quarta-feira, 12 de março de 2014

O Cinema de Ozu - "Pai e Filha"

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Pai e Filha (Banshun - 1949)
Dizem que os dias do casamento é o dia mais feliz da vida de uma mulher, mas Noriko será a noiva mais triste do mundo. Em Pai e Filha, a moça se depara com tradições irrefragáveis e, com isso, é obrigada a fazer algo que não deseja. A vida tranquila que tem ao lado do seu pai, de quem cuida desde a morte da mãe, vira motivo de preocupação entre seus amigos e familiares.


Este é daqueles filmes em que o real impacto que causa, será sentido somente após o seu fim. Você irá passar alguns dias remoendo o que assistiu e com sorte, esta experiência ajudará a redefinir a maneira como vê a vida. Mesmo preferindo as filmografias de Akira Kurosawa e Kenji Mizoguchi, acredito que a real essência, tradição e filosofia do povo japonês estão no trabalho de Yasujiro Ozu. Seu estilo marcado pelo uso constante da câmera baixa evidencia que se os olhos da câmera representam os nossos, estamos em constante admiração, curvados em sinal de respeito, tal qual o próprio artesão de sua obra. Mas além da técnica belíssima, somos brindados com uma história simples e repleta de informações implícitas, que enriquecem a narrativa. Os personagens mentem constantemente, inclusive para si mesmos, e buscam andar na contra mão de suas tradições. A sociedade japonesa da época ditava que as jovens mulheres deveriam casar após certa idade, porém a bela Noriko (Setsuko Hara) não consegue se imaginar fazendo outra coisa senão cuidar de seu querido e viúvo pai (Chishu Ryu). Será preciso que ambos se sacrifiquem para que sejam vistos pela sociedade com apreço.

Óbvio que não irei cometer a heresia de estragar a experiência dos que ainda não assistiram, mas preciso salientar uma cena que considero importante. Durante o filme, Ozu nos apresenta momentos que realçam o leitmotiv da obra: o desejo de Noriko em se manter no conforto de seu lar e o desejo de seu pai em libertá-la, mesmo a contragosto, de seus braços seguros. O ápice deste confronto ideológico e passional se vê alicerçado em uma sutil citação a Nietzsche. Pouco antes de partirem em uma viagem melancólica, pai e filha conversam enquanto preparam suas malas. Noriko triste e resignada então diz: "Pai, eu quero estar sempre ao seu lado". Ozu então faz com que neste exato momento, o pai se prepare para guardar na mala o livro "Assim falou Zarathustra" (Nietzsche) e como que, inspirado por ele, toma coragem e discursa longamente sobre as razões pelas quais sua filha precisa seguir em frente e se casar, deixar sua companhia e através de um processo contínuo de superação, tornar-se uma variação do Ubermensch (homem superior) descrito no livro do filósofo alemão. Os valores passados nessa cena ecoam em quem assiste, por uma vida inteira. 

sexta-feira, 7 de março de 2014

Cine Bueller - "Os Goonies"


Os Goonies (The Goonies – 1985)
Uma das primeiras coisas que notamos ao revisitar o filme nesses tempos medíocres da ditadura do “politicamente correto” é sua coragem. Só na primeira meia-hora já somos levados às gargalhadas com pelo menos dois momentos impagáveis, que nunca teriam sobrevivido na pós-produção de um projeto infanto-juvenil “mainstream” atual. A tentativa desastrada de consertar uma pequena estátua do Davi de Michelangelo quebrada, resultando em uma hilária “ereção”, o que leva uma das crianças a reclamar: “Era a parte favorita da minha mãe”. Piada fantástica que passa batida pela percepção do público infantil, num dos vários exemplos de inteligência do roteiro. E o que dizer dos conselhos do pequeno Corey Feldman à empregada latina? Fingindo traduzir as regras da patroa, o roteiro (de Chris Columbus, baseado em história de Steven Spielberg) faz o menino defender um diálogo que menciona maconha, heroína e cocaína, escandalizando a pobre mulher. Parece bobeira, mas duvido que um produtor se arrisque da mesma forma hoje em dia. Mas não é só a coragem que engrandece esse filme. Mesmo excluindo o fator da nostalgia de quem assistiu quando criança, ele ainda se sustenta incrivelmente bem como um entretenimento emocionante, mérito especial do versátil diretor Richard Donner.


