quinta-feira, 7 de maio de 2015

"Patrulha da Madrugada", de Edmund Goulding


Patrulha da Madrugada (The Dawn Patrol – 1938)
Em 1915, durante a Primeira Guerra na França, um oficial britânico, Major Brand (Basil Rathbone), comanda o 39º Esquadrão da Royal Flying Corps. Jovens e inexperientes aviadores vão para os ares em verdadeiros caixotes voadores crivados de balas, e a taxa de acidentes é terrível. Brand não consegue que nos quartéis os altos oficiais vejam a razão. O insubordinado, e herói do esquadrão, Capitão Courtney (Errol Flynn), também é uma dor de cabeça para Brand. Mas as coisas mudam quando Brand assume o comando e jovens e veteranos lutam juntos contra os temidos pilotos alemães.


Em uma das cenas mais importantes, o protagonista, vivido por Errol Flynn, em uma de suas melhores interpretações, abraçando uma complexidade de emoções que poucos personagens ofereceram em sua carreira, afirma para seu colega: “O homem é um animal selvagem que, por períodos, alivia sua tensão tentando se destruir”. É exatamente essa postura crítica direta, corajosa, que eleva a qualidade do filme dirigido por Edmund Goulding, ambientado na Primeira Guerra Mundial, um roteiro que evidencia o despropósito por trás do confronto, a utilização de jovens como gado a ser abatido, analogia representada na sequência final, onde, após uma tragédia que abala a moral dos soldados, uma nova equipe é apresentada ao comando, rostos ingenuamente sorridentes, rapazes que acreditaram na propaganda militar, números em uma estatística.

Essa refilmagem superior do clássico homônimo de Howard Hawks, filmado em 1930, um suposto plágio de “Anjos do Inferno”, de Howard Hughes, conta ainda com David Niven e Basil Rathbone. Um detalhe que considerei interessante, por não ser o comum na abordagem dos filmes de guerra da época, foi a subtrama do piloto alemão que, abatido, é recebido pelos soldados americanos, tratado com respeito e cordialidade, até humor, algo que seria retratado no ano seguinte em “A Regra do Jogo”, de Jean Renoir. As cenas de batalha aérea são eficientes, mantém um charme imbatível, porém, o foco da câmera está sempre na reação dos soldados ao perderem seus companheiros, o que tornou a obra atemporal. A camaradagem de estranhos, com pouco tempo para efetivamente se conhecerem, envolvidos em um jogo brutal que não compreendem.

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Studio Classic Filmes”.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Woody Allen - "Broadway Danny Rose"

Link para os textos anteriores desse especial que se leva tão a sério quanto o próprio Woody:

Eu estava entediado com o reality show que estava passando na TV Senado, achei que os participantes perdiam tempo demais fazendo pose pras câmeras, aqueles discursos demagógicos para ver se eles conseguiam o carinho do público nas próximas eleições para líder, uma falsidade sem tamanho. E, levando em consideração a grana alta que eles estão recebendo, acho que poderiam pelo menos fingir que estão interessados nos assuntos que debatem com tanta teatralidade. Quando um dos mais exaltados, que carregava duas plaquinhas com os dizeres: “Vossa Excelência” e “Vossa Senhoria”, para facilitar na hora de exercitar sua desajeitada oratória, gritou: “Aleluia”, e foi pulando num pé só até o presidente, decidi que era hora de trocar de canal.

Foi quando descobri, em um canal espanhol, um daqueles clássicos programas de perguntas e respostas. As perguntas eram sobre temas culturais, citavam atrizes do cinema clássico, até obscuras, e, para minha surpresa, os participantes acertavam. Já nos programas similares brasileiros, quase sempre, os participantes pedem ajuda dos universitários para questões como: “Quantas bananas você encontra em uma caixa com uma dúzia?” E, invariavelmente, os universitários, que passam mais tempo nas manifestações, do que nas salas de aula, acabam decidindo pela cômoda alternativa: “É uma caixa grande ou pequena?”. Raciocínio rápido não é o forte do brasileiro. E o raciocínio lento, por via das dúvidas, nunca é lento o suficiente.

