quarta-feira, 1 de abril de 2015

"À Sombra do Vulcão", de John Huston


À Sombra do Vulcão (Under The Volcano – 1984)
A obra original de Malcolm Lowry foi uma das experiências literárias mais perturbadoras que tive, o corpo ficava cansado a cada final de página. Após o tédio do primeiro capítulo ambientado um ano depois dos eventos mostrados, uma verdadeira provação até para leitores acostumados com um estilo mais denso, acabei entrando na mente do personagem, o cônsul britânico Geoffrey Firmin, praticamente ficando bêbado junto com ele, testemunhando seu último dia de vida no México, em plena celebração dos mortos. O diretor John Huston comanda uma excelente adaptação, que já havia despertado o interesse de, entre outros, Orson Welles, Joseph Losey e Luis Buñuel, com o roteiro de Guy Gallo extraindo a essência do livro, sem o protagonista do já citado primeiro capítulo, M. Laruelle, mantendo o triângulo amoroso entre o cônsul (Albert Finney), sua esposa Yvonne (Jacqueline Bisset) e seu meio-irmão Hugh (Anthony Andrews), tendo o desafio de traduzir em imagens a intensa prolixidade do autor ao, no melhor estilo James Joyce, detalhar os efeitos desastrosos do vício alcoólico na mente de uma pessoa.

O mérito vai todo para a espetacular atuação de Finney, que alterna diferentes níveis de torpor, sutilmente revelando características do personagem, já que a narrativa não é interrompida por flashbacks, monólogos internos, ou qualquer forma de exposição. Conseguimos enxergar em sua nobre vestimenta, sua armadura no passeio vespertino, a dignidade perdida no passado. A fotografia de Gabriel Figueroa ajuda, com a opção pela superexposição, a reforçar a sensação de sufocamento que envolve os personagens, reduzidos aos seus impulsos básicos, como se a câmera transpirasse por causa do calor. Ao perceber que sua esposa retornou, interrompendo sua divagação ébria no bar, Firmin checa várias vezes, até que sua mente acredite que aquela bela figura não é apenas uma ilusão brotada de seu desespero.

Essa atitude, assim como sua cena cômica no banheiro, denota claramente uma modificação estrutural na adaptação: o personagem é um tolo, bonachão, alguém que exibe, por baixo de todo o humilhante estado de um viciado, as características de um homem gentil e carinhoso, humanizando sua contraparte literária. Ele está obstinado em sua jornada de autodestruição, amargurado com a traição das duas pessoas que mais amou: sua esposa e seu meio-irmão. O seu objetivo maior, seu triste sacrifício, sua descida ao inferno, serve como punição para eles. O constante anestesiar, a supersensibilidade que sucede os tremores da dependência, a faustiana perda da inocência às vésperas da Segunda Guerra Mundial, elementos que vão elucidando, em revisões, o quebra-cabeça cheio de simbolismos proposto pelo autor, e complementado por Huston.

* O filme está sendo lançado em DVD, com extras, pela distribuidora Versátil.  

terça-feira, 31 de março de 2015

Chumbo Quente - "Dívida de Honra"

Link para os textos do especial:


Dívida de Honra (The Homesman - 2014)
É um aspecto comum do cinema, quando tenta criar uma personagem feminina forte, adicionar em sua composição vários elementos compartilhados pelos heróis, invariavelmente masculinizando a mulher, tornando-a bruta e insensível, ao invés de evidenciar a bravura inerente à sua feminilidade. Como a Ellen Ripley, de “Aliens – O Resgate”, ou, num exemplo recente do gênero, a menina da refilmagem de “Bravura Indômita”, ainda que exista uma função dessa atitude em sua origem literária, já que ela adota psicologicamente a personalidade do pai que busca vingar. Já a Mary Bee, vivida por Hilary Swank, é o extremo oposto, um inteligente modelo de construção de personagem. Ela é uma mulher madura que sobrevive sozinha no Velho Oeste, enfrentando o preconceito da sociedade machista, rejeitando a subserviência ao provar competência em seu trabalho, porém, como uma alma sensível, capaz de aliviar as angústias diárias tocando imaginariamente as teclas de um piano bordadas em tecido, ela deseja ser verdadeiramente amada. 