Não conheço nenhum outro filme infanto-juvenil que trabalhe tão bem o tema clássico do companheirismo e do trabalho em equipe. Quando somos crianças, conceitos como honra e lealdade são prioridades. A pena é que crescemos e, em muitos casos, a ambição acaba atuando contra o caráter. O grupo que assistimos compartilha uma amizade crível, ainda que ele seja encaminhado para uma odisseia fantasiosa. Ao longo do filme, nossa criança interior acaba se sentindo parte da equipe. Quem não desejou ter um pai como o do pequeno inventor Data (Ke Huy Quan), que numa cena especialmente emocionante afirma que o menino havia sido sua melhor invenção? E quem não formou na infância um grupo como os “Goonies”? Não procurávamos tesouros de piratas, mas fazíamos de pequenos e insignificantes eventos, espetaculares aventuras. Ao final do dia, tanto eles quanto nós descobrimos que o mais importante na vida não é encontrar o “tesouro”, mas os percalços da jornada. E acima de tudo, os laços de amizade. O objetivo principal dos garotos era salvar o lar, o local onde eles compartilharam sonhos e frustrações, sorrisos e lágrimas; o símbolo máximo do amor que cada indivíduo da equipe nutre pelos amigos e pelo ideal em comum. Evitando a separação, agarram-se aos sonhos da infância, como bem representado no lindo abraço coletivo no desfecho na praia. Melancólicos, assistem à distância o símbolo de tudo o que irão gradativamente perder com a maturidade.

Normalmente os textos que abordam o filme focam no grupo de aventureiros, mas o elemento que sempre me leva de volta no tempo é Sloth (John Matuszak). O arco narrativo dele é fascinante. Inicialmente mostrado como um enigma monstruoso a ser temido, acaba se revelando um sonhador gentil. Preso e afastado de qualquer ser humano, sua única forma de interagir é pelo entretenimento que assiste na televisão. Como é bonito constatar que ele veste uma camiseta do “Superman”, um símbolo de valores íntegros, como se o personagem fosse o responsável lúdico pela preservação de sua sanidade enquanto prisioneiro maltratado. A Arte como ferramenta que inspira e reforça o caráter. Uma criança pura em um corpo bruto e deformado, que encontrará identificação imediata no desejo exploratório das crianças. Ele se torna um herói por encontrar no sorriso sincero dos “Goonies” o reflexo da criança que ele poderia ter sido.

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A excelente editora “Darkside Books” está relançando a novelização de James Kahn em edição comemorativa de 30 anos, com um belo mapa/pôster exclusivo. Acabamento em capa dura e selo dourado hot stamp. Item obrigatório na coleção de qualquer cinéfilo.

quinta-feira, 6 de março de 2014

"The Voice" em Hollywood


Frank Sinatra começou em Hollywood utilizando sua imensa popularidade como crooner da orquestra de Tommy Dorsey, na década de quarenta, em produções modestas (chanchadas) dos estúdios RKO, como “Noites de Rumba” (1941) e “Barulho a Bordo” (1942). Após afastar-se da orquestra e iniciar seu trabalho solo, continuou buscando aperfeiçoar-se como ator. Vale destacar nesse período inicial a sua participação no musical: “Quando as Nuvens Passam” (1946), cantando a emocionante “Ol´ Man River” de Jerome Kern e Oscar Hammerstein. O primeiro filme em que teve a oportunidade de construir um personagem foi o divertido musical “Marujos do Amor” (1945), onde fazia dupla com Gene Kelly. Seguindo o mesmo molde, vieram produções que se alternavam entre o tolo/divertido (caso de “A Bela Ditadora”) e o medíocre/embaraçoso (caso de “Beijou-me um Bandido”). A obra que simbolizaria essa época: “Um Dia em Nova York” (1949), ainda mantém certo charme, mas talvez tenha sido, dentre os filmes dirigidos por Stanley Donen em sua fase inicial, aquele que envelheceu pior. Musicalmente, o final da década de quarenta estava sendo desolador para o cantor, que via suas canções despencando nas paradas de sucesso. Muitos acreditavam que sua carreira estava acabada.

