sexta-feira, 31 de março de 2017

Tesouros da Sétima Arte - "A Fúria dos Justos", de Mark Robson


A Fúria dos Justos (Trial - 1955)
Um tesouro que precisa ser garimpado, nunca lembrado quando se escreve sobre os filmes de tribunais, “A Fúria dos Justos” é dos melhores no tema já feitos, incrivelmente atual no cenário político brasileiro. O projeto chamou atenção à época por ter sido o primeiro a ter um juiz negro, vivido por Juano Hernandez.

Inspirado no caso conhecido como “Sleepy lagoon murder”, que chocou a opinião pública na Califórnia de 1942, o roteiro brilhante de Don Mankiewicz não força suspense algum sobre a inocência do adolescente mexicano acusado de homicídio, o espectador sabe desde o início, assim como seu advogado de defesa, interpretado por Glenn Ford, que o rapaz não matou a menina norte-americana na praia. Ela tinha sérios problemas cardíacos, os dois estavam namorando, o júri não teria dificuldade em agir com sensatez. O problema é que o homem que contratou o advogado não está interessado em liberar o garoto, ele quer um mártir para seu discurso comunista. O personagem, vivido por Arthur Kennedy, realiza comícios festivos para, supostamente, angariar recursos para os custos legais, quando, na realidade, faz fortuna para o partido com a mesma lábia torpe dos pastores neopentecostais, chega até a converter a mãe da vítima, vivida por Kathy Jurado, utilizando o show como plataforma política.

É interessante analisar a cena do julgamento, quando Barney (Kennedy), ao sentir que está perdendo terreno, passa a tentar de todas as formas desestruturar o ambiente, provocando o juiz com insinuações racistas, a estratégia comunista de incitar a guerra, dividir para conquistar, cortina de fumaça na intenção de prolongar o anúncio do veredito o máximo possível. David (Ford), um professor de direito que abraça a causa por senso de ética e amor à justiça, percebe rapidamente a espetacularização promovida pelo seu colega e se revolta, com plena consciência de que está colocando tudo a perder. Sem prática nos tribunais, inserido no esquema para não prejudicar os planos nefastos do seu superior, ele vai provar que não há força que subjugue um caráter íntegro.


* O filme está sendo lançado em DVD, com opção de dublagem em português, pela distribuidora "Classicline". 

quinta-feira, 30 de março de 2017

"Ghost in The Shell", de Mamoru Oshii


Ghost in The Shell (Kôkaku Kidôtai - 1995)
Antes de você perder tempo com a adaptação norte-americana que está estreando hoje em nossos cinemas, dirigida por Rupert Sanders, do terrível “Branca de Neve e o Caçador”, eu recomendo que conheça o genial material original, o mangá de Shirow Masamune (pseudônimo de Ota Masanori), de 1989, e a animação dirigida por Mamoru Oshii, em 1995. É importante estabelecer inicialmente o contexto da obra, que remete diretamente ao livro “O Fantasma da Máquina”, escrito por Arthur Koestler, lançado em 1967, que critica o comportamentalismo de B.F. Skinner e o dualismo cartesiano de Descartes. Não há distinção de mente e corpo, o “fantasma” é o id na casca (shell), que nessa sociedade futurista dominada pela inteligência artificial pode ser substituída a qualquer momento.

