sábado, 25 de fevereiro de 2017

"Manchester à Beira Mar", de Kenneth Lonergan


Manchester à Beira Mar (Manchester by The Sea – 2016)
As escolhas estéticas do diretor Kenneth Lonergan acabam boicotando a forte carga emocional da trama, como se ele não confiasse que a história, por si só, conseguiria impactar o espectador. O ritmo é truncado, prejudicado especialmente no primeiro ato por uma montagem que confunde em seu desejo de evitar a narrativa linear, alternando períodos de tempo em poucos segundos, atrapalhando a importante conexão com o protagonista.

A sinopse é linda, essencialmente lidando com conflitos intimistas de uma alma torturada, mas a paciência tem limite, quando todas as situações, simples e complexas, são intensificadas sensorialmente pela trilha sonora, tudo se banaliza, em suma, irrita ao invés de gerar empatia. O trabalho da compositora Lesley Barber é agradável de se escutar fora do contexto, porém, altamente intrusivo na obra, por exemplo, na cena em que Lee (Casey Affleck) dá um depoimento na delegacia. É tão artificial que beira a sátira, assim como na sequência da tragédia que modifica sua vida, a música implora pelas lágrimas sem necessidade alguma, o momento já é forte o bastante. É triste perceber o potencial desperdiçado, a longa duração falha em estabelecer o básico com competência, um problema que é amenizado no terceiro ato. O melhor aspecto do filme é a atuação de Affleck. E só funciona tão bem exatamente porque encontra no impecável Lucas Hedges, que vive Patrick, o sobrinho adolescente que se torna sua responsabilidade após o falecimento do irmão, o extremo oposto de sua caracterização. Um adulto que comete suicídio psicológico e vaga sem destino, um adolescente que está disposto a não permitir que seu espírito seja abalado pela morte do pai.

Esses dois elementos ricos em autenticidade naufragam no oceano de pretensiosismo executado da forma mais criativamente preguiçosa. A sequência do reencontro agridoce entre Lee e sua ex-esposa (Michelle Williams, incompreensivelmente subutilizada) em uma cerimônia religiosa não poderia ser mais afetada, o maravilhoso “Adágio”, de Albinoni, merece ser aposentado cinematograficamente. O clichê se completa perfeitamente com a utilização brega e interminável do recurso da câmera lenta. 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

"Moonlight - Sob a Luz do Luar", de Barry Jenkins


Moonlight - Sob a Luz do Luar (Moonlight - 2016)
Acordar sabendo que a sociedade o rejeita de diversas formas, excluído por ser pobre e negro, agredido na escola por ser introvertido, internamente incapaz de compreender sua homossexualidade, obrigado a medir cada gesto, silenciar impulsos, sem poder contar com a estabilidade emocional de uma mãe (Naomie Harris) entregue ao vício em crack, esse é o cotidiano do pequeno Chiron. A sua única figura paterna, um traficante de drogas que o encontra arredio, fugindo do ataque de seus colegas, alguém que enxerga nos olhos da criança a pureza que outrora guiava suas ações, antes do mundo o bestializar. O homem, vivido impecavelmente por Mahershala Ali, tem consciência de que faz parte da engrenagem que está destruindo o garoto, a culpa o humaniza, evitando inteligentemente o estereótipo.

Ambientado na década de oitenta, o primeiro ato do filme, roteirizado e dirigido por Barry Jenkins, adaptado de uma peça inédita de Tarell Alvin McCraney, explora a trepidante formação psicológica do protagonista, a resistência da gentileza natural perante a brutalidade excessiva do sistema em que ele está inserido. “Little” (pequeno), apelido genérico, evidência de sua irrelevância enquanto indivíduo, reflexo do desinteresse do outro em memorizar seu nome. Ao humilhar o filho no auge da dependência química, a câmera subjetiva no ponto de vista do menino nega o som da ofensa, apenas a reação dele importa, a mente não quer aceitar a realidade deprimente, a palavra utilizada só tem poder quando o receptor acusa sua existência. Nesse estágio inicial o leitmotiv é a recusa como estratégia de defesa.

