terça-feira, 31 de outubro de 2017

Rebobinando o VHS - "O Dia de Satã"


Mais uma bomba pérola distribuída em VHS nacionalmente pela “Vídeo BAN” que resgato no blog, filme esquecido pelo grande público e que vive apenas na memória afetiva daquelas crianças que aproveitaram o auge das locadoras de vídeo. Bom, vamos ao filme...


O Dia de Satã (The Third Hand - 1988)
Dois idiotas jovens, seguindo o conselho de uma desconhecida senhora vestida com um manto negro dos pés a cabeça, chegam em um vilarejo fundado por imigrantes espanhóis nos Estados Unidos exatamente no dia em que o povo está se preparando para abandonar suas casas, uma tradição anual macabra, o período em que recebem a visita do vilão dos Power Rangers diabo. E, para entrar no clima, nada melhor que aquela cafona nobre mensagem inicial da Dóris Giesse, a Brigitte Nielsen brasileira, sobre a importância de somente alugar fitas seladas. Quem quiser arriscar, o filme está disponível na íntegra no Youtube. Não é bom, não é sequer agradavelmente ruim, apenas ruim. Mas ver filmes ruins é como encontrar uma cédula amassada no bolso de trás da calça, pode ser até de R$ 1,00, sempre é melhor que nada.

Eu li uma análise apaixonada de um brasileiro que afirmava que o clima de horror era eficiente, a minha memória me pregava a mesma peça, com sete anos de idade, até aquele intervalo do SBT com um ator silenciosamente interpretando Jesus dava medo. Ao rever hoje, eu precisei controlar minha alma para que ela não abandonasse meu corpo no meio da sessão e decidisse dar um animado passeio pelo corredor do prédio. O padre vivido por Peter Mark Richman, o meu xará vivido por Cesar Romero, os dois rapazes que tomaram aulas cênicas com o Cigano Igor, o roteiro tolo e a direção incompetente esforçada do Ferde Grofé Jr., são muitos detalhes que urgem por revisão, ainda que eu não creia que terei força de espírito para enfrentar novamente este desafio em minha vida. A surpresa do desfecho é tão óbvia, insossa, imbecil, curiosa, que eu criei mentalmente umas vinte alternativas mais interessantes na curta duração dos créditos finais. 

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

"Magical Mystery Tour", dos Beatles


Magical Mystery Tour - 1967
Parece que foi ontem, a noite prometia ser espetacular. Eu iria realizar um dos meus sonhos de infância, estar perto de Paul McCartney. Tecnicamente, eu estive perto dele no clássico show de 1990, já que moro próximo ao estádio do Maracanã, escutei da janela todas as músicas. Mas o destino me presenteou com a possibilidade de viver plenamente esta experiência em 2011, em outro estádio, o Engenhão. A emoção já bateu forte quando ele decidiu iniciar com “Magical Mystery Tour”, uma das minhas favoritas. Beatles, Elvis Presley e Frank Sinatra são meus grandes ídolos na música. As carreiras cinematográficas de Elvis e Sinatra são usualmente lembradas com carinho, mas os filmes dos Beatles, com exceção de "A Hard Day's Night", costumam ser alvo de deboche. Acho válido tentar modificar isto, então começo logo pelo mais odiado, cinquenta minutos de puro nonsense surreal.


Sejamos sinceros, boa parte da obra de Godard também não faz sentido algum, mas você dificilmente lerá um crítico apedrejando o diretor francês. Eles se dedicam a encontrar significado até no espirro do ator. É uma questão de autoafirmação intelectual, defender publicamente que aprecia bobagens como “Adeus à Linguagem” agrega valor, já apontar o brilhantismo da sequência emoldurada por “Blue Jay Way”, com George Harrison envolto em névoa e dedilhando um teclado pintado no chão, não instiga sequer um tapa nas costas. Enquanto o primeiro se leva aborrecidamente a sério e crê estar revolucionando o mundo, o segundo faz parte de um projeto que gargalha na cara do pedantismo. A cena é trabalhada sensorialmente para estabelecer uma aura de medo, como se o personagem estivesse numa espécie de limbo entre a vida e a morte, logo após o acidente trágico que o desfecho insinua, refletindo sobre a necessidade de compreender a finitude, aceitar que não pertencemos (“don’t be long”, que evolui para “please don’t belong”), somos seres únicos. Ao final da apresentação, aplausos animados, todos retornam para o ônibus, seguem viagem. O destino? Não importa. 

