sábado, 19 de abril de 2014

"O Evangelho Segundo São Mateus", de Pasolini


O Evangelho Segundo São Mateus (Il Vangelo Secondo Matteo – 1964)
A mulher que chora desesperada ao testemunhar a crucificação do filho, na cena mais bonita do filme, é a mãe do diretor Pier Paolo Pasolini. Seu filho caçula na vida real, um jovem idealista, havia sido assassinado em 1945 por titistas num conflito entre dois grupos de partigiani. O registro eterno de sua dor somente mantém sua contundência visual por resgatar uma emoção real. E o sentimento genuíno é abraçado pela usual opção do poeta/diretor pelo naturalismo, utilizando pessoas do povo no elenco, cujos rostos castigados são procurados pela câmera com o afã de um arqueólogo, como que buscando extrair de cada vinco a intenção que nenhuma linha de roteiro poderia criar.

O Jesus de Pasolini, convicto ateu, perturba os líderes de sua época, destruindo-os em longas batalhas argumentativas. Ele é corajoso, firme, porém terno, mas sempre consciente da força de seus atos. Em uma mudança de atitude radical, quando comparado a outros filmes no mesmo tema, o protagonista vivido pelo espanhol Enrique Irazoqui é um revolucionário desarmado que faz tremer mais por suas palavras do que por seus feitos miraculosos, que são filmados até com indiferença, como se ele os utilizasse apenas para capturar a atenção daquele povo ignorante, na esperança de fazê-los entender sua mensagem. E esse conceito realista se reflete no cenário escolhido pela produção. Quando analisamos o contexto do cinema italiano da época, com o sucesso dos extravagantes épicos “sandália e espada” realizados nos estúdios da Cinecittà, torna-se ainda mais ousada a opção do diretor por caminhar na contramão, apostando em um projeto rodado todo em locações reais, onde a dura ação do tempo cria um espetáculo visual de ruínas em labirínticas cidades.

O sermão da montanha, visualizado numa série de jump cuts, atravessando noite e dia, chuva e sol, nunca foi retratado de forma tão ideologicamente impactante. E impactar era o desejo principal do diretor, que escolheu unir em sua trilha sonora hinos tradicionais gospel, como “Sometimes i feel like a motherless child” (algumas vezes me sinto como um órfão), com instrumentos tribais africanos, na versão da Missa Latina. É interessante perceber o impacto que o breve encontro com o Papa João XXIII, dois anos antes, surtiu no autor ateu, que acabou dedicando a obra ao líder religioso. Sua escolha por manter fidelidade total ao texto do evangelho é parte da crítica que ele insere, já que isso realça em vários momentos o quão metafóricos são alguns dos eventos relatados. O roteiro evidencia o aspecto anárquico do homem que a História manipulou com interesses escusos. Ele expõe em seus discursos uma antítese do que os sacerdotes vêm realizando em seu nome ao longo dos séculos, com clara denúncia aos males de uma vida controlada por dogmas.

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O filme está sendo lançado pela distribuidora “Versátil” em DVD e Blu-ray, com imagens restauradas e extras espetaculares, como dois documentários sobre o diretor. Filme essencial na coleção de todo cinéfilo que se preze.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

TOP - Filmes Sobre Política (Parte 1 de 3)

Não é muito fácil estipular um mérito que identifique especificamente um filme político, já que a política é um elemento que move tramas dos mais diversos gêneros. “O Poderoso Chefão – Parte 2”, por exemplo, é profundamente político, mas devido à qualidade do projeto, ele acabaria sendo colocado numa posição de destaque, tomando a frente de obras mais identificáveis no contexto proposto pela lista. Ele não entrou na lista final. Então eu procurei ser o mais objetivo possível, organizando com base em meus favoritos, aqueles que eu revi e se mantiveram imperturbáveis à ação do tempo. Tentei abraçar vários gêneros e propostas, chegando a um total de vinte produções. Nessa primeira parte os comentários serão breves.