O cenário rude, desolado, reflete metaforicamente a negação da sensibilidade, um berço de homens estúpidos que cospem suas mulheres de suas vidas, ao primeiro sinal de problema, figuras vistas como minimamente humanas, dispensáveis. Ao se dispor à difícil tarefa de conduzir três mulheres que perderam a sanidade, por conseguinte, impiedosamente despejadas por seus maridos, até uma cidade onde irão receber tratamento, Mary ousa vestir o manto de sacrifício por uma causa cujo escopo sequer poderia compreender. A alegoria é potencializada pela brutalidade que Tommy Lee Jones, enquanto diretor, não se intimida de mostrar. Cenas muito fortes, como uma protagonizada por Miranda Otto e um bebê, logo no início, exibem a coragem de um roteiro que não intenciona suavizar o impacto de sua mensagem, infelizmente ainda vergonhosamente atual. A revoltante repetição do ato do estupro com uma das mulheres doentes, incapaz de reagir, enquanto outra, que testemunha a violência, conscientemente silencia, assim como a automutilação, filmada com chocante frieza, ou as tentativas humilhantes da protagonista que tenta se adaptar às pressões comportamentais e encontrar um marido, estão dentro do contexto da época, porém falam diretamente ao papel da mulher hoje, cerca de cento e cinquenta anos depois, vítima de uma balança social que nunca se equilibra, nos mais variados setores. 

O personagem de Jones aparece exatamente na cena seguinte à reza do sacerdote, que pede proteção a Mary em sua árdua jornada, uma resposta certa encaminhada por linhas tortas de caráter, o símbolo máximo, quase caricato, do machismo, alguém que despreza o feminino a ponto de inicialmente rejeitar a hipótese de consumar uma noite de amor com Mary, desprezando-a até como imediatista objeto sexual. Ele não odeia a mulher, apenas sente profunda indiferença. Na cena, ele se despe com desleixo e preguiça, salientando seu total desinteresse em repensar sua conduta. Ela, por outro lado, havia demonstrado na cena em que consegue estabelecer conexão emocional com uma das vítimas, após gentilmente abraçar a ilusão que a mantém viva, a disposição libertária para a mudança de pensamento. Ela, a mulher na sociedade, está aberta à discussão, mais preparada que qualquer homem. Ele, o machista impotente, segue surdo aos pedidos de respeito e igualdade. O faroeste é utilizado então como veículo estético para uma trama que nos conduz à gradual percepção desse homem, o Adão desencantado, que aprende a conviver com o feminino. Evitando revelar muito da trama, vale ressaltar a beleza metafórica da linda cena no rio, que representa o gatilho dessa mudança, um dos momentos mais singelos e bonitos que vi nos últimos anos. Grande parte do mérito se deve também à impecável trilha sonora de Marco Beltrami. 

“Dívida de Honra” é, desde já, um dos melhores filmes do ano.

"Dois Lados do Amor", de Ned Benson


Dois Lados do Amor (The Disappearance of Eleanor Rigby: Them - 2013)
É complicado analisar essa versão truncada, editada a pedido do produtor Harvey Weinstein, visando um maior apelo comercial. O resultado dessa colcha de retalhos não representa a beleza da ousada obra de estreia do promissor roteirista e diretor Ned Benson, dois projetos que exploram um mesmo caso de amor sob duas perspectivas, a da traumatizada esposa, vivida por Jessica Chastain, com clara inspiração nas mulheres enigmáticas do cinema francês da época da Nouvelle Vague, e a do confuso marido, vivido pelo carismático James McAvoy. 

