sábado, 14 de junho de 2014

Faces do Medo - "O Solar das Almas Perdidas"


O Solar das Almas Perdidas (The Uninvited – 1944)
Os irmãos Roderick (Ray Milland, que venceria o Oscar no ano seguinte, por "Farrapo Humano") e Pamela Fitzgerald (Ruth Hussey) compram uma mansão abandonada na costa da Inglaterra, por um preço muito abaixo do mercado. O que inicialmente parecia ser um ótimo negócio se torna um pesadelo, quando os irmãos descobrem que o lugar é assombrado por espíritos.

Fantasmas até então eram utilizados no cinema como alívio cômico, desmascarados ao final como simples truques. O diretor Lewis Allen, em seu primeiro longa-metragem, inovou ao adotar uma postura séria, ainda que o roteiro deixe transparecer em vários momentos certa preocupação mercadológica com essa atitude, abordando uma casa mal-assombrada por dois fantasmas. O humor está lá, mais do que deveria, mas em menor intensidade se comparado ao padrão da época. O roteiro de Dodie Smith e Frank Partos estabeleceu a fórmula que seria copiada nas décadas seguintes, como o conceito de que os animais temem um fantasma e a característica queda de temperatura que revela a presença sobrenatural, seguida pelo perfume que se espalha no local. A fotografia de Charles Lang Jr. é um primor, mostrando que muito se perdeu no gênero com a invenção de Thomas Edison, já que não há melhor moldura para o terror que um ambiente à luz de velas.   

O filme é adaptado do romance gótico de Dorothy Macardle, uma ferrenha feminista, que utilizou a história fantasmagórica como metáfora para compor uma narrativa sobre a relação entre mãe e filha, a peça central da trama, além de uma crítica à limitadora ideologia doméstica imposta às mulheres, com insinuações homossexuais menos sutis que em “Rebecca” (de Hitchcock, uma clara inspiração), entre a personagem Holloway e Mary, que perturbaram os censores do “Código Hays”. A trilha sonora de Victor Young legou para a humanidade a linda canção “Stella by Starlight”, que na trama é inspirada pela beleza da jovem homônima vivida por Gail Russell. Uma das provas da qualidade do filme é que, somente vinte anos depois, a indústria abordaria o tema com a mesma competência, no excelente “Desafio do Além” (The Haunting). 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

"Os Suspeitos", de Denis Villeneuve


Os Suspeitos (Prisoners - 2013)
Após a obra-prima “Incêndios” (2010), o diretor canadense Denis Villeneuve demonstra mais uma vez a sua excelência na, cada vez menos valorizada, arte do suspense. A elaborada atmosfera opressiva (clima criado pela ótima fotografia do veterano Roger Deakins), que é substituída por profissionais menos capazes pela utilização excessiva de fórmulas e truques, desgastando e pasteurizando todos os conceitos que Henri-Georges Clouzot, Alfred Hitchcock e outros gênios ajudaram a estabelecer. E o diretor trabalha com um tema bastante corriqueiro, uma variação do clássico conto de vingança, explorado em 9 de cada 10 projetos de ação. Já a forma como ele aborda essa trama, surpreende e eleva a qualidade da obra ao fugir da zona de conforto típica das produções de grandes estúdios. 

O desaparecimento de duas meninas no feriado de Ação de Graças e a consequente prisão e liberação de um suspeito (vivido por Paul Dano), faz com que o pai de uma delas (Hugh Jackman em um de seus melhores trabalhos) se revolte e busque no intempestivo vigilantismo a resolução do caso. Terrence Howard vive o pai da outra menina, numa atuação de contido desespero, mas incapaz de aceitar conscientemente as atitudes do personagem de Jackman, que representa emocionalmente o exato oposto. É o tango entre esses dois elementos que conduz a história e nos prende na poltrona. Jake Gyllenhaal, como o detetive desconectado de qualquer emoção real e que parece saído de um “Noir”, recebe espertamente pouca atenção do roteiro, que nunca aprofunda suas motivações e seu passado. Com certeza é a interpretação mais difícil, já que ele precisa expressar sutilmente em gestos e tiques, todas as lacunas que nos são apresentadas. 

Ele escolhe deixar bastante claro nos primeiros três minutos, o leitmotiv (a eficiência de sua execução é mérito do roteiro preciso de Aaron Guzikowski) que irá reger a exploração moral dos personagens que são colocados no limite. Todos, de certa forma, são prisioneiros (poderiam ter mantido o título original) de um código de conduta que será colocado à prova. Iniciando com a oração do Pai Nosso emoldurando o abate de um cervo, seguido pela utilização da canção gospel “Put your hand in the hand” na trilha sonora e finalizando ao apresentar a personagem da mãe e da filha, através do vidro embaçado do carro, focando no crucifixo que se balança no retrovisor. Estamos diante de uma fábula que instiga profundos questionamentos morais, ainda que exista ação suficiente nele para entreter os menos interessados. Existe um pouco de “Sobre Meninos e Lobos” e muito de “Seven”, mas a longa duração pode entediar aqueles que irão assistir pensando se tratar de um “primo elegante” de “Busca Implacável”. O filme vai além do que as estruturas limitantes do gênero costumam suportar. Quão longe nós seríamos capazes de ir, contra nossas crenças? 

