sexta-feira, 23 de março de 2018

"Por Trás dos Seus Olhos", de Marc Forster


Por Trás dos Seus Olhos (All I See Is You - 2016)
O diretor alemão Marc Forster, que conquistou o mundo pela sensibilidade apurada de filmes como “Em busca da terra do nunca”, “Mais estranho que a ficção” e “O caçador de pipas”, mas acabou se perdendo em produções caras e tolas como “Redenção” e “Guerra mundial Z”, retorna ao seu estilo mais elegante com este drama psicológico.

Blake Lively, em ótimo momento, vive Gina, que perde tragicamente a visão na infância e a recupera na vida adulta, após uma cirurgia. A redescoberta sensorial do mundo impacta o dia a dia dela e de seu marido James (Jason Clarke), o relacionamento sem o elemento da dependência, intensificada na mudança profissional do casal para a Tailândia, sofre um abalo considerável. Ela, pela primeira vez, sente o desejo de ser admirada nas ruas, a beleza, conceito que desconhecia, passa a ser tentadora fonte de exploração existencial. Ele, amedrontado, inseguro, compreende que não é mais fundamental naquela equação.

A forma como o roteiro trabalha esteticamente a cegueira e, por conseguinte, a sensação de isolamento da jovem, é criativamente instigante, conduzindo o espectador à dedução de imagens através de distorções visuais, sombras, borrões, tornando-o cúmplice da protagonista. O grande mérito é fazer com que o público sinta o desespero que pode ser causado pelas ações mais simples do cotidiano, como o acelerar de um carro na estrada. 

Na cena mais rica em simbologia, Gina subverte sua condição e propõe sensualmente vendar James na cama, atitude que ele recebe com excessivo desconforto. É a mulher reivindicando finalmente o controle de seu corpo na sociedade machista.

* Crítica publicada no "Jornal do Brasil" (22/03/18).

quarta-feira, 21 de março de 2018

"Le Gendarme de Saint-Tropez" e "Le Gendarme se Marie", de Jean Girault


Biquinis de Saint-Tropez (Le Gendarme de Saint-Tropez – 1964)
O Gendarme se Casa (Le Gendarme se Marie – 1968)
"Um agente da ordem sempre é impopular". A frase dita com austeridade pelo policial Cruchot, vivido por Louis de Funès, no primeiro filme da franquia, sintetiza sua hilária devoção ao trabalho. Quando é mostrado o sonho de seus atrapalhados colegas em um momento de lazer, ele é o único que não busca os prazeres da carne, apenas a realização heroica de sua função na sociedade. O ator francês que encantava o público com suas caras e bocas é mais conhecido no Brasil por "As Loucas Aventuras do Rabbi Jacob", mas considero que sua contribuição mais relevante esteja nos seis projetos do Gendarme (policial), especialmente no primeiro e no terceiro, abordados neste texto, enriquecidos pela química matadora do protagonista com seu superior em comando, Gerber, vivido pelo impecável Michel Galabru, que anos depois defenderia o papel do político ultraconservador de "A Gaiola das Loucas".

"Biquinis de Saint-Tropez" é irregular, mas tem sequências inesquecíveis, como a frenética transição do preto e branco para o colorido no início, um conturbado passeio de carro conduzido por uma freira e a odisseia dos policiais para prender um grupo de nudistas na praia. Após várias investidas desastrosas, prejudicados por um vigia sentado no galho de uma árvore, os oficiais recebem uma aula embasbacante de Cruchot, que traça a estratégia mais estúpida, algo que poderia muito bem ter saído da mente do Inspetor Clouseau, de Peter Sellers: Treinar os homens sem uniformes, para que se aproximem pelados do local. Sem levantar suspeitas, eles lutam contra o tempo enquanto vestem seus trajes, abordam os meliantes nudistas e, num toque genial do roteiro, pedem seus documentos. "O Gendarme se Casa" é muito superior em todos os sentidos, favorecido pela reviravolta que faz com que Cruchot tome o comando da tropa e passe a humilhar Gerber, provocando situações verdadeiramente engraçadas. Ao atuar à paisana em uma missão de controle de velocidade nas estradas, o policial conhece uma bela viúva de coronel, vivida por Claude Gensac, que causa eletricidade estática com seu charme, conquistando o coração de quem, até aquele minuto, não conseguia pensar em qualquer coisa que não fosse seu trabalho.

