quarta-feira, 10 de junho de 2015

Sétima Arte em Cenas - "O Invencível", de Satyajit Ray

Link para o texto sobre o filme anterior na Trilogia de Apu:
Link para os textos anteriores no especial:


O Invencível (Aparajito – 1956)
O Satyajit Ray de “O Invencível” é um cineasta mais seguro, utilizando a câmera de forma mais consciente no intuito de contar sua história, manipulando a emoção absorvendo um senso de ritmo e certas soluções visuais mais convencionais, visando uma compreensão universal, elemento análogo à trama do filme, ainda que o roteiro seja, essencialmente, representativo de sua cultura, com generoso espaço para a espiritualidade do povo indiano, na utilização do misticismo inerente às cenas em torno do sagrado rio Ganges. É o meu favorito da trilogia.

No início, encontramos a família de Apu inserida em um ambiente totalmente diferente da pequena vila da obra anterior. A mãe, perceptivelmente deslocada naquela realidade mais ambiciosa da cidade grande, projeta seus medos no filho, tentando fazer com que ele se mantenha um peixe pequeno em um aquário pequeno, objetivando seguir a tradição, o comodismo, inspirando ele a seguir uma vida de sacerdote. O garoto não é um peixe pequeno, ele deseja ser cidadão do mundo, aquele aquário é pequeno demais para seus sonhos. Ele quer frequentar a escola ocidental, mostrando seu deslumbramento com cada nova descoberta, o fascínio por trás de um eclipse solar, os fenômenos que são explicados sem misticismo pelos professores. O progresso consequencial dos estudos confrontando a mesmice limitante das tradições. A morte do pai parece ser o gatilho que motiva a decisão do garoto. É linda a maneira como a cena é trabalhada, com o pai moribundo pedindo um gole da água do rio sagrado. Ao beber a água trazida por seu filho, um corte rápido, pombos voando pelo céu; o homem finalmente está livre. Ray então nos conduz pela mão até o emocionante terceiro ato, quando o jovem enfrenta outra perda, o último laço que o unia ao seu passado, a mãe. E essa linda cena é a razão da inclusão da obra nesse especial.

A câmera desce ao encontro do rosto expressivo da mãe, que, de olhos fechados, descansa apoiada em uma árvore. Ela sofre com saudade do filho. Escutamos então o som de um trem se aproximando. A mulher não tem reação alguma, pois sabe que continuará sozinha. É apenas mais um trem que, por alguns minutos, perturba o silêncio do local, seguindo seu caminho em direção a uma modernidade que ela rejeita. Ela se levanta com dificuldade, o corpo não responde. A trilha sonora opressiva, como o eco de um passado que se esvai no fundo do abismo de sua existência. Em sua alucinação, a mulher escuta o filho chamando por ela, o que faz nascer um sorriso em seu rosto. Ela vai, com dificuldade, na direção do chamado, descobrindo uma grande quantidade de vagalumes que voam, como que numa dança, um rito fúnebre, sobre o lago. 

terça-feira, 9 de junho de 2015

Devo Tudo ao Cinema - S01E04 - Celebração dos 40 anos de profissão de Ricardo Schnetzer

Amigos leitores, queridas leitoras, no programa, celebramos os 40 anos de profissão do ator/diretor/dublador Ricardo Schnetzer, num bate papo descontraído com o responsável pelas vozes brasileiras de astros como Tom Cruise, Al Pacino e Richard Gere.


segunda-feira, 8 de junho de 2015

"Mad Max: Estrada da Fúria", de George Miller


Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road - 2015)
Esse é o projeto mais empolgante sobre o nada, porém, é bobeira reclamar disso, até porque o original também tinha uma narrativa simplória. Acho mais correto exaltar a competência do roteirista e diretor George Miller, retornando ao universo que criou, por ter conseguido, com um fiapo de trama, prender a atenção com plena segurança por duas horas, entregando para o público o melhor filme de ação do ano. 

O toque mais interessante foi transformar o Max de Tom Hardy em um coadjuvante de luxo, inteligentemente subvertendo, em tom claro de crítica, as funções usuais dos personagens em uma obra do gênero. Ao quebrar as expectativas do público, reservando para o herói todos os clichês narrativos que são normalmente relegados às mulheres, que podem ser resumidos na cena em que o ombro de Max serve de apoio para a mira da protagonista, vivida por Charlize Theron, Miller evidencia o desleixo da indústria na criação de heroínas fortes. 

As sequências longas de ação entorpecem os sentidos, não dão trégua, é uma aula de eficiência, sem o artifício comum de confundir o público, como forma de mascarar a pouca habilidade daquele que está no comando. A câmera aqui age como se estivesse filmando as danças de Fred Astaire, ela apenas capta o desenvolvimento natural dos conflitos, deixando para a montagem o trabalho de impor o ritmo e o tom. Nos aspectos técnicos, o filme é impecável. A fotografia de John Seale, coerente à ousadia narrativa já citada, uma atitude que respeita o cinema de guerrilha que foi o clássico australiano, rejeita a paleta visual óbvia de poucas cores, moldura de dez entre dez filmes ambientados em cenários pós-apocalípticos. 

Ao final, o que se mantém na mente de quem assiste é a postura desafiadora, soco no estômago, típica de filme B, um charme raro dentre tantas obras formulaicas do gênero que a indústria despeja anualmente. Não reinventa a roda, e nem precisaria, mas, sem dúvida, o septuagenário diretor deixou muito cineasta garotão, esses que são fabricados pelo hype de Hollywood, com inveja.

