quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A Desigualdade nas Salas de Cinema

É válido reclamar da voracidade com que os blockbusters americanos invadem nossas salas de cinema, mas é preciso tomar cuidado para que o discurso não descambe para um conceito de patriotismo tolo. Como exemplo, o recente novo produto da franquia "Jogos Vorazes", estreou no Brasil em 1.340 salas, mais de 40%, um número expressivo. É praticamente uma imposição. Aquele cinéfilo menos dedicado, que deixa pra decidir a sessão na fila, dificilmente escolherá outro filme.

A indústria americana conquistou essa predominância ao longo de décadas plenamente dedicadas na construção e, mais importante, na manutenção da Sétima Arte. Nós preferimos historicamente nos dedicar às novelas, nosso produto de exportação. Eles valorizam o passado, investem no presente e garantem o futuro de sua indústria, com cineastas e produtoras demonstrando preocupação na restauração dos clássicos, na preservação de suas obras. Nós ignoramos o passado, não levamos a sério o presente e pouco nos importamos com o futuro, deixando apodrecer os filmes antigos, em cópias péssimas, com som inaudível e imagem destruída.

Com raras exceções, como o importante lançamento das obras de Glauber Rocha, pela excelente distribuidora Versátil, ou o esforço da Cinemagia, anos atrás, lançando com pompa a obra de José Mojica Marins, aquele que preza a História do cinema nacional fica à mercê de lançamentos obscuros e de péssima qualidade. Os filmes de Mazzaropi, por exemplo, são vendidos em cópias horrorosas. Os clássicos da Vera Cruz, os poucos lançados no mercado, chega a dar pena de tentar assistir. Lá fora, até mesmo os cineastas menos conhecidos, recebem tratamento de primeira qualidade, até com documentários produzidos especialmente para os DVD/Blu-rays. Enquanto não valorizarmos verdadeiramente o nosso cinema, continuarei achando que se resume a despeito essa tentativa de demonizar a presença do cinema americano em nossas salas. Eles fazem por merecer a atenção do mundo nessa área. Nós precisamos, antes de qualquer coisa, arrumar nossa própria casa, para depois querer exigir igualdade.

Querem outro exemplo? Tive a oportunidade recente de entrevistar as filhas de dois dos maiores nomes do cinema mundial: François Truffaut e William Wyler. Nem preciso explicar as razões que os fazem grandes. Entrei em contato com elas e, com extrema gentileza, deram toda a atenção possível para esse escriba, respondendo todas as questões com carinho, exalando profundo respeito pelo trabalho de seus pais. Tentei também o contato com filhos de cineastas brasileiros, cujos nomes obviamente eu não revelarei, mas querem saber como foi? "Eu gostaria de entrevistar você sobre o legado de seu pai, está interessado (a)?" Após muito tempo, chegava uma resposta fria: "Ok". Desisti das entrevistas, voltando minha atenção para os estrangeiros. É broxante. Você percebe que os próprios filhos não se importam em preservar o legado dos pais. Isso é sintomático de tudo o que escrevi nos primeiros parágrafos.

Os cineastas americanos, como George Lucas, Coppola, Scorsese e Spielberg, foram responsáveis por salvar carreiras de diretores de outras nacionalidades, como Akira Kurosawa, quando ele não conseguia financiar seus filmes. Os cineastas nacionais, salvo raras exceções, sequer ajudam seus próprios colegas. Excesso de picuinha e chorumela, carência de generosidade e ousadia. É como aquela velha discussão sobre a presença dos "enlatados" americanos na televisão brasileira. Analise os "novos" programas que as emissoras divulgam a cada semana. A triste realidade é que tiraram o espaço das séries e filmes americanos, mas o que existe hoje são programas brasileiros com formatos criados pelos americanos. Será que nossos produtores não conseguem ter criatividade para elaborar ideias originais? Como podemos reclamar da presença dos americanos na televisão, quando os nossos campeões de audiência são formatos comprados deles? Não temos essa moral.