No segundo ato, intitulado “Chiron”, encontramos o protagonista atravessando o difícil período da adolescência, o momento em que todos tentamos firmar o caráter e vencer nossos medos, por conseguinte, ele não é definido mais por um apelido, o rapaz tenta encontrar uma forma de enfrentar os obstáculos sem abandonar totalmente sua essência. Os abusos na escola, local que deveria simbolizar proteção, acabaram se tornando mais intensos, a degradação física e mental da mãe alcança um nível insuportável, o universo conspirava para que ele fosse abatido irreversivelmente, porém, na areia da praia e sob a luz do luar, acompanhado de um amigo, ele reúne coragem para agir, a repressão de anos é finalmente subjugada. Como o interesse da obra não é provocar catarse emocional, o que a reduziria ao molde batido dos romances LGBT, Jenkins filma essa vitória pessoal às costas dos rapazes, ele não intenciona simploriamente rotular sentimentos nem estirar bandeiras. Chiron, encarando pela primeira vez os olhos de sua imagem no espelho, sofre uma terrível traição, uma atitude que quebra seu espírito.

Quando o encontramos novamente no terceiro ato, vários anos depois, ele abraçou a couraça da mentira, esculpiu seu corpo e bloqueou sua mente, um novo homem que sobrevive no submundo do crime, “Black”, um personagem fictício nomeado a partir de um apelido dado na infância pelo seu antigo amigo. A sociedade bateu tão forte que acabou vencendo, ele já nem acusa a dor dos golpes, o silêncio alcança sua expressividade mais amargurada. A elegância com que o filme encaminha a história para seu desfecho é impressionante, sempre coerente no tom, salientando poeticamente o foco narrativo na difícil reconstrução psicológica do protagonista, vivido brilhantemente por Alex R. Hibbert (Little), Ashton Sanders (Chiron) e Trevante Rhodes (Black).

“Moonlight: Sob a Luz do Luar” encanta sem apelar para qualquer clichê, mérito raro, creio que será o único filme dentre os indicados ao Oscar desse ano que continuará relevante artisticamente no futuro. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

"Capitão Fantástico", de Matt Ross


Capitão Fantástico (Captain Fantastic - 2016)
Eu vi o filme no Festival do Rio e considerei um dos três destaques do evento, o único que sobreviveu em minha mente após semanas, o que é sempre um ótimo sinal. Viggo Mortensen é um dos melhores atores de sua geração, “Capitão Fantástico” é mais uma pérola em sua filmografia, prejudicada apenas pela mão pesada do roteirista/diretor Matt Ross, um problema que poderia ser amenizado com uma edição mais severa, o que reforçaria o impacto de algumas reflexões propostas. Viggo interpreta Ben, um pai que decidiu se isolar com seus seis filhos, uma vida idílica na floresta, ensinando a prática da caça e incentivando o hábito da leitura ativa, sempre questionadora, uma existência longe do consumismo e de dogmas religiosos e, por conseguinte, longe da cultura do medo e da culpa, campo fértil para que ele tente transmitir os valores que considera mais importantes, na tentativa de formar seres humanos melhores e mais conscientes de suas responsabilidades.

O processo já se iniciou na escolha dos nomes das crianças, Bodevan, Rellian, Kielyr, Vespyr, Zaja e Nai, verdadeiramente únicos no mundo. Após um evento traumático, a família é forçada a deixar essa zona de conforto e enfrentar a realidade urbana, gatilho que desperta questões existenciais relevantes, especialmente na figura paterna, ainda que falte sutileza na abordagem dessas transformações pessoais. O protecionismo que conduziu um dos filhos à dedicação extrema nos estudos também o tornou socialmente inseguro, o espectador é levado até mesmo a se revoltar com algumas atitudes do pai, mas a interpretação primorosa de Mortensen enriquece as várias camadas de sua construção, salientando que a força motriz de suas ações é genuína e amorosa. Uma cena plena em simbolismo, a família pratica alpinismo, um dos filhos machuca a mão e se desespera, o pai então diz sem levantar o tom de voz: “Mantenha a calma, ninguém vai aparecer para salvar você magicamente ao final”. A rejeição da milagrosa intervenção sobrenatural, o que o pai considera uma indústria do engano.

