segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Rebobinando o VHS - "Mac - O Extraterrestre" / "Encaixotando Helena"


Duas fitas nostalgicamente sofríveis, a cópia fajuta de um dos maiores sucessos de Steven Spielberg, e uma das maiores bizarrices que já receberam sinal verde de uma produtora. Não fazem falta alguma no mercado de DVD.


Mac – O Extraterrestre (Mac and Me - 1988)
Encaixotando Helena (Boxing Helena – 1993)
É impressionante o número de crianças que dizem que morriam de medo do “E.T.”, mas, com certeza, elas não devem ter assistido “Mac – O Extraterrestre”. Eu literalmente corria da frente da televisão quando aparecia o alienígena ou os membros de sua família, com aquele modo de andar esquisito. Acredito que, por eles terem uma forma mais humana, a sensação de estranheza era maior. Diferente do sentimentalismo elegante do clássico de Spielberg, nessa pérola de ruindade do fraco diretor Stewart Raffill, cada cena é pensada com o objetivo de extrair as lágrimas do público. O menino que vira amigo do alienígena, Jade Calegory, é paralítico na vida real, um artifício utilizado pelo roteiro sem nenhum senso de sutileza. A produção, cópia vergonhosa da trama do irmão mais famoso, tem momentos que me remeteram aos filmes da fase final dos Trapalhões, quando o product placement era inserido de forma bizarra, levando a crer que estamos assistindo uma propaganda da Coca-Cola e do McDonalds, com direito até a uma absurda sequência de dança dentro do estabelecimento. E o final? Os alienígenas acabam se tornando cidadãos americanos, vestidos a caráter. Ao ejetar a fita do aparelho, surpreso, eu percebo que ainda morro de medo desse filme.

“Encaixotando Helena”, a bomba dirigida pela filha de David Lynch. Essa fita causou rebuliço na época, não parava nas prateleiras das videolocadoras. Meus pais alugaram escondidos, já que não queriam que eu assistisse. Até hoje eu me recordo do pavor deles, alguns meses depois, quando eu cheguei com o VHS de “Perdas e Danos”, com aquela capa maravilhosa. Não havia internet, então o boca a boca era poderoso, com pessoas que diziam que nunca haviam assistido nada mais chocante. O gerente da videolocadora, querendo lucrar, contava para os clientes que alguém já tinha devolvido a fita com raiva, reclamando que a esposa chegou a passar mal assistindo. Aquela informação era praticamente um cheque assinado em branco, os clientes pagavam até uma locação a mais, somente para que a fita ficasse mais tempo em seu poder. Meu pai trouxe o estojo preto numa Sexta à noite, sem fazer alarde. Claro que acabei assistindo antes deles. E, com o olhar de uma criança, já sabia que tinha perdido meu tempo com uma grande bobagem. Em teoria, a obsessão de um médico por uma garota, levando-o ao ponto de cortar seus membros e encaixotá-la, tinha tudo para resultar em um filme fantástico, mas a solução encontrada no terceiro ato é, no mínimo, broxante.
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Devido ao ótimo número de acessos, o especial agora fará parte do blog. Em breve, novos textos...

domingo, 4 de janeiro de 2015

Rebobinando o VHS - "Hora de Matar" / "O Punho Demolidor"


Hoje escolhi abordar dois gêneros usualmente subestimados pela crítica, o faroeste e o filme de Artes Marciais, torcendo para que essas fitas ainda estivessem funcionando.


