sábado, 11 de julho de 2015

Cine Bueller - "A Cura"


A Cura (The Cure – 1995)
O filme, dirigido por Peter Horton, é um dos mais tocantes que passaram na "Sessão da Tarde". Na trama, um menino, no amanhecer ensolarado de sua vida, por causa de uma transfusão de sangue, contrai o vírus HIV. Seu vizinho, alguns anos mais velho, é a única pessoa que não o enxerga como um monstro a ser evitado, o único que, mesmo sem compreender a doença, percebe a beleza da rosa sem olhar para os espinhos. É interessante a forma como o roteiro trabalha a antítese de conduta entre as mães dos meninos. A mãe do mais velho, uma mulher fútil, grosseira, deixa-o sempre sozinho, e, sem pestanejar, debocha cruelmente do ex-marido na frente do filho, porém, como todos os hipócritas, faz questão de desligar o videogame dele, afirmando que aquela violência fará mal. O ato equivocado de projetar as falhas pessoais, colocando a culpa no entretenimento, na necessária válvula de escape, algo que ocorre ainda hoje, estimulado por profissionais irresponsáveis que vão a programas sensacionalistas.

A mulher é incapaz de olhar para o filho na mesa de jantar, detalhe que a câmera evidencia, enquanto folheia seu jornal. Ela chega a exigir que o filho invente uma desculpa, caso o vizinho o convide para brincar em sua casa. Uma adulta ignorante, estúpida, com a responsabilidade de educar uma criança madura e emocionalmente inteligente; como é salientado subliminarmente no roteiro, um caso clássico de parentalidade inconsciente. Em contrapartida, a mãe do menino doente, vivida impecavelmente por Annabella Sciorra, é brincalhona e despojada, sempre se jogando no chão para participar das brincadeiras do filho. Gosto especialmente de uma cena, onde o menino mais velho, conversando com o mais novo, afirma que sua avó contou que quem tem AIDS vai para o inferno, evidenciando o fanatismo religioso dela. O raciocínio do menino mais novo é fantástico: “Sua avó deve ser um gênio, porque o meu médico, que é muito inteligente, disse que ninguém sabe o que existe após a morte”. De forma elegante, utilizando como veículo a inocência de uma criança, o filme desfere um golpe poderoso no absurdo dos dogmas religiosos, que, a despeito de tantas descobertas diárias maravilhosas na área da ciência, com o impossível se tornando possível, ainda se preocupa mais com a sexualidade de seus fiéis, algo de importância tão ínfima. E essa ignorância, passada de geração em geração, precisa ser interrompida. Que os humanos honrem o “sapiens” que sucede o “homo”.

É emocionante a forma como o amigo tenta descobrir a cura em medicamentos alternativos, com doces e plantas, colocando o garoto como cobaia de várias experiências gustativas traumatizantes, com reações hilárias. A dedicação se intensifica quando, ao folhear as páginas de um jornal sensacionalista, encontra uma reportagem sobre um pesquisador que descobriu a cura para a AIDS, uma manchete próxima a de um relato de um OVNI. A empolgação dos meninos emociona a mãe, cada vez mais apegada ao amigo do filho. Quando ele menos espera, em um descompromissado passeio no mercado, o garoto se choca ao receber um beijo carinhoso daquela mulher, tão diferente de sua mãe. A forma como ele reage, a constatação muda de um sentimento que nunca havia experimentado em sua casa. A gratidão de uma mãe, feliz por ele querer passar tempo com seu filho, brincando com ele sem nenhum cuidado especial, sem pena. Aos olhos do garoto mais velho, não importava o que a sociedade dizia, o seu melhor amigo nunca foi doente. Ao final, ele confessa para aquela mulher que desejaria ter como mãe, sua frustração por acreditar que deveria ter tentado mais encontrar a cura. A mãe, com o coração partido, abraça o novo filho, afirmando que ele já havia sido o maior presente na vida do menino, que ficava muito feliz em sua companhia, um cometa, de passagem tão breve, porém, cujo impacto modificou profundamente a vida dos dois, para sempre.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

"Atirem no Pianista", de François Truffaut


Atirem no Pianista (Tirez Sur Le Pianiste – 1960)
A recepção da crítica da época foi morna com essa segunda incursão de François Truffaut, o que, analisando o nível alto de qualidade da obra, reflete o tremendo impacto de “Os Incompreendidos”, e, por conseguinte, a expectativa que se formou sobre o passo seguinte de um jovem que prometia uma revolução na linguagem cinematográfica. O que os intelectuais franceses não compreenderam, foi que, ao contrário de Godard, mais interessado em revolucionar a estética, quebrar as estruturas e começar do zero, o enfant terrible não escondia sua paixão devotada ao cinema, com profundo respeito pelos alicerces que o sustentavam.