A protagonista, Motoko Kusanagi, ciborgue que comanda a força-tarefa da Seção 9, apresentada nos quadrinhos com leveza e muitos toques de humor até os complexos capítulos finais, ganha contornos mais sóbrios no filme, uma introspecção coerente com o pouco tempo disponível para trabalhar todos os temas. Ela pode se comunicar através de cabos no pescoço, conceito pioneiro, muitos anos antes da existência no mundo real do usb e wi-fi, elemento que, dentre muitos outros, seria reverenciado generosamente (para não dizer copiado) em “Matrix”. O perigo é representado na figura do mestre dos fantoches, um software hacker com consciência, logo, que se considera uma forma de vida, passível de asilo político, ao invés da prisão por seus crimes. Quem, como eu, ama “Blade Runner” e aprecia a literatura cyberpunk, o mestre William Gibson e a trilogia formada por “Neuromancer”, “Count Zero” e “Mona Lisa Overdrive”, vai encontrar terreno fértil para discussões filosóficas na trama. O que é ser humano? Quais os malefícios da inescapável perda de individualidade? Uma memória implantada no cérebro causa a mesma emoção de uma experiência real? Um computador pode ter “alma” (o fantasma)? Se a vida consiste na preservação da informação, o software não pode ser reduzido a qualquer objeto inanimado. A solução encontrada para o problema também inspirou vários projetos posteriores, até mesmo videogames como a brilhante trilogia “Mass Effect”, que, em um dos desfechos possíveis no terceiro jogo, propõe o próximo passo evolutivo, a síntese entre homem e máquina.

A belíssima animação dedica tempo precioso ao silêncio em uma sequência que evidencia a dependência tecnológica na cidade, ajudando a compor o clima com a trilha sonora minimalista de Kenji Kawai. É possível encontrar também uma referência visual ao “Persona”, de Ingmar Bergman, na cena de “diálogo” entre Motoko e o mestre dos fantoches, o espelhamento no enquadramento dos rostos, refinamento pouco usual. "Ghost in The Shell", mangá e animação, obras-primas que somente melhoram em revisão. 

segunda-feira, 27 de março de 2017

"Übermensch", meu primeiro curta, está disponível na plataforma "Looke"


Link para o filme no Looke:

Sinopse: A angústia de um escritor desempregado tentando lidar com a perda da mulher amada em meio a uma invasão alienígena.

Elenco: Ademilson Júnior, Teresa Cristina Oliveira, Octavio Caruso, Andréa de Oliveira Barbosa e Bruna Oliveira Sampaio.

Trilha-Sonora: Mário PC.

Argumento, Roteiro e Direção: Octavio Caruso.

sábado, 25 de março de 2017

"Fragmentado", de M. Night Shyamalan


Fragmentado (Split - 2016)
Os últimos segundos do filme transformam o que era até aquele momento um bom suspense, eficiente e acima da média em diversos aspectos, em uma épica e surpreendente proposta de construção de universo cinematográfico. O recurso banalizado atualmente em produções direcionadas ao público infanto-juvenil, fórmula desgastada, recebe uma injeção de adrenalina no peito. Sem estragar a experiência, afirmo que M. Night Shyamalan encontrou novamente o caminho autoral, após mais de uma década desperdiçada em bobagens mainstream como “Fim dos Tempos” e “Depois da Terra”.

O grande problema de sua persona como cineasta é ter incutido no espectador o desafio de representar um enigma a ser decifrado em cada obra, a existência obrigatória da reviravolta final prejudica a imersão e, invariavelmente, faz qualquer solução do roteiro ser menos interessante que as mil possibilidades que nós, detetives informais na sala escura, ficamos conjecturando no decorrer da trama. Não há nada pior no cinema que a expectativa, exatamente por isso Hitchcock inseria sua aparição em cena logo nos primeiros momentos de seus filmes, evitando assim que o público deixasse de prestar atenção na história para ficar buscando ele na tela. O roteiro brinca, de certa forma, com a comparação estabelecida a partir de “O Sexto Sentido” entre o indiano naturalizado estadunidense e o mestre britânico, “Psicose” e a dupla personalidade de Norman Bates, referências óbvias, apesar de James McAvoy ser um ator muito mais competente que o saudoso Anthony Perkins. É impressionante como ele consegue abraçar várias identidades emocionalmente antagônicas em uma mesma tomada, sem o auxílio de vestuário, maquiagem ou objetos de cena, as linhas do rosto insinuam, em questão de segundos, a personalidade dominante.