Hora de Matar (Il Momento di Uccidere – 1968)
O Punho Demolidor (Qi lin Zhang – 1973)
“Hora de Matar”, dirigido por Giuliano Carnimeo (o mesmo de “O Rato Humano”, já abordado nesse especial), foi, caso minha memória não esteja me pregando uma peça, o meu primeiro faroeste, fora os clássicos de John Wayne e os revisionistas modernos, como “Silverado”. Eu me lembro de ter estranhado o aspecto sujo da produção, aquelas roupas desgastadas e sem cor, que contrastavam bastante com aqueles figurinos coloridos de teatro infantil dos westerns americanos em Technicolor. Eu devia ter por volta de doze anos, costumava devorar aqueles livros de bolso que eram vendidos nas bancas de jornal, “Chumbo Quente” e “Oeste Beijo e Bala”, fazia coleção dos quadrinhos do “Tex”, alguns anos depois eu conheci “Blueberry”, enfim, adorava o gênero. Nem preciso dizer que um de meus videogames preferidos é “Red Dead Redemption”. E esses filmes realizados na Itália transmitiam uma realidade muito próxima daquele universo que eu alimentava em minha imaginação. Os roteiros podiam não ser tão elaborados, mas compensavam em outros elementos, como ação e trilha sonora. “Walk by my Side”, composta por Francesco de Masi, que emoldura os créditos iniciais, gruda no ouvido e você fica cantarolando pela casa. Gostava especialmente da cena de tiroteio no bar, mérito do diretor de fotografia Stelvio Massi, onde o personagem vivido por George Hilton utiliza os espelhos como forma de fazer o oponente gastar sua munição. Analisando hoje, a trama é fraca e convencional, o filme é ruim, mas o terceiro ato conduz a uma revelação final bem interessante.

Como posso esquecer o dia em que adquiri o VHS de “O Punho Demolidor”? Um símbolo de uma época sem internet, onde era difícil conseguir informação sobre qualquer assunto, ainda mais os obscuros. Eu sabia que o Bruce Lee tinha completado apenas quatro filmes em sua fase madura, já tinha adicionado todos na minha videoteca, mas aquela capa bizarra estampava sua imagem, levando a crer que ele fazia parte do elenco, e informava que ele tinha dirigido o filme. Até hoje lamento o valor irrisório que gastei. Voltei pra casa e, nem esperei muito, coloquei a fita pra rodar no aparelho. A sensação, impossível de descrever, era de intenso estranhamento. Além de estar numa qualidade de imagem horrorosa, a trama era lamentável, arrastada, com um protagonista sem o mínimo de carisma necessário, em suma, uma tragédia. E, o que mais me incomodava, eu não tinha reconhecido o Bruce Lee nas cenas. Nos últimos segundos, quando já estava me dirigindo pra frente da televisão, pronto para ejetar aquela fita e tacá-la pela janela, uma inserção rápida, com alguém que parecia o saudoso dragão abraçado a uma criança em um set de filmagem. Meus olhos esbugalharam, encostei o rosto na tela de dezesseis polegadas e apertei o rew.

Anos depois, com uma pesquisa rápida na internet, descobri que ele apenas aceitou ajudar na coreografia das cenas de luta, pela amizade de infância que tinha com o protagonista Sheau Chyh Lin, mas que odiou o resultado e a forma como a produção tentou capitalizar utilizando sua fama. A produtora Starsea Motion Pictures ofereceu a oportunidade para o rapaz, desconhecido como ator e lutador, com a garantia de que ele iria dar um jeito de colocar Lee no projeto. A tal cena que descrevi, por incrível que pareça, foi filmada secretamente, enquanto o astro ajudava nas filmagens. Uma exploração que não seria a única na carreira dele, já que, mesmo após sua morte, os estúdios continuariam realizando filmes com sósias, “Bruce Li”, “Bruce Le” e “Dragon Lee”, entre outros, um fenômeno curioso e de extremo mau gosto.  

sábado, 3 de janeiro de 2015

Rebobinando o VHS - "Direito de Morrer"


No início do reinado do VHS, era comum encontrar capas em inglês com o título original. Sempre fui fã de James Stewart, foi sua presença que me levou a adquirir esse filme na época. Um projeto praticamente desconhecido, feito para a televisão americana, mas que marca o encontro histórico de Stewart e Bette Davis. Não me recordo se a imagem era tão ruim quando adquiri a fita, mas, revendo agora, fiquei chocado com a péssima qualidade, até mesmo para os padrões limitados do formato. Uma trama emocionante e que, infelizmente, não foi lançada por aqui em DVD.


