quarta-feira, 31 de agosto de 2016

"A Paixão de Joana D'Arc", de Carl T. Dreyer


A Paixão de Joana D’Arc (La Passion de Jeanne d'Arc – 1928)
Creio que poucos títulos da era muda tenham sobrevivido tão bem ao teste do tempo quanto essa obra-prima de Dreyer, retratando toda a tensão das últimas horas de vida da militar francesa. A opção inteligente de filmar os rostos de perto, sem maquiagem, em ângulos desconcertantes, tendo ao fundo paredes brancas, propositalmente destacando sobremaneira cada vinco, cada verruga, até mesmo os sutis e tão significativos desvios de olhar dos algozes, captando o sorriso orgulhoso de anciões que conspiram com prazer sádico, enquanto a jovem vítima sente nos lábios ressecados o sal amargo de suas lágrimas. A atuação de Maria Falconetti é usualmente citada como a melhor já registrada pelas lentes do cinema, ela consegue transmitir nuances de emoções com um simples meneio de cabeça, você sofre com seu martírio ainda que nenhuma informação tenha sido passada sobre os acontecimentos anteriores à sua captura pelos ingleses, o que é um tremendo mérito. 

A câmera, quando atua como os olhos da protagonista, por várias vezes encara o espaço vazio acima dos juízes, seus rostos cortados no enquadramento, enfatizando a irrelevância daqueles tolos diante de sua crença. A objetividade quase documental nas sequências do julgamento ganha contornos metafóricos de muita sensibilidade, como na cena em que ela, já sendo amarrada ao poste para ser queimada, percebe que a corda desliza de seu braço e cai no chão, o que a faz se abaixar e pegar de volta a peça que garantia o seu sacrifício, para a incredulidade do homem que executava o serviço. A morte é a liberdade do justo em uma realidade dominada por desonestos. A câmera faz questão nesses momentos finais de manter sempre no horizonte o símbolo da hipocrisia, a cruz no topo da igreja. Joana outrora havia se emocionado ao enxergar a figura geométrica na sombra das vigas de sua cela, ela entra em desespero ao ser afastada do objeto que representa sua crença religiosa, mas o espectador é levado pelo diretor a refletir além da imediata empatia, através dos enquadramentos utilizados, evidenciando o templo como testemunha imponente do sofrimento, a mesma cruz na cena atuando como fagulha de esperança e juiz impiedoso alicerçado na mentira.

É impressionante o impacto da sequência em que ela é levada para a sala de tortura, uma adolescente analfabeta de origem camponesa cercada por variados instrumentos de dor e humilhação, mas que é capaz de encontrar refúgio para minimizar a angústia em suas inabaláveis convicções, e, por conseguinte, amedronta os covardes, negando aos seus carrascos a satisfação de sua submissão.






* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Versátil”, com a curadoria sempre impecável de Fernando Brito, numa versão definitiva com opção em 20 e 24 quadros por segundo, além de um excelente documentário sobre o diretor e uma entrevista com a filha da atriz.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

TOP - Filmes dos Trapalhões


1 - Os Trapalhões no Auto da Compadecida – 1987
Impecável tecnicamente, direção de Roberto Farias, essa continua sendo a melhor adaptação cinematográfica da obra de Ariano Suassuna. João Grilo e Chicó são enriquecidos pelas personalidades de Didi e Dedé, amparados por um elenco refinado. Um dos melhores filmes nacionais de todos os tempos.


2 - Os Saltimbancos Trapalhões – 1981
Adotando a estrutura de um musical, vale ressaltar a habilidade do roteiro em não descaracterizar os personagens. Como ousado pano de fundo, a bela mensagem dos artistas reunidos como valente oposição aos desmandos de um ditador, elemento que engrandece o desfecho com um simbolismo emocionante.


3 - Cinderelo Trapalhão – 1979
É um simples conto de moralidade bastante eficiente, temperado com a riqueza da cultura circense, representada nos primeiros vinte minutos, feitos quase sem diálogos, focados em peripécias do grupo inseridas coerentemente no contexto da trama. Sobra espaço até para Aragão emular Cantinflas.


4 - O Casamento dos Trapalhões - 1988
A direção de José Alvarenga Jr. estabelece com naturalidade um clima menos formal do que era comum nos filmes do quarteto. Essa irresponsabilidade criativa, altamente técnica, inseriu com relevância na trama as necessidades mercadológicas: product placement e a participação da banda Dominó.


5 - O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão – 1977
Sem Zacarias, mas já tendo encontrado o equilíbrio perfeito entre aventura, humor e drama, o diretor J.B. Tanko aprimora a fórmula de sucesso, com compreensão plena dos anseios de seu público-alvo infantil, com o roteiro misturando culturas nacionais e estrangeiras como bem fazia Monteiro Lobato. 





