quinta-feira, 31 de agosto de 2017

"A Ceia dos Acusados" e "A Comédia dos Acusados", de W.S. Van Dyke


A Ceia dos Acusados (The Thin Man – 1934)
A Comédia dos Acusados (After The Thin Man – 1936)
Uma das minhas lembranças mais agradáveis envolvendo a época do Natal foi quando preparei uma maratona caseira com os seis filmes da série, material que era impossível de encontrar em VHS, mas que consegui nos primeiros anos de garimpo na internet. Na época, minha única preocupação era a escola, aproveitava cada segundo das férias com cinema em casa e livros. Eu ainda não havia lido nada de Dashiell Hammett, mas já tinha lido sobre a adaptação de sua obra mais leve, “The Thin Man”, uma mistura deliciosa de suspense detetivesco com screwball comedy. E, claro, a presença de uma das minhas musas cinematográficas mais queridas, Myrna Loy, interpretando Nora Charles, ajudou a intensificar o desejo de ter contato com estas produções. Ela não era só linda, sensual e charmosa, também exalava intelectualidade, em suma, irresistível. William Powell, que vive Nick Charles, é bem diferente do tipo descrito no livro, não é decadente, nem está fora de forma, mas como só li a obra mais tarde, não me incomodou. Vale ressaltar que “thin man” (magro) se refere à vítima do assassino, já li muitas críticas brasileiras que ligam o título ao protagonista. É impossível enxergar outro ator no papel, o domínio de cena, o timing cômico, a maneira como ele defende o texto, a química matadora com Loy. 

O caso a ser resolvido nunca faz sombra ao show da dupla nos momentos mais comuns, tentar acompanhar as reviravoltas é pedir para ficar confuso, o desenvolvimento é problemático, sendo bastante sincero, as tramas dos seis filmes se misturam em minha mente, não há nada especialmente interessante nas investigações. A maneira como o casal interage de forma desaforada é que engrandece o resultado. É como Nick explica logo na primeira cena do primeiro filme, mostrando para um atendente do bar como preparar melhor a bebida com a coqueteleira: “O mais importante é o ritmo”. O crime a ser resolvido é apenas a moldura para situações de cumplicidade encantadora. Ele, um detetive aposentado bon vivant que vive sob o efeito do uísque, trata sua profissão como algo comum, sem encanto. Ela, refinada dama da alta sociedade, fascinada pela aventura e pelo perigo, gosta de ser uma espécie de “Watson” na vida de seu marido. Entre eles, Asta, um adorável e ciumento fox terrier. Os dois primeiros filmes são os melhores, mas recomendo que todos sejam vistos em ordem cronológica. 

“A Ceia dos Acusados” foi filmado em apenas dezesseis dias, mérito do milagreiro diretor W.S. Van Dyke, de “Tarzan – O Homem Macaco”, que gostava de fazer poucos takes, o que explica o feeling espontâneo no set, algo que ajudou bastante na equação de sucesso da obra. Ele também foi o responsável por direcionar o foco dos roteiristas Frances Goodrich e Albert Hackett, casados na vida real, ao relacionamento do casal, deixando o mistério policial em segundo plano, atitude que não foi bem recebida pelos executivos da MGM. E pensar que já li um famoso crítico brasileiro se referir ao W.S. Van Dyke como “medíocre”. O sucesso inesperado de público garantiu a continuação com orçamento triplicado, “A Comédia dos Acusados”, título nacional horroroso, que traz um jovem James Stewart em um papel desafiador. Hammett foi contratado para escrever uma nova trama, a troca de farpas do casal é ainda mais hilária, até Asta recebe mais atenção, protegendo sua esposa canina dos galanteios de um cão vizinho. O filme foi um sucesso, o roteiro foi indicado ao Oscar.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Guilty Pleasures - "Aeroporto 75" e "Aeroporto 77"


Aeroporto 75 (Airport 1975 - 1974)
Aeroporto 77 (Airport '77 - 1977)
“Aeroporto”, dirigido por George Seaton em 1970, adaptado do popular livro de Arthur Hailey, inaugurou a era mais celebrada dos filmes de desastre, com sua estrutura narrativa que remetia ao clássico “Grande Hotel”, de Edmund Goulding. O elenco refinado e de relevância internacional, Burt Lancaster, Dean Martin, Van Heflin, George Kennedy, Jean Seberg e Jacqueline Bisset, o tema de amor composto por Alfred Newman e que virou sucesso na versão de Vincent Bell, além da utilização ousada da tela dividida, garantiram o interesse do público, o filme foi um tremendo sucesso nas bilheterias, apesar de ser chato como poucos, elegante e bem produzido, mas interminável.  Três filmes foram feitos inspirados livremente no conceito, artistas respeitados que representavam diferentes gêneros e épocas inseridos em uma situação de grave perigo. Sem ligação direta com o original, com exceção da participação de George Kennedy, os roteiros enfocavam no melodrama folhetinesco, com alívios cômicos rasos e uma satisfatória construção de suspense. 