Anya Taylor-Joy, um dos grandes méritos do recente “A Bruxa”, entrega vulnerabilidade e resiliência na mesma medida, algo difícil quando suas motivações são gradualmente reveladas. Ela vive uma das três adolescentes que são capturadas pelo perturbado protagonista, numa espécie de variação do tema da preservação da pureza trabalhado no livro “O Colecionador”, de John Fowles, e, posteriormente, na adaptação dirigida por William Wyler em 1965. O seu envolvimento potencializa o importante elemento de fábula, que, felizmente, evita rompantes demagógicos na conclusão de seu arco narrativo, uma opção que merece ser salientada. 

Com "Fragmentado", Shyamalan volta a ser relevante na indústria após um longo inverno.

sexta-feira, 24 de março de 2017

"Eu, Daniel Blake", de Ken Loach


Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake – 2016)
Ken Loach tem uma filmografia muito coerente, confesso que o estilo dele não me agrada muito, mas “Eu, Daniel Blake”, o mais recente, apresenta o cineasta britânico em sua melhor forma, o protagonista me conquistou já nos primeiros minutos. Um carpinteiro experiente, vivido com brilhantismo pelo comediante Dave Johns, que sofre um ataque cardíaco e fica impedido de trabalhar pelos médicos. O sistema, no entanto, faz com que ele entregue currículos diariamente na tentativa de conseguir o auxílio financeiro. Ele enfrenta a ausência de empatia dominante no reino dos burocratas, com vários diplomas na parede, porém, ignorantes no básico, incapazes de tratar com humanidade o indivíduo. 

Vivemos a era da aparência, da teoria, o que importa é inserir uma melodia tranquilizante no call center, os atendentes agem como máquinas, complicando ao máximo cada etapa do processo na esperança de que a paciência do cliente resista pelo maior tempo possível, longas ligações representam cifrões. A praticidade, a gentileza, a habilidade de se colocar no lugar do outro, valores que se perdem a cada cidadão que se revolta e decide silenciar, como o vizinho jovem que encontra uma forma fácil de lucrar com tênis importados da China, sem os impostos, tirando proveito da situação. É a estratégia do “cada um por si”, a malandragem, vendendo escalpos retirados sem esforço de índios explorados e assassinados. Abraçar a causa e lutar por ela dá trabalho. A analogia é válida, já que as engrenagens cruéis operam destruindo aqueles mais necessitados. 

Katie, a mãe solteira, vivida impecavelmente por Hayley Squires, passa fome para conseguir alimentar suas crianças. No auge de seu desespero, quando tenta roubar uma loja de conveniência, ela acaba se tornando vítima de funcionários sem caráter, que aliviam seu crime, na esperança de que ela os ajude financeiramente em um esquema de prostituição. Não há altruísmo nesse mundo podre, não há solidariedade, até as vítimas se canibalizam, Loach então propõe que a união é o único caminho. A atitude rebelde de Daniel, grafitando sua revolta, expressão primitiva, quase selvagem, em resposta à moderna acessibilidade virtual que tanto o perturba, a única vitória possível, tão simbólico quanto o grito por humanidade de John Merrick em “O Homem Elefante”, o testamento em vida de pessoas que, conscientes da derrota, insistem em resistir. Como o discurso no desfecho evidencia, o protesto é mais importante que o personagem, os alívios cômicos, a impagável cena do aprendizado na utilização do computador, recursos importantes para adocicar a experiência panfletária, a proposta é política. 

O relacionamento de amizade formado entre Daniel, Katie e seus filhos, elemento que brota naturalmente a partir de um simples gesto de carinho dele com a jovem, um olhar atento quando todos fingiam não perceber sua presença, proporciona momentos de linda delicadeza e refinado simbolismo, como a estante feita à mão na esperança de que suporte no futuro o peso dos livros acadêmicos da amiga, a salvação pela cultura.