Eu sonho com um futuro em que as salas de cinema brasileiras deem o mesmo espaço para filmes nacionais e estrangeiros, mas não ficaria feliz de ver uma comédia medíocre nossa tomando o lugar de um "Jogos Vorazes". Não é questão de patriotismo. Temos que desejar que o espaço seja conquistado por mérito. Isso apenas ocorrerá em longo prazo, envolvendo muito mais do que a burocracia de espaço nas salas. A atitude do brasileiro, partindo dos cinéfilos, passando pelos cineastas, até os executivos da área, no que tange sua própria memória cultural, deve se modificar radicalmente.

O Cinema Nacional Precisa se Libertar de Glauber Rocha


O mais recente filme do diretor Christopher Nolan, "Interestelar", possui muitos problemas estruturais, mas é louvável a ambição do roteiro em arriscar discussões profundas no cinemão mainstream americano, atualmente tão escravo das fórmulas, reutilizadas com pouca coragem. Você sai da sessão com vontade de reunir um grupo de amigos e sair falando sobre os conceitos de física quântica, matéria que muitos desprezaram na escola porque o professor não a fazia parecer interessante como conseguiu o cineasta. É uma obra que esbanja verba, mas a indústria já provou que é possível tratar de temas fantásticos, uma ficção científica de qualidade, com baixo orçamento. O que vale é a criatividade, a ideia é mais poderosa que a computação gráfica. Você pode insinuar que existe um monstro no nevoeiro, sem nunca mostrar ele, causando no espectador um medo maior do que se exibisse o monstro em gloriosa computação gráfica. Aquilo que reside nas sombras é tremendamente mais apavorante do que aquilo que conseguimos enxergar.

O gênero da fantasia é perfeito até para a evolução da própria linguagem cinematográfica, já que seus diretores precisam criar novas formas de equiparar a forma à liberdade criativa do conteúdo. Um bom exemplo é o de um adolescente Sam Raimi, na época um sonhador desconhecido e sem dinheiro, criando o que hoje é chamado de "Raimi Vision", a câmera presa em uma prancha de madeira, possibilitando em "A Morte do Demônio" aquelas sequências onde vemos, em POV (ponto de vista), a aproximação rápida do mal que ameaça os personagens. Ele foi obrigado, pela falta de recursos, a forçar sua imaginação na tentativa de transportar sua ideia para a difícil realidade do set de filmagem.

Temos poucos cineastas brasileiros que apostam no cinema fantástico, como Rodrigo Aragão, mas que não são devidamente abraçados por uma indústria preguiçosa que vive de ciclos. José Padilha, já celebrado após o sucesso de "Tropa de Elite", foi fazer cinema fantástico lá fora, com sua ótima refilmagem de "Robocop". Será que ele teria espaço/incentivo para realizar algo no gênero em sua própria nação? Caso analisemos apenas os anos recentes, vivemos a época da exploração da criminalidade nas favelas, seguido pelas comédias pensadas especificamente para um público menos criterioso, até os filmes de temática espírita, que, dependendo do ponto de vista, pode ser considerado uma espécie de ficção científica, chegando agora às cinebiografias. Sem o necessário incentivo aos jovens cineastas dispostos a se aventurar no cinema de fantasia, estamos fadados a um panorama de progressiva estagnação criativa.

Vivemos uma cultura complexada que parece se envergonhar do conceito de heroísmo, uma atitude de constante cinismo, que na realidade esconde um medo profundo de se arriscar em áreas já dominadas por artistas estrangeiros de competência comprovada. Um desprezo irracional pelo cinema de gênero, como se a liberdade autoral não pudesse inteligentemente coexistir com as necessidades mercadológicas da indústria. E, analisando de forma séria, podemos traçar uma possível origem desse desprezo nas ideias de Glauber Rocha, um cineasta que, assim como todos, moldou sua obra com referências estrangeiras, especificamente o cinema neorrealista italiano e a nouvelle vague francesa. O cinema nacional precisa urgentemente se libertar desse conceito medroso e limitante, abraçando com carinho aqueles cineastas que estão dispostos a fugir da zona de conforto. 