Gene Wilder e Richard Pryor - Opostos que se Atraem


Richard Pryor
Em uma palavra: Caos. Ninguém controlava sua avassaladora metralhadora verbal em seus espetáculos de stand-up comedy. Ele era o ídolo de Eddie Murphy, porém não idolatrava ninguém. Nos palcos era o equivalente a uma incontrolável floresta em chamas, no cinema era puro carisma, mas em sua vida real era uma criança em busca de atenção. Complexado, o artista não entendia como recebia milhões por seus filmes, enquanto sua avó havia trabalhado como dona de um prostíbulo, onde sua mãe era uma prostituta e seu pai um gigolô, e morrido na miséria. Em sua juventude passada praticamente toda dentro do prostíbulo da avó, o jovem sofria com a pouca atenção dada por sua mãe e com os constantes abusos, até sexuais, que sofria dos rapazes mais velhos. Aprendeu então muito novo a utilizar o humor como “arma de ataque” e com quatorze anos iniciou no teatro amador.

“Quando comecei, eu era um negro magrinho e de olhos grandes capazes de conter o mundo, com um largo sorriso que implorava por atenção, mas ninguém parecia ter tempo para me oferecer”.

Com o sucesso e uma cabeça perturbada vieram as drogas. Houve uma época em sua vida em que cocaína era consumida tal qual um cereal matinal. Seu ápice autodestrutivo veio quando em uma festa, ateou fogo em seu corpo embebido em rum e jogou-se pela janela. Após vários minutos agonizando no meio da rua, foi socorrido por uma ambulância e levado ao hospital. O óbito já estava praticamente consumado, algo já esperado por amigos e colegas de trabalho, que durante um bom tempo assistiram esta tragédia ser anunciada. Ele sabotava seus projetos profissionais, chegando a conceder uma entrevista no set de filmagens de “Loucos de dar Nó” totalmente fora de si, que pode ser encontrada no Youtube, deixando o entrevistador chocado com seu estado. Já no hospital, recebeu uma série de tratamentos excruciantes e algumas operações plásticas.

O renovado Pryor não se viu livre de seus demônios interiores e retornaria aos velhos hábitos. Algumas tentativas de reconquistar glórias passadas serviriam apenas para mostrar que, de certa forma, o criativo comediante realmente havia morrido naquele incidente explosivo. Suas participações em cinema, como em “Superman 3” e “O Brinquedo”, mostravam um leão domado. Seus salários aumentavam, porém a satisfação e o desejo de lutar já o haviam abandonado. Logo, os muitos anos dedicados ao abuso das drogas haveriam de clamar seu preço, quando no set de filmagens de “Critical Condition” (1986), tendo recebido o pedido do diretor para que refizesse uma cena, Pryor simplesmente não conseguia mover suas pernas e levantar-se de sua cadeira. Meses depois foi diagnosticado com esclerose múltipla. Nos últimos filmes que realizou com seu amigo Gene Wilder, o ator mal conseguia se locomover entre os cenários. Veio a falecer em 2005, após vários anos de sofrimento.


Gene Wilder
Em uma palavra: Ternura. O jovem judeu Jerome Silberman adotou seu nome artístico aos vinte e seis anos após já ter participado de algumas peças de teatro. O interesse pela arte nasceu aos oito anos, quando sua mãe estava de cama em estado grave e o médico lhe pediu que tentasse fazê-la sorrir. Muito tímido, desde jovem sofreu bullying por ser o único garoto judeu em sua escola militar. Mais tarde conheceu o diretor Mel Brooks, que na época era casado com Anne Bancroft, sua colega de peça na época, que lhe convidou a fazer o papel principal em seu filme: “Primavera para Hitler”. O jovem recebeu uma indicação ao Oscar como coadjuvante por sua brilhante atuação.

“Eu não gosto deste show business, eu amo o cinema e amo poder atuar para cinema”.