Tendo assistido as três versões, afirmo que o produto que estreia nos cinemas brasileiros é o que tem a execução mais problemática, perdendo toda a fluidez e o senso de silêncio, ainda que seja uma proposta válida e adulta em um gênero tão maltratado atualmente. Quem busca os estímulos adestrados pela banalização dos clichês irá sair frustrado, o roteiro está mais próximo do existencialismo da excelente trilogia romântica de Richard Linklater, com foco na sagacidade dos diálogos, onde os eventos mostrados existem apenas como incitação sensorial ao público, um convite para que cada espectador construa sua própria visão sobre os possíveis significados para esse desaparecimento da protagonista, elemento que se perde no convencional título nacional. 

A jovem que modifica sua aparência radicalmente após uma tragédia, foge do reflexo no espelho, rejeita o homem que amava, desaparecendo em sua autocomiseração. Ao mesmo tempo em que a caracterização do casal não ajuda no investimento emocional do público, o consequente distanciamento fortalece a compreensão de que o que está em discussão, o leitmotiv emoldurado pela linda fotografia de Christopher Blauvelt, é mais grandioso que o óbvio retrato amargurado dos malefícios da autopiedade e o doloroso processo de culpa. Um estudo sobre a impossibilidade de estarmos no controle de nossas vidas, algo que se intensifica exatamente por não sabermos quase nada sobre esses personagens. 

Quando a personagem aguarda a câmera desviar o olhar, para tomar uma decisão drástica, numa das cenas mais impactantes do primeiro ato, percebemos que sua angústia consiste na incapacidade de compartilhar com outrem a sua dor, o que explica tudo o que precisamos entender sobre ela. A riqueza dessa opção consciente pelo sucinto é mérito louvável do diretor. O marido, por outro lado, busca emular uma normalidade possível em seu cotidiano, uma negação da dor. O contraste entre esses dois polos opostos é o que torna o filme um produto superior.

segunda-feira, 30 de março de 2015

TOP - Filmes sobre Vampiros


Desde o início do século passado o personagem foi citado na literatura, por nomes como Samuel Taylor Coleridge, em 1797, e John Polidori em sua obra: “The Vampyre”, lançada em 1919. Porém foi nas mãos hábeis do irlandês Bram Stoker que o mito do vampiro se desenvolveu e imortalizou-se. Lançado em 1897, o seu livro: “Dracula” tornou-se um sucesso imediato em um mundo sem as facilidades tecnológicas atuais. O personagem foi livremente baseado no conde Vlad Tepes que nasceu em 1431 e governou o território que, hoje em dia, corresponde à Romênia. Famoso por sua crueldade para com seus inimigos, ele obtinha prazer em comer perante suas vítimas empaladas, tendo como trilha sonora seus gritos desesperados. O autor criou um amálgama de referências utilizando o verdadeiro conde e o medo que ele incitava na população da época, incluindo também uma crítica às religiões. Drácula foge do crucifixo e teme a água benta, por tratarem-se da representação secular de hipócrita servidão. O vampiro representa a liberdade. Não é de se surpreender que o mito tenha se tornado tão popular ao longo do tempo, pelo simples fato de questionar as crenças divinas e se opor a uma vida solitária, pois ele busca um amor que transcende barreiras de tempo e espaço. Quantos jovens insatisfeitos e rebeldes não simpatizam com esta ideia? Nas últimas décadas, infelizmente o mito se perdeu em meio a muitas cópias descaradas, preguiçosas e sem nenhuma personalidade, até chegar aos recentes fiascos da franquia “Crepúsculo”. Um retrato triste e desolador dos malefícios da infantilização de um mito do horror que existe desde 1797.