"Promessas de Guerra", de Russell Crowe


Promessas de Guerra (The Water Diviner - 2014)
Quem conhece meu estilo nas críticas de estreias sabe que não sou um contador de sinopse, linhas que o interessado pode encontrar em qualquer veículo, não me sinto estimulado a prejudicar a experiência do leitor, ou subestimar sua inteligência, porém, faço questão de ressaltar que, para um melhor aproveitamento da trama desse filme, especialmente o primeiro ato, vale estudar sobre a Campanha de Galípoli, que, aliás, já rendeu um ótimo filme na década de oitenta, dirigido por Peter Weir. 

Não são todos os bons atores que conseguem surpreender na direção, Russell Crowe não é Charles Laughton, nem mesmo Mel Gibson, ainda que suas intenções sejam claramente honestas, falta ao neozelandês, trocando em miúdos, o necessário desapego estético em favor de um foco mais dedicado ao desenvolvimento dos personagens, um interesse menor em forçar a mão de verniz nas cenas, artifício que exala apenas a insegurança do cineasta em seu próprio ofício. Um exemplo: o primeiro momento em que Connor (Crowe) conversa com Ayshe (Kurylenko), no quarto da pensão dela. Sem necessidade alguma, a utilização da câmera transforma uma cena intimista, onde o diálogo deveria ser o elemento mais importante, em um pretensioso balé de equívocos, alternando reflexos no espelho que culminam em problemas amadores de continuidade, além de uma risível constatação da canastrice da atriz, que parece ser incapaz de transmitir o subtexto de maneira minimamente sutil. Quando ocorre a convencional subtrama romântica, que flui de forma irritantemente canhestra, a beleza que havia no conflito existencial do pai em busca dos filhos perdidos, leitmotiv épico por si só, que incita uma válida discussão sobre a importância do indivíduo em uma guerra, acaba dando lugar a uma improvável relação amorosa de folhetim que dilui o pouco interesse que havia sido estabelecido nos primeiros vinte minutos da obra. 

Outro artifício que soa ingênuo, culpa do roteiro de Andrew Knight e Andrew Anastasios, e acaba prejudicando a imersão, uma repetição de um flashback que o protagonista não vivenciou, em suma, uma solução apelativa de melodrama que abusa da suspensão de descrença do espectador. E nas poucas vezes em que a emoção parece brotar de forma natural, a direção descarta, de forma consciente, favorecendo novamente o verniz, alicerçado em um relato histórico de fidelidade bastante questionável. A atuação do próprio Crowe é o ponto alto, visivelmente motivado a contar essa história, mas não é o suficiente. 

Guilty Pleasures - "Ace Ventura 2: Um Maluco na África"

Link para os textos do especial:


Ace Ventura 2 – Um Maluco na África (Ace Ventura: When Nature Calls – 1995)
Considerando o apreço pelo primeiro filme, que acabou ganhando um status de cult, a corajosa constatação de um guilty pleasure, como medir nessa escala de vergonha o apreço ainda maior pela sequência inferior, que mantém o status de desprezível? Eu tenho o filme na minha coleção, e, como se isso não bastasse, em Blu-ray!

O péssimo diretor Steve Oedekerk, de “Kung-Pow: O Mestre da Kung-Fu-São”, que faz Tom Shadyac parecer Orson Welles, em comparação, salvo pela incrível capacidade que Jim Carrey tem de transformar até a cena mais tola, sem nexo e mal escrita, em algo genuinamente engraçado. O roteiro é infantil, perto de algumas ousadias do original, como o vilão travesti vivido pela linda Sean Young. O tom, desde os primeiros minutos, é mais leve, com piadas que satirizavam outros filmes, um recurso preguiçoso que domina o primeiro ato. Quando o herói defensor dos animais chega à África, a brincadeira com o gênero policial dá lugar a uma brincadeira, ainda mais divertida, com o gênero de aventura. E sobra espaço até para uma piada interna com morcegos, antecipando a participação de Carrey, no mesmo ano, como o vilão de “Batman Eternamente”.

O primeiro tem cenas hilárias e algumas bastante ofensivas, porém, com certeza, todas as melhores referências que eu tenho do personagem, ao puxar pela memória, estão no segundo. Eu acho brilhante a cena em que Ventura ensina o outro lado da moeda ao arrogante marido de uma orgulhosa adoradora dos casacos de pele. É tão absurda, e, ao mesmo tempo, intensamente crítica, que me faz lembrar o material do grupo Monty Python. Gosto demais também da cena onde o herói atrapalhado vive a experiência de ser um bebê rinoceronte, para o espanto dos espectadores próximos. E como esquecer o ritual de sedução da jovem da tribo, impressionada com a perícia do exótico personagem ao assoprar bolinhas de papel num pobre coitado que se equilibra em um toco? As referências vão se multiplicando, enquanto a memória vai resgatando esses momentos. Em suma, o projeto é extremamente eficiente naquilo que se propõe.

E, para finalizar essa revelação, compartilho com você, caro leitor, querida leitora, um dos momentos mais bacanas que vivi como profissional da área. Em uma coletiva para imprensa, do fraco filme “Os Pinguins do Papai”, tive a oportunidade de registrar o meu encontro com o ator, extremamente simpático e atencioso. Eu poderia ter conversado brevemente com ele sobre seus projetos mais audaciosos, complexos, como “O Show de Truman”, “O Mundo de Andy” ou “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. Adivinhe sobre qual filme comentei com ele, segundos depois dessa foto?