Esses são os meus favoritos:


20 – V de Vingança (V for Vendetta – 2005)
Na paisagem futurista de uma Inglaterra totalitária, o filme conta a história de uma pacata jovem que é resgatada de uma situação de vida e morte por um homem mascarado, conhecido apenas como “V”. Incomparavelmente carismático e extremamente habilidoso na arte do combate e destruição, ele inicia uma revolução quando convoca seus compatriotas a erguerem-se contra a tirania e opressão.

As máscaras de Guy Fawkes nas manifestações que tomaram o Brasil e o mundo de assalto no ano passado já bastariam para mensurar o impacto político da obra. O mérito é do escritor Alan Moore, responsável pelo original nos quadrinhos, mas é inegável que o filme levou o conceito para um público muito maior.


19 – Bananas (1971)
Fielding Mellish (Woody Allen) está apaixonado por Nancy, uma ativista política. Ela não o corresponde, porque deseja como companheiro um grande líder nacional. Fielding, então, foge para São Marcos, onde se alia aos rebeldes locais, tornando-se Presidente do País.

A metralhadora verborrágica e pantomímica de Woody Allen, em uma de suas obras iniciais mais engraçadas, se volta dessa vez para a política ditatorial da América do Sul, compondo o revolucionário cujo rosto verdadeiramente deveria estampar as camisetas dos jovens. 


18 – Frost/Nixon (2008)
Por três anos, depois de renunciar ao cargo de presidente dos Estados Unidos, Nixon permaneceu em silêncio. Mas, no verão de 1977, o rígido e perspicaz comandante-chefe deposto aceitou participar de uma entrevista intensa para confrontar as perguntas sobre seu tempo na Casa Branca e o escândalo do Watergate que o levou à renúncia. Nixon surpreendeu a todos ao selecionar Frost como o apresentador a quem iria confessar tudo com exclusividade. Da mesma forma, a equipe duvidava da habilidade de seu chefe para se segurar. Quando a câmera foi ligada, uma batalha entre os dois começou.

O diretor Ron Howard consegue captar a tensão crescente na histórica entrevista de Nixon ao subestimado David Frost. Um “jogo de xadrez” argumentativo de um homem experiente na arte da mentira e nos jogos políticos, enfrentando uma personalidade midiática sem muita respeitabilidade em sua área.


17 – Um Grito de Liberdade (Cry Freedom – 1987)
Nos anos 1970, apartheid na África do Sul, Donald Woods é um jornalista branco que se torna amigo de Stephen Biko, o importante militante pelos direitos dos negros. Quando Biko é morto na prisão em 1977, Woods percebe a necessidade de divulgar a história do ativista, a perseguição sofrida, a violência contra os negros e a crueldade do regime.

A direção meticulosa de Richard Attenborough em um dos melhores “filme-denúncia” da década de oitenta, resgatando a memória e os ideais pacifistas do ativista anti-apartheid Steve Biko, interpretado com maestria por Denzel Washington.


16 – Adorável Vagabundo (Meet John Doe – 1941)
Quando Henry Connell (James Gleason), seu editor, a demite, Ann Mitchell (Barbara Stanwyck), uma jornalista, publica sua última matéria, uma carta criada por ela e assinada por John Doe comunicando que cometerá suicídio no Natal em protesto contra corrupção e a pobreza, que invadem o país. Isto gera várias reportagens, nas quais Ann denuncia as injustiças sociais. Tal fato leva o jornal a procurar alguém para representar John Doe e o escolhido é Long John Willoughby (Gary Cooper), um vagabundo. Mas a popularidade de John cresce de tal maneira que os fatos saem do controle.

Uma poderosa crítica à política americana em pleno início da década de quarenta. Frank Capra discute o poder manipulativo da mídia, dez anos antes de “A Montanha dos Sete Abutres” (de Billy Wilder). Pioneiro em sua coragem, ainda que a obra mantenha o estilo esperançoso do diretor, especialmente em seu desfecho.