Star Wars e Eu


Eu consigo me lembrar da reação que tive ao assistir pela primeira vez "O Retorno de Jedi", aos sete anos, num VHS gravado de uma exibição na televisão. Não sabia nada sobre o filme. Foi uma reação de estranheza, já que parecia um show dos Muppets, com aquele adulto vestido de cachorro, mas o tom era sombrio demais. Eu tinha pesadelos com a imagem do Imperador, muito mais amedrontador que Darth Vader, que eu achava parecido com o vilão do Jaspion. Meu pai foi o responsável pela minha irreversível iniciação nos caminhos da Força, comprando, no distante ano de 1995, o box em VHS da trilogia, ainda intocada pelo seu criador. Somente aos dez anos é que fui assistir pela primeira vez o original e sua celebrada sequência, entendendo então a complexidade da saga de George Lucas. Eu via inúmeras vezes umas curtas entrevistas com ele, conduzidas pelo crítico americano Leonard Maltin, que iniciavam cada fita, pensando que eu adoraria ter aquela profissão, estar envolvido naquele mundo mágico de sonhos. Naquele ano eu me tornei um fã da saga, mas eu lembro que não tinha tanta coisa no mercado sobre os filmes, como bonecos, revistas em quadrinhos e álbuns de figurinhas. E eu já achava que estava bom demais, pois com minha imaginação, os bonecos dos "Comandos em Ação" se tornavam os heróis da Aliança Rebelde. 

Imaginem minha angústia quando, no final do mesmo ano, passeando em uma livraria com minha mãe, encontrei um exemplar de "Guerra nas Estrelas - A Última Ordem", de Timothy Zahn, uma bíblia pesada com uma bela capa, os desenhos de Han Solo, Leia, Luke Skywalker e uma personagem que eu não conhecia. Eu não acreditei quando vi aquilo, o mercado naquela época não era tão generoso para os nerds. Lendo a contracapa, descobri que se tratava de uma trilogia, eu estava fadado a seguir em meu carma de iniciar pelo capítulo final. O livro era caro, tive que implorar pra minha mãe comprar, mas valeu o esforço. Numa época sem internet, tive que caçar informações sobre aquele produto. Cheguei a pensar que se tratava de uma novelização de algum novo filme que estavam produzindo. Meses depois de finalizar a leitura, descobri que era praticamente impossível encontrar os outros dois volumes, acabei desistindo. Após um ano e meio sem novidades sobre a saga, achei que nada iria me surpreender.

Em 1997, com doze anos, vivi uma experiência que se recusa a sair de minha mente. Após descobrir por anúncios nos intervalos televisivos que a trilogia seria relançada nos cinemas, estava eu com meus pais no cinema do shopping center, o que era uma novidade pra mim, já que estava acostumado com os de rua, sem conseguir conter a ansiedade. Eu me lembro de ficar pulando de felicidade quando vi na banca de jornal, que ficava no mesmo andar das salas, uma edição enorme da Revista SET, especial sobre aquele relançamento, mostrando as modificações. Eu devorei a revista na longa fila de entrada, feliz com as insinuações de que haveria uma nova trilogia em breve. Era Natal fora de hora, foi uma das tardes mais felizes da minha infância. Escutar a trilha de John Williams na tela escura, assistir a grandiosidade daqueles personagens que cabiam com dificuldade na minha televisão de quatorze polegadas. Eu adorei as modificações dessa "Special Edition", não sou da turma dos revoltados. Tenho ressalvas sobre algumas realizadas, vários anos depois, para os lançamentos em DVD, mas nada grave.

