validam que a pobreza material seja uma justificativa para a mediocridade e a corrupção do caráter, um jovem ferrado, que sofria de uma timidez patológica até os dezoito anos, contra todas as probabilidades, estava produzindo. Três curtas-metragens, três propostas totalmente diferentes (drama, suspense/terror e comédia), idealizados, filmados e completados em um ano. Todos feitos sem qualquer forma de patrocínio, sem gastar sequer Um Real. O primeiro, “Übermensch”, com uma câmera simples e emprestada (obrigado, querida Adriana Borges), editado em um notebook antigo, processador fraco, no programa menos profissional do mercado, o Windows Movie Maker. Esse primeiro filho querido, ao lado do segundo: “Teresa”, que codirigi com Sihan Felix, foram selecionados para a mostra competitiva oficial do Festival Figueira Film Art, um dos mais respeitados e tradicionais de Portugal. 

Como forma de festejar essa seleção e o término das filmagens do terceiro projeto: "Surpresa!", pensei em dar esse presente para a equipe que acreditou em meu trabalho. Teresa Cristina, minha Teca, atriz e diretora de arte nos três projetos, uma gigantesca baixinha que atura minhas madrugadas de preparação de textos há onze anos. Mário PC Filho, ator e compositor das trilhas dos três curtas, sócio dedicado nesse sonho. Deborah Cintra, ótima atriz que conheci na época do teatro (quem leu meu livro sabe o divisor de águas que representou) e que dirigi na peça de formatura do curso. Juliana Weinem, atriz reconhecida internacionalmente, e, acima de tudo, grande caráter. Tereza Filardy, atriz surpreendente, com uma chama interna difícil de se encontrar, baita talento e pura generosidade. Eric Brandão, nosso incansável responsável pela captação de som no terceiro curta. E Bruno Barros, amigo desde a época de pré-adolescência, que estreou na direção de fotografia em "Surpresa!". Aquela noite seria a primeira vez em que esse elenco, no que me incluo, iria se ver na tela grande, imersos na mágica da sala escura. Eu tentei fazer de tudo para que fosse uma noite inesquecível pra todos nós. 


Com o elenco reunido ao meu lado, dei as boas-vindas ao público. Comecei dizendo:

“Um amigo me disse uma vez que fazer cinema no Brasil sem ajuda do governo, sem patrocínio, é um milagre... Então estamos aqui hoje celebrando esse milagre”.

           (Da esquerda pra direita: Eric Brandão, Bruno Barros, Teresa Cristina, Tereza Filardy, Deborah Cintra, Juliana Weinem e Mário PC Filho)

O sonho do "fazer cinema" vira realidade quando você consegue reunir um grupo que verdadeiramente ama e se dedica à Sétima Arte. Um grupo que valorize a água benta do suor do rosto, que entenda a criação artística como algo mais profundo do que essa estúpida e vazia indústria da fama que parece dominar o mercado hoje. Eu me recuso a ver essa área como uma vertente da Fórmula 1, a criatividade pode sublimar as limitações financeiras. A noção de "cinema independente", na maior parte das vezes, abraça cineastas de berço de ouro, com pais milionários. O dinheiro não vem do governo, mas é abundante. Mas você, amigo leitor, querida leitora, precisa entender que cinema não é uma maçonaria. Você, amante dedicado dessa arte, já tem os recursos mais importantes à mão. Não se intimide, estude de forma autodidata, vá com o pé na porta, produza