Como sempre faço ao preparar essas listas, revejo todos os filmes e tento conhecer novos, buscando positivas surpresas. Algumas vezes, na revisão, acabo percebendo que o tempo não foi generoso, como ocorreu com “Fome de Viver”, de Tony Scott. Alguns entrariam na lista, caso ela fosse um pouco maior, como “Vampyr”, de Dreyer, o sueco “Deixa Ela Entrar”, “Stake Land”, ou o “Nosferatu” de Herzog. Bobagens divertidas como “Vamp”, “Buffy – A Caça-Vampiros”, “Vampiros, de John Carpenter”, o blaxploitation “Blacula”, e os filmes da franquia “Blade”, merecem menção apenas como curiosidade sobre o tema. Vale destacar o conto da antologia “Black Sabbath”, de Mario Bava, baseado em “The Wurdulak”, com Boris Karloff, e “Amantes Eternos”, filme recente de Jim Jarmusch. E, como menção honrosa, pela fidelidade ao livro de Bram Stoker, o filme “Conde Drácula”, feito para a televisão britânica, em 1977, com Louis Jordan.

Esses são os meus treze filmes favoritos sobre vampiros:


13 – Os Garotos Perdidos (The Lost Boys – 1987)
O tempo foi ingrato com a obra dirigida por Joel Schumacher, extremamente datada no pior dos sentidos, com um charme que resiste mais pela nostalgia daqueles que eram adolescentes na época em que passava na “Sessão da Tarde”. É exatamente esse sentimento que justifica sua inclusão na lista. Merece crédito pela boa maquiagem e pelo carisma do elenco.


12 – A Dança dos Vampiros (The Fearless Vampire Killers - 1967)
Roman Polanski quase viu sua carreira ser destruída por este projeto, fracasso de pública e crítica, vale salientar, uma versão severamente cortada pelos produtores. Polanski vive o medroso e desastrado Alfred, assistente do professor Abronsius, um especialista em identificar vampiros. A trama garante um sorriso constante, mas entrega pelo menos dois momentos de causar gostosas gargalhadas: o pouco confortável lugar que o vampiro bonachão, vivido por Alfie Bass, e "sem-teto" escolhe para se abrigar durante a noite e a falta de atenção de Alfred com seu mestre, deixado ao relento e entalado em uma janela. Gosto bastante de uma cena pequena onde o vampiro judeu, ao surpreender sua vítima ostentando um crucifixo em sua direção, simplesmente afirma: "Oh, você pegou o vampiro errado".


11 – Drácula – O Demônio da Noite (Dracula – 1974)
Dirigido por Dan Curtis, esse filme feito para a televisão, pouco conhecido até entre os fãs do gênero, teve muitas de suas ideias, inclusive cenas inteiras, copiadas por Francis Ford Coppola em seu famoso “Drácula, de Bram Stoker”, como o momento altamente simbólico em que o vampiro, vivido de forma imponente por Jack Palance, faz a jovem Mina beber seu sangue de um corte no próprio peito. O roteiro de Richard Matheson, de “Em Algum Lugar do Passado”, foi o primeiro a tratar o personagem com certa simpatia, inserindo a noção de que ele, um trágico apaixonado, estava buscando sua amada reencarnada.


10 – Drácula (Dracula – 1931)
Bela Lugosi. Apenas esse nome já bastaria para indicar a importância dessa obra na história do cinema de horror. O primeiro filme falado a lidar com um tema sobrenatural, responsável por tornar o “Universal Studios” uma referência no gênero, superado apenas pela “Hammer”, décadas depois. Como adaptação, possui falhas, como o fato de minimizar a personagem Lucy (Frances Dade), que se torna uma figura de decoração, e a equivocada alteração do Dr. Seward (Herbert Bunston), que se torna o pai da trágica Mina (Helen Chandler). O roteiro, no entanto, acerta com o personagem Renfield (Dwight Frye), que dá o pontapé inicial na trama (papel de Jonathan Harker, no original literário) transformando a esquisita caricatura imaginada por Bram Stoker em alguém tridimensional. É um teatro filmado, uma obra importante para o gênero, porém com execução bastante problemática.


9 – A Sombra do Vampiro (Shadow of The Vampire – 2000)
Com uma premissa inteligente, trabalhando a possibilidade do protagonista do clássico mudo “Nosferatu” ser, na realidade, um vampiro, o roteiro reimagina o processo de filmagem da obra, misturando realidade e ficção, colocando em confronto o enigmático Max Schrek de Willem Dafoe, e o obsessivo diretor Murnau, vivido por John Malkovich. O diretor E. Elias Merhige, responsável pelo perturbador conto de horror visual, ainda que pouco conhecido, “Begotten”, de 1990, consegue estabelecer um clima de constante opressão, favorecido pelo tom sépia e marrom escuro da fotografia de Lou Bogue. É uma obra verdadeiramente única no gênero.


