quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Hitchcock - A Dama Oculta / Correspondente Estrangeiro

Links para textos sobre outros filmes do diretor:


A Dama Oculta (The Lady Vanishes – 1938)
Durante viagem de trem pela Europa, a jovem Iris torna-se amiga da Srta. Froy. Mas a simpática senhora desaparece misteriosamente e, quando Iris investiga seu paradeiro, os passageiros negam tê-la visto.


O melhor filme da fase britânica de Hitchcock, com uma trama passada em uma viagem de trem, utilizando como McGuffin a figura da enigmática senhora Froy, que desaparece exatamente no fim do primeiro ato. E, mais genial ainda, temos um Meta-McGuffin na forma de uma melodia que aparece logo no início, mas que só se revela importante ao final. Interessante perceber que o elemento da espiral, que o diretor trabalharia de forma definitiva em “Um Corpo que Cai” (Vertigo – 1958), já se mostra presente em seus primeiros projetos. O título do romance no qual o filme se baseia: “The Wheel Spins”, alude ao movimento das rodas do trem, como símbolo e veículo onírico, ao mesmo tempo, de mobilidade e imobilismo. Não é coincidência que as rodas apareçam na montagem que acompanha o primeiro (serão cinco ao total) desmaio da personagem Iris (Margaret Lockwood), que está voltando para se casar com um homem que não ama, apenas pelo nome importante que ele carrega. Detalhes que são perceptíveis em revisões acentuam o fato de que ela, como alguém que busca se tornar uma “Lady” ao se casar com alguém de classe social mais abastada, representando a sociedade britânica da época, é quem está verdadeiramente “desaparecendo” (vanishing). 


Correspondente Estrangeiro (Foreign Correspondent – 1940)
A história de Johnny Jones (Joel McCrea), um correspondente de um jornal de Nova York que vai à Europa com um nome falso, para cobrir aquilo que seria um inevitável começo da Segunda Guerra Mundial. Durante um turno de trabalho, presencia a morte de um diplomata holandês. Tudo se complica quando ele descobre que quem morreu na verdade não foi o diplomata, e sim um sósia, e que na verdade ele fora sequestrado por agentes que desejam um segredo seu. 


O filme que Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, considerou: “uma obra-prima da propaganda”, normalmente esquecido pelos jovens fãs que Hitchcock acumulou ao longo das últimas décadas, mas que se mantém firme e resiste ao teste do tempo, mesmo sendo claramente um produto das paranoias de seu tempo. Após um início esquisito na América com o premiado “Rebecca”, onde era inegável perceber que muito pouco do diretor estava presente na obra, parecia que o inglês aceitaria as imposições do estúdio americano e acabaria perdendo sua identidade, mas esse segundo esforço provou-se um teste de resistência para o realizador. O produtor Walter Wanger insistia em reescrever o roteiro, enquanto as filmagens estavam sendo realizadas. Algo inconcebível para o diretor, que respeitava demais seu próprio talento e não aceitaria ser um reles peão na indústria. Com duas sequências que coloco entre as melhores da filmografia do cineasta: o assassinato na chuva e o bombardeio de um avião, esse filme merece constar entre os grandes do mestre do suspense.

"Nebraska", de Alexander Payne


Nebraska (2013)
Em alguns momentos na beleza da fotografia em preto e branco, mérito de Phedon Papamichael, senti uma forte inspiração em “No Decurso do Tempo” (Im lauf der zeit – 1976). Os dois companheiros viajantes de Wim Wenders cruzavam o país como forma de expor uma realidade social decrépita, enquanto o diretor Alexander Payne utiliza o road movie como ferramenta estilística para evidenciar a viagem interna de um pai, tentando suturar as feridas abertas em seu passado, acompanhado de seu filho caçula e uma simples propaganda promocional enviada pelo correio.

