domingo, 4 de janeiro de 2015

Rebobinando o VHS - "Hora de Matar" / "O Punho Demolidor"


Hoje escolhi abordar dois gêneros usualmente subestimados pela crítica, o faroeste e o filme de Artes Marciais, torcendo para que essas fitas ainda estivessem funcionando.


Hora de Matar (Il Momento di Uccidere – 1968)
O Punho Demolidor (Qi lin Zhang – 1973)
“Hora de Matar”, dirigido por Giuliano Carnimeo (o mesmo de “O Rato Humano”, já abordado nesse especial), foi, caso minha memória não esteja me pregando uma peça, o meu primeiro faroeste, fora os clássicos de John Wayne e os revisionistas modernos, como “Silverado”. Eu me lembro de ter estranhado o aspecto sujo da produção, aquelas roupas desgastadas e sem cor, que contrastavam bastante com aqueles figurinos coloridos de teatro infantil dos westerns americanos em Technicolor. Eu devia ter por volta de doze anos, costumava devorar aqueles livros de bolso que eram vendidos nas bancas de jornal, “Chumbo Quente” e “Oeste Beijo e Bala”, fazia coleção dos quadrinhos do “Tex”, alguns anos depois eu conheci “Blueberry”, enfim, adorava o gênero. Nem preciso dizer que um de meus videogames preferidos é “Red Dead Redemption”. E esses filmes realizados na Itália transmitiam uma realidade muito próxima daquele universo que eu alimentava em minha imaginação. Os roteiros podiam não ser tão elaborados, mas compensavam em outros elementos, como ação e trilha sonora. “Walk by my Side”, composta por Francesco de Masi, que emoldura os créditos iniciais, gruda no ouvido e você fica cantarolando pela casa. Gostava especialmente da cena de tiroteio no bar, mérito do diretor de fotografia Stelvio Massi, onde o personagem vivido por George Hilton utiliza os espelhos como forma de fazer o oponente gastar sua munição. Analisando hoje, a trama é fraca e convencional, o filme é ruim, mas o terceiro ato conduz a uma revelação final bem interessante.

Como posso esquecer o dia em que adquiri o VHS de “O Punho Demolidor”? Um símbolo de uma época sem internet, onde era difícil conseguir informação sobre qualquer assunto, ainda mais os obscuros. Eu sabia que o Bruce Lee tinha completado apenas quatro filmes em sua fase madura, já tinha adicionado todos na minha videoteca, mas aquela capa bizarra estampava sua imagem, levando a crer que ele fazia parte do elenco, e informava que ele tinha dirigido o filme. Até hoje lamento o valor irrisório que gastei. Voltei pra casa e, nem esperei muito, coloquei a fita pra rodar no aparelho. A sensação, impossível de descrever, era de intenso estranhamento. Além de estar numa qualidade de imagem horrorosa, a trama era lamentável, arrastada, com um protagonista sem o mínimo de carisma necessário, em suma, uma tragédia. E, o que mais me incomodava, eu não tinha reconhecido o Bruce Lee nas cenas. Nos últimos segundos, quando já estava me dirigindo pra frente da televisão, pronto para ejetar aquela fita e tacá-la pela janela, uma inserção rápida, com alguém que parecia o saudoso dragão abraçado a uma criança em um set de filmagem. Meus olhos esbugalharam, encostei o rosto na tela de dezesseis polegadas e apertei o rew.

Anos depois, com uma pesquisa rápida na internet, descobri que ele apenas aceitou ajudar na coreografia das cenas de luta, pela amizade de infância que tinha com o protagonista Sheau Chyh Lin, mas que odiou o resultado e a forma como a produção tentou capitalizar utilizando sua fama. A produtora Starsea Motion Pictures ofereceu a oportunidade para o rapaz, desconhecido como ator e lutador, com a garantia de que ele iria dar um jeito de colocar Lee no projeto. A tal cena que descrevi, por incrível que pareça, foi filmada secretamente, enquanto o astro ajudava nas filmagens. Uma exploração que não seria a única na carreira dele, já que, mesmo após sua morte, os estúdios continuariam realizando filmes com sósias, “Bruce Li”, “Bruce Le” e “Dragon Lee”, entre outros, um fenômeno curioso e de extremo mau gosto.  

sábado, 3 de janeiro de 2015

Rebobinando o VHS - "Direito de Morrer"


No início do reinado do VHS, era comum encontrar capas em inglês com o título original. Sempre fui fã de James Stewart, foi sua presença que me levou a adquirir esse filme na época. Um projeto praticamente desconhecido, feito para a televisão americana, mas que marca o encontro histórico de Stewart e Bette Davis. Não me recordo se a imagem era tão ruim quando adquiri a fita, mas, revendo agora, fiquei chocado com a péssima qualidade, até mesmo para os padrões limitados do formato. Uma trama emocionante e que, infelizmente, não foi lançada por aqui em DVD.