* Matéria escrita para a revista "Preview", edição 81, de Junho/2016. 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Faces do Medo - "A Mosca", de David Cronenberg

Link para os textos do especial:


A Mosca (The Fly – 1986)
Como agradeço hoje aos meus pais por não terem me criado, quando criança, afastado dos filmes de terror. Sempre me ensinavam que aquilo era tudo maquiagem e truques, o horror não era real, simples lições que todos os pais deveriam legar aos filhos. Eu vi “A Mosca” pela primeira vez aos cinco anos, mas poderia dizer que não vi, já que passava a maior parte do tempo com os olhos fechados. Perguntava pra minha mãe: “Já passou a cena?”. Se ela dissesse que sim, somente então eu abriria os olhos. Era medo misturado às gargalhadas que dávamos, com cada imagem medonha que aparecia subitamente na telinha. Depois de várias reprises foi que consegui realmente assistir ao filme. Mas eu me recordo vividamente o quanto me perturbava, nos anos seguintes, durante boa parte da minha adolescência, ligar a televisão de madrugada e dar de cara com o Jeff Goldblum. Esse é um dos poucos filmes do gênero que estabelecem o tom de angústia logo nos créditos iniciais, com a ajuda da trilha incrível do Howard Shore, você se sente impelido emocionalmente a desligar a televisão pelo desconforto que sabe que irá sentir, acho que só “O Exorcista” pode ser comparado nesse quesito. David Cronenberg é o responsável por essa refilmagem que é superior em todos os aspectos ao original, “A Mosca da Cabeça Branca”, de 1958.

A degeneração do corpo, única certeza humana, a consciência da finitude, o morrer um pouco a cada dia, conceitos que são incorporados metaforicamente na trama. Seth Brundle, com a racionalidade típica do cientista, conclui já em estado avançado de transformação que é um inseto que sonhou ser homem, no desespero pra não perder sua sanidade, abdicou de sua condição como homo sapiens na busca por encontrar alguma lógica em sua experiência. O seu guarda-roupa evidencia o desinteresse prévio pelos rituais de convívio social, várias camisas e calças idênticas, ele valoriza o intelecto, aquilo que não se pode exibir facilmente. Como deve ser desanimador para alguém assim ter consciência plena do natural desgaste físico e mental. Ao sentir os efeitos iniciais da sua fusão com a indesejada mosca na máquina de teletransporte, maior força muscular, maior resistência, ele euforicamente toca a possibilidade de, como cientista, entregar ao mundo a resposta definitiva contra as limitações corpóreas. O que era uma tentativa de conquistar glória profissional com o teletransporte acabou se tornando uma realização pessoal, a arrogância emotiva sobrepujou a racionalidade do estudante dedicado. O motivo que o fez se precipitar e que causou o problema foi o ciúme que ele sentiu pela namorada jornalista, vivida por Geena Davis, quando descobriu que ela estava mantendo um relacionamento com o seu editor. Uma atitude impulsiva enquanto estava bêbado, ser cobaia em seu experimento, aliada a uma situação inesperada, a entrada da mosca na máquina, uma equação nascida da negação de sua personalidade e que, como revide da natureza, resultou em tragédia.

Um momento especialmente comovente ocorre no terceiro ato, com a subtrama da gravidez da jornalista. Ela teme o ser que está se formando em sua barriga, em seus pesadelos ela dá vida a um monstro, mas encontra a resistência de Brundle ao optar pelo aborto, ele enxerga no bebê o seu único legado, a lembrança do que ele um dia representou. O bebê terá chance de nascer? O filme inteligentemente não entrega ao espectador essa resposta, algo que foi equivocadamente destruído com a tola sequência. A lenta transição de Brundle para Brundlemosca, com o devido mérito à equipe de efeitos de Chris Walas, coloca o personagem em confronto com elementos orgânicos naturais, como o vômito e o suor, que são reprimidos ou minimizados nos rituais sociais, rejeitados pelo verniz de ilusória elegância que segrega seres biologicamente idênticos. Ele, que até então desprezava o corpo e valorizava apenas a mente, passa então a se orgulhar da complexidade de sua composição física, chegando a depositar suas orelhas e unhas perdidas na metamorfose em uma espécie de altar, o que ele chama de “Museu de História Natural de Seth Brundle”. Como alguém que vivencia prematuramente a velhice, ele sofre por se manter lúcido e mentalmente ágil, mas preso em uma matéria que se decompõe rapidamente. Essa é a metáfora do roteiro, o real terror que todos nós, com sorte, iremos um dia conhecer. Por mais que lutemos para manter nossas mentes ativas, estamos condenados à degradação do corpo. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