8 – A Hora do Espanto (Fright Night – 1985)
Visualmente datado como “Os Garotos Perdidos”, porém o tempo foi mais generoso com sua trama, tão eficiente hoje quanto na época de sua estreia. A primeira vez que me lembro de ter sentido medo com um filme do gênero foi aos cinco anos, assistindo na televisão a cena onde Evil Ed (Stephen Geoffreys) é perseguido pelo vampiro (Chris Sarandon), caindo em um beco sem saída. Eu provavelmente nem estava entendendo a trama, mas a aparição do vampiro atrás do garoto me fez pular da cadeira. O diretor Tom Holland conseguiu realizar uma inteligente homenagem ao gênero, com esperto senso de humor, modernizando a figura do vampiro com muita personalidade, inserindo ele no cenário urbano.


7 – Drácula, de Bram Stoker (Bram Stoker’s Dracula – 1992)
Normalmente superestimado em revisões modernas, o que prova o baixo nível do tema na indústria atual, o filme de Francis Ford Coppola esbanja pretensão, porém, na mesma medida, exibe total desequilíbrio no ritmo. É indefensável a apatia de Keanu Reeves, um dos elementos que enfraquecem o primeiro ato, sem alma, frio, arrastado. O segundo ato, com a inclusão do Van Helsing vivido por Anthony Hopkins, ganha ânimo e, com exceção do excesso melodramático na subtrama do romance entre o vampiro (Gary Oldman) e sua amada (Winona Ryder), melhora consideravelmente, justificando sua posição na lista. Apesar de sugerir, pelo título, fidelidade ao livro original, o roteiro foge completamente da trama, num caso clássico de propaganda enganosa. Vale destacar a fotografia, com o intenso uso da cor vermelha, uma clara homenagem a Mario Bava.


6 – Entrevista Com o Vampiro (Interview With the Vampire: The Vampire Chronicles – 1994)
Com direção de Neil Jordan, a adaptação da obra de Anne Rice ganha ainda mais elegância, sensualidade, refinamento e lirismo. Um nome já seria suficiente para colocar a obra nessa alta posição na lista: Philippe Rousselot, um dos melhores diretores de fotografia da indústria, capaz de retratar algo grandioso, extravagante, com uma pegada realista, verossímil, em um de seus trabalhos mais bonitos. Vampiros, enquanto almas torturadas, em um clima depressivo, traduzindo a tristeza da imortalidade solitária.


5 – Um Drink no Inferno (From Dusk Till Dawn – 1996)
Essa pérola descompromissada do diretor Robert Rodriguez, com roteiro de Quentin Tarantino, só melhora a cada revisão. A estrutura que se desconstrói no segundo ato, conduzindo o que parecia ser uma obra realista policial aos píncaros do gore absurdo, engana o espectador, que, desarmado sensorialmente, não consegue evitar ser tragado, junto com a dupla de criminosos, vividos por George Clooney e Tarantino, para o doentio cenário do cabaré demoníaco de beira de estrada. Você inicia o filme odiando os criminosos, porém, acaba torcendo por eles, quando os verdadeiros monstros aparecem. É o filme do gênero feito por mentes criativas estudiosas e apaixonadas pelo horror, com diálogos que nasceram para serem memorizados e repetidos.


4 - A Máscara de Satã (La Maschera del Demonio – 1960)
A estreia do diretor italiano Mario Bava, deixando um pouco de lado o personagem de Stoker, ele se baseou no conto vampiresco russo: “The Vij” de Nikolai Gogol. A atriz Barbara Steele e seus enormes e lindos olhos ficaram para sempre impressos nas retinas dos fãs de horror. Ela interpreta uma bruxa que, ao ser assassinada pela inquisição, tendo recebido a máscara de tortura, coberta de pregos, por seus algozes, retorna após duzentos anos como uma vampira para tomar o corpo de sua descendente. Um fator curioso é que, na versão inglesa, omitiram a relação incestuosa da princesa vampira com o irmão, Javutich.


