quinta-feira, 16 de abril de 2015

Make 'Em Laugh - "O Engraxate"


O Engraxate (El Bolero de Raquel – 1957)
Nos moldes de seu admirador mais famoso, Charles Chaplin, Mario Moreno conseguia equilibrar muito bem a gargalhada com a ternura, como ocorre nesse, que é um de seus melhores filmes. Ainda que, algo usual em sua filmografia, muitas piadas se percam na tradução, como a brincadeira no título, envolvendo a obra de Maurice Ravel e a atividade do protagonista, um trambiqueiro bolero (engraxate) que se apaixona por uma professora, vivida por Manola Saavedra, é impossível não se encantar com os improvisos do ator. Quando Cantinflas solta sua metralhadora verborrágica nonsense, seu famoso “cantinflear”, você precisa direcionar a atenção para o interlocutor, que se esforça para não estragar a filmagem sorrindo fora de hora.

Em seu primeiro trabalho em cores, logo após conquistar fama internacional, e o prestígio da crítica, com o premiado “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, o mexicano demonstra estar no auge de sua inspiração, especialmente na hilária primeira hora, onde testemunhamos uma edificante aula de História que ele fornece a um estrangeiro, além de exibir, em estado de total sobriedade, toda a discrição e elegância que deveria ser o padrão nas cerimônias de funeral. Ele mostra que, o que verdadeiramente importa, é consolar a bela viúva e oferecer um ombro amigo para todas as mulheres presentes no ritual. E, claro, sendo um homem tão digno, ele ficou com a responsabilidade de cuidar do filho pequeno do compadre falecido, um operário de obra que, como bem explicado por Cantinflas, foi para o céu, após quicar do asfalto, tendo caído do décimo sétimo andar da construção onde trabalhava.

A cena mais famosa, sua desenvoltura como dançarino, é muito simpática, porém, o momento que se mantém em minha mente é o silencioso choque de realidade do personagem, após a triste despedida da criança, agarrado à bola colorida, símbolo de gratidão pela companhia do menino, que tanto lutou para conseguir pagar. Cantinflas é levado pela emoção, transmitida em seus olhos, uma cena que nos remete ao pagamento do tratamento da florista cega de Chaplin, em “Luzes da Cidade”. Assim como o vagabundo inglês, o peladito (pé rapado) mexicano aprende que a gentileza é um ato nobre que não pede recompensa, não necessita de reconhecimento, bastando apenas o sentimento de felicidade que sucede a lágrima, a constatação da genuína intenção carinhosa de quem a oferece. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Studio Classic".

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Nos Embalos do Rei do Rock - "O Prisioneiro do Rock"

Entrevista exclusiva com Ginger Alden, a última namorada de Elvis / Introdução:
Ama-me com Ternura:
A Mulher Que eu Amo:


O único filme protagonizado por Elvis a ser selecionado para preservação no Registro Nacional de Filmes (United States National Film Registry), por sua importância na cultura americana. O símbolo eterno de sua atitude rebelde, que causou impacto já em sua estreia, com relatos de brigas de gangues em suas sessões, uma juventude que começava a despertar, de forma compreensivelmente desajeitada, para a necessidade de evitar a simples cópia visual do molde paterno.


O Prisioneiro do Rock (Jailhouse Rock – 1957)
Enviado para a prisão após matar um homem acidentalmente, Vince Everett (Presley), resolve cantar atrás das grades. Um golpe de sorte o coloca, frente a frente, com uma bela caçadora de talentos (Tyler) de uma gravadora, e o rapaz tem a oportunidade da sair da cadeia e se tornar um astro do rock.