A década de cinquenta representou o período em que Sinatra ressurgiu, demonstrando extrema ousadia e coragem. Diferente de Elvis Presley, que tinha um empresário ganancioso que limitava suas escolhas cinematográficas a produções sem ambição, veículos para sua carreira musical, Sinatra estava livre para decidir seu rumo na indústria. Em “Double Dynamite” (1951), contracenava com Jane Russel e Groucho Marx. Na gema noir esquecida “Meet Danny Wilson” (1952), ele interpreta um personagem quase autobiográfico. No ano seguinte, como coadjuvante no belo “A Um Passo da Eternidade” (From Here to Eternity), recebeu um Oscar (entre os concorrentes, estava Jack Palance) e tornou-se novamente interessante para os produtores, que voltaram a apostar em seu nome nos letreiros luminosos. Em “Meu Ofício é Matar” (Suddenly – 1954) ele realiza aquela que considero sua melhor interpretação: um sociopata que decide assassinar o presidente dos Estados Unidos, atirando de uma janela com um fuzil de precisão. Quando o presidente Kennedy foi vítima de algo similar anos depois, o cantor demonstraria seu arrependimento por ter participado da obra (existe um boato mentiroso, que afirma que ele teria impedido a exibição posterior do filme), que o assassino Lee Harvey Oswald afirmou ter assistido um dia antes de cometer o crime. O único vilão que Sinatra interpretou no cinema, numa caracterização ambígua e corajosa que apontava seu interesse em expandir os horizontes de sua carreira como ator, infelizmente perdida em meio a uma corrente de infortúnios. Após alguns musicais ingênuos, ele novamente viria a demonstrar seu talento em “O Homem do Braço de Ouro” (1955), dirigido pelo genial Otto Preminger. Como um viciado em heroína, recebeu sua segunda indicação ao Oscar, mas dessa vez o felizardo foi Ernest Borgnine, por “Marty”. O filme possui vários problemas no roteiro (personagens secundários pifiamente construídos, por exemplo), mas a atuação de Frank é impecável. Brincadeiras refinadas como “Alta Sociedade”, em que contracenava com Bing Crosby e Grace Kelly, e “Meus Dois Carinhos” ancoravam-se numa fórmula de sucesso, mas somente administravam a persona do cantor, nunca a aprimoravam. No final da década ele começou a incluir seus amigos, que formavam a sociedade informal popularmente conhecida como “Rat Pack”, em suas produções, como Dean Martin e Shirley MacLaine em “Deus Sabe Quanto Amei” e Peter Lawford em “Quando Explodem as Paixões”.

“Onze Homens e Um Segredo” (Ocean´s Eleven – 1960) é o símbolo da parceria entre os membros do “Rat Pack”, que incluía Sammy Davis Jr. e Joey Bishop. Entre momentos bem engendrados, como o último ato, e outros menos inspirados, o que mantém o charme da produção é o clima de camaradagem que exala em cada cena. Os anos seguintes foram de experimentação para o astro, que chegou a dirigir (e estrelar) o bom filme de guerra: “Ninguém foi Tão Valente” (1965). Chegou a contracenar com medalhões como Spencer Tracy (no fraco “A Hora do Diabo”) e Lee J. Cobb (no mais fraco ainda “Come Blow Your Horn”). Enquanto considero o já citado “Meu Ofício é Matar” como sua melhor interpretação, “Sob o Domínio do Mal” (The Manchurian Candidate – 1962) é seu melhor filme. Dirigido por John Frankenheimer, Sinatra novamente tocou em um tema espinhoso, vivendo um herói militar que retorna para casa após a guerra, somente para perceber que foi usado em uma trama de espionagem, onde por meio de hipnose foi levado a assassinar até mesmo membros de seu próprio pelotão. Na segunda metade da década de sessenta, protagonizou alguns bons filmes de suspense, como “Tony Rome” e “The Detective”. Ele retornou de forma elegante após longos anos no fraco drama “The First Deadly Sin” (1980), onde contracenava com a bela Faye Dunaway.

Sinatra será sempre lembrado por sua brilhante carreira musical, poucos realmente dão o valor merecido à sua carreira cinematográfica, que é rica. Ele vivia depreciando seus méritos como ator, mas basta um olhar atento ao seu conjunto de obra para notarmos que, em sua versatilidade, ele abraçava personagens dos mais variados, sempre entregando algo correto e elegante.

Fascinante "La Traviata"


Sou apaixonado por óperas desde criança, tinha por hábito escutá-las em antigos LPs. A música clássica sempre me fascinou, cantava árias no primário para as professoras. Com o passar dos anos fui estudando mais sobre o tema e hoje possuo uma pequena coleção de CDs. A tecnologia mudou, mas a sensação que aquelas músicas me traziam continuam as mesmas. Imaginem a satisfação que sinto ao unir duas paixões, a música clássica e o cinema. Gosto das clássicas operetas de Nelson Eddy e Jeanette MacDonald (especialmente “Primavera” de 1937) e de alguns filmes que tentam transpor o encantamento único de um espetáculo para a linguagem cinematográfica. Claro que nem sempre esta adaptação se faz de maneira graciosa, porém o filme que venho lhes indicar hoje é o melhor exemplo de que é possível manter a essência (mesmo que cortando diversas repetições musicais usuais) e popularizar o conteúdo.

O italiano Franco Zeffirelli antes de se tornar um cineasta, trabalhava intensamente com montagens de óperas, como cenógrafo. Nos anos oitenta, já tendo alcançado fama com filmes como “Romeu e Julieta” (1968) e o lacrimoso “O Campeão” (1979), começou a transpor óperas para o cinema. Dentre todas que realizou, a minha favorita é “La Traviata” (1982). A trama é uma adaptação de “A Dama das Camélias” (do filho homônimo de Alexandre Dumas), com Teresa Stratas no papel da trágica cortesã Violetta, que chama a atenção do nobre Alfredo Germont (vivido por Plácido Domingo) em uma festa. Os eventos trágicos que se sucedem já são conhecidos por grande parte dos jovens cinéfilos, fãs (como eu) do filme “Moulin Rouge” de Baz Luhrmann, já que o cineasta australiano prestou uma bela homenagem, com Nicole Kidman e Ewan McGregor emulando os dilemas do casal da inesquecível ópera de Giuseppe Verdi.

