segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Cine Giallo - "O Segredo do Bosque dos Sonhos", de Lucio Fulci


O Segredo do Bosque dos Sonhos (Non si Sevizia um Paperino – 1972)
Esse é daqueles filmes que, dois minutos depois do fim, ainda se recuperando do impacto, você tem vontade de aplaudir de pé. Lucio Fulci, diretor pouco valorizado, conseguiu criar um corajoso tratado único sobre temas espinhosos como preconceito, pedofilia, hipocrisia, superstição e religião, sem medo de controvérsias.

Vou evitar revelar muito sobre a trama, um tremendo desserviço, especialmente nesse caso. Em um vilarejo dominado pelo misticismo, crianças são assassinadas, conduzindo os policiais na direção de uma bruxa praticante de vodu, vivida pela brasileira Florinda Bolkan. O roteiro abre o leque de possibilidades, mostrando que todos são suspeitos, já que não há sinal algum de qualquer senso de moralidade ou ética nas atitudes dos moradores. Até mesmo as crianças, que acabam sendo vítimas, são apresentadas praticando atos de sadismo, sem nenhum traço de empatia. O único que se mostra puro e bem-intencionado é o padre. Uma das personagens, vivida pela bela Barbara Bouchet, é uma viciada em drogas que busca reabilitação, uma jovem ousada que parece ter uma fixação em se insinuar sexualmente para os meninos da região.

O mais interessante é como a história subverte qualquer expectativa, inclusive, visualmente, uma característica simbolizada em uma das cenas mais interessantes na história do Giallo, verdadeiramente inesquecível, um brutal linchamento acompanhado na trilha sonora pela programação exótica de uma estação de rádio, tendo, em seu ápice dramático a linda composição de Riz Ortolani: “Quei giorni insieme a te”, cantada por Ornella Vanoni. A impressionante sequência ganha ares ainda mais épicos e poéticos em revisão, conhecendo o desfecho da trama.

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Versátil" na caixa "Giallo", que conta também com: “Tenebre”, “O Estranho Vício da Sra. Wardh” e “Seis Mulheres Para o Assassino”, além de vários documentários muito interessantes.

A cultura é mais forte que a espada


Quem acompanha meu trabalho há mais tempo sabe que, durante quatro anos, com brevíssimos hiatos em épocas festivas, escrevia dois textos semanais de temática social/política em minha extinta coluna no site da jornalista Anna Ramalho. Eu era constantemente convidado para repercutir esses assuntos em programas de rádio, os textos batiam recordes de acessos e eram muito compartilhados. Quando releio, percebo que abordei praticamente todos os absurdos que ocorreram nesse longo período, sempre tentando apertar o dedo na ferida, provocar a reflexão. E, de uns tempos pra cá, alguns leitores estão me questionando sobre a razão de eu ter decidido me focar mais nos textos sobre cinema, minha área de atuação, deixando um pouco de lado essa verve mais contundente. Acho que hoje, Sete de Setembro, é um ótimo dia para revelar esses motivos. Eu cansei. O desabafo não inspira o ser humano a realizar gestos nobres, ele apenas se reconhece no reflexo do espelho e segue seu caminho.

O único elemento que verdadeiramente tem o potencial para inspirar modificações estruturais no ser humano é a Arte, a literatura, o cinema, a música, o interesse constante em aprimorar sua cultura. A delicadeza e a elegância são mais fortes que a espada do ódio. E, por mais problemas que nossa nação esteja acumulando, a culpa não reside nos ombros do sistema, do governo, do outro. O povo, o conjunto de indivíduos, é o responsável pelo sistema, que apenas reflete atualmente em seu vidro embaçado o completo desinteresse, a preguiça intelectual de adultos psicologicamente infantilizados que, com raras exceções, aceitam desperdiçar suas vidas em profissões que não suportam, perseguindo cegamente rituais sociais desgastados e incansavelmente buscando a aprovação enquanto produto padronizado de uma indústria falida.