Dentre os vários contratos de cinema que o rapaz assinou sem ler, esse, seu primeiro projeto para a MGM, foi um dos maiores acertos do Coronel Parker. Após uma obra leve, simpática e de cores vibrantes, nada melhor que inserir o roqueiro em uma situação mais barra pesada, com um roteiro esperto escrito por um profissional premiado, Nedrick Young, que seria responsável, alguns anos depois, pelo excelente “O Vento Será Tua Herança”. Dá pra imaginar a felicidade do garoto, fanático por cinema, ao saber que iria utilizar o mesmo camarim de Clark Gable e, pela primeira vez, ser dirigido por um veterano respeitado na indústria, Richard Thorpe, de “Ivanhoé - O Vingador do Rei”. Era óbvio que o garoto agora estava sendo tratado com extremo respeito pelos produtores, tendo provado ser mais que apenas um ídolo momentâneo da garotada. Sem a necessidade mercadológica de sustentar seu nome no pôster com outros artistas mais experientes, pela primeira vez, Elvis segurava sozinho a bronca, com total confiança dos executivos.

Na pré-produção, o jovem se encontrou com Alex Romero, o coreógrafo que assistiu várias de suas apresentações, para inserir aqueles movimentos na grande cena, a apresentação da canção-título, composta por Jerry Leiber e Mike Stoller. A ideia inicial era seguir um estilo mais convencional de passos, mas, em pouco tempo, perceberam que seria um desperdício não aproveitar o estilo original do cantor. A sequência entrou para a história da cultura pop, considerada, por muitos, o primeiro videoclipe musical. Romero voltaria a trabalhar como coreógrafo com Elvis no filme “O Barco do Amor” (Clambake, de 1967). Judy Tyler, a bela morena que encanta o protagonista ao acreditar em seu potencial, e que chegou a namorar o cantor nas filmagens, faleceria alguns dias após o término da produção, decapitada em um terrível acidente de automóvel com o marido bailarino Gregory LaFayette. Elvis ficou inconsolável, recusando-se a sequer assistir o filme novamente pelo resto da vida.

A trilha sonora é empolgante, além da excelente canção-título, com temas como “(You’re so Square) Baby I Don’t Care”, “Don’t Leave Me Now” e “Treat Me Nice”, que, não somente funcionam na trama, como poderiam constar em qualquer lista de melhores canções gravadas pelo artista. Abner Silver e Aaron Schroeder contribuíram com a linda balada “Young and Beautiful”, que emoldura o emocionante desfecho. Sem a necessidade de ser simpático, defendendo o seu primeiro personagem verdadeiramente cínico, um bad boy, simbolizado na clássica cena em que, após roubar o beijo de uma gatinha, ele afirma: “Não são táticas, querida, é apenas a fera em mim”, Elvis teve a chance rara de exercitar sua atuação, que seria lapidada ainda mais no próximo trabalho.

A Seguir: “Balada Sangrenta” (King Creole)

Tesouros da Sétima Arte - "Cinco Dedos"

Link para os textos do especial:


Cinco Dedos (Five Fingers – 1952)
Quando se fala no diretor Joseph Mankiewicz, o cinéfilo pensa logo em “A Malvada”, porém, existem duas obras-primas dele que poucos lembram: “Quem é o Infiel?” e “Cinco Dedos”. O título pode parecer esquisito, mas, baseado em uma história real, a trama de espionagem ambientada na Segunda Guerra Mundial é uma desculpa para um exercício de criação de suspense, com o auxílio de uma ótima trilha sonora de Bernard Herrmann, que emoldura momentos de pura tensão. Com certeza, um trabalho que chamou a atenção de Hitchcock para a possibilidade de uma futura parceria, que seria iniciada três anos depois, com “O Terceiro Tiro”.

James Mason vive o empregado da embaixada britânica que sonha com um futuro de riqueza e glória no Rio de Janeiro, capaz de vender documentos para os nazistas, para realizar seu objetivo. Tentando impressionar uma bela condessa, vivida por Danielle Darrieux, um personagem criado no roteiro hollywoodiano, o homem não percebe que a mulher possui ainda menos caráter que ele, o que conduz para um desfecho sensacional, que, obviamente, não irei revelar no texto. Saliento também uma cena que ocorre no segundo ato, quando o protagonista desliga a eletricidade da mansão, para poder abrir o cofre e tirar fotos dos documentos. É impressionante o nível de tensão que a montagem estabelece, alternando as ações do homem, correndo contra o tempo, sem saber que, do lado de fora, a faxineira procurava formas de ligar novamente a eletricidade, para poder limpar o chão. Uma verdadeira aula. Diello (Mason) é um vilão, porém, graças ao seu carisma, acabamos torcendo por ele.