Vivi intensamente o lançamento de cada novo episódio das prequels, acompanhando as notícias com mais tranquilidade nesse mundo maravilhoso da internet, acreditando que seria minha despedida daquela lembrança tão bacana da minha infância. Assisti o "Episódio 3" umas cinco vezes no cinema, com a mesma bonita melancolia do Andy ao se despedir dos seus bonecos ao final de "Toy Story 3". Era mais que o desfecho de uma trilogia, simbolizava um aceno nostálgico para aquele garoto que fui outrora, numa realidade lúdica sem tantas dificuldades. Agora, já com trinta e um anos, estou tendo a sorte de poder viver novamente o fascínio da ansiedade por uma nova trilogia, com a presença daquele elenco original que foi o responsável pela conexão emocional dos fãs com o projeto. O novo episódio, intitulado "O Despertar da Força", já está sendo vendido pelo ator Anthony Daniels, que faz C3PO, como a melhor sequência da saga. Torço para que o diretor J.J. Abrams capte a essência e acerte a mão. O que era sonho outrora, quando me via no lugar do Leonard Maltin, hoje é a minha realidade. Vivo o sonho. Já fui como Luke, vivendo uma realidade tremendamente chata e admirando os sóis de Tatooine, imaginando que desafios me esperavam naquelas estrelas. Aceitei encarar o desconhecido e, tenho certeza, a aventura da vida é espetacular, mesmo sem X-Wings e sabres de luz.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Nos Embalos do Rei do Rock - "A Mulher Que eu Amo"

Entrevista com Ginger Alden / Introdução:
Ama-me com Ternura:



Quando Elvis demonstrou seu desapontamento com a inserção de quatro canções no filme anterior, um projeto onde acreditava poder ser o início de uma carreira como ator dramático no cinema, sua grande paixão, seu empresário pediu que ele fizesse uma escolha. "Olha", explicou o coronel Parker, "é muito simples. Continuamos desse jeito, nós fazemos dinheiro. Mudamos para a sua maneira, nós não fazemos dinheiro”. Elvis estava começando, sabia o que era a pobreza, ele queria melhorar a vida dos pais, então abaixou a cabeça e decidiu assinar o contrato do próximo filme, totalmente focado em canções, colorido, uma diversão despretensiosa.


A Mulher Que eu Amo (Loving You – 1957)
Deke Rivers (Presley) vem do Sul, mas ele não se adapta ao mundo da música country. Uma promotora musical megera, interpretada por Lizabeth Scott, reconhece o talento único do jovem e o explora como um novo rosto que encanta o público. A mídia distorce seu encanto e o identifica como uma pessoa temperamental até ele provar que foi tão somente um mero engano.


A trama era praticamente uma cinebiografia do próprio cantor, que estava assustado com a rapidez de sua ascensão, com o estúdio recebendo cerca de duas mil cartas e quinhentas ligações diárias de fãs de várias partes do mundo. E o empresário se certificava de que todas as cartas recebessem resposta e, na maioria das vezes, com fotos autografadas. Os pais dele, sem nenhum envolvimento no meio artístico, batiam na porta da Paramount com a timidez de quem está visitando um empregado comum, uma postura que reflete a humildade do próprio Elvis. O jovem nunca recusou um autógrafo, nunca cobrou por fotos, atitude que manteria pelo resto da vida, mas que, em uma rotina de filmagens, acabava atrapalhando o cronograma, já que ele ficava horas atendendo as fãs. Como forma de compensar, ele não lanchava entre as tomadas, seguia direto até o crepúsculo do dia. Acreditando que ficaria melhor na tela grande em cores, ele pintou seu cabelo castanho claro de preto, visual que manteve até o fim da vida.