15 – A Confissão (L'Aveu – 1970)
Em um país comunista do Leste Europeu, Gerard, vice-ministro de Relações Exteriores, é inexplicavelmente preso por seus superiores. No interrogatório, o objetivo é lhe arrancar, a qualquer custo, a confissão de crimes pelos quais ele não tem a menor ideia de estar sendo acusado.

O filme inicia como um thriller político, com o protagonista percebendo estar sendo vigiado por estranhos onde quer que vá, mas assim que o herói Kafkiano (assim como em "O Processo", London se vê pagando um crime que desconhece que cometeu) inicia seu calvário, sendo algemado, vendado e forçado a caminhar em uma cela, o roteiro procura nos fazer sentir sua fome, sua sede e sua angústia por tentar conquistar alguns minutos de sono. Seus carrascos clamam por uma confissão. A forma como Costa-Gavras evidencia a cruel criatividade dos torturadores e a transformação física (e, ainda mais interessante, a psicológica) do protagonista, são os pontos altos da obra.


14 – Muito Além do Jardim (Being There – 1979)
Chance (Peter Sellers), um homem ingênuo, passa toda a sua vida cuidando de um jardim e vendo televisão, seu único contato com o mundo. Ele nunca entrou em um carro, não sabe ler ou escrever, não tem carteira de identidade, resumindo: não existe oficialmente. Quando seu patrão morre, é obrigado a deixar a casa em que sempre viveu e, acidentalmente, é atropelado pelo automóvel de Benjamin Rand (Melvyn Douglas), um grande magnata que se torna seu amigo e chega a apresentá-lo ao Presidente (Jack Warden). Curiosamente, tudo dito por Chance ou até mesmo o seu silêncio é considerado genial. 

Além de todos os momentos brilhantes no filme, nunca me esqueço da linda cena em que Chance deixa sua casa pela primeira vez, ao som de “Also Sprach Zarathustra”. Mas diferente da obra-prima de Kubrick “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, aquele homem puro e honesto estava prestes a estabelecer contato com uma raça evolutivamente inferior: políticos.


13 – Dr. Fantástico (Dr. Strangelove – 1964)
Um general completamente insano, Jack Ripper, ameaça, durante uma reunião entre nações, neutralizar a U.R.S.S. com bombas nucleares, o que poderia gerar um Holocausto fulminante na Terra. Todos os outros membros fazem de tudo para evitar. Entre eles está o genial ator Peter Sellers, que retrata três das pessoas que podem impedir a tragédia: o Capitão britânico Mandrake, o presidente norte-americano Merkin Muffley e o alemão bêbado Dr. Fantástico.

Stanley Kubrick audacioso no auge da Guerra Fria, com a inesquecível cena do cowboy montado na ogiva nuclear, símbolo precioso da ideologia política americana. Impossível esquecer a clássica frase: “Vocês não podem brigar aqui. Isso é uma Sala de Guerra”.


12 – A Queda – As Últimas Horas de Hitler (Der Untergang – 2004)
Traudl Junge (Alexandra Maria Lara) trabalhava como secretária de Adolf Hitler (Bruno Ganz) durante a 2ª Guerra Mundial. Ela narra os últimos dias do líder alemão, que estava confinado em um quarto de segurança máxima.

O filme nos coloca na mente do ditador, refletindo o colapso do sistema político em suas ações cada vez mais intempestivas. Um ótimo retrato de como os partidos e nações inteiras podem confundir ufanismo com discurso e guerra com ação política.


11 – O Grande Ditador (The Great Dictator – 1940)
Em meio a Segunda Grande Guerra Mundial, judeus estavam sendo esmagados pelo preconceito alemão. Chaplin, genialmente, interpreta os dois protagonistas da história: o ditador Adenoid Hynkel (numa clara referência a Hitler) e o barbeiro Judeu.

Somente o discurso final de Chaplin já serviria como mérito para a inclusão do filme na lista. O gesto político mais sincero e contundente já filmado na história do cinema, nascido da angústia de um artista apaixonadamente íntegro perante uma sociedade cada vez mais corrompida. 