Seguiram-se muitos sucessos em sua carreira, como “A Fantástica Fábrica de Chocolates”, “Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo” e “O Jovem Frankenstein”, e Wilder se viu preparado para seu próximo passo: a direção. Ele roteirizou, dirigiu e atuou em “O Irmão Mais Esperto de Sherlock Holmes” (1975). Pouco tempo depois recebeu uma proposta de roteiro para uma comédia de ação e disse que só faria caso seu parceiro em cena fosse o então iniciante Richard Pryor. “Expresso de Chicago” fez um enorme sucesso e foi seguido por mais um projeto autoral do artista, chamado “O Maior Amante do Mundo”, onde emulava o clássico astro do cinema mudo: Rodolfo Valentino.

Em “Loucos de Dar Nó” (Stir Crazy – 1980) retomou sua parceria com Pryor, que passava por sérios problemas com o uso abusivo de cocaína. Todos os obstáculos que apareciam nas filmagens não impediram o sucesso da obra. Já “Cegos, Surdos e Loucos” e “Um sem Juízo, Outro sem Razão” foram recebidos pela crítica com menos simpatia. Havia nas telas o carisma da dupla, porém a mágica sofria com os problemas de saúde de Pryor. Após essas duas tentativas, Wilder parou de trabalhar com o cinema, se focando em participações na televisão, chegando a ganhar um prêmio Emmy por sua colaboração na série “Will e Grace”.


Richard e Gene

“Eu nunca havia improvisado no cinema, mas com Richard eu sempre improvisava. Não havia outra maneira com ele”.
(Gene Wilder)
Em uma palavra: Amor. Duas pessoas com trajetórias de vida e condutas radicalmente diferentes. Pryor, a metralhadora verbal inconsequente, e Wilder, o doce e amável judeu, não cultivavam grande amizade fora das telas, porém profissionalmente eles eram a dupla perfeita. Bastava colocar os dois em cena para que as improvisações começassem. Todos que os assistem notam como eles se divertiam gravando, como se respeitavam e pareciam se entender com uma troca de olhares. O sucesso nasceu de forma espontânea, a dupla não era artificialmente produzida pela fábrica de sonhos de Hollywood. Simplesmente atendiam ao desejo do público que pedia mais filmes com eles juntos. A mágica pode ser encontrada em seu ápice em: “Expresso de Chicago” (Silver Streak – 1976) e “Loucos de Dar Nó” (Stir Crazy – 1980). Nesses filmes pode-se presenciar a dupla em ótima forma e com roteiros de qualidade. Assistindo-os, bate saudade.

Hitchcock - Os 39 Degraus


Os 39 Degraus (The 39 Steps - 1935)
Richard Hannay (Robert Donat) é um canadense de férias na Inglaterra. Uma mulher desconhecida (Lucie Mannheim) pede sua ajuda, alegando ser uma espiã cuja vida corre perigo. Apesar de seus esforços, ela acaba assassinada, mas lhe entrega um mapa, murmura algo sobre os 39 degraus, e o pede que fuja. Depois de escapar de homens que o esperavam do lado de fora, Richard descobre que ele mesmo está sendo procurado pela polícia por assassinato, mas resolve seguir as pistas que a espiã lhe deixou para encontrar os verdadeiros assassinos e provar sua inocência.


Baseado livremente na obra do escocês John Buchan, o roteiro, escrito em parceria com Charles Bennett e Ian Hey (responsável pelos ótimos diálogos), insere um interesse romântico para o protagonista, elemento inexistente no livro original. A escolha suaviza o foco no thriller de espionagem, abrindo espaço para o diretor exercitar sua ironia ao potencializar a química entre o casal vivido por Robert Donat, o inocente injustiçado da vez, e Madeleine Carrol, elaborando deliciosos momentos de sutil erotismo. O filme também marca a primeira vez que o diretor utiliza o conceito do “MacGuffin”, simbolizado pelos planos secretos memorizados pelo “Sr. Memória”. E, como sempre, ele oferece ao menos um momento inovador tecnicamente, com o grito de uma mulher que é abafado pelo apito de um trem.

Uma obra-prima que não perdeu seu frescor, mantendo-se, como todos os bons filmes, intacta em seu fascínio e seu humor. Hitchcock foi o "Mestre do Suspense", muito graças à admiração de Truffaut, que o idolatrava, mas eu gosto particularmente de seu incrível senso de humor. Já nos primeiros oito minutos, uma demonstração clara dessa habilidade pouco exaltada do cineasta. O apresentador pede que a plateia pergunte qualquer dúvida para o genial "Sr. Memória" que está se apresentando no palco, no que um senhor insiste em perguntá-lo sobre as causas de uma doença que dá no bico de aves domésticas. Como não recebe uma resposta, ele continua perguntando, mesmo nas horas mais estapafúrdias, como quando uma confusão se instala no ambiente. A forma como o diretor trabalhou a montagem da cena, potencializa o aspecto cômico, continuando eficiente como no dia de sua estreia. 