Os filhos não são poupados de verdades duras, algo que choca o casal de parentes na mesa de jantar. Os filhos do casal, garotos mais velhos, imersos na engrenagem convencional da sociedade, não podem falar palavrão, comparecem à sala de aula e tiram as notas necessárias, porém, ao serem desafiados, acabam se mostrando menos preparados intelectualmente que a menina mais nova de Ben. O aprendizado autodidata os tornou fluentes em seis línguas, inclusive esperanto, os treinos de sobrevivência tornaram seus corpos resistentes. Ao optar por deixar o sistema, a família se tornou uma ameaça, um reflexo distorcido no espelho dos robotizados escravos. Um momento particularmente bonito ocorre quando uma das filhas, já inserida na sociedade, descobre que as ovelhas da cidade desconhecem o perigo, elas não se movem quando prepara seu arco e flecha. Ela desiste da caça por compaixão. Assim como as ovelhas, o povo da cidade, gordo e preguiçoso intelectualmente, está despreparado para situações que exigem reações impulsivas, eles se tornam seres dignos de pena.

O elemento que move a ação é a ausência da mãe, que cometeu suicídio após enfrentar surtos de depressão. Como budista, ela deixou escrito que desejava ser cremada, as cinzas jogadas num vaso sanitário. A família dela desrespeita grosseiramente seu pedido e opta por uma cerimônia católica. Ben e os filhos partem então numa missão para honrar a sua memória. O roteiro aproveita o contexto para inserir uma reflexão profunda disfarçada de alívio cômico. Qual a razão de manter um ritual vazio, reduzindo a despedida de seu ente querido à uma mecânica repetição de textos religiosos sem qualquer relação com a experiência de vida da falecida, que é invariavelmente tratada, ainda que com delicadeza, como mais um número na estatística por um padre que sequer a conheceu? Não seria melhor caminharmos seguros na estrada da lucidez, aceitando sem bengalas a brevidade da vida e aproveitando melhor cada precioso segundo? O desfecho musical, que obviamente não irei revelar, promove uma catarse emocional necessária e altamente compensadora. 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Cine Bueller - "Namorados por Acaso", de Mel Damski

Link para os textos anteriores do especial que resgata as lembranças dos vespertinos "Sessão da Tarde" e "Cinema em Casa":


Namorados por Acaso (Happy Together - 1989)
As comédias românticas adolescentes dos anos oitenta marcaram a adolescência da minha geração devido às exibições frequentes na “Sessão da Tarde”. O “Cinema em Casa”, do SBT, satisfazia mais os impulsos sexuais da garotada, somos eternamente gratos aos programadores. “Namorados por Acaso”, eu consigo me lembrar exatamente da tarde em que vi pela primeira vez, com a dublagem maravilhosa da Herbert Richers, com Vera Miranda e Selton Mello garantindo o charme especial da nossa versão brasileira.

Patrick Dempsey era o ídolo dos garotos introvertidos, no que me incluo, já que defendia quase sempre personagens tímidos e que sofriam a rejeição das gatinhas da escola. E Helen Slater, como esquecer aquele rosto? A encantadora “Supergirl” vive Alex, uma espevitada estudante de artes cênicas, com direito a breve nudez parcial, não poderia ser melhor. O difícil era acreditar que Chris, o jovem escritor, por mais compenetrado que estivesse em sua arte, cogitaria sequer por um momento a hipótese de reclamar do gênero de sua colega de quarto. Forçada de barra compreensível, caso contrário não haveria trama para meia-hora de filme. Ele é uma caricatura divertida, dorme abraçado ao tomo “A Arte da Escrita”, mas só consegue criar algo interessante após encontrar sua musa inspiradora. Claro que os dois vencem seus medos e ele se arrepende de ter sugerido uma substituição. É hilário quando ele finge ser o gay mais afetado do mundo, com ajuda dela, para afastar o rapaz que foi enviado. Selton domina a cena com um caco espirituoso, ao pedir para que o visitante suba o zíper de seu vestido: “Faz essa caridade, tá, criança”. Aliás, a dublagem clássica entrega vários momentos deliciosamente debochados, como um vozerio na cena do banheiro masculino que insere a ária “La Donna è Mobile” na cantoria solitária de um estudante.