A beleza maior nesse filme minimalista está na insinuação de que o velho cansado, disposto a caminhar uma absurdamente longa distância para requisitar seu prêmio, talvez seja o único com plena consciência de que não há tesouro algum no final da jornada. Ele também sabe que seu filho mais velho intenciona colocá-lo em um asilo. Todos os abutres que encontra ao revisitar seu passado, incluindo membros de sua própria família, aglomeram sobre o frágil homem com sorrisos falsos, desejando apenas uma fatia generosa desse bolo. Todos chegam a crer na possibilidade milionária em algum ponto dessa longa estrada até Nebraska, e o silencioso protagonista interpretado por Bruce Dern (Woody) está disposto a não quebrar a ilusão, pois após décadas de desgastante rotina, ele está sendo notado, até mesmo aplaudido.

A cena em que ele busca sua dentadura nos trilhos do trem, com o filho, serve como demonstração de sua lucidez ácida. Em seu rosto aparentemente frio na cena do videokê, podemos notar o choque por constatar a falsidade daquelas pessoas, ainda que o roteiro, ótimo trabalho minimalista de Bob Nelson, nos estimule a ver sua reação impulsiva conectada à emoção de estar sendo reconhecido. As canções selecionadas, nunca por acaso, potencializam a crítica comportamental: “Time after time”, “In the ghetto” (a letra com mais consciência social, ironicamente entregue àquele que menos a personifica na trama) e “Green, green grass of home” (a realidade que o homem encontra é a perfeita antítese da letra que incita a nostalgia do antigo lar).

Uma grata surpresa é o senso de humor eficiente que permeia o filme, personagens hilários como a mãe desbocada, aniquilando em poucos minutos a forte impressão de que seria uma experiência profundamente sorumbática. 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Sétima Arte em Cenas - "O Milagre de Anne Sullivan"

Link para os textos do especial:


O Milagre de Anne Sullivan (The Miracle Worker – 1962)
Esse belíssimo filme conta a história real da professora, vivida por Anne Bancroft, que busca incessantemente mostrar as belezas do mundo a uma menina cega e surda, a jovem Helen Keller, uma atuação impressionante de Patty Duke, que já estava vivendo a personagem nos palcos, contracenando com Bancroft. Com muita persistência, ela consegue retirar a garota de uma realidade solitária e depressiva, levando-a a adaptar-se ao mundo, fazendo-a conseguir se expressar. Foi preciso pulso firme por parte de Anne, pois a família da jovem havia contribuído para que ela se colocasse em um “pedestal”, como revoltada vítima das circunstâncias, da qual foi retirada por intermédio de uma rígida disciplina amorosa. Ela sabia que seria difícil alcançar a alma daquela jovem, que estava perdida nas profundezas daquele enigma aparentemente impenetrável que os anos de escuridão e solidão haviam cruelmente forjado.

Para aqueles mais interessados, recomendo fortemente o excelente livro “Lutando contra as Trevas – Minha professora Anne Sullivan Macy”, escrito pela própria Helen, que adquiri por irrisórios dois Reais, alguns anos atrás em um sebo. Em um dos vários trechos que guardo em minha memória afetiva, ela escreve: “Nunca se deve consentir em rastejar quando se sente um impulso para voar”. E essa obstinação foi muito bem captada na peça e inteligentemente adaptada pelo roteiro de William Gibson, com a direção impecável de Arthur Penn, que faria “Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas” alguns anos depois.

A cena que motivou o texto dura por volta de oito minutos, sem diálogos ou trilha sonora, ocorrendo no primeiro momento em que as duas ficam sozinhas numa sala de jantar que se torna um intenso campo de batalha. Helen inicialmente busca atrair atenção se debatendo no chão, enquanto Anne calmamente continua almoçando. Minutos antes, ela havia percebido que a garota não conhecia limites, devorando os alimentos de todos os pratos como se fosse um animal enjaulado, sendo mimada pela piedade de sua família. A professora estava obstinada a não deixar a menina sair daquele ambiente sem aprender que devia comer apenas sentada à mesa e com talheres. A brutalidade da cena choca, fazendo com que a angústia progressivamente se torne mais insuportável, com agressões físicas de ambas as partes. Chego a imaginar que o diretor William Friedkin possa ter se inspirado nessa cena para achar o tom de grande parte de seu “O Exorcista”. Ao final, uma pequena grande vitória que é relatada pela professora à extasiada mãe: Helen come na mesa e com talheres, até dobrando seu guardanapo. Ainda havia um longo caminho pela frente, pois ela precisaria educar os verdadeiros deficientes da trama, os familiares da menina. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