Foi o primeiro trabalho de Hal Kanter na direção, tendo sido roteirista de alguns filmes de Bob Hope e Jerry Lewis. Ele voltaria a trabalhar com Elvis, como roteirista, no sucesso “Feitiço Havaiano”. O produtor Hal Wallis escalou dois veteranos: Lizabeth Scott e Wendell Corey, para amparar o jovem em cena. A química entre Deke Rivers e a promotora musical, vivida por Scott, refletia o carinho que se estabeleceu entre os dois nas filmagens. Na primeira cena em que aparece, o pobretão Deke carrega uma caixa, com o olhar pousado no chão, o corpo transmite sua insegurança, enquanto admira um belo carro estacionado no local, o símbolo de estabilidade financeira. Elvis costumava presentear desconhecidos com carros, como quando abordou uma senhora que, vestida de forma simplória, admirava a vitrine de uma concessionária. Ele chamou o gerente, pediu a chave do automóvel e entregou na mão da mulher.

A profunda introversão de Elvis, um dos elementos de seu mito, é inserida nessa trama e, de forma mais eficiente, em “Balada Sangrenta”. Seu personagem é praticamente carregado para o palco em sua primeira apresentação, cantando de forma tímida a ótima “Got a Lot o' Livin' to Do”. A câmera se mantém no rosto dele durante a maior parte do tempo, mostrando que a fórmula de seus filmes estava sendo delineada, objetivando os gritos das adolescentes nas salas de cinema a cada quebra da quarta parede, especialmente o desfecho da canção, quando Elvis repete o olhar intimidador, marca registrada de suas apresentações ao vivo. Já mais seguro, minutos depois, o personagem defende outra pérola do rock: “Party”, composta por Jessie Mae Robinson, repetindo-a integralmente na sequência seguinte, mostrando maior desenvoltura em seus movimentos no palco. Segundos depois, uma montagem ao som de um medley com “(Let me be your) Teddy Bear”, “Got a Lot o’ Livin’ to Do” e a fraca “Hot Dog”, evidenciando a evolução do rapaz como músico, atravessando as estradas da nação. E, tudo isso, antes dos vinte e cinco minutos de filme. É clara a intenção de manter Elvis cantando o maior tempo possível, um caminho antagônico ao de “Ama-me com Ternura”. O público respondeu bem a essa estratégia, solidificando a fórmula para os próximos projetos.

O cantor conseguiu colocar no elenco seu trio de músicos: Scotty Moore, Bill Black e DJ Fontana, o quarteto vocal “The Jordanaires”, além de inserir seus pais como parte do público que aplaude ele no desfecho. Após a morte de sua mãe, em 1958, Elvis se recusou a rever o filme. Dentre as canções da trilha sonora, "Loving You" é uma linda balada, “Lonesome Cowboy” pode ser tola, mas a explosiva “Mean Woman Blues” emoldura uma cena icônica que representa a rebeldia do astro em seus anos iniciais, copiada em “Balada Sangrenta”, quando um valentão tenta intimidar o rapaz, a quem chama debochadamente de “costeletas”, em uma lanchonete, fazendo valer aquela máxima: não mexe com quem está quieto. Deke simplesmente faz o valentão assistir todas as garotas, até aquela que o acompanhava, vibrarem com seu requebrado. A cena se encaminha para uma pancadaria no estabelecimento, elemento que se tornaria tradicional em seus filmes seguintes, com o oponente se chocando com o jukebox, que começa a tocar um rock, exatamente como em “Saudades de Um Pracinha”. Os filmes de Elvis, já no início dos anos sessenta, haviam se tornado uma franquia autoreferenciável. O ator Ken Becker, que interpreta o valentão, iria repetir o tipo em “Garotas e Mais Garotas”, alguns anos depois.