Caso aprecie o trabalho de Funès nestes dois filmes, eu recomendo que veja também "A Grande Escapada" (La Grande Vadrouille, de 1966), obra-prima cômica dirigida por Gérard Oury, em que ele contracena com outro grande comediante francês, praticamente esquecido hoje, Bourvil. 

terça-feira, 20 de março de 2018

"Arquivo X - O Filme", de Rob Bowman


Arquivo X - O Filme (The X-Files - 1998)
Quem viveu a época do auge da criação de Chris Carter sente um arrepio ao escutar o clássico tema minimalista composto por Mark Snow, "Arquivo X" foi um fenômeno televisivo que pais e filhos admiravam na mesma intensidade, vale destacar, exibida nas noites de sexta-feira pela Rede Record, talvez o único acerto da emissora após ser comprada pela corja de estelionatários neopentecostais. Eu acompanhava com brilho nos olhos, não deixava de adquirir mensalmente a saudosa revista "Sci-Fi News", praticamente dedicada exclusivamente às aventuras de Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Anderson).

O projeto cinematográfico que servia primordialmente como uma ponte elegante entre as temporadas cinco e seis, mas que visava atrair também aqueles que sequer acompanhavam a série, continua surpreendentemente eficiente hoje, o filme envelheceu muito melhor que os episódios mais celebrados pelos fãs. O roteiro, escrito em apenas dez dias, bebendo diretamente na fonte dos filmes "Uma Sepultura para a Eternidade" e "Quatermass 2", do estúdio Hammer, entrega dose generosa de suspense ao captar a essência conspiratória sci-fi em uma trama aparentemente simples envolvendo alienígenas e o governo norte-americano. Aproveitando o orçamento maior, o primeiro ato já marca território com os dois pés na porta ao mostrar o atentado terrorista em um prédio federal, evento planejado pelo próprio governo, na tentativa de queimar arquivo, abafando um caso de vírus alienígena que volta à superfície após milhares de anos. Apenas Kurtzweil (Martin Landau, sempre competente), médico que sabe tudo sobre o esquema, tenta alertar a dupla de agentes, mas é vítima de uma campanha que visa desacreditar seu nome perante a opinião pública.

Vale salientar que Carter evitou a tentação de entregar respostas demais, ou avançar narrativamente com sequências genéricas de ação, algo que poderia ter agradado o grande público. Ele preferiu ser fiel ao espírito da série, adicionando camadas de enigma a cada passo da investigação, reforçadas pela atmosfera perfeita de inquietação. Há perigo em cada decisão tomada pelos personagens, o maior mal pode estar escondido no lugar aparentemente mais tranquilo. O filme inteligentemente compreende que o aspecto mais interessante de saber que "a verdade está lá fora" reside na busca, na jornada, nas perguntas formuladas no caminho.

sexta-feira, 16 de março de 2018

"Amante por Um Dia", de Philippe Garrel


Amante por Um Dia (L'amant d'un Jour - 2017)
Consciente de que o coração é um músculo elástico, o diretor francês aposta na simplicidade, despindo toda intelectualidade do discurso. 

Na trama de “Amante por um dia” (L’Amant D’un Jour), a jovem Jeanne (Esther Garrel, filha do diretor) retorna impulsivamente ao apartamento do pai, Gilles (Eric Caravaca), professor de filosofia, após terminar seu longo relacionamento com o namorado Matéo (Paul Toucang), apenas para descobrir que sua figura paterna está tendo um caso com Ariane (Louise Chevillotte), uma aluna de sua idade. 

O choque inicial incita rivalidade pela atenção do adulto, mas acaba sendo substituído naturalmente por um forte senso de cumplicidade entre as meninas, algo que é trabalhado no roteiro de Jean-Claude Carrière, Caroline Deruas-Garrel, Philippe Garrel e Arlette Langmann com todos os tons de cinza, ressaltando o inconsciente feminino e a complexidade que envolve o difícil processo de amadurecimento do trio. Apesar do pai representar uma geração diferente, nem mesmo o reconhecimento profissional é capaz de suprir sua insegurança emocional. 