"Patch Adams - O Amor é Contagioso", de Tom Shadyac


Patch Adams – O Amor é Contagioso (Patch Adams – 1998)

Que tem a morte de errado?
Por que temos esse medo mortal?
Por que não tratamos a morte com humanidade, dignidade, decência e até com humor?
A morte não é o inimigo.
Se quiserem enfrentar um mal, enfrentem o mal da indiferença.

Não é um ótimo filme, tampouco sua atuação nele é acima da média, mas a mensagem que ele transmite foi muito importante em minha formação. Eu tinha por volta de quatorze anos quando assisti pela primeira vez, estava sofrendo o auge do bullying na escola diariamente, buscando motivos para continuar acreditando que valia a pena seguir em frente. Eu era apenas o rato de biblioteca e sebo, aquele esquisito magricela que passava tardes inteiras na seção de clássicos das locadoras de vídeo.

Nas aulas de redação eu extravasava minhas angústias, enquanto todos os colegas se focavam nos simplórios temas pedidos pela professora, escrevendo o mínimo de linhas requisitado no exercício, eu desafiava a professora aprofundando os temas, normalmente criando enredos de fantasia ou suspense com personagens, praticamente contos, sempre excedendo as linhas e deixando minha imaginação voar pela página de trás em branco. O que me interessava não era a nota, mas o pequeno texto que a professora escreveria ao lado da nota, com sua opinião sobre ele. Eu, inconscientemente, exercitava aquilo que amo fazer até hoje. E, dentre tudo que escrevi nessas redações, acho que nada foi mais repetido que os trechos do discurso final do personagem Patch Adams no filme, quando ele enfrenta o Conselho de Medicina com seus argumentos sobre o valor inestimável de se tratar o paciente, nunca tratar a doença. Isso serve para tudo na vida.

Eu me emocionava quando o discurso é interrompido para a entrada do grupo de pais e filhos que tiveram a dor de suas vidas amenizadas pela terapia do riso praticada pelo personagem. A gratidão nos olhos deles, a lágrima que insinua rolar no rosto de Adams, pode ser um recurso narrativo demagógico, mas funcionava tremendamente bem para um estudante adolescente que tentava encontrar razões para entender em sua rotina diária a violência como resposta à afabilidade. Quando Williams defendia o amor de seu personagem pela função que exercia, enfrentando uma classe que não o considerava digno de coabitar o mesmo ambiente, eu me identificava e tremia por dentro. Ele, em dado momento, recebia o olhar carinhoso de aceitação do único professor que o respeitava. Todos nós temos na vida alguém assim, que coloca a mão no fogo por nossas convicções e aposta em nossos sonhos, mesmo quando parecem ser impossíveis. Alguém como o coronel cego vivido por Al Pacino em “Perfume de Mulher”, que afirma sua confiança no futuro glorioso do jovem vivido por Chris O’Donnell. É um elemento facilmente identificável.

E o que mais me agradava no filme era constatar que, ao hilário final, Patch continuava sendo um rebelde. Ele não se adequou à mediocridade, mas sim a subjugou implacavelmente. Era o estímulo que eu precisava. A humilhação constante podia ferir a alma, mas não me impediria de estudar, não me impediria de sonhar. Esse é o meu trecho favorito, daquele que muitos consideram um filme medíocre, sem valor algum. O clássico “Carpe Diem” de “Sociedade dos Poetas Mortos” viria em minha vida anos depois, com o mesmo impacto emocional motivacional. Então eu posso dizer que Robin Williams participou efetivamente de, pelo menos, dois momentos importantes em minha formação. Ele foi um dos que me fizeram rir em uma época em que o humor não era uma constante. Não há como não ser grato por isso. Descanse em paz, Robin.