"Ave, César!", de Joel e Ethan Coen


Ave, César! (Hail, Caesar! - 2016)
Livros como “Moviola”, de Garson Kanin, e “Fedora”, de Thomas Tryon, conduziam o leitor para as engrenagens da indústria cinematográfica norte-americana da era de ouro dos grandes estúdios, desconstruindo habilmente a fábrica de mitos. Com “Ave, César!”, os irmãos Coen arriscaram esse mesmo nicho de público, aqueles cinéfilos dedicados com estofo cultural no tema, conscientes de que muitos espectadores poderiam se sentir como penetras em uma festa de desconhecidos. Essa coragem autoral, desestimulada naturalmente pelas exigências de mercado, confirma a importância dessa dupla no cenário atual pós-apocalíptico de baixa criatividade em Hollywood. O roteiro é ambientado na década de cinquenta, período fascinante em que a teatralidade dominava todos os setores da sociedade, traçando um paralelo inteligente dessa realidade com o elemento essencial da glorificada farsa exibida na tela grande da sala escura.

O espetáculo dos épicos bíblicos, recurso mais eficiente dos produtores da época na tentativa de retirar jovens e adultos da frente dos televisores, coerentemente toma papel de destaque na trama, com a simbologia do subtítulo: “Um Conto de Cristo”, copiado de “Ben-Hur”, representando a alienação ideológica daqueles que movimentam financeiramente o negócio. Ao comandar uma reunião em seu escritório com dignitários de várias vertentes religiosas, estranhos sem autoridade naquele templo, para checar se estão sendo respeitados os aspectos teológicos da obra, o esforçado executivo não consegue esconder a estupefação, os líderes se mostram incapazes de chegar a um acordo sobre os detalhes mais simples a respeito da figura de Jesus. As discordâncias são radicais, o tom das vozes aumenta exponencialmente na discussão dominada por frases feitas e conceitos memorizados, fica evidente que estamos diante de personagens tão caricatos quanto os que nascem das mentes dos roteiristas. A teatralidade no sistema religioso retorna nos encontros do executivo com o padre na cabine de confissão, na forma displicente com que o sacerdote redime os pecados ministrando “quatro Ave-Marias”, como doses de um placebo homeopático.

A doçura sorridente que a nadadora exibe em suas coreografias aquáticas que encantam as famílias, símbolo de inocência comercializada, ilusão que se desfaz após a filmagem ser interrompida, revelando uma personalidade grosseira, uma atriz cínica que esconde a gravidez com a ajuda do estúdio por não saber quem é o pai. A teatralidade que forja imagens mentirosas alimentadas pela indústria da fama, representada pelas gêmeas jornalistas que disputam o furo da notícia. Ao fazer delas irmãs idênticas, o roteiro evidencia a ausência de escrúpulos que move essa atividade. O sequestro do ator veterano pelo grupo de roteiristas comunistas, confortáveis em um salão elegante, ressaltando a teatralidade política, a farsa de um movimento que utiliza o proletariado como bengala até conquistar o poder. Um deles é encontrado dormindo ao tentar ler uma revista intitulada: “Vida Soviética”. A paranoia que possibilitou o macarthismo é trabalhada também na absurda sequência do submarino, uma solução visual divertida para mostrar como era ingênua a forma de pensar do povo, amedrontado por uma ameaça tão teatral quanto aquela lua pintada no cenário do filme do vaqueiro cantor, ou a antinatural dança dos marinheiros sobre as mesas do bar. A vida real é fundamentada em fantasias tão impressionantes quanto as mirabolantes ideias que movimentam a indústria de cinema. 

* Texto escrito para o catálogo da Retrospectiva "Irmãos Coen - Duas Mentes Brilhantes", exibida de 16 a 31 de Agosto de 2016, no Cine Sesc Palladium, em Minas Gerais.

Edgar Allan Poe no Cinema


Dois Olhos Satânicos (Due Occhi Diabolici / Two Evil Eyes – 1990)
Pensado originalmente como uma antologia de quatro contos, o projeto acabou reduzido às excelentes contribuições de Dario Argento e George Romero, mestres no gênero de estilos bem diferentes. Em sua versão de “O Gato Negro”, melhor segmento do projeto, Argento utiliza elementos de outros contos de Poe, como “Berenice” e “O Poço e o Pêndulo”, demonstrando o seu respeito pela obra do autor, com destaque para uma atuação impecável de Harvey Keitel e a intensa criatividade cênica usual na carreira do italiano. Romero utiliza “O Estranho Caso do Senhor Valdemar” como moldura para trabalhar seu tema favorito, o ataque ao capitalismo, sendo ajudado pela competência nos efeitos de Tom Savini, elemento que garante o alto nível de uma produção que teve vários problemas de orçamento.