Continua...

quarta-feira, 9 de abril de 2014

TOP - Comédias Sexuais Adolescentes (Parte 1 de 2)

Como era maravilhoso ser adolescente na década de oitenta. Quem viveu a época, sabe a sensação de ligar a televisão de tarde, após uma manhã estafante na escola, e escutar aquela trilha sonora eletrônica característica, que sempre emoldurava altas paqueras em Fort Lauderdale e Miami Beach. Aquelas belas garotas de biquíni e a consequente nudez eventual, que torcíamos para que ocorresse com mais frequência. Morríamos de rir com as tentativas desastradas dos rapazes, sem nos preocuparmos com a pobreza dos roteiros. Estávamos num estágio anterior aos “Emmanuelle’s” das madrugadas da Rede Bandeirantes, sendo presenteados de vez em quando pelas pornochanchadas nacionais que o SBT exibia nas noites de Domingo, como a inesquecível “Clara das Neves” vivida por Adele Fátima. Não tínhamos internet, nem TV a cabo. As comédias sexuais adolescentes eram verdadeiros eventos quando eram exibidas nas tardes, forçando-nos a atrasar a entrega dos deveres de casa do dia seguinte. Maldito “politicamente correto”.

Pensando nessa época maravilhosa, passei alguns dias revendo vários filmes do gênero. Alguns que eu achava muito bons outrora, como “Clube dos Cafajestes”, “Primavera na Pele”, “A Vingança dos Nerds” e “Uma Escola Muito Especial, Para Garotas”, perderam pontos nessa revisão. “O Último Americano Virgem”, uma cópia exata do israelense “Sorvete de Limão” (de 1978), dirigido pelo mesmo Boaz Davidson, foi outro que não sobreviveu tão bem ao teste do tempo. Alguns eu considerei limpos demais, como “Namorada de Aluguel” e “Loverboy”, o que resultou na exclusão deles do TOP 10, ainda que tenham ocupado posições próximas. Os que eu selecionei possuem elementos característicos, como certa grosseria no humor, audácia e sensualidade. E, claro, são garantia de um ótimo entretenimento, tão divertidos hoje quanto na época em que eu os assistia com o uniforme da escola.

Esses são os meus favoritos:


10 – As Patricinhas de Beverly Hills (Clueless – 1995)
Em Beverly Hills, uma adolescente, filha de um advogado muito rico, passa seu tempo em conversas fúteis e fazendo compras com amigas totalmente alienadas como ela. Mas a chegada do enteado de seu pai muda tudo, primeiro por ele criticá-la de não tomar conhecimento com o "mundo real" e em segundo lugar por ela descobrir que está apaixonada por ele.


Normalmente os filmes do gênero se focam nas aventuras dos rapazes, então é válido celebrar o esperto roteiro de Amy Heckerling, que emula a sensibilidade de John Hughes ao retratar as angústias adolescentes femininas. O filme capta com perfeição a juventude consumista da década de noventa. Alicia Silverstone encarna a alienação da geração que recebia todos os cartões de crédito, mas carecia da atenção de seus pais. Uma legião de zumbis que peregrinavam diariamente aos Shopping Centers, com trejeitos e expressões calculadas e padronizadas.


9 – A Última Festa de Solteiro (Bachelor Party – 1984)
Rick Gasko, um motorista de ônibus escolar, está a ponto de se casar com Deborah Julie Thompson. Os pais dela o odeiam e o ex-namorado dela também, assim, usando o dinheiro que eles têm, planeja criar uma situação que faça com que Debbie, desista de Rick. Para complicar ainda mais, os amigos dele resolvem promover uma despedida de solteiro que, como todas as despedidas de solteiro, é em um hotel caro, com muita bebida, prostitutas e filmes pornográficos.