A espada de ódio levantada apenas convoca esse povo para uma guerra que já foi perdida. O amor e o genuíno interesse de um adulto que compreende a importância da parentalidade responsável, a nobreza de um jovem que valoriza mais a leitura de um livro, a sorte da criança que é estimulada a colocar sua criatividade em ação, ao invés de se aprisionar nas telinhas dos tablets. Esses indivíduos podem modificar o sistema em longo prazo. Eu não posso dedicar mais tempo alimentando o conformismo daqueles que querem apenas chafurdar na lama da autocomiseração, tolos que ainda discutem política como se vivessem em uma revista em quadrinhos ambientada em um universo sem tons de cinza, com o herói e o vilão desenhados em tintas fortes caricaturais. Peões facilmente manipulados, joguete dos espertos, que defendem com agressividade um sistema podre e, que, obviamente, só pode fazer nascer de seus galhos frutos doentes.

Não temos absolutamente nada a comemorar no dia de hoje, estamos vivendo um período vergonhoso. Não basta ir às ruas fazer carnaval fora de época, gritando palavras de ordem, quando a engrenagem interna não é substituída. A revolução não será televisionada, ela ocorre no silêncio do quarto de um indivíduo que, contra todas as probabilidades e sem estímulo algum do sistema, decide ser alguém melhor. E o único combustível, a inspiração mais eficiente para esse tipo de mudança estrutural reside na cultura, em todas as suas vertentes. Agora precisamos que o ser humano dê o próximo passo em sua evolução.

Sétima Arte em Cenas - "Imagens", de Robert Altman


Imagens (Images – 1972)
Robert Altman, inspirado por “Persona”, de Bergman, criou sua obra mais enigmática, apoiando-se no talento de Susannah York, que vive a esquizofrênica Catherine, uma mulher que revive diariamente as lembranças de suas relações amorosas anteriores, lutando para controlar seu desejo sexual reprimido, enquanto resiste a um matrimônio falido, ainda que ela tente mascarar o desgaste com exibições esporádicas de ciúme. O marido, excelente interpretação de René Auberjonois, personifica o conformismo, sempre com piadinhas tolas e uma preocupação exagerada com o cabelo, simbologia para a importância da imagem, da fachada, em sua vida. 

Marcel, uma das visões dela, um amigo próximo, uma clara projeção de sua carência afetiva, apresentando-se como um tarado que se dedica a boliná-la especialmente na frente do marido. O subconsciente dela se provocando até o ponto em que espera conquistar a coragem para se libertar daquela insuportável zona de conforto existencial. Susannah, filha pequena de Marcel, é inicialmente introduzida como uma espécie de esqueleto no armário de suas memórias, o “eu” infantil de Catherine, salientando como sua criação reprimida forjou muitos de seus problemas adultos. Ao se encontrar com a menina, uma exata cópia dela, num toque sutil de genialidade, o roteiro faz com que as duas mostrem a língua, reforçando a identificação emocional.

A razão de o filme constar nesse especial é um momento que ocorre logo no início da trama, uma cena que dá o tom psicológico da experiência quase alucinógena que está por vir. Altman conseguiu, com um recurso visual simples, adentrar com segurança no universo do horror. A mulher, deitada na cama, está conversando com o marido, que caminha pelo quarto e pelo banheiro. Ela está perturbada por uma ligação, onde uma voz feminina havia insinuado que ele estava com uma amante, revelando inclusive o endereço onde ele estava. E recomendo que memorize o endereço e preste muita atenção no terceiro ato, quando a personagem retorna para sua casa, para constatar a genialidade do roteiro. 