Jeanne representa o afeto puro infantil intocado pela maldade, terreno fértil para rompantes de desespero, já Ariane, decidida a testar os limites de seu poder de sedução, representa a libido, o desejo livre que é rejeitado em uma sociedade machista e tradicionalmente monogâmica. Duas facetas comportamentais que convivem em eterno confronto também em Gilles, que é levado a entender o significado menos óbvio da traição, emoldurado frequentemente por sombras na elegante fotografia em preto e branco de Renato Berta. 

Se a filha luta para compreender a razão do afastamento de seu namorado, enxergando o amor da forma mais romanticamente idealizada, o pai, já castigado pela experiência da vida, com cicatrizes psicológicas expostas, sabe que a dor pode ser momentânea e fundamental. O terceiro ato exibe o otimismo de Garrel, não aquele cristalizado nas comédias românticas de Hollywood, mas, sim, o reconhecimento sincero de que no relacionamento humano, mesmo quando tudo parece que deu errado, nada se perde, nada é em vão, tudo vale a pena.  

* Crítica escrita para o Caderno B do "Jornal do Brasil" (15/03/18).

terça-feira, 13 de março de 2018

Tesouros da Sétima Arte - "A Bruxa Inocente", de Heinosuke Gosho


A Bruxa Inocente (Osorezan no Onna – 1965)
O diretor japonês Heinosuke Gosho nunca atravessou a fronteira como seus celebrados colegas Kurosawa, Ozu, Mizoguchi e Miyazaki, ente outros, apesar de sua carreira ser tão consistente quanto a de todos os citados, com especial dedicação em procurar a beleza por trás da tristeza de personagens comuns, elemento que garante aos seus melhores filmes uma aura de melancolia fascinante. E, vale destacar, nesta linda obra produzida pelo estúdio Shochiku, a sua linguagem sobreviveu impecavelmente ao árduo teste do tempo.

A trama inicia no monte Osore (tradução: medo), a entrada para o inferno, com os passos trepidantes de uma idosa que busca uma xamã cega que a ajude a entrar em contato com sua falecida filha. Em flashback, conhecemos Ayako (Jitsuko Yoshimura), ingênua garota do interior, que acaba se vendo obrigada a trabalhar vendendo seu corpo no final da década de trinta, às vésperas da guerra, sacrificando a sua própria vida para poder alimentar os seus pais. Ao chegar no bordel, atrai a atenção de um repulsivo homem mais velho que paga pela exclusividade de seus serviços. A câmera na fotografia claustrofóbica de Shinomura Sôzaburô reforça o confinamento das prostitutas, filmando-as frequentemente através de vigas de madeira verticais que simulam as grades de uma prisão. Sem revelar muito sobre o desenvolvimento do roteiro de Hideo Horie, ela acabará envolvida indiretamente em três mortes de clientes unidos por um laço familiar, algo que despertará na sociedade hipócrita, machista e ignorante da época a fama de que ela está possuída por demônios. O intenso terceiro ato exibe corajosa crítica à religião organizada, evidenciando os danos psicológicos que os dogmas e as mentiras ritualísticas causaram na protagonista, que, acreditando ser culpada por tudo o que aconteceu, aceita atravessar a implacável e estúpida cerimônia de expurgo sobrenatural. Ayako, pura flor de gentileza que foi incapaz de respeitar o rígido código de nunca entregar seu coração no trabalho, padece humilhada diante de uma corja de víboras sacerdotais arrogantes, iludidas e supersticiosas.

Analisado hoje, impressiona como seu amargo discurso sobre repressão sexual alicerçada nas crenças religiosas infelizmente segue relevante, incrivelmente atual. A antinaturalidade forja o conceito do pecado, revestido pelo manto subjetivo da moralidade, subjugando as mentes fracas ao lucrativo controle comportamental. A mãe, ao final, abandonada por tudo e todos, refaz seu caminho sem respostas. Quando a lucidez é negada, não há redenção. Bravo, Gosho!