3 - O Vampiro da Noite (Horror of Dracula – 1958)
Ainda que as presas do vampiro, símbolo máximo do personagem, tenham aparecido pela primeira vez em um obscuro filme turco da década de cinquenta, foi com Christopher Lee que se imortalizou a imagem, potencializada pelo vermelho berrante do Technicolor no sangue que pingava das presas. Hoje em dia é difícil mensurar o choque que o elemento da cor causou no gênero, mas era algo que deixava os censores desorientados. Essa novidade que era vendida já no trailer, levava muitos a pensarem que não passava de uma irresponsável glamourização da violência, um deleite culposo para os olhos. O público estava acostumado a ser poupado nos momentos mais grotescos. O desfecho de um duelo de espadas em preto e branco poderia muito bem ser conduzido para as sombras dos corpos na parede, minimizando o efeito visual da espada que atravessa o corpo do vilão. Em “O Vampiro da Noite”, a câmera se aproxima para captar o gorgolejar do sangue que explode do corpo, após a estaca ser enfiada no peito da vítima.


2 – Nosferatu – Uma Sinfonia de Horror (Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens – 1922)
Um fator que considero fundamental para entender a importância desse filme é ele ter sido responsável por uma das regras essenciais no eterno mito do vampiro (pelo menos, até “Crepúsculo” aparecer e destruir o conceito): a aversão à fatal luz do dia. O diretor F.W. Murnau sabia que corria risco de ser processado pelo escritor Bram Stoker, já que iria realizar uma cópia de “Drácula”, então sabiamente decidiu modificar o desfecho da trama. Em vez do embate com Van Helsing e sua estaca, o vampiro seria destruído pelo contato com os raios solares. Incrível imaginar que esse e outros elementos do filme que seriam amalgamados ao mito, não nasceram de qualquer impulso criativo consciente, mas apenas do medo de não serem flagrados cometendo o crime de plágio. E fracassaram no intento, o que é ainda mais fascinante.


1 – Martin (1977)
Obra-prima de George Romero, perfeita do início à última frase dita, já nos créditos finais. Injustamente pouco conhecida pelo público geral, considero a mais inteligente utilização do tema, amalgamando em sua essência todas as qualidades sobre o mítico personagem que expus no parágrafo introdutório desse especial. Há a clara crítica aos preceitos religiosos, na figura do primo mais velho do jovem, porém existe um aspecto que poucos percebem, evidenciado na cena do ataque inicial, no vagão do trem. Um livro, mostrado em destaque, um par de vezes: “Beyond Freedom and Dignity”, “Para Além da Liberdade e Dignidade”, do filósofo B.F. Skinner, título inspirado nos trabalhos de Nietzsche e Freud, um estudo sobre como a chamada liberdade tradicional é limitada, propondo então uma definição que fugisse do senso comum de condições que impediriam os sujeitos de conhecer os inúmeros determinantes envolvidos no controle dos comportamentos chamados de livres e dignos, um trabalho que define os anseios do protagonista, vivido por John Amplas, que afirma ter oitenta e quatro anos, apesar de sua aparência jovial, e que bebe o sangue de suas vítimas. Ele não possui presas pontudas e debocha da figura caricatural do vampiro, como na cena em que assusta o primo mais velho, vestido como o conde da Transilvânia. Com a utilização de flashbacks, inserindo o jovem na realidade que ele defende, o roteiro deixa a dúvida sobre a sanidade mental do personagem, alguém que busca se encaixar na sociedade. 