***
“O governo é o culpado, esses políticos que não fazem nada, essa presidAnta tem que pedir pra sair, o povo brasileiro não tem educação, vou bater panela na minha janela e xingar muito no Twitter.” (assinado: Glória Patrícia, empresária do condomínio de luxo do Leblon, pouco antes de assistir religiosamente o capítulo da novela, tirar mais sete variações de selfies idênticas para postar nas redes sociais, e utilizar o livro de autoajuda que ganhou de uma amiga como suporte para sua taça de espumante)

***

A apresentadora do programa brasileiro, que interrompeu as questões e, por alguns minutos, transformou o cenário em uma farmácia, vendendo cápsulas para combater artrose e celulite, aparentemente teve um colapso nervoso no palco e, sem saber com qual mão deveria segurar o microfone, acabou de confessar aos participantes que segue apenas o que o seu marido, dono da emissora, lê para ela em seu ponto auricular. O programa europeu pode ser mais elegante, os participantes podem ser mais inteligentes, o apresentador pode ser mais educado, porém, com certeza, nós compensamos com o menor senso de ridículo do mundo. É impressionante perceber como os brasileiros conseguem manter essa programação no ar, diariamente, sem que os responsáveis cometam harakiri. Claro, não há código de honra algum.

***
“O povo precisa ir às ruas, berrar mesmo, é um absurdo esse aumento nos preços dos automóveis importados. Eu sou brasileira, meu amor, um lábio que estampa estrelado o verdugo loiro dessa flama, gigante pela própria natureza, por seu fulgúrio, espelho dessa grandeza, impávido colostro que, como Chiquinho Buarque dizia, “ê, meu amigo Charlie Brown, meu guri”, temos que levantar a nossa bandeira verde e rosa dessa lama que suja as nossas ruas. Fora, governo podre!” (assinado: Glória Patricia, empresária do condomínio de luxo do Leblon, pouco depois de tomar sua medicação diária, jogar uns ovos pela janela, consultar seu horóscopo para o dia seguinte e, sem muita empolgação, tentar, pela vigésima vez, iniciar a leitura do novo livro do seu ídolo: Padre Carmelito, o Bondoso)

***
O Brasil está de cabeça para baixo, ou, sendo mais preciso, está numa variação da posição fetal no meio de um jogo de Twister, com os braços entrelaçados nas pernas e, num contorcionismo invejável, com a cabeça enfiada dentro de um buraco improvisado no chão. Os analistas mais pessimistas estão garantindo que os mortos irão se levantar dos túmulos em um apocalipse zumbi que irá ocorrer após a descida de uma nave alienígena, já os analistas otimistas preveem que a nave irá desviar de sua rota no último minuto, após uma retumbante gargalhada do piloto, causada pela resposta de um dos participantes brasileiros do programa de televisão. Na dúvida, os militares já estão se preparando para um revival da ditadura, apoiados cegamente pela massa acéfala que fugiu de todas as aulas de História na escola. Estamos vivendo uma época tão gloriosa, tão emocionante, que dá vontade de acordar todos os dias e, com a mão direita sobre o peito, cantar o Hino Nacional. O que aconteceria, caso os brasileiros soubessem a letra.


Broadway Danny Rose (1984)
Esse é um dos meus favoritos, que encanta principalmente pela ternura com que Allen retrata os personagens. O protagonista nos é revelado através de um bate-papo descontraído, numa mesa de restaurante, entre comediantes, relembrando com carinho esse agente de talentos que verdadeiramente apostava em seus artistas, por mais simplórios que eles parecessem ser, de homens que moldavam cães com balões, passando por encantadores de pássaros, sapateadores pernetas, até mágicos amadores e malabaristas de um braço só. Ele valorizava mais o elemento humano, a possibilidade de, da noite para o dia, um desconhecido se tornar famoso por sua Arte, superando suas limitações.

Danny Rose não acredita plenamente na qualidade dos números de seus agenciados, isso é o que menos importa, ele genuinamente criou um vínculo de amizade com eles. Ao vender seus trabalhos, ele enaltece o caráter e a bondade deles, uma espécie de carta de amor de Woody para o produtor que apostou financeiramente em seu trabalho, quando era apenas um tímido jovem comediante desconhecido: Jack Rollins. O próprio conceito de celebração da gentileza, em uma área tão contaminada pelo egocentrismo e pelo jogo sujo, já engrandece a temática do filme. E, claro, há o elemento do humor, em dose generosa. Em um dos raros finais felizes nas obras do diretor, sem qualquer insinuação de ambiguidade, Allen eleva o protagonista a um patamar de lenda, um personagem mitológico que servirá de inspiração para os profissionais que virão. 

terça-feira, 5 de maio de 2015

Razzle Dazzle - "O Barco das Ilusões" (1951)