O filme de Zeffirelli é feito para todos aqueles que acreditam não apreciar ópera. Logo em seu início, ele estabelece o clima perfeito (sem utilizar a música de Verdi) para que sejamos apresentados ao mundo dos personagens. Um jovem perambula por uma decrépita mansão e se apaixona à primeira vista pelo retrato pintado de uma jovem Violetta, para logo após descobri-la exaurida e moribunda. O apreço do jovem parece resgatar a autoestima da mulher, que (em um lindo corte de cena) vê-se transportada a seu passado, ao dia da festa em que encontrou pela primeira vez o seu amado Germont. O primeiro ato se inicia e já estamos completamente aclimatados ao ritmo operístico e ao fascinante lirismo.

Infelizmente este filme ainda não foi lançado em DVD por aqui, mas graças às facilidades tecnológicas modernas, não existe ouro que não possa ser garimpado por aqueles que realmente o ambicionem. Como sempre digo, nos dias de hoje, mediocridade é uma questão de escolha.

James Stewart


Celebro a arte de um artista único em sua área, alguém que conseguiu em vida representar as facetas mais nobres do ser humano: James Stewart. Ele foi considerado por seus colegas na indústria como a epítome da elegância. Sua natureza era genuinamente íntegra, levando-o a não se furtar de expor suas opiniões, suas verdades, mesmo quando havia grande chance de que elas caminhassem contra o senso da maioria. Falava abertamente contra o processo de colorização de filmes clássicos, algo interessante para a indústria, durante a década de oitenta, como uma forma de protestar contra o que considerava uma falta de respeito com os profissionais que haviam trabalhado naquelas obras. Amava especialmente, dentre todos os seus papéis, o que interpretou no belo “A Felicidade não se Compra” (It´s a Wonderful Life – 1946) de Frank Capra. O personagem que ele defende neste clássico e em outro do mesmo diretor: “A Mulher Faz o Homem” (Mr. Smith Goes to Washington – 1939), podem ser considerados reflexos fiéis de sua conduta em vida. Seja o generoso George Bailey, ou o corajoso Jefferson Smith, ambos se arriscam a perder a sanidade, mas não admitem que seus valores tombem ou sequer se curvem perante o que consideram errado.

Quando recebeu o prêmio honorário por sua carreira no Oscar de 1985, afirmou visivelmente emocionado: “o maior prêmio que já recebi, foi perceber que mesmo após todos estes longos anos, eu não fui esquecido”. A plateia, composta por membros da nova geração e por velhos colegas dele, não conteve a emoção e recebeu-o de pé, aplaudindo-o entusiasticamente por longos dez minutos. Hoje em dia essas cerimônias e a própria indústria encontram-se tão artificiais que situações como essas não voltarão a ocorrer, porém, houve uma época em que maior valor era dado aos artistas que subiam ao palco, do que ao tempo de seus discursos. Os membros da plateia também reagiam emocionalmente, preocupando-se menos em como iriam aparecer quando as câmeras os focalizassem. Ídolos que hoje são feitos de barro, mais preocupados com o lobby do tapete vermelho do que com a real função dessas premiações: reverenciar de forma justa o trabalho dos colegas. A forma como Cary Grant se referiu a ele, enquanto chamava-o ao palco, já explicita o sentimento que o homenageado de hoje conquistou: “um homem que todos nós amamos, respeitamos e admiramos”. Não existe forma mais digna de se chegar ao crepúsculo de uma vida.

Stewart me fez acreditar em Jefferson Smith quando assisti pela primeira vez, ainda na pré-adolescência. Não somente ele me inspira de forma lúdica, como vivo mediante o mesmo código de valores que o personagem tão arduamente batalhou para fazer valer. No famoso discurso final do personagem no julgamento, exaurido física e mentalmente após horas falando ininterruptamente, apenas seu caráter o mantinha de pé. Emociono-me sempre que assisto George Bailey retornar à sua casa e ternamente beijar o puxador quebrado da escada, que antes lhe simbolizava a decadência de seu estilo de vida. Sendo bastante sincero, basta lembrar-me de James Stewart para sentir uma saudade extrema de uma época que não vivi, onde pessoas como ele conseguiam impor-se em um mundo mais ético e elegante. Parabéns, Jimmy! Eterno será, enquanto houverem artistas trabalhando, guiados pela apaixonante devoção por justiça.