E hoje, seja qual for sua decisão, juro que vou chegar a ser o melhor médico de todo o mundo.
Vocês podem impedir minha formatura.
Podem me negar o título e a bata branca.
Mas não podem dominar meu espírito, nem evitar que eu aprenda.
Não podem me impedir de estudar.

"Sabrina", de Billy Wilder


Sabrina (1954)
Sabrina (Audrey Hepburn) é a filha de um motorista de família rica. Ao se apaixonar por David (William Holden), filho mais novo da família, decide ir para Paris para esquecê-lo e lá se torna uma mulher deslumbrante. Ao voltar, acaba sendo disputada pelo playboy e por seu irmão mais velho (Humphrey Bogart).


Após muitos anos eu tive o prazer de rever o filme e fiquei feliz ao constatar que ele continua tão agradável quanto em minha memória. Incrível como os cento e dez minutos passam rápidos, com o fantástico roteiro de Billy Wilder compondo uma realidade que eu gostaria de continuar vivenciando por mais algumas horas, sem olhar para o relógio. Como desviar os olhos de Audrey Hepburn, uma das mulheres mais charmosas que o cinema apresentou ao mundo? A belga, mesmo interpretando inicialmente uma jovem simplória, exalava refinamento pelos poros. O tipo de mulher que mostrava no olhar a cultura que priorizava, ainda que soubesse valorizar o supérfluo elegante. Ela era irresistível, o que torna a química entre ela, William Holden e Humphrey Bogart, ainda mais interessante. E é interessante descobrir que nos bastidores, diferente de Holden, que ficou apaixonado por ela, Bogart não gostou tanto da experiência, reclamando de praticamente tudo e afirmando que ela era lenta em cena, numa possível demonstração de despeito, já que ele preferia contracenar com sua esposa Lauren Bacall. Ele acabou entrando no projeto de última hora, em um papel que seria de Cary Grant.

“A vida é como uma limousine. Tem o banco da frente e o banco de trás, mas uma janela entre eles”.

A filha do motorista, que se escondia nos galhos de uma árvore para poder se sentir parte, por alguns minutos, das festas refinadas dos patrões do pai, acaba tendo que se isolar em outra cultura. Ao voltar de Paris, ela não somente passa a ser notada, como desejada intensamente pelo homem que ela sempre acreditou amar. O beijo roubado quando criança, numa época em que as classes sociais felizmente não representam nada, foi o elemento que conduziu os sonhos românticos da menina. A forma como o roteiro trabalha o limbo social onde reside Sabrina, “que não pertence a uma mansão, tampouco em uma garagem”, dá margem para que Wilder brinque com símbolos, como quando a jovem visita o escritório do sistemático Linus (Bogart), sentando-se em sua poltrona de trabalho e rodando como uma criança desafiando a autoridade do adulto. Ela é exatamente a antítese do controle absoluto que o personagem gosta de exercer em todos os aspectos, sendo mostrado sempre na prática de seu ofício, mesmo durante uma animada festa em sua mansão. Quando o roteiro mostra sua decepção ao constatar que o curso de culinária em Paris é regido como uma linha de produção, com os alunos sendo variações de máquinas que produzem um alimento padronizado, não é apenas um alívio cômico estratégico, mas uma forma de mostrar que aquela jovem não será moldada por qualquer interesse externo. O impacto de alguém tão rebelde na vida de Linus é tremendo, sendo o ingrediente especial de sensibilidade feminina que o impedirá de ser absorvido irrecuperavelmente pela máquina industrial, numa analogia para o capitalismo americano, que, tendo a limousine como metáfora social, depende sempre de alguém no “banco da frente” conduzindo-o aos seus objetivos.