Direito de Morrer (Right of Way – 1983)
Um pacto de suicídio entre um casal de idosos, sem netos, após a constatação de que a esposa está com uma doença terminal, tendo que enfrentar a obstinada negação da filha. Impossível assistir a fita e não pensar em “Amor”, de Michael Haneke, guardadas as devidas proporções, celebrando a coragem da temática sobre eutanásia, ainda mais quando levamos em consideração que foi um filme de baixo orçamento feito para a televisão há mais de trinta anos, com todos os vícios de linguagem usuais em produções similares. É possível perceber que o diretor George Schaefer bebeu da fonte de “Num Lago Dourado”, para manter a leveza na abordagem, evitando sensacionalismo, com o alívio cômico reservado às menções aos gatos da casa, com nomes de artistas de cinema. A química dos atores reflete as complicações nos bastidores, com o ego de Davis falando mais alto, mas as cenas do casal no terceiro ato, retratando a cumplicidade que move as difíceis decisões tomadas, compensam todos os problemas.

É interessante a forma como a filha, vivida por Melinda Dillon, modifica sua forma de pensar, indo da máxima revolta ao terno sentimento de compreensão, simplesmente por se dedicar a estudar a questão, evitando qualquer submissão aos dogmas religiosos, adquirindo livros, como o ótimo estudo psicológico que aborda os cinco estágios do luto: “Sobre a Morte e o Ato de Morrer”, da doutora Elisabeth Kübler-Ross, e o campeão do prêmio Pulitzer de 1976: “Qual a Razão de Viver? Sendo Idoso na América”, escrito por Robert N. Butler.  James Stewart passou por caso semelhante, cerca de dez anos depois, após o falecimento de sua esposa Gloria, tornando-se recluso e evitando qualquer tratamento médico, passando a maior parte do tempo em seu quarto, saindo para se alimentar apenas por insistência de sua governanta. 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Rebobinando o VHS - "Keruak - O Exterminador de Aço"


Quando eu me lembro das circunstâncias de meu primeiro encontro com esse filme, não consigo evitar rir da malandragem saudável cometida pelo SBT. Só depois é que fui rever essa pérola terrível, dirigida por Sergio Martino, em VHS distribuído pela "America Vídeo". A chamada que passava nos intervalos prometia a continuação de “O Exterminador do Futuro”, inserindo até cenas dele, não era nada sutil, fazia realmente pensar que a trama dessa picareta produção paupérrima italiana dava sequência aos acontecimentos do clássico filme de James Cameron. Numa época sem internet, onde as informações sobre os filmes eram escassas, praticamente inexistentes, ficávamos no escuro.


Keruak – O Exterminador de Aço (Vendetta dal Futuro – 1986)
Como eu, já naquela época, era sistemático, fiz questão de alugar o clássico e rever, antes do dia que estava marcado para a exibição da continuação. Queria que a trama estivesse fresca na mente, para que pudesse absorver melhor aquele excelente entretenimento que o narrador da chamada vendia. Era uma exibição noturna, acredito que tenha sido na “Sessão das Dez”, que passava aos Domingos, o que complicava sempre o ato de acordar cedo para a escola no dia seguinte. Lá estava eu, com um copo cheio de refrigerante, pra me manter acordado, e a cara grudada na televisão de dezesseis polegadas. Já nas primeiras cenas, uma montagem urbana esquisita num futuro não muito distante, com moradores de rua e fábricas expelindo gases tóxicos, filmados de forma estranhamente rústica, nada parecido com o padrão de direção de fotografia do clássico de Cameron. Quero salientar, caro leitor, que mesmo sendo totalmente ignorante nesses aspectos técnicos à época, com olhos de criança, eu já considerava estranha essa diferença entre dois projetos que acreditava serem irmãos. No ambiente de caos, genericamente pós-apocalíptico, o herói vivido pelo péssimo Daniel Greene, Paco Queruak, que outrora havia sido humano, é contratado por uma organização, com a tarefa de assassinar o chefe de uma equipe de ecologistas. O comandante da organização é vivido por John Saxon, que quase bateu as botas nas filmagens, já que estaria no mesmo helicóptero que caiu com o colega de cena: Claudio Cassinelli. Uma tragédia que atormenta o diretor até hoje.