O Barco das Ilusões (Show Boat – 1951)
Baseado na obra de Edna Ferber, com uma temática corajosa, esse musical da MGM, com composições de Jerome Kern e Oscar Hammerstein II, teve duas adaptações em Hollywood, sendo essa, dirigida pelo mestre do gênero: George Sidney, aquela que considero superior em todos os aspectos. Como curiosidade, acho interessante citar que a censura do Código Hays impossibilitou a participação de Lena Horne, no papel que acabou ficando com Ava Gardner, por ser negra. Ela havia se destacado no musical “Quando as Nuvens Passam”, de 1946, cantando “Can’t Help Lovin’ Dat Man”, uma das canções mais bonitas de “Show Boat”, num trecho que homenageava a obra de Jerome Kern. O estúpido racismo da época, que não aceitava a relação amorosa entre duas raças na tela grande, entregou a personagem mestiça nas mãos de Gardner, branca como leite, que foi dublada nas músicas por Annette Warren.

A câmera se apaixona por Ava desde seu primeiro momento em cena, seu carisma é inegável, uma das mais belas estrelas do cinema, mas, sem titubear, considero mais atraente o charme de Kathryn Grayson, aquele sorriso encantador que transmitia um misto de inocência e ousadia, que coube perfeitamente em sua Magnólia, uma mulher capaz de se manter apaixonada por um homem, por alguns anos, nessa adaptação, ou longos vinte e três, no original, ainda que ele já tenha se perdido no vício pelo jogo, pelo tempo necessário até que ele perceba o erro. É lindo o sacrifício da personagem de Ava, escrava de outro vício, o álcool, desistindo de sua carreira em um espetáculo, ao descobrir que sua jovem amiga, Magnólia, estava buscando emprego. A forma como a situação é trabalhada, elegante, evitando o melodrama fácil, potencializa a emoção na cena final, que não irei revelar aqui.

A canção mais famosa da obra é o tocante e trágico lamento dos negros: “Ol’ Man River” (“... estou cansado de viver, porém, tenho medo de morrer...”), interpretado por William Warfield. Gosto bastante de “Life Upon The Wicked Stage”, que emoldura a simpática apresentação do casal de dançarinos, porém, minha favorita é “Make Believe”, que simboliza o poder de investir no impossível, acreditar no sonho, dar o salto de fé. A canção, dueto de Grayson e Howard Keel, emociona ainda mais em sua reapresentação no terceiro ato, representando o legado do amor que, mesmo breve, acaba se eternizando na Arte, como o rio que conduz o barco das ilusões para suas próximas apresentações.

* O filme está sendo lançado em DVD, inédito em home video, pela distribuidora “Obras-Primas do Cinema”.

George Lazenby, o 007 ignorado


Apesar de ser muito querido pelos fãs hardcore da franquia 007, no que me incluo, George Lazenby é usualmente ignorado por grande parte do público. E, nesse caso, a culpa é toda dele. Ele é um perfeito exemplo de como se é possível jogar no lixo uma carreira, mesmo quando o artista recebe as melhores oportunidades. O próprio assume seus erros, maldizendo sua imaturidade no passado. E, exatamente por essa atitude corajosa, ele merece essa homenagem.

Como um vendedor de carros usados, o jovem australiano chamou a atenção de um agenciador de modelos. Sem nenhuma experiência artística, sequer uma aula de teatro, após conhecer de passagem o produtor Cubby Broccoli numa barbearia, ele, com a arrogância típica da juventude, colocou na cabeça que iria tentar a chance como o novo 007, já que Sean Connery não queria mais interpretar o agente secreto que o mundo inteiro conhece pelo nome completo. Imagine você, caro leitor, a empáfia do sujeito, quando se olhou no espelho numa manhã, com apenas um sonho louco na mente, e percebeu que seus longos cabelos não iriam ajudar em seu objetivo. O jovem então cortou seu cabelo exatamente como o de Connery, gastando boa parte da verba acumulada com seus trabalhos de modelo nessa reformulação, comprando um relógio Rolex e um elegante terno mais próximo do estilo de James Bond. Com a ajuda de alguns contatos, descobriu o edifício onde os produtores estavam realizando os testes para o elenco. Ele sabia que não poderia ficar na fila de atores esperançosos, já que não tinha currículo algum, nem formação profissional.