A opção consciente de filmar uma adaptação de um livro de David Goodis, um autor de romances policiais, trabalhado como uma carinhosa homenagem ao gênero noir americano, uma de suas grandes influências, desagradou aqueles que esperavam uma atitude cínica de desconstrução. Truffaut era um cineasta que não pensava em satisfazer somente o próprio umbigo, ele fazia filmes para quem amava essa arte tanto quanto ele. Coerente com as atitudes de sua contraparte crítica, evitava se escravizar em um molde confortável e subjetivo de anarquia, algo que, por exemplo, Godard sempre abraçou desesperadamente. Antes de tudo, ele amava todas as vertentes do cinema. E, exatamente por isso, suas obras sobreviveram tão bem ao teste do tempo, o que não se pode dizer de grande parte dos seus colegas de Nouvelle Vague.

O que muitos não perceberam na época é que, por baixo da camada narrativa aparentemente convencional, o diretor inseriu grandes tiradas ousadas, sempre pendendo para a comédia. O desejo de desconstrução está lá, porém, não da forma sisuda e fria de um Antonioni, ou um Bresson. Quando, em uma breve cena, o personagem de Charles Aznavour, deitado na cama, cobre com o lençol os seios da linda Michèle Mercier, dizendo que “no cinema é assim”, Truffaut realiza uma crítica muito mais eficiente que filmes inteiros de seus colegas mais mimados pelos intelectuais. Analise atentamente a maneira como ele filma as cenas com os sequestradores, chegando a flertar deliciosamente até com o humor pastelão, tirando toda a tensão que se espera delas, subvertendo totalmente a expectativa do público.

Ele exercita esse jogo desde a primeira sequência, com o personagem que corre pelas ruas, até se chocar com um poste, símbolo do acaso, conduzindo a cena para algo totalmente inesperado. O roteiro corajosamente não entrega o elemento da ação, identidade do romance policial, tampouco o existencialismo típico dos personagens da Nouvelle Vague, requisito que o diretor parecia prever que se tornaria uma zona de conforto, já que ninguém na trama, especialmente o protagonista, parece se levar a sério. Ele pratica o experimentalismo de forma adorável, sem soar chato e arrastado. Conseguimos enxergar o crítico desafiador presente, por trás das câmeras, de mãos dadas com o cinéfilo apaixonado, do início ao impressionante desfecho, que me remete ao lirismo das melhores obras de D.W. Griffith. 




* O filme está sendo lançado em DVD pela excelente distribuidora "Versátil", em parceria com a "Livraria Cultura", na caixa "A Arte de François Truffaut", que conta também com documentários, além de "A Noite Americana" e "De Repente, Num Domingo". 

quarta-feira, 8 de julho de 2015

"O Monstro do Mar" e "Godzilla" (1954)


O Monstro do Mar (The Beast from 20,000 Fathoms – 1953)
Como resultado de um teste nuclear no Ártico, um carnívoro dinossauro desperta e segue em direção à costa Norte-Americana. Testemunha de sua existência, o desacreditado Professor Tom Nesbitt tenta convencer o paleontólogo Thurgood Elson dos perigos que a criatura pode trazer ao país.


Para calcular a importância dessa obra, basta mencionar que foi o primeiro grande trabalho de Ray Harryhausen, o cartão de apresentação pioneiro que demonstrou para o mundo o potencial dele com a técnica stop motion, em uma trama que apresentava o primeiro monstro gigante nascido de explosões nucleares, um conceito que viria a influenciar diversos filmes, especialmente o marco no gênero: “Godzilla”. A imponência visual do monstro era algo que o público nunca tinha presenciado na tela grande, e seus imitadores nunca chegaram a igualar a qualidade de sua composição. O ataque do Rhedossauro em Nova York, no terceiro ato, com a utilização eficiente de maquetes, continua encantando pela devoção artesanal, que sobrepujou o baixo orçamento. O roteiro, baseado em conto de Ray Bradbury, é simples, mas é compensado pela direção segura de Eugène Louiré, que viria a ser diretor de arte do clássico “Luzes da Ribalta”, de Chaplin.


Godzilla (Gojira – 1954)
Um gigantesco réptil mutante surge em virtude de testes nucleares. A monstruosa criatura cria um rastro de destruição no seu caminho até Tóquio, que corre o risco de ser totalmente destruída.


A meu ver, o monstro mais famoso do cinema só funciona em preto e branco. As sombras combinam perfeitamente com a alegoria que o original, dirigido por Ishirô Honda, defendia com seriedade. Uma trama que incita reflexões complexas, profundamente depressivas, sobre o impacto psicológico do desastre nuclear de Hiroshima e Nagasaki no povo japonês, evento que havia ocorrido apenas dez anos antes da produção. Os filmes posteriores são diversão descompromissada infantil, bobagens muito distantes da beleza de cenas como a do coro de crianças entoando um hino à paz, enfrentando com honra a possível destruição. É o momento pungente em que o véu da metáfora cai, revelando as cicatrizes abertas da nação. Vale destacar, no elenco, a presença marcante do grande Takashi Shimura, parceiro frequente de Kurosawa.