“Aeroporto 75”, “Aeroporto 77” e “Aeroporto 80 – O Concorde”, apesar de abordarem tragédias aéreas, são, de fato, ferramentas de marketing positivo para os aviões em destaque, já que os problemas nunca são causados por falha técnica, as máquinas são tão avançadas tecnologicamente que até mesmo uma aeromoça sem experiência pode tomar o lugar do piloto e dar conta do recado. A quarta produção é lastimável, nem mesmo a presença da maravilhosa Sylvia Kristel, eterna “Emmanuelle”, consegue fazer a experiência ser menos constrangedora. Mas eu nutro carinho especial por “Aeroporto 75” e “Aeroporto 77”, ainda que estejam longe de ser considerados bons. A trilha sonora de John Cacavas, especialmente em 75, pode ser considerada uma das melhores da década. Os pilotos, Charlton Heston (75) e Jack Lemmon (77), dignidade e credibilidade indiscutíveis, você realmente acredita que eles seriam capazes de salvar o dia. O cinema de horror é representado em 77 por Christopher Lee, o Drácula da Hammer, e em 75 pela figura adorável da jovem Linda Blair, que agora, já livre da possessão demoníaca, faz amizade com uma freira cantora e passa o tempo inteiro deitada em uma cama. Gloria Swanson (75), James Stewart (77), Myrna Loy (75), Joseph Cotten (77) e Olivia de Havilland (77) representam a justa reverência à época de ouro da indústria, uma noção de respeito à memória cultural que infelizmente se perdeu em Hollywood. 

“Aeroporto 75” não foi pensado como uma espécie de releitura, a ideia original do roteirista Don Ingalls, nome respeitado na televisão, envolvia um típico projeto imediatista despretensioso para a tela pequena, mas o produtor da Universal ficou empolgado com a possibilidade de lucro certo ao revisitar o sucesso do início da década. O roteiro insere a figura descaracterizada do personagem de George Kennedy como tentativa desesperada de estabelecer alguma ligação. A direção ficou sob a responsabilidade de Jack Smight, nome sem créditos relevantes, que obviamente se divertiu muito com o material, o tom é assumidamente debochado. Não por acaso, 75 foi o escolhido pelos irmãos Zucker como base para as gags mais hilárias do espetacular “Apertem os Cintos... o Piloto Sumiu! ”. Karen Black abraça com muita dignidade o papel da pessoa comum que enfrenta uma situação absurda. Ao contrário do original, o interesse do roteiro está no exótico material humano dentro do avião, pouca atenção é dedicada aos profissionais em terra, elemento que facilita o investimento emocional do espectador. A sequência em que o piloto substituto é transferido, preso em um cabo de aço, do helicóptero para o avião, entrando pelo buraco na fuselagem, apesar de todos os truques visuais datados, segue eficiente. Produzido ao mesmo tempo que seu primo rico: “Terremoto”, dividindo boa parte da equipe técnica e elenco, “Aeroporto 75” vence com folga no cruel teste do tempo.

“Aeroporto 77” é pura picaretagem, adorável, maravilhosa picaretagem. “O Destino de Poseidon”, que considero o melhor filme catástrofe de todos os tempos, havia elevado os padrões em 1972, enchendo os cofres da FOX, mostrando a luta por sobrevivência em um transatlântico que vira de cabeça para baixo após ser atingido por uma onda. Por que não investir em uma trama em que um Boeing 747 atravessa o Triângulo das Bermudas e afunda no oceano? Unir o medo de voar com o medo de morrer afogado. Há um pouco da mística que envolve o local e, claro, a possibilidade de criar angustiantes sequências submarinas. Os roteiristas Michael Scheff e David Spector aceitaram o desafio e operaram um considerável milagre. A trama é muito mais absurda que a de 75, mas o tom não é de deboche, o trunfo do filme é se levar a sério, com a ajuda importante da interpretação sóbria e respeitável do sempre competente Jack Lemmon. 

sábado, 26 de agosto de 2017

Sobre a incompreensão da função da crítica e a parcela de culpa dos profissionais da área

Quando eu comecei a escrever sobre cinema, a imagem do crítico era menosprezada neste país pelo grande público, ele era visto como o "chato do contra", o "dono da verdade", aquele que diz o que deve ser visto e o que deve ser desprezado. Uma das minhas metas era, em longo prazo, melhorar este triste panorama. Mas parte considerável de culpa por esta equivocada visão que alimentou por décadas a incompreensão sobre a função da crítica recai nos ombros de muitos profissionais da própria crítica cinematográfica. Aqueles que segregam, aqueles que querem se sentir especiais, aqueles que diminuem os esforços dos outros sem pensar duas vezes. 