Lazenby resolveu o problema simplesmente com a cara e a coragem, atravessando a passos largos a sala de espera e adentrando, sem pedir licença à secretária, no escritório dos produtores. Escondendo bem o nervosismo, ele disse aos assustados homens engravatados que o encaravam: "Soube que vocês estão procurando o novo James Bond". Quando perguntado sobre sua experiência, o jovem disse apenas que já havia trabalhado em produções ao redor do mundo, o que dificultaria o processo de pesquisa. A segurança do garoto era exatamente o que eles procuravam. Quando já estava com o papel assegurado, ele contou a verdade aos produtores, que devem ter pensado: Se esse garoto é bom o bastante pra enganar a gente, ele é bom o bastante pra substituir Connery. Em outra audição, o jovem acidentalmente esmurrou o coordenador de cenas de ação, um exímio lutador profissional, arregalando ainda mais os olhos esperançosos dos engravatados. Assinado o contrato, ele seria o único ator a protagonizar apenas uma produção na franquia, o excelente "007 - À Serviço Secreto de sua Majestade", de 1969.

Antes mesmo de o filme ser lançado, ele já estava demonstrando insatisfação nas entrevistas de divulgação, novamente com seus longos cabelos e uma barba, simbolizando possivelmente a rebeldia interna do adulto imaturo que deu mais trabalho nos sets de filmagem que uma criança. Sua reação assustava a todos, inclusive sua experiente Bond Girl Diana Rigg, que testemunhou muitos dos ataques de estrelismo do rapaz. Como as suas vontades não estavam sendo atendidas, Lazenby começou então a renegar o personagem, dizendo que o mundo da fantasia não mais o interessava. Ele teve a chance de ser um astro querido e respeitado no mundo todo, fazendo parte de uma família artística de poucos privilegiados, mas jogou no lixo um contrato para mais seis produções. Décadas depois, já esquecido, estava sendo coadjuvante de luxo nos filmes eróticos da série "Emmanuelle". Hoje em dia, consciente de seus erros, ele é um dos mais frequentes participantes de qualquer homenagem que seja realizada para a franquia, sempre falando com muito carinho da experiência e do personagem. 

sábado, 2 de maio de 2015

"Planeta Proibido", de Fred M. Wilcox


Planeta Proibido (Forbidden Planet – 1956)
O cruzador interplanetário C-57D desce no planeta Altair IV, com o objetivo de resgatar um grupo de cientistas colonizadores que lá haviam aterrissado vinte anos antes com a nave espacial Belerofonte. Os viajantes encontram um filólogo e sua filha, únicos humanos imunes a uma misteriosa força existente no planeta.


Em meio a tantas aventuras espaciais tolas e realizadas com baixo orçamento na década de cinquenta, a MGM decidiu investir pesado em uma trama de ficção científica inspirada em “A Tempestade”, de William Shakespeare, roteirizado por Cyril Hume, que, no mesmo ano, foi o responsável pelo excelente “Delírio de Loucura”, de Nicholas Ray. A cereja do bolo, a ameaça alienígena, desenhada pelos profissionais dos estúdios de Walt Disney. É inteligente a ideia de manter essa força incontrolável de destruição, uma manifestação do subconsciente de ódio do ser humano, como um elemento invisível, sinalizada pelas pegadas monstruosas que deixa no solo, confiando na imaginação do espectador. O que não se vê é sempre mais assustador.

O conceito freudiano era altamente ousado à época, inserido em um produto de puro entretenimento, superestimando o público-alvo que costumava lotar as sessões descompromissadas do gênero. Ao invés de apostar nos genéricos monstros e robôs destruidores, o roteiro incita a reflexão sobre o desejo do homem em conquistar outros mundos, e, devido a essa insaciável ambição tecnológica, seu consequencial desinteresse, cada vez mais latente, no aprimoramento psicológico individual. O aumento do conhecimento, o estímulo do raciocínio, irá ser responsável por avanços científicos, mas, na mesma medida, irá gerar uma evolução na capacidade destrutiva. Esse questionamento é um dos principais motivos que impediram o envelhecimento do projeto, apesar de, obviamente, os efeitos visuais não causarem mais deslumbramento. A influência dele pode ser mensurada de forma simples, apenas imaginando que, sem ele, provavelmente não haveria a série “Jornada nas Estrelas”. Gene Roddenberry bebeu generosamente da fonte do clássico dirigido por Fred M. Wilcox.

A imagem icônica do robô Robby, que entrou para a cultura pop, acaba sempre chamando mais atenção, porém, sua participação no filme, apesar de muito eficiente enquanto alívio cômico, é, afirmo com segurança, o elemento menos interessante nessa excelente obra. 


* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Versátil", na caixa "Clássicos Sci-Fi", que conta também com: "Eles Vivem", "A Ameaça Que Veio do Espaço", "O Planeta dos Vampiros", "Os Malditos" e "Fuga no Século 23". Imprescindível para os fãs do gênero.