* Os filmes estão sendo lançados, em DVD, com ótimos documentários, pela distribuidora “Obras Primas do Cinema”, na caixa “Godzilla – Origens”, que conta ainda com a versão americana, intitulada “Godzilla – King of The Monsters”, com Raymond Burr, o assassino de “Janela Indiscreta”, vivendo um jornalista, inserido numa versão editada do original.  

Razzle Dazzle - "Meu Coração Canta"

Link para os textos do especial:


Meu Coração Canta (With a Song in My Heart – 1952)
Jane Froman, vivida pela sempre competente Susan Hayward, foi uma bela cantora que encantava o público americano. Ela dominava as rádios, aparecia no cinema e, por volta da década de 50, chegou a ter seu próprio programa na televisão. Diferentemente do que ocorre no Brasil, onde qualquer subcelebridade pode ser homenageada em uma cinebiografia, ser uma artista amada nacionalmente não garantia a produção. O que estimulou a realização do filme foi sua nobre atitude após sofrer um terrível acidente de avião, em plena Segunda Guerra Mundial, durante uma turnê para as tropas americanas. Sendo uma das poucas sobreviventes, ela sofreu trinta e nove operações, quase perdeu uma perna, porém, sem um pingo de autocomiseração, continuou a se apresentar em seus shows, muitas das vezes, tendo que ser sustentada no palco.

É linda a cena em que, apoiada em muletas, a jovem canta e emociona um jovem soldado, um dos primeiros trabalhos de Robert Wagner, traumatizado pelas experiências vividas nos campos de batalha. O mesmo que, tempos antes, havia sido apresentado como o símbolo da ingenuidade sorridente de uma juventude que comprava a propaganda romanceada da guerra. A boa atuação de Wagner transparece nos olhos toda a frustração e o desejo de voltar para casa, consciente de haver perdido grande parte de sua própria essência naquele jogo sujo. Vale destacar que Hayward emula perfeitamente o gestual da cantora, que é responsável pela voz na trilha sonora. Outro ponto alto na trama é a presença sempre espirituosa de Thelma Ritter, em um de seus melhores momentos, como a enfermeira que ajuda Froman em sua recuperação, uma personagem criada no roteiro de Lamar Trotti.

O roteiro pende, obviamente, para o patriotismo exacerbado, como a sequência final evidencia, mas, graças à direção elegante de Walter Lang, o que se mantém vivo na memória após a sessão é a força psicológica da protagonista, sua integridade. E, claro, a beleza das canções, uma seleção fantástica que inclui, além da maravilhosa canção-título, composta por Richard Rodgers e Lorenz Hart, clássicos como “Blue Moon”, “Get Happy”, “Embraceable You” e “That Old Feeling”. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Cine Bueller - "A Princesa do Nilo"

Link para os textos do especial nostálgico sobre os filmes da "Sessão da Tarde" e "Cinema em Casa":


A Princesa do Nilo (Princess of The Nile – 1954)
É muito nostálgico rever filmes clássicos com essa temática, grande parte deles era exibido frequentemente na “Sessão da Tarde”. Aventuras curtinhas, o mocinho e o bandido bem definidos, com muitos duelos de espadas, mulheres lindas e dança do ventre. Somente os dois últimos elementos já garantiam a audiência na minha televisão quatorze polegadas, ainda mais quando eram protagonizados por Debra Paget. Claro que na época eu não a identificava pelo nome. Nunca me esqueço do impacto de sua dança no filme “O Sepulcro Indiano”, porém, ainda que mais comportada, prefiro sua desenvoltura corporal em “A Princesa do Nilo”, onde ela consegue ser sensual até mesmo enfrentando um agressor com sua espada.

Jeffrey Hunter, que na época eu só identificava como o Jesus de “Rei dos Reis”, foi alvo de minha inveja por semanas. E ele tinha sorte mesmo, já que a opção inicial do estúdio para o papel da princesa egípcia Shalimar era Marilyn Monroe, ele não tinha como sair perdendo. Esse contrato ele assinou sorrindo, não tenho dúvida. O tom da trama é tão ingênuo que nenhum personagem consegue reconhecer que a princesa e a dançarina são a mesma pessoa, apenas por causa de um véu transparente no rosto. Eu tenho uma teoria válida: quando ela está disfarçada como dançarina, ninguém consegue tirar os olhos de suas pernas. Analisando hoje, percebo como a jovem era uma atriz limitada, o que acaba contrastando um pouco com a abordagem séria do protagonista. A famosa cena de dança, mesmo com os cortes que sofreu da censura da época, continua, por sorte, provocante demais para os padrões do início da década de cinquenta.

A direção de Harmon Jones, que depois trabalharia em projetos televisivos, colabora com o cenário exótico, sempre um tom acima, entregando um clima farsesco, corroborado pela utilização deliciosamente equivocada de matte paintings pouco convincentes, aqueles cenários de fundo pintados, em diversas cenas que acabam parecendo teatro infantil de escola; longe de ser um defeito, o recurso acaba sendo um charme a mais nessa diversão despretensiosa. Ou talvez eu esteja defendendo o filme apenas pela presença estonteante da Debra Paget. Marcou minha cinefilia vespertina na infância. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Studio Classic Filmes".