A alegria despretensiosa do início vai se transformando, ganhando contornos contemplativos, o romance idealizado pelos olhos da tia de Ringo logo se mostra mais uma ilusão, como o devaneio poético de Paul em “The Fool on The Hill”. A estupidez da guerra é parte fundamental, o general/toureiro humilhando o touro, teatro patético que é quebrado com a simples questão de Ringo, que honestamente quer entender a razão de tudo aquilo. “I Am The Walrus” evidenciando a natureza caótica da vida, inserindo trechos rápidos que mostram os bastidores, a batida da claquete, o ensaio. Após a fase da decadência física, representada pela performance da stripper e seu cafona colega cantor, somos encaminhados para a nostalgia de “Your Mother Should Know”, o resgate natural que ocorre no crepúsculo da vida e embeleza tudo o que toca, a escada no palco leva para o desconhecido. Os quatro magos (elemento divino/sobrenatural) retornam então para liderar a massa aos agradecimentos, o fechar da cortina, o reinício do ciclo. 

A mágica misteriosa da jornada é entender que a beleza está em compartilhar pelo breve período a mesma paisagem. 

sábado, 28 de outubro de 2017

"Doentes de Amor", de Michael Showalter


Doentes de Amor (The Big Sick – 2017)
A melhor comédia romântica do ano, baseada no conturbado início de namoro de um jovem comediante paquistanês e uma estudante de psicologia norte-americana, com direção correta de Michael Showalter e produzido por Judd Apatow. O roteiro é escrito pelo próprio casal, Kumail Nanjiani, que também protagoniza a obra, e Emily V. Gordon, que é interpretada por Zoe Kazan.

O choque de culturas já seria interessante o suficiente, a angústia do rapaz que é guiado pelos pais egoístas à uma escolha profissional indesejada e encontros românticos arranjados em que o amor é o elemento menos importante na equação. Se ele demonstrar interesse em uma garota que não seja de sua cultura, a família se sente envergonhada e rompe a relação de afeto com o filho. É a tradição de seu país, assim como a oração diária que ele finge fazer enquanto checa os vídeos engraçados na internet, um cabresto social/religioso que pode ter profunda relevância para seus pais e irmãos, mas que não significa absolutamente nada em sua vida. A forma como o texto orgânico trabalha a questão, aliada à entrega incrivelmente natural do elenco, faz com que em poucos minutos o espectador esteja conectado emocionalmente aos personagens, o que é essencial para a eficiência narrativa do ponto de virada, quando o fator da imprevisibilidade conduz a trama além das convenções usuais do gênero.

Sem revelar muito para não estragar a experiência, a beleza não está no desenvolvimento da relação do casal, afastados por boa parte do tempo, mas na radical transformação que é operada gradualmente no relacionamento que se estabelece entre o jovem e os pais dela. O arraigado preconceito dos dois, vale destacar, grande momento de Holly Hunter e Ray Romano, símbolo da ignorância e do medo que alimentam a incapacidade de demonstrar empatia, estado gerado pela insegurança e imaturidade, como fica latente em várias sequências, reduzia aquele rapaz a um estereótipo cruel. Se nos palcos ele conseguia reverter as eventuais provocações de membros deselegantes da plateia com desenvoltura, carecia da mesma ousadia no cotidiano, buscava internamente a aceitação profissional e se sentia culpado por não respeitar suas raízes. Ao ensinar carinhosamente para eles a necessidade de se tentar compreender o outro, ele acaba se tornando psicologicamente mais seguro. O conflito e a dor dos três se mostra o aprendizado mais valioso, a capacidade de adaptação, leitmotiv representado essencialmente pela habilidade do comediante que vive do improviso, forja indivíduos melhores. 

A execução é adorável, o tema é precioso, especialmente nos tempos em que vivemos, produzido em uma nação cujo presidente irresponsavelmente incentiva a segregação. "Doentes de Amor", apesar do péssimo título nacional, é o melhor filme em cartaz no momento. 