Uma obra-prima que merece ser redescoberta por todos aqueles que amam a Sétima Arte.

* O filme acaba de ser lançado em DVD pela distribuidora "Classicline". 

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Devo Tudo ao Cinema - S01E03 - A Nostalgia nas Locadoras de Vídeo

Amigos leitores, queridas leitoras, nesse programa, Gui Monteiro e eu, num papo descontraído sobre a época de ouro das locadoras de vídeo, gravado na locadora da minha infância. Grato, desde já, pela gentil atenção. 


sábado, 11 de abril de 2015

"Assim Falou o Amor", de John Cassavetes


Assim Falou o Amor (Minnie and Moskowitz – 1971)
“Eu penso tanto em você, que até me esqueço de ir ao banheiro”.

A simplicidade dessa frase, uma síntese perfeita do romantismo naturalista do personagem vivido por Seymour Cassel: Seymour Moskowitz, um homem inculto que se mostra incapaz de se comunicar com o sexo oposto. Ele, longe de ser um galã, com seu jeito desajeitado e descortês, o representante do mundo real que existe por trás das ilusões criadas pelo mundo do cinema, a enganação de que existe amor verdadeiro, algo alimentado desde as primeiras sessões, ainda na infância, como citado pela personagem vivida por Gena Rowlands: Minnie Moore. Uma mulher culta e bela, que foge do contato visual, sempre se escondendo atrás das lentes escuras de seus óculos de sol, buscando encontrar alguém como o Rick Blaine de “Casablanca”, um de seus filmes favoritos. Ele, por outro lado, prefere se identificar com o Sam Spade de “O Falcão Maltês”. A adoração por Humphrey Bogart parece ser o único elemento em comum entre os dois.

A direção de John Cassavetes explora, em várias cenas, com seu senso de humor peculiar, a falha na comunicação, evidenciada nas atitudes violentas de seu personagem, um amante emocionalmente desequilibrado. A sua maneira libertária de conduzir seus colegas atores, possibilitando que eles exercitem o improviso, aliado ao fato de colocar seus familiares nos projetos, acaba se traduzindo, em todos os seus filmes, em um clima de vivaz camaradagem. Sua mãe, Katherine Cassavetes, interpreta a hilária mãe de Seymour, responsável por uma das cenas mais divertidas, quando ela elenca todos os motivos que deveriam fazer a namorada dele pensar duas vezes antes de seguir em frente com a relação. A personagem dela praticamente quebra a quarta parede, corroborando a visão do público, salientando o quão absurda é a união daquelas duas pessoas completamente diferentes, algo que foge de qualquer explicação racional. A opção deles por uma rotina convencional de encontros românticos: sorveteria, dançar, passeios noturnos e conversas existenciais, por mais que tentem com genuína boa vontade, acabam sempre em desastre. Eles descobrem que o ato de se apaixonar nasce exatamente nos constrangedores silêncios que antecedem qualquer tentativa de consumar uma atitude clichê, o sorriso espontâneo que brota após uma canção, numa tentativa desafinada de sedução.

Em sua crítica ao gênero, Cassavetes se utiliza de todos os recursos clássicos, até mesmo o pastelão, na ótima cena de briga noturna em que, por engano, Minnie é nocauteada por Seymour. É interessante a forma como a obra retorna, em seu irônico desfecho, ao conceito de ilusão apontado pela protagonista no início, entregando um casamento após apenas quatro dias de relacionamento, o clássico happy ending hollywoodiano,  encantador como os das melhores screwball comedies, porém altamente inverossímil.


* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Versátil", na caixa "A Arte de John Cassavetes", contendo ainda: "A Canção da Esperança", "Amantes" e o documentário "Cassavetes: O homem e a sua obra".