Já na primeira sequência, onde acompanhamos Tom Hanks dirigindo o ônibus escolar católico mais politicamente incorreto da cidade, percebemos estar diante de um roteiro audacioso. Sem concessões, as piadas grosseiras vão num crescendo, correndo riscos e sendo amparadas pela química do elenco. “Se Beber, não Case”, filho legítimo desse projeto, mesmo tendo sido realizado décadas depois, não consegue superar essa pequena gema em seu gênero.


8 – American Pie (1999)
A história de quatro amigos adolescentes que firmam um pacto totalmente "nerd" semanas antes de se formarem no ginásio. Segundo esse pacto, todos eles deveriam transar com alguma mulher antes de se formarem, ou até exatamente a noite de formatura. 


Após várias sequências fracas, muitas para o mercado de vídeo, podemos cometer o erro de banalizar a importância dessa comédia de baixo orçamento. Mas basta analisá-la em contexto, para constatarmos que o sucesso dela foi crucial no interesse dos produtores em resgatar a “comédia sexual adolescente”, que estava em coma durante a década de noventa. Sem “American Pie”, com certeza não teriam recebido sinal verde as comédias de Judd Apatow. O projeto também redirecionou a carreira de Eugene Levy (que vive o pai do protagonista), um excelente comediante que nunca havia sido realmente abraçado pelo grande público. Jason Biggs chegou a interpretar o protagonista de “Igual a Tudo na Vida”, sob a direção de Woody Allen. O filme serviu como uma nostálgica homenagem à fórmula, com uma ternura poucas vezes vista no gênero.


7 – Férias da Pesada (Fraternity Vacation – 1985)
Durante um feriado, dois jovens vão à caça de garotas em Palm Springs, eles levam o último dos nerds, Wendell, somente porque seus pais pagariam toda a viagem. 


Também conhecido como “A Primeira Transa de Um Nerd” e “Quando a Turma Sai de Férias”, esse eu perdi a conta de quantas vezes assisti quando adolescente. Eu me identificava demais com o personagem nerd vivido por Stephen Geoffreys (que fez “A Hora do Espanto” e, anos depois, virou ator pornô homossexual), mas não tinha amigos populares bacanas como os dele. É legal perceber a presença, numa ponta, do Sr. Tanner da série “Alf – O ETeimoso”, Max Wright, como o pai do jovem nerd. Tim Robbins, antes da fama por “Um Sonho de Liberdade”, interpreta um dos amigos do garoto. Dentre as cenas que continuam muito engraçadas, vale ressaltar o encontro do nerd com os pais de sua primeira namorada, vivida por Amanda Bearse (de “A Hora do Espanto” e da série “Married With Children”), além do hilário momento em que os dois rapazes populares se preparam para dividirem a cama com duas beldades, Barbara Crampton e Kathleen Kinmont. Existiam outros filmes do gênero melhores, mas nutro um carinho especial por esse, talvez porque naquela época eu sonhava que aparecesse alguma garota na turma como a belíssima Sheree J. Wilson, que visse além dos óculos e da timidez desajeitada do nerd.  


6 – Mulher Nota Mil (Weird Science – 1985)
Gary Wallace e Wyatt Donnelly são dois adolescentes nada populares com o sexo oposto. Eles resolvem criar no computador de Wyatt, a mulher que eles acreditam ser a ideal. Uma tempestade dá vida a ela, que é "batizada" como Lisa, que é sexy, bonita, determinada, fiel aos seus criadores, mas com um modo de ser que deixa desconcertados todos que cruzam o seu caminho.


Não podia faltar na lista uma obra do mestre John Hughes, ainda que seus projetos fossem refinados demais para o que estávamos acostumados no gênero. O roteiro falava diretamente ao desejo de cada adolescente introvertido, mostrando dois garotos criando no computador a mulher ideal, com a sensualidade absurda de Kelly LeBrock, que já havia desconcertado Gene Wilder em “A Dama de Vermelho”, no ano anterior. Como era característico, não podia faltar na trilha sonora uma contribuição do Oingo Boingo, gênese de Danny Elfman, parceiro constante de Tim Burton. A grande tirada do filme é a Lisa, desajustada na sociedade (como o monstro de Frankenstein), ajudando os garotos a serem respeitados por seus colegas. E é bacana encontrar, numa ponta, um jovem Robert Downey Jr. Mas a cena que lembro, sempre que penso no filme, é aquela em que os dois garotos (Anthony Michael Hall e Ilan Mitchell-Smith) estão tomando banho com Lisa. Todos os garotos da turma, no dia seguinte, só falavam nisso...