Vale salientar a interação entre Donat e Carroll, nas cenas em que estão conectados por uma algema. O diretor, famoso por aprontar brincadeiras maldosas nos bastidores, algemou os dois alguns minutos antes de se preparar para rodar a cena, mas mentiu dizendo que havia perdido a chave. O casal passou horas acreditando estarem presos de verdade, enquanto o diretor sorria satisfeito, pois estava colocando-os no clima certo para a posterior gravação. Com pelo menos um memorável filme no currículo (o mudo "O Pensionista", de 1927), Hitchcock conseguiu com "Os 39 Degraus" o seu primeiro grande sucesso. Três anos depois ele faria o excelente "A Dama Oculta", ainda em sua terra natal, para depois ser abraçado pela América, com o sucesso de "Rebecca - A Mulher Inesquecível", em 1940.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

"Meu Amigo Totoro", de Hayao Miyazaki


Meu Amigo Totoro (Tonari no Totoro – 1988)
Esse filme me leva de volta à primeira infância. Recordo aqueles anos iniciais, antes das preocupações com o horário de ter que acordar e ir pra escola, quando escutar uma narração de um livro de contos de fadas representava realmente adentrar no colorido daquelas páginas, chegando a sentir até o sabor dos doces da casa da bruxa em João e Maria.

O mundo era empolgante e convivíamos com elementos mágicos, seres que se escondiam nas sombras e que, com sorte, instigavam os pais a elaborarem explicações fantásticas que estimulavam ainda mais a imaginação dos filhos. Como o pai de Mei e Satsuki, que numa das cenas mais bonitas, pede uma reverência ao ser que sua filha diz ter visto, chamando-o de “guardião da floresta” e afirmando que ele irá aparecer para ela quando ele assim o desejar. Os pequenos seres de fuligem que tomam conta de locais vazios e que fogem quando alguém sorri, fazendo alusão à solidão e ao pó que se acumula em locais onde a tristeza/depressão domina. O pai é um homem inteligente, culto, um sábio professor, mostrado sempre em seu escritório como uma ilha rodeada por vários livros. Ele as ensina a superar o medo do desconhecido através do incentivo ao lúdico, diferente de muitos pais irresponsáveis que ensinam o medo do lúdico como forma de não perderem tempo explicando para os filhos o desconhecido. 

Algumas cenas são representações fiéis da cultura comportamental do povo oriental, como os alunos que se preocupam em limpar suas salas de aula, antes de voltarem para suas casas, numa demonstração de respeito e valorização por aqueles que os ensinam e pelo local de aprendizado. Obviamente que uma obra tão sensível e inteligente só poderia nascer da mente de um representante desse povo dedicado ao constante autoaprimoramento pessoal. O diretor Hayao Miyazaki mostra às crianças que a natureza retribui em dobro o carinho que recebe, optando por escolher como símbolo o fofo Totoro, uma figura que encanta imediatamente o público alvo. É emocionante a amizade entre as irmãs, com a adorável caçula Mei imitando todos os gestos da mais velha, repetindo todas as suas palavras e querendo apenas ficar perto dela o maior tempo possível, ainda que seja compartilhando a mesa durante uma manhã de aula na escola. A forma como o roteiro enaltece a força da comunidade em que elas vivem, com todos se importando com o próximo e se ajudando, como a vovó e o pequeno Kanta, tímido sempre que encontra Satsuki.

Existe uma teoria sombria que defende que a trama teria origem num caso de suicídio ocorrido no Japão na década de sessenta e que os seres representariam anjos da morte, mas basta apenas um olhar mais atencioso para ver que os argumentos são pífios e não resistem a uma análise séria, além do fato do próprio estúdio negar oficialmente essa inspiração fúnebre. Os seres que as meninas enxergam são os mesmos que os adultos afirmam terem testemunhado quando crianças. A própria música-tema ressalta esse detalhe. Querer encontrar cinismo nesse roteiro, eu tenho certeza, reflete mais a personalidade torta de quem procura essas possíveis conexões. 

Em nenhum momento é revelada a enfermidade da mãe, o que importa é o impacto emocional nas crianças, já que é através dos olhos delas que enxergamos o filme. Miyazaki é autobiográfico, já que sua mãe passou anos no hospital com tuberculose quando era menino, conseguindo sobreviver e voltar para o convívio do lar, assim como a mãe das meninas. E é válido salientar que, diferente das animações infantis ocidentais, não é mostrado que os problemas são plenamente resolvidos ao final, preferindo apresentar para as crianças um mundo realista onde devemos aprender a lidar com os eventuais obstáculos, sabendo que a verdadeira felicidade pode residir no meio termo entre a angústia e a esperança de solução. 
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A distribuidora Versátil está lançando o filme em DVD e Blu-ray, restaurado e com vários extras.