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

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TOP - 2002


1 - O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (The Lord of The Rings: The Fellowship of The Ring), de Peter Jackson
"... Peter Jackson acertou, por exemplo, ao excluir Tom Bombadil da trama, priorizando a essência dos escritos de J.R.R. Tolkien e seu potencial imagético, em detrimento de uma fidelidade ipsis litteris. A sua adaptação para o personagem Aragorn (Viggo Mortensen) é um exemplo de sua sagacidade. Nos livros, Passolargo é um marginal, fazendo o seu caminho fora das fronteiras de uma civilização em declínio. Quando ele se revela, mostra-se um mito dentre seres comuns e ordinários, simbolizados pelos Hobbits. O feito alcançado pelo diretor não é pouco..."


2 - O Pianista (The Pianist), de Roman Polanski
"... É impressionante a forma como o roteiro mantém a sensação de medo constante, abordando o tema por um viés diferente, mais visceral, com um protagonista sem ímpetos de heroísmo, alguém que tenta apenas sobreviver, apesar de estar consciente de que é fraco e despreparado. A cena em que ele imagina o som das teclas do piano que não pode tocar é inesquecível..."


3 - Cidade de Deus, de Fernando Meirelles
"... Fernando Meirelles conseguiu capturar a revolta brasileira com as taxas crescentes de violência urbana e o sentimento absurdo de impotência diante de um sistema que parece proteger os criminosos, a impunidade em todos os níveis, canalizando essa raiva coletiva para a estética de seu filme. É rápido, é brutal, é real..."


4 - A Professora de Piano (La Pianiste), de Michael Haneke
"... Isabelle Huppert está incrível, Haneke, que chocou o mundo com Violência Gratuita, consegue elevar o nível da discussão sobre a violência, a loucura, os desejos, instintos primitivos, os malefícios psicológicos da repressão, com um domínio absoluto, conduzindo a trama com apurado senso de suspense que envolve o espectador e o mantém questionando horas após a sessão..."


5 - Minority Report - A Nova Lei (Minority Report), de Steven Spielberg
"... Spielberg consegue mais uma vez operar sua mágica no gênero sci-fi, adaptando o conto de Philip K. Dick. Assim como Blade Runner, do mesmo autor, o conceito da obra está à frente de seu tempo, provavelmente será cultuada no futuro por sua estética e pela força do texto..." 


6 - Réquiem Para Um Sonho (Requiem for a Dream), de Darren Aronofsky
"... Impossível sair da sessão indiferente, Aronofsky desfere um soco no estômago do espectador de dez em dez minutos. A constatação de que o horror é intensamente real perturba e instiga preciosa reflexão sobre a nossa sociedade doente ao final. Ellen Burstyn é uma força da natureza..."


7 - O Filho da Noiva (El Hijo de la Novia), de Juan José Campanella
"... Comédia romântica argentina impecável que lida com um tema complicado, o Alzheimer, com leveza e profunda humanidade, sem os clichês usuais do gênero em Hollywood..."


8 - Falcão Negro em Perigo (Black Hawk Down), de Ridley Scott
"... Existem muitos filmes de guerra memoráveis, mas poucos são aqueles que verdadeiramente conseguem fazer com que o espectador sensorialmente viva por um par de horas o horror do conflito. O foco não está na trama, nem no desenvolvimento dos personagens, não é a proposta de Ridley Scott..."


9 - O Quarto do Filho (La Stanza del Figlio), de Nanni Moretti
"... O roteiro inteligentemente evita a manipulação emocional convencional, apesar da trama soar como um melodrama sobre os estágios do luto, a entrega sensível e naturalista do elenco agrega ao texto sensível que trabalha de forma realista a questão da perda, a carência, a melancolia e, claro, a beleza das lembranças boas..."


10 - O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux Destin D'Amélie Poulain), de Jean-Pierre Jeunet
"... A beleza de desejar melhorar a vida de estranhos, sem receber crédito algum por isso, o amor sem vaidade que motiva a jovem garçonete Amélie poderia contaminar todos aqueles que tivessem contato com a obra. Ao perceber como um simples gesto de gentileza modifica o dia de uma pessoa, ela passa a encarar a experiência da vida de forma totalmente diferente. Nem mesmo uma infância imersa em tristeza e frustração pode impedir um espírito livre de alcançar a redenção. Tudo se resume ao ato de querer ser melhor..."