A Seguir: “O Prisioneiro do Rock” (Jailhouse Rock)

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

TOP - 2014


1 – Ela (Her), de Spike Jonze
“... O que nos faz humanos? A capacidade de sermos afetados pelo outro, sentir compaixão e desejo. O protagonista vivido por Joaquin Phoenix trabalha inserindo emoções no subconsciente de estranhos, criando cartas escritas à mão para seus clientes. O futuro se mostra através de aparatos tecnológicos requintados, mas a realidade dos homens é exatamente a que vivemos hoje: pessoas que se cruzam nas ruas e não se encaram; corpos carentes de calor humano mesmo quando próximos. A terrível solidão que se experimenta em grupo. Num toque de gênio, Jonze encaminha o protagonista a uma situação crucial, onde tendo a opção de, com a permissão de sua parceira, experimentar o sexo fisicamente com uma substituta, ele a considera algo menos real, incapaz de emular com ela os sentimentos que compartilha diariamente com Samantha. Ciúme, insegurança, medo. Autênticas emoções que nascem do convívio, nos longos momentos de cumplicidade serena após a usual satisfação sexual dos primeiros meses de uma relação. Ao lembrar-se de sua esposa, vivida por Rooney Mara (ele se recusa a formalizar o divórcio, mesmo sabendo que não há mais possibilidade de retorno), ele percebe que está apenas ativando uma versão dela em sua memória afetiva, algo facilmente manipulável. A nostalgia embeleza tudo o que toca. O que é, afinal, real? Como quando sentimos pena na poética morte de HAL 9000 no clássico de Stanley Kubrick, acabamos nos surpreendendo com o nível de afeto que desenvolvemos ao longo da trama pelo casal...”


2 – Boyhood – Da Infância à Juventude (Boyhood), de Richard Linklater
“... Parafraseando John Lennon, a vida é aquilo que acontece enquanto você está ocupado com outros planos. A breve e cruel experiência do aprender a desapegar, necessitando superar obstáculos que nos surpreendem nos momentos mais improváveis. Uma sucessão de erros e acertos cometidos por estranhos seres complexos que se descobrem compartilhando um mesmo universo de incertezas, unidos em uma sinfonia diária de perguntas cujas respostas nunca são encontradas. O diretor Richard Linklater ousou tentar decodificar esse enigma existencial em um projeto ambicioso em escala, mas com uma sensibilidade minimalista, capturando ao longo de quase doze anos as mudanças na vida do protagonista, a jornada fascinante que o leva da inocência de sua infância à maturidade precoce em sua juventude. O filme é impressionante na forma como nos faz refletir sobre nossas próprias vidas, sem apelar para os recursos emocionais tradicionais, resultando em um lindo e único retrato proustiano das várias etapas na formação do homem...”


3 - Até o Fim (All is Lost), de J.C. Chandor
“... É espantosa a precisão de Chandor, responsável pelo roteiro e direção, ao narrar essa batalha do homem contra as forças da natureza. Tendo passado por uma experiência quase fatal na adolescência, quando conseguiu se desprender das ferragens de seu carro, após uma forte colisão, ele constrói nesse filme uma fascinante parábola sobre a fragilidade da mortalidade, sobre a beleza triste de um homem que lamenta sua própria morte. Ponto essencial de ruptura: Não precisamos nos conectar emocionalmente com o personagem. O roteiro não perde tempo em flashbacks idílicos, sequer introduz dicas consideráveis sobre a vida do homem de quem não sabemos o nome. A Virginia Jean que dá nome ao barco pode ser sua esposa, sua mãe, sua filha ou ninguém em especial, não importa. O anel em seu dedo pode ser uma aliança, como também pode não simbolizar coisa alguma. Com exceção da narração no início, que pode ser direcionada a alguém ou à sua própria consciência, o filme praticamente é todo estruturado em silêncio. Cada espectador irá criar sua própria história sobre o homem e suas motivações. Não existe o elemento da outridade, clichê em qualquer obra similar. Até mesmo Ernest Hemingway presenteou o seu Santiago com um espadarte que lhe serviu de confidente silencioso. O homem que acompanhamos não interage ou interdepende de ninguém. Ele apenas existe a partir do outro, nesse caso, o espectador. No horizonte se insinua cada vez mais ameaçadora uma devastadora tempestade, que aniquilaria facilmente o barco mais resistente, um destino inevitável, como a morte. O barco de nosso Sísifo fica cada vez mais desgastado, após cada obstáculo superado, mas existe alguma força inexplicável que, contra todas as probabilidades, mantém o homem acreditando que aquele “corpo” irá resistir. Numa analogia ao O Velho e o Mar, o homem é o peixe, restando ao final apenas a alma. Apenas?...”