Continua...

terça-feira, 8 de abril de 2014

Razzle Dazzle - "The Rocky Horror Picture Show"


The Rocky Horror Picture Show (1975)

“Não sonhe, seja!”

Sempre que revejo o filme eu fico surpreso com a audácia do roteiro de Richard O’Brien (que interpreta o corcunda Riff Raff), seu desprezo por todas as convenções dos gêneros que homenageia, como os filmes B de ficção científica e terror, resultando em uma experiência sensorial única. Você pode terminar a sessão sem ter entendido absolutamente nada, confuso como se tivesse sido acordado de um sonho exótico.

E acredito que seja essa sensação de desorientação que defina o projeto, mais do que a qualidade questionável de suas canções ou o subtexto que confronta o glam rock de músicos como David Bowie, com os roqueiros da década de cinquenta, com brilhantina nos cabelos e certa ingenuidade em sua rebeldia. A cena em que Frank N’ Furter, vivido por Tim Curry, persegue o personagem de Meat Loaf com um machado, expressa sem sutileza alguma essa simbologia da “passagem de bastão”. Eddie, com sua jaqueta de couro, topete e motocicleta, havia sido liberado de sua criogenia por acidente, deslocado nesse novo mundo, mas acaba encontrando a morte pelas mãos de Frank. Como se já não bastasse esse desfecho sangrento para o intérprete de “Hot Patootie – Bless My Soul”, seu corpo ainda servirá de alimento no jantar. Uma curiosidade interessante é que nessa cena, nenhum dos atores sabia que o corpo estava escondido abaixo do pano da mesa, fazendo com que eles reagissem naturalmente assustados no momento da revelação.  

De certa forma, podemos enxergar essa obra como uma versão sem metáforas de praticamente todos os grandes clássicos de terror. Em “Drácula”, por exemplo, o ato de sugar o sangue servia como uma metáfora para o ato sexual. Seguindo esse raciocínio, podemos imaginar o casal extremamente ingênuo formado por Brad (Barry Bostwick) e Janet (Susan Sarandon), como sendo representativos daquela sociedade reprimida em que “Drácula” foi elaborado. Frank e seus amigos representam o elemento liberador, polissexual. Na época em que foi lançado, o preconceito aos homossexuais e sua busca por direitos era um problema social grave, assim como a repressão sexual nas mulheres em uma sociedade machista. Imaginem vocês o impacto de cenas corajosas como a de Curry revelando-se como um “sweet transvestite” (doce travesti) ou o encontro de Janet com a marombada criatura da noite, vivida por Peter Hinwood, onde ela se mostra feliz por finalmente aceitar seus desejos lascivos.

Como não rir nas cenas em que Curry, impagável, ilude o casal para que passem a noite com ele? Ambos, após descobrirem a real identidade do visitante noturno, acabam aceitando a sedução, mas somente após Frank prometer não contar nada para aquele que está sendo traído. Nessa brincadeira, o roteiro aponta o dedo para a hipocrisia humana e questiona o conceito de imoralidade. E, chegando ao final, percebemos que o radicalismo também cobra seu preço, quando todos os personagens acabam sendo padronizados à semelhança de seu “criador”, que alcançou um estado incontrolável de decadência. Claro, tudo isso em uma cena que remete aos musicais de Busby Berkeley, com Frank numa piscina simbolicamente se posicionando como a ligação entre “Deus” e o Homem, sobre uma boia salva vidas do RMS Titanic. Ao final, Brad e Janet irão renascer livres de seus preconceitos e medos, sendo reinseridos na sociedade como bebês engatinhando com dificuldade.