A discussão é conduzida pela câmera em ângulos que sublinham a normalidade da situação, o que potencializa o choque do público quando o truque é realizado. A câmera se aproxima cada vez mais dos rostos, os lábios lentamente se encontram. O olho dela se abre e escutamos um berro arrepiante, a câmera se distancia e enxergamos outro homem sentado na cama. Ela corre para se esconder no banheiro, sendo seguida pelo homem do passado. E, quando seu corpo se revira em desespero no chão, a câmera foca o reflexo no espelho, o marido assustado com a inexplicável reação da esposa. Poucas vezes o cinema transmitiu com tanta inteligência os primeiros estágios da loucura, sem qualquer manipulação emocional, optando pela ausência total de trilha sonora. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Versátil", com uma ótima entrevista com o diretor, abordando os bastidores da filmagem. 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Make 'Em Laugh - "Um Tiro no Escuro", de Blake Edwards


Um Tiro no Escuro (A Shot in The Dark – 1964)
O embrião dessa obra-prima da comédia era um roteiro que Peter Sellers leu e odiou. Ele entregou a trama nas mãos do diretor Blake Edwards, que, auxiliado por William Peter Blatty, autor de “O Exorcista”, solucionou o problema ao substituir o protagonista insosso pelo personagem coadjuvante de “A Pantera Cor-de-Rosa”, Jacques Clouseau, que, até aquele momento, não passava de um esboço interessante trabalhado por Sellers, sem os elementos característicos que viriam a eternizar o atrapalhado inspetor francês. Enquanto o filme anterior era um veículo para o charme de David Niven, nesse, com total liberdade narrativa garantida por um fiapo de história, o diretor teve a chance de explorar ao máximo cada situação, procurando o potencial cômico até mesmo nas cenas menos convencionais. Essa opção injetou um frescor único, potencializado pela postura séria do protagonista, que verdadeiramente acredita ser o mais competente para o serviço, para o desespero de seu superior, interpretado pelo ótimo Herbert Lom.

Ao iniciar com um longo plano-sequência, emoldurado pela trilha de Henry Mancini, estabelecendo o cenário confuso da cena do crime, o roteiro já brinca com o incoerente conceito de culpabilidade conveniente da literatura de mistério, onde, por vezes, nem mesmo o autor parece saber a identidade do assassino até começar a escrever o último capítulo. Assim como o Hercule Poirot, de Agatha Christie, Clouseau faz questão de reunir todos os suspeitos para uma longa exposição de sua perícia, antes de apontar o culpado. O problema é que, diferente do belga orgulhoso, a cópia francesa é incapaz de caminhar dois passos sem pisar nos pés de alguém. Até mesmo a simples teatralidade do cronometrar de relógios se torna um obstáculo, somente superado pela forma desastrada com que o inspetor pratica a arte da sinuca. A beleza da suspeita mais óbvia, vivida por Elke Sommer, é realçada com ares oníricos pela fotografia de Christopher Challis, transmitindo para o público a mesma sensação de fascínio que ela causa no protagonista. Graham Stark, como o assistente do inspetor, rouba a cena em todos os seus momentos, conseguindo transparecer em seu rosto o desprezo que sente pelo colega, potencializando o efeito cômico das tiradas de Sellers. Vale perceber também como Edwards emula Hitchcock, algo que já se mostrava presente no filme anterior, com claras referências ao “Ladrão de Casaca”.

Gosto especialmente da repetição visual, que me remeteu ao estilo de Jacques Tati, com os disfarces excêntricos do herói sendo impiedosamente abortados pela ação policial, por falta de licença para executar os serviços. E, claro, uma das cenas mais hilárias, em sua simplicidade, da história do cinema: a nobreza de Clouseau ao escutar gritos femininos em um salão fechado. Wes Anderson prestou homenagem a essa sequência em seu recente “O Grande Hotel Budapeste”. 

Devo Tudo ao Cinema - S01E06 - Visitando a Dubladora Marisa Leal (1 de 2)

Octavio Caruso e Gui Monteiro visitam a dubladora Marisa Leal, num bate-papo descontraído sobre essa arte.