Quando o profissional utiliza o cinema como base possível para extravasar sua arrogância, ele acaricia o próprio umbigo, satisfaz o ego, atrai seus semelhantes (pedantes que necessitam de autoafirmação intelectual) e afasta todos aqueles que verdadeiramente amam a arte, ou que estão começando a se interessar, uma fagulha que deve ser sempre estimulada. O crítico medíocre precisa traçar uma linha imaginária na areia e garantir que está com os pés fincados no "lado certo", deslegitimando os outros, tolos, amadores, irrelevantes. Para ele, "a regra é clara". Só que não existe uma regra, uma única maneira de se escrever profissionalmente sobre cinema. A crítica profissional acadêmica é estruturada nos critérios do profissional que a escreve, logo, naquilo que ele defende como correto, ele não segue uma tabela. François Truffaut, por exemplo, escrevia movido por paixão. Ele então não pode ser considerado um profissional da "crítica acadêmica"? Escrever com paixão não é o mesmo que escrever sem embasamento teórico. 

Como sempre afirmo, a fascinação pela arte crítica reside exatamente na pluralidade de análises, especialmente naquelas que argumentam visões opostas. Se a análise acadêmica fosse conduzida por robôs (única forma de não ser subjetiva), obviamente não haveria oposição de ideias, mas também não creio que haveria público. Como o palestrante chato que passa duas horas falando em tom monocórdico e sem brilho nos olhos, com trinta livros abertos na mesa, para meia dúzia de rostos bocejantes. Ele busca apenas o status social/profissional, não se importa com o receptor. O que fascina o cinéfilo é sentir, por trás de toda a exposição teórica, o profundo amor do profissional pelo material que analisa. O ideal seria que todos os veículos impressos presenteassem o público com o maior número possível de textos sobre cinema, mas creio que isto não seja financeiramente atraente, o que diz muito sobre o nível educacional do brasileiro. Mas, como salientei em texto recente, aquele que não é impedido pela preguiça intelectual sabe que veículos impressos são apenas uma fonte de informação.

Eu celebro todos aqueles que escrevem na área movidos pela paixão e contaminados pelo vírus do garimpo intelectual. O crítico de cinema não é chato, o chato é ser arrogante em qualquer área. 

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

"Bingo: O Rei das Manhãs", de Daniel Rezende


Bingo: O Rei das Manhãs (2017)
O cinema brasileiro está começando a entender que a versatilidade temática é fundamental na construção de uma indústria, as histórias menos convencionais podem operar a mágica do encantamento que urge pela revisão. É exatamente o que acontece em “Bingo: O Rei das Manhãs”, dirigido por Daniel Rezende e com fotografia de Lula Carvalho, uma obra em que podemos sentir em cada cena, em cada detalhe, o amor profundo pelo material. Quem era criança na década de oitenta será automaticamente hipnotizado pela impecável recriação da época, desde toques sutis como a fonte da legenda que remete às fitas VHS, passando pela seleção musical matadora, até algumas soluções narrativas propositalmente ingênuas (como o interlúdio musical onírico de revide e o recurso visual de comunicação entre pai e filho) que evocam a doçura poética de clássicos do período, como “Cinema Paradiso”.

O roteiro de Luiz Bolognesi equilibra com maestria o drama e a comédia, sem medo de ousar nos dois, inserindo doses generosas de pimenta e recusando se desviar do lado mais sombrio da trama, sendo espertamente coerente com o espírito anárquico do protagonista. O texto cômico é extremamente eficiente, ajudado por um elenco verdadeiramente inspirado. Se a trava emocional imposta pela devoção religiosa da diretora do programa limita seus movimentos, opção física inteligente que sugere desconforto e a necessidade de ser respeitada profissionalmente, Leandra Leal permite que a natural revolta interna de Lúcia seja liberada em breves e intensos segundos de descontração. É brilhante a forma como o filme trabalha o elemento da teatralidade, força motriz no circo televisionado e no púlpito do templo evangélico, versões altamente diluídas de impulsos genuínos e que visam prioritariamente o lucro financeiro.