O roteiro procura tocar em temas típicos dos projetos mais refinados de John Hughes, ainda que nunca alcance o mesmo nível de credibilidade. O personagem Stanley é um símbolo dessa tentativa, ele vive sozinho, acompanhado por uma boneca sexual, elemento que o torna exótico e afasta qualquer relacionamento. A estratégia acaba sendo revelada no terceiro ato, a forma que ele, alguém decidido a aproveitar ao máximo os estudos, encontrou para não se deixar levar pelo pouco compromisso de seus pares. Chris é o único que não o repele, logo, eles se tornam amigos e confidentes. Outra sequência que consegue emular Hughes ocorre no quarto, quando Chris e Alex, separados por uma cama beliche, encontram paz no simples toque das mãos, a linda cumplicidade entre pessoas perdidas num mundo de muitas possibilidades e cobranças sociais. O mantra que simboliza o filme, repetido pelos dois em diversos momentos, “eu posso ser amado por você, você pode ser amada por mim”, a conclusão sincera que os redime. Como ela ressalta ao final, o melhor erro cometido pode ser libertário, abrir novos caminhos, não é necessariamente algo a ser temido. O amor pode estar ao seu lado, na figura de uma melhor amiga, aguardando apenas uma chance. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Rebobinando o VHS - "Inocência Ultrajada" (1974)

Link para os textos anteriores do especial que resgata a nostalgia dos tempos do VHS:
http://www.devotudoaocinema.com.br/p/rebobinando-o-vhs.html


Essa pérola produzida para a televisão norte-americana sequer foi lançada em VHS oficialmente por aqui, apenas em fitas piratas, sem legendas. Ela chegou a ser exibida com cortes nas madrugadas televisivas brasileiras, mas não me recordo de ter visto alguma exibição. O meu primeiro contato com a obra foi através da novelização literária, encontrada em um de meus garimpos nos sebos, com o título original: “Nascida Inocente”, escrita por Berhardt J. Hurwood, baseada no roteiro de Gerald Di Pego. 


Inocência Ultrajada (Born Innocent - 1974)
Feito na esteira do sucesso mundial de “O Exorcista”, um veículo ousado para a pequena Linda Blair firmar seu nome na indústria, “Inocência Ultrajada” aborda um tema espinhoso, os abusos sofridos pela garota em um reformatório. Ela tinha apenas quatorze anos quando filmou a sequência forte de estupro no banheiro, algo que jamais seria cogitado nos dias de hoje. Sem nudez, todo o sofrimento transmitido em seu rosto, uma declaração de coragem rara, especialmente quando a postura mais confortável seria ela abraçar a fama e optar por papéis bonitinhos em filmes inofensivos. Em “A Garota Viciada”, no ano seguinte, ela interpretou uma menina viciada em álcool. É uma pena pensar que a sua carreira foi destruída no final da década de setenta, ao aparecer nas manchetes em um escândalo com drogas. Ela, que tinha talento para ser uma das maiores atrizes de sua época, foi esquecida por Hollywood e se manteve trabalhando em projetos fracos, sem relevância.

Analise a cena do primeiro banho de sua personagem, logo após a chegada na instituição, o choro convulsivo, a angústia contida que explode ao encarar a frieza do local. Christine (Blair) é fruto da parentalidade irresponsável, os pais, vividos por Kim Hunter e Richard Jaeckel, alternam a agressão física com a pressão psicológica, vivem brigando na frente dela, um cenário caótico que a impele a fugir. A crítica é direcionada ao sistema que, em teoria, serve para ressocializar os jovens, mas, na prática, apenas termina de destruir o indivíduo. Ela chegou inocente, compreensivelmente perturbada, com o olhar de criança, um detalhe que a atriz evidencia brilhantemente na sua gradual transformação, porém, sob o manto das figuras de autoridade no local, ela foi seviciada de todas as formas. O único elemento humano que a mantém sã é o irmão mais velho, vivido por Mitch Vogel. Quando ele a atrai na intenção de facilitar a aproximação do policial que vai conduzir a jovem de volta para o reformatório, as correntes emocionais se rompem, a sociedade consegue finalmente criar um monstro irrecuperável.

O filme conquistou a maior audiência televisiva no ano. E, como pude constatar na revisão, ele se mantém eficiente, com uma linda trilha sonora composta por Fred Karlin, injustamente pouco lembrado, responsável por uma das melhores baladas cantadas por Karen Carpenter: “For All We Know”, escrita para o filme “As Mil Faces do Amor”, de 1970.