Como o posterior “Robocop”, de Paul Verhoeven, o cyborg é impedido, na hora de executar o serviço, por um bloqueio em seu disco rígido, o que conduziria, em teoria, à discussão sobre a possibilidade de existir ainda vestígios de sua consciência humana em sua memória robótica.  O caso é que o fraquíssimo roteiro sequer se importa em se aprofundar na questão, com subtramas dispensáveis criadas, ao que parece, apenas para alongar a duração da fita. Minha testa se manteve franzida durante boa parte da transmissão, sentia que algo não encaixava naquilo tudo. Em dado momento, um breve alívio, uma cena onde o herói cyborg expõe as engrenagens de seu braço biônico, finalmente algo que me remetia visualmente a “O Exterminador do Futuro”. Anos depois, fiquei sabendo que aquela cena, visivelmente melhor produzida que o restante do filme, apenas se tratava de um trecho descartado do filme americano, o inesquecível momento em que Schwarzenegger exibe a estrutura mecânica que movimenta seus dedos, uma tomada não utilizada no corte final, comprada pelos italianos e inserida na produção. 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Rebobinando o VHS - "O Analfabeto"


Escolhi iniciar o ano com essa pérola esquecida da comédia mexicana. O humor de Cantinflas, Fortino Mario Alfonso Moreno Reyes, é mais próximo do estilo de humor brasileiro, com suas tiradas irônicas contundentes, gestual circense e jogos de palavras, que serviu de inspiração para Renato Aragão, entre outros. Chaplin, numa demonstração de incrível generosidade, afirmava publicamente que o considerava o melhor comediante vivo.


O Analfabeto (El Analfabeto – 1961)
“O Analfabeto” foi meu primeiro contato com ele, o único que assisti em VHS. Somente anos depois, com o advento das facilidades da internet, pude apreciar mais obras de sua filmografia, infelizmente, ainda tratada com muito desleixo pelas nossas distribuidoras. Nem mesmo seu filme americano “Pepe”, dirigido por George Sidney, chegou a ser lançado por aqui no mercado de DVD. É uma pena que a nova geração não se interesse em resgatar esses gênios do passado.

Muito similar ao seu sucessor no México, Roberto Gómez Bolaños, nós podemos enxergar no personagem Inocêncio Preto e Calvo, preto de pai e calvo de mãe, uma característica comum a vários de seus heróis, uma alma quixotesca que faz do medo sua principal arma, corajosamente sobrepujando aqueles que buscam se aproveitar de sua ingenuidade. Confortável sob a direção do parceiro Miguel M. Delgado, no papel de um adulto que deseja aprender a ler e escrever, Cantinflas se permite liberar das amarras dos modelos clássicos de linguagem, como sempre, utilizando um figurino que não se enquadra naturalmente ao cenário em que o personagem habita, com toques que representam a dignidade e o refinamento que ele ludicamente identifica ao se olhar no espelho, simbolizando um homem à margem da sociedade. A crítica social é óbvia, como podemos ver na cena em que o herói pícaro enfaticamente afirma preferir ser analfabeto e honrado, a ser culto e agir de forma desonesta com seus semelhantes.

O humor se alterna entre gags visuais e diálogos de duplo sentido espirituosos e eficientes, com um interlúdio musical hilário, onde Inocêncio tenta impressionar sua namorada, vivida pela bela Lilia Prado, cantando em um coro de igreja. Por simples que seja, é difícil esquecer a ternura contida nas cenas em que Cantinflas, com brilho nos olhos, saúda seus pequenos colegas de classe.