A mãe do palhaço, maravilhosa Ana Lúcia Torre, atriz sensível que é afastada dos palcos e passa a ser subutilizada pelos produtores em funções tolas, obrigada a ver jovens de rostos bonitos e mentes vazias dominando o cenário artístico nacional. A cena em que ela enfrenta com dignidade esta realidade é emocionante, um primor técnico, envolvida e acariciada pelas sombras de suas glórias de outrora, esquecida por um povo sem memória. Vladimir Brichta, vivendo Augusto/Bingo, está impressionante, irrepreensível, como é triste ver um talento como ele sendo usualmente desperdiçado em rasas telenovelas. Perceba como ele constrói o personagem inicialmente no olhar, nos gestos que gradativamente vão se tornando mais claudicantes à medida em que seu psicológico já fragilizado (pela insegurança profissional, por querer ser mais do que um corpo nas pornochanchadas) avança rapidamente em espiral descendente com o vício das drogas, até que, no terceiro ato, despido existencialmente, porém, com sua vaidade intacta, ele limita seus movimentos, seu espaço físico, rimando com o ponto de partida da mulher que ama, que, por sua vez, tendo conquistado segurança profissional, aceita relaxar um pouco. Os dois se completam.

Inspirado livremente na vida de Arlindo Barreto, o filme é o clássico conto do azarão que consegue a grande chance e, inebriado pela fama, perde contato com suas raízes e precisa reencontrar o caminho. No limiar do abismo ele percebe que a resposta estava ao seu lado o tempo todo, o filho pequeno, seu legado. O azarão temático em um gênero nacionalmente dominado por mínimas variações afinadas por um mesmo diapasão, “Bingo: O Rei das Manhãs” é um dos melhores filmes do ano.

TOP - 2004


1 - Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of The Spotless Mind), de Michel Gondry
"... O roteiro brilhante de Charlie Kaufman nos induz a questionar a nossa frágil psique, com a angústia de alguém em lidar com a indiferença do outro. Apaga-se a memória, mas ele ainda existe..."


2 - Peixe Grande (Big Fish), de Tim Burton
"... A perspectiva da morte faz com que o jovem busque conhecer aquela incógnita falastrona, que sempre o deixava envergonhado em suas festas com seus arroubos criativos. Angustiado com a recusa do pai em se mediocrizar, tornar-se comum, o seu filho então decide conduzir uma pequena investigação, que acaba levando-o a constatar que somente a fantasia, o lírico, realmente satisfaz de forma plena..."


3 - Encontros e Desencontros (Lost in Translation), de Sofia Coppola
"... A insegurança demonstrada na posição fetal da jovem e o tédio que ele expressa no desleixo com que preenche seu lado da cama. Lentamente percebemos a mão dele vencendo o medo da entrega do sentimento, a insegurança pela diferença de idades, procurando o toque que simboliza naquele momento muito mais que um beijo..."


4 - Colateral (Collateral), de Michael Mann
"... A estética e o ritmo, aliados à competência de Tom Cruise e Jamie Foxx, garantem o impacto sensorial em um dos melhores filmes do gênero nos últimos anos..."


5 - Má Educação (La Mala Educación), de Pedro Almodóvar
"... O diretor insere temas perturbadores de uma forma onírica e demasiadamente humana, desafiando o espectador a acompanhar seu raciocínio, proposta corajosa..."


6 - A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ), de Mel Gibson
"... Por trás da ideologia questionável de Gibson, anestesiando os ensinamentos de amor e compaixão do personagem ao favorecer a agonia da purificação pela dor, não há como negar que a obra é um primor técnico..."


7 - Todo Mundo Quase Morto (Shaun of The Dead), de Edgar Wright
"... Esqueça o título nacional horroroso, Edgar Wright é uma das melhores surpresas do cinema na história recente, subvertendo as expectativas do público e firmando uma caligrafia autoral no gênero da comédia..."


8 - Primer, de Shane Carruth
"... O segredo reside no desinteresse do autor em construir algo convencional, agradável, para o público, o que resultou em uma trama que nunca seria comprada por qualquer estúdio, nenhum teria coragem de arriscar perder dinheiro com algo tão desafiador..."


9 - Diário de Uma Paixão (The Notebook), de Nick Cassavetes
"... O filme de romance que, sem querer reinventar a roda, renova as esperanças no gênero, comandado pelo competente filho de John Cassavetes, que aproveita o embalo e presta linda homenagem à sua mãe, Gena Rowlands..."


10 - A Vila (The Village), de M. Night Shyamalan
"... O diretor brinca com sua característica mais conhecida, a reviravolta final, trabalhando o conceito vazio do resgate do passado histórico como forma de lidar com um grande trauma, uma sociedade que conscientemente rejeita a lógica por uma mentirosa sensação de conforto..."