4 - O Homem Duplicado (Enemy), de Denis Villeneuve
“... O roteiro capta sutis analogias do autor ao totalitarismo e, como em toda fábula, as potencializa generosamente. Conhecemos o professor exatamente enquanto ele tentava ensinar aos seus alunos sobre a obsessão do Estado em controlar o povo, entregando pão e circo e mantendo-os ignorantes, pois é mais fácil manipular um gado com preguiça de pensar. Como educador, ele é o principal alvo daqueles que tencionam o regime ditatorial, já que é o responsável por incitar nos jovens o estímulo ao questionamento. Tomadas rápidas mostram o que parece ser uma teia de aranha sobre a cidade, ilusão criada pelo ângulo da câmera ao focar simples cabos elétricos. Em outro momento, uma rápida tomada aérea transforma vários prédios em um imenso labirinto, reforçando a batalha diária dos indivíduos que se espremem pelos corredores, muitas vezes sem encontrar sentido para tal esforço. Uma teia que anestesia enquanto sufoca gradativamente sua vítima. O totalitarismo, nas palavras do próprio professor, tolhe todas as formas de expressão individual, exatamente o que ocorre com ele quando descobre surpreso que não é mais um indivíduo, que existe uma duplicata exata sua, uma perfeita antítese, vivendo uma vida de aventuras, um artista especialista em representar outros papéis...”


5 - O Grande Hotel Budapeste (The Grand Hotel Budapest), de Wes Anderson
“... Existe um pouco da elegância cômica de Ernst Lubitsch, uma melancolia que ecoa a de O Tempo Redescoberto de Marcel Proust, criativas gags sonoras que remetem a Jacques Tati, uma respeitosa reverência à fictícia Freedonia dos Irmãos Marx, até mais explicitamente uma homenagem a Blake Edwards, em uma das situações mais engraçadas no terceiro ato e na inspiração em Clouseau, eterno Peter Sellers, nos trejeitos do personagem de Ralph Fiennes, mas também vejo grande similaridade com a abordagem metafórica, proposta por Vicki Baum em seu livro Grande Hotel, do estabelecimento de hospedagem como um microcosmo humano, um personagem que respira e evolui na história. O aspecto fabulesco, realçado pelo estilo visual inimitável do diretor, com a fotografia do usual parceiro Robert Yeoman, e pelo constante uso dos cenários pintados na paisagem, evidencia ainda mais a contundência emocional da mensagem, que se revela cada vez mais tocante em revisões. Somos presenteados com uma trama que é apresentada pela ótica criativa do autor, as lembranças que ele conta a partir das lembranças do dono do hotel, enquanto jovem impressionável, vivido por F. Murray Abraham e pelo promissor estreante Tony Revolori. Esse recurso narrativo possibilita, com o auxílio de uma espécie de MacGuffin, o quadro do garoto com a maçã, uma intensa experimentação com vários gêneros, como o filme de espionagem, o filme de prisão, o giallo italiano, a comédia pastelão e até o terror, representado especialmente pelo personagem vivido por Willem Dafoe... 


6 - Garota Exemplar (Gone Girl), de David Fincher
“... Falar sobre a trama, nesse caso, é um desserviço à obra, que se beneficia com a ignorância do espectador. A desconstrução de um modo de vida, onde o diretor flerta cinicamente com os clichês do gênero, exibindo a ferida aberta na imprensa sensacionalista, a manipulação da opinião pública, a teatralidade das investigações do desaparecimento da jovem, elemento que se confunde à teatralidade nos relacionamentos, simbolizado pelo ritual do casamento...”