Histórias Extraordinárias (Histoires Extraordinaires – 1968)
É muito curioso que dos três contos utilizados no filme, aquele que no papel é o menos interessante, “Nunca Aposte Sua Cabeça Com o Diabo”, um desabafo literário do autor contra os analistas que procuravam lições de moral em suas histórias, acabou sendo o grande destaque, sem dúvida, a razão do filme ainda ser lembrado hoje. O mérito é do mestre Federico Fellini, auxiliado pela trilha maravilhosa de Nino Rota, que entende a essência corajosa do original e faz de “Toby Dammit” uma crítica à cultura da fama emoldurada em um perturbador pesadelo metalinguístico. Roger Vadim, que dirige o primeiro segmento da antologia, conseguiu retirar o impacto visual estimulado pelas palavras de Poe em “Metzengerstein”, reduzindo tudo à sua especialidade: fotografar belas mulheres intensamente sexualizadas. Jane Fonda está deslumbrante, mas o resultado salienta os aspectos negativos de um cineasta que parece tocar na câmera com a destreza de um chimpanzé tocando violino. Já o segundo segmento, “William Wilson”, adaptando a boa história do duplo, apresenta um Louis Malle mais contido, visivelmente inseguro em um terreno desconhecido, mas ganha pontos pela atuação irrepreensível de um paranoico Alain Delon. Ao sermos conduzidos para o último segmento, parece que estamos vendo um curta moderno que foi inserido em uma produção datada, o impacto é tremendo, do estilo visceral na atuação de Terence Stamp, passando pela direção de arte surrealista, até a esperta homenagem a Mario Bava na personificação do demônio na forma da menina loira de “O Ciclo do Pavor”. Fellini firma seu traço autoral na trama, mostrando que só não se tornou um cineasta reconhecido no gênero do terror porque não quis. O purgatório do ator britânico vivido por Stamp é o falso paparico dos repórteres em sua viagem à Itália para promover um novo projeto, o palco excessivamente iluminado que divide espaço com a extrema pobreza, cenário onde todos estão sempre maquiados e com sorrisos mecânicos, figuras vazias, caricaturas deprimentes de sombras que o cortejam em seu caminho para o inferno.


O Corvo (The Raven – 1963)
Ao apostar no humor como tom dominante para o filme, Roger Corman criou uma pérola que se distancia dos outros projetos do ciclo da AIP, utilizando o melancólico poema de Poe como espirituosa desculpa para colocar em cena medalhões como Vincent Price, Boris Karloff e, como a própria ave do título, Peter Lorre, protagonizando o mais divertido duelo de magos da história do cinema. Até mesmo os efeitos visuais trabalhados com o baixo orçamento mantém um charme fascinante, algo que nos remete aos livros de fantasia que líamos na infância. Vale destacar o hilário relacionamento do personagem de Lorre com o filho, vivido por Jack Nicholson, um jovem que o idolatra, mas que recebe como resposta apenas grosseria. O roteiro de Richard Matheson explora todas as possibilidades cômicas, forçando a mão algumas vezes, mas sempre amparado pelo carisma matador de Price. Ainda que muitos críticos avaliem negativamente o clima da obra, o despojamento aparente na leveza das cenas é o símbolo máximo da competência do diretor, já que o mais difícil é fazer com que a superação diária de obstáculos no set de filmagem não transpareça para o espectador, encantado com a naturalidade do elenco no que parece ser uma festa entre amigos de longa data.


Gato Negro (Gatto Nero – 1981)
Um projeto despretensioso feito como um favor de Lucio Fulci ao produtor Giulio Sbarigi, com fantásticas cenas de gore envolvendo chamas e objetos pontiagudos, abusando dos seus característicos planos de detalhe nos olhos, mas com um cuidado maior na construção de clima em um cenário bucólico inglês, resultando em um verniz mais elegante do que o diretor costumava apresentar à época. A trilha de Pino Donaggio ajuda a reforçar o tom sobrenatural e a tristeza da sina de um amaldiçoado, preenchendo as lacunas usuais dos roteiros de seus filmes. O conto é o mais famoso de Poe, tem um final inesquecível e já foi inspiração para vários projetos, como “No Quarto Escuro de Satã”, de Sergio Martino, que a Versátil está lançando na caixa “Giallo, Vol. 3”, até Mario Bava bebeu dessa fonte em seu “Schock”. Vale comparar a versão de Fulci com a comandada por Dario Argento em “Dois Olhos Satânicos”, presente na caixa. 






* Os filmes estão sendo lançados em DVD pela distribuidora Versátil, com a curadoria sempre impecável de Fernando Brito, no digistack "Edgar Allan Poe no Cinema, Vol. 2", em parceria exclusiva com a Livraria Cultura.