* O filme "Martin" faz parte da caixa "Obras-Primas do Terror 2", lançada pela distribuidora "Versátil", contendo também, além de vários extras: "O Ciclo do Pavor", "Lisa e o Diabo", "A Mansão do Inferno", "Pelo Amor e Pela Morte" e "Terror nas Trevas".

sexta-feira, 27 de março de 2015

Cine Noir - "A Dama Fantasma" e "Mortalmente Perigosa"


A Dama Fantasma (Phantom Lady – 1944)
O projeto do alemão Robert Siodmak, baseado na obra de Cornell Woolrich, envolve o espectador em um clima sombrio de pesadelo, mérito da fotografia de Elwood Bredell, que faria, dois anos depois, com o diretor, o excelente: “Assassinos”. A trama simplista, como em todo Noir, serve apenas como motivação básica para o criativo exercício de estilo, enfrentando o baixo orçamento apostando no poder da sugestão.

O personagem, vivido por Alan Curtis, encontra uma enigmática mulher enquanto tenta afogar as mágoas no bar, após uma briga com a esposa. O desejo dela é que a ignorância se mantenha sobre a identidade de ambos, estranhos solitários na noite de um dia qualquer. Ela aceita o convite dele, a companhia despretensiosa em um espetáculo que desperta o único interesse de desviar a atenção dele, por algumas horas, acerca dos problemas conjugais. A despedida é comum, fugaz, estabelecendo com eficácia a tensão que invade as cenas seguintes. Ao voltar para casa, três homens o aguardam, há a esperta sugestão de que são perigosos, confundindo o público, e, no quarto, ele descobre o corpo da esposa estrangulada.

Os detalhes visuais são preciosos, como a escultura das mãos no alto do armário de um dos personagens, elemento recorrente, capaz dos atos mais carinhosos, como o afagar de um bebê, o salvamento de um afogado, porém, capaz de cometer também as maiores atrocidades. A imprensa destrói o nome do marido, numa crítica à irresponsabilidade do jornalismo enquanto juiz e condutor do linchamento público. Vale destacar a ótima cena, com forte conotação sexual, mostrando o encontro da bela Ella Raines, uma personagem que me remeteu à de Margaret Tallichet em “O Homem dos Olhos Esbugalhados”, com o baterista, vivido por Elisha Cook Jr., em uma confinada jam session de Jazz.


Mortalmente Perigosa (Gun Crazy – 1950)
Com um roteiro, coescrito pelo extremamente competente Dalton Trumbo, de “Johnny vai à Guerra”, que não pôde assinar por estar na lista negra, essa obra-prima do diretor Joseph H. Lewis é normalmente lembrada por sua inovadora sequência de assalto a banco, filmada em um só plano de cerca de sete minutos, colocando o espectador no banco traseiro do carro da dupla de criminosos, momento que inspirou Jean-Luc Godard em seu “Acossado”. O filme é muito mais que essa cena, é um estudo psicológico com espaço para uma crítica, infelizmente atual, ao culto das armas na sociedade americana. Vale até uma sessão dupla, com o documentário “Tiros em Columbine”, de Michael Moore.

Os personagens vividos por Peggy Cummins e John Dall, a despeito de estarem envolvidos em um frenesi de perseguições cinematograficamente estimulantes, refletem uma discussão subliminar menos dependente da catarse sensorial, a clássica questão do determinismo, que diz serem todos os fatos baseados em causas, contra a crença de que suas atitudes são o extravasamento natural de uma índole espinhosa. Eles são definidos por suas ações, ou são, em essência, frutas podres? A cena introdutória da femme fatale, num ângulo baixo, mostrando sua perícia como atiradora em uma atração circense, consegue injetar uma alta dose de sensualidade, culminando numa finalização ao estilo de “O Grande Roubo do Trem”, com a personagem atirando na direção do espectador, no caso, o protagonista, de certa forma, antecipando o destino trágico do rapaz. 

* Os dois filmes estão sendo lançados pela distribuidora "Versátil", na caixa "Filme Noir - Vol. 2", contendo ainda, além de extras, "O Justiceiro", "Os Corruptos", "Pecado Sem Mácula" e "Ato de Violência".