7 - O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra
“... O filme é autoral e minimalista, mas inteligentemente não é anti-indústria. O impactante resultado final incita naturalmente o boca a boca no espectador, mérito exatamente das convenções do gênero bem executadas que a obra abraça. Não saberia por onde começar os elogios às atuações de Leandra Leal e Milhem Cortaz. A bela e talentosa atriz entrega um desempenho assustador, transmitindo na sutileza de olhares a vulnerabilidade da personagem, atravessando os diversos estágios psicológicos de seu arco narrativo, indo da doçura à intensa crueldade em questão de segundos. Até mesmo o personagem vivido por Emiliano Queiroz, aparecendo pouco e sem dizer uma palavra, acaba se mostrando narrativamente essencial no entendimento do enigma comportamental que envolve a protagonista. Cortaz continua sendo uma força da natureza, praticante da difícil arte de fazer todos os diálogos do roteiro soarem como improvisos naturais, sempre com um toque de ironia. Ele vive um homem preso em um relacionamento desgastado, que acaba encontrando a injeção de ânimo no arriscado desafio amoroso que enxerga numa jovem que conheceu num transporte público, um simbólico motivo condutor do roteiro e que se apresenta desde os créditos iniciais até o desfecho, representando o fator desconhecido que se esconde nas várias encruzilhadas decisórias diárias na vida de todo indivíduo...”


8 - A Balada de um Homem Comum (Inside Llewin Davis), de Joel e Ethan Coen
“... Com uma direção de fotografia inspirada na capa do disco The Freewheelin, de Bob Dylan, a trama, com toques do humor característico dos irmãos Coen, evidencia a angústia diária de um músico criativo enfrentando a mediocridade em sua indústria, que celebra canções padronizadas defendidas por artistas de barro, sem personalidade e estofo cultural. A narrativa conscientemente lenta, com todas as canções apresentadas na íntegra, estabelece um tom quase fúnebre, como se estivéssemos assistindo a gradativa morte dos sonhos profissionais do personagem, que, incapaz de conviver em harmonia com seus semelhantes, acaba se entregando emocionalmente ao elemento inesperado, um gato que cruza seu caminho por acidente. Mas o sorriso se mantém no rosto do espectador, já que seu fracasso consiste em não se vender para o esquema asqueroso do mercado. Mesmo perdendo, ele está ganhando...”


9 – Sobrevivente (Djúpið), de Baltasar Kormákur
“... O sentimento de desajuste social, sua timidez perante as câmeras, sua resiliência ao negar qualquer modificação pessoal causada pela tragédia, são elementos que demonstram a negação consciente do protagonista em ser transformado em um estereótipo de heroísmo por estranhos financeiramente interessados na eterna lembrança de sua desgraça. Ele viveu um momento ruim, mas isso não modificou sua essência, não fez com que ele se tornasse alguém mais interessante socialmente. Como ele mesmo insinua em uma cena, ninguém realmente se importa com o que aconteceu, tudo não passa de uma estatística midiática para preencher temporariamente as páginas dos jornais com manchetes sensacionalistas. Gulli nunca temeu a morte e recusa a falsidade daqueles que se aproximam dele pelo herói que ele nunca foi, ele quer apenas ser esquecido pelos urubus sociais, voltar ao trabalho e ao convívio diário com seu cachorro...”


10 - Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy), de James Gunn
“... Ao se conectar com seu passado através de um objeto tão frágil como um toca-fitas, Quill nos evidencia que sua anarquia é uma resposta imatura para os obstáculos da vida adulta. A lembrança triste da morte de sua infância, com seu desapegar forçado da mãe, não pode ser empecilho para a aceitação de sua missão ao lado de seus novos amigos. Somente quando ele abraça essa constatação, optando por verter a lágrima ao invés de retê-la, o jovem se mostra preparado para singrar o espaço sideral, como Luke Skywalker ao aceitar deixar seu conforto para acompanhar Ben Kenobi. É o clássico conto de amadurecimento que se repete a cada geração...”