Acompanhe as instruções do criminologista (Charles Gray) e faça o “Time Warp”, sempre que o mundo parecer chato demais. 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Faces do Medo - "A Noite dos Mortos-Vivos" (1968)


A Noite dos Mortos-Vivos (Night of The Living Dead – 1968)
Existem filmes sobre zumbis que precedem a obra seminal de George Romero, como “A Epidemia de Zumbis”, de 1966, mas um dos motivos que tornaram “A Noite dos Mortos-Vivos” (e suas sequências), ao longo do tempo, mais do que um produto de seu gênero, foi sua utilização do tema como metáfora para problemas sociais, como o racismo. Não é por acaso que a trama se passa em uma cidade sulista americana.

Lançado pouco tempo depois do assassinato de Martin Luther King, no intenso fogo cruzado racial em uma América que ainda dividia a utilização de banheiros públicos pela cor da pele, o filme era protagonizado por Duane Jones, um negro. Sua apresentação, por volta dos quinze minutos de filme, insinua esse elemento ideológico. Desesperada, a jovem Barbra (Judith O’Dea) percebe que os zumbis estão se aproximando da casa, então ela corre para fora do local, assustando-se então com as luzes do carro que se aproxima. A câmera nos apresenta Ben (Jones) no mesmo ângulo utilizado para enquadrar os zumbis. Por alguns segundos, assim como a jovem, somos levados a crer que ele é um dos mortos-vivos.


Negros no cinema americano, até aquele momento, haviam sido utilizados com destaque apenas em projetos que abordavam exatamente o tema racial. Com exceção talvez de “O Caso Bedford” (de 1965), com Sidney Poitier. No próprio gênero, como em “Zumbi Branco” (de 1932) ou “Ouanga” (de 1936), os negros eram utilizados como escravos zumbis ou feiticeiros malignos praticantes de Vodu. A ousadia de Romero, indo contrário ao roteiro, que tratava Ben (caucasiano) como um estereótipo, foi permitir que Jones retrabalhasse os diálogos, inserindo atitude e tornando o personagem narrativamente mais interessante, um homem comum que simplesmente reage por instinto de sobrevivência. Ele compôs inconscientemente um amálgama do orgulho do Virgil Tibbs de “No Calor da Noite” com a agressividade dos heróis da posterior era “Blaxploitation”. Em uma situação de pânico da jovem, ele chega a agredi-la sem pensar duas vezes, numa atitude que seria comum em “Shaft” ou “Super Fly”, mas um risco tremendo em sua época. Sua morte ao final, sendo abatido friamente por engano, acentua ainda mais esse discurso.

Os zumbis hoje em dia são parte inerente da cultura popular, utilizados generosamente em todas as mídias. A qualidade da maquiagem está cada vez melhor e eles até correm, cada vez mais ameaçadores. Mas não acredito que essas produções serão lembradas no futuro, pois carecem do elemento da metáfora. A crítica ao consumo exacerbado em “O Despertar dos Mortos” e ao militarismo em “Dia dos Mortos”, foram negligenciadas nas suas respectivas refilmagens, que priorizaram o puro entretenimento. É muito bom revisitar a obra original de Romero e constatar sua coragem, ao mesmo tempo em que refletimos se não nos tornamos exatamente os zumbis alienados que ele vislumbrava. O apocalipse zumbi, ao que tudo indica, já está ocorrendo...
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A excelente editora “Darkside Books” está lançando uma obra imperdível para os fãs do cinema de terror, a novelização de “A Noite dos Mortos-Vivos”, escrita por John Russo, com a adição do texto integral da continuação do filme, que não chegou a ser filmada, intitulada: “A Volta dos Mortos-Vivos” (sem ligação com o “terrir” homônimo). Acabamento em capa dura, com o refinamento já conhecido pelos leitores da editora. Item obrigatório na coleção de qualquer cinéfilo.