Direito de Morrer (Right of Way – 1983)
Um pacto de suicídio entre um casal de idosos, sem netos, após a constatação de que a esposa está com uma doença terminal, tendo que enfrentar a obstinada negação da filha. Impossível assistir a fita e não pensar em “Amor”, de Michael Haneke, guardadas as devidas proporções, celebrando a coragem da temática sobre eutanásia, ainda mais quando levamos em consideração que foi um filme de baixo orçamento feito para a televisão há mais de trinta anos, com todos os vícios de linguagem usuais em produções similares. É possível perceber que o diretor George Schaefer bebeu da fonte de “Num Lago Dourado”, para manter a leveza na abordagem, evitando sensacionalismo, com o alívio cômico reservado às menções aos gatos da casa, com nomes de artistas de cinema. A química dos atores reflete as complicações nos bastidores, com o ego de Davis falando mais alto, mas as cenas do casal no terceiro ato, retratando a cumplicidade que move as difíceis decisões tomadas, compensam todos os problemas.

É interessante a forma como a filha, vivida por Melinda Dillon, modifica sua forma de pensar, indo da máxima revolta ao terno sentimento de compreensão, simplesmente por se dedicar a estudar a questão, evitando qualquer submissão aos dogmas religiosos, adquirindo livros, como o ótimo estudo psicológico que aborda os cinco estágios do luto: “Sobre a Morte e o Ato de Morrer”, da doutora Elisabeth Kübler-Ross, e o campeão do prêmio Pulitzer de 1976: “Qual a Razão de Viver? Sendo Idoso na América”, escrito por Robert N. Butler.  James Stewart passou por caso semelhante, cerca de dez anos depois, após o falecimento de sua esposa Gloria, tornando-se recluso e evitando qualquer tratamento médico, passando a maior parte do tempo em seu quarto, saindo para se alimentar apenas por insistência de sua governanta. 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Rebobinando o VHS - "Keruak - O Exterminador de Aço"


Quando eu me lembro das circunstâncias de meu primeiro encontro com esse filme, não consigo evitar rir da malandragem saudável cometida pelo SBT. Só depois é que fui rever essa pérola terrível, dirigida por Sergio Martino, em VHS distribuído pela "America Vídeo". A chamada que passava nos intervalos prometia a continuação de “O Exterminador do Futuro”, inserindo até cenas dele, não era nada sutil, fazia realmente pensar que a trama dessa picareta produção paupérrima italiana dava sequência aos acontecimentos do clássico filme de James Cameron. Numa época sem internet, onde as informações sobre os filmes eram escassas, praticamente inexistentes, ficávamos no escuro.


Keruak – O Exterminador de Aço (Vendetta dal Futuro – 1986)
Como eu, já naquela época, era sistemático, fiz questão de alugar o clássico e rever, antes do dia que estava marcado para a exibição da continuação. Queria que a trama estivesse fresca na mente, para que pudesse absorver melhor aquele excelente entretenimento que o narrador da chamada vendia. Era uma exibição noturna, acredito que tenha sido na “Sessão das Dez”, que passava aos Domingos, o que complicava sempre o ato de acordar cedo para a escola no dia seguinte. Lá estava eu, com um copo cheio de refrigerante, pra me manter acordado, e a cara grudada na televisão de dezesseis polegadas. Já nas primeiras cenas, uma montagem urbana esquisita num futuro não muito distante, com moradores de rua e fábricas expelindo gases tóxicos, filmados de forma estranhamente rústica, nada parecido com o padrão de direção de fotografia do clássico de Cameron. Quero salientar, caro leitor, que mesmo sendo totalmente ignorante nesses aspectos técnicos à época, com olhos de criança, eu já considerava estranha essa diferença entre dois projetos que acreditava serem irmãos. No ambiente de caos, genericamente pós-apocalíptico, o herói vivido pelo péssimo Daniel Greene, Paco Queruak, que outrora havia sido humano, é contratado por uma organização, com a tarefa de assassinar o chefe de uma equipe de ecologistas. O comandante da organização é vivido por John Saxon, que quase bateu as botas nas filmagens, já que estaria no mesmo helicóptero que caiu com o colega de cena: Claudio Cassinelli. Uma tragédia que atormenta o diretor até hoje.

Como o posterior “Robocop”, de Paul Verhoeven, o cyborg é impedido, na hora de executar o serviço, por um bloqueio em seu disco rígido, o que conduziria, em teoria, à discussão sobre a possibilidade de existir ainda vestígios de sua consciência humana em sua memória robótica.  O caso é que o fraquíssimo roteiro sequer se importa em se aprofundar na questão, com subtramas dispensáveis criadas, ao que parece, apenas para alongar a duração da fita. Minha testa se manteve franzida durante boa parte da transmissão, sentia que algo não encaixava naquilo tudo. Em dado momento, um breve alívio, uma cena onde o herói cyborg expõe as engrenagens de seu braço biônico, finalmente algo que me remetia visualmente a “O Exterminador do Futuro”. Anos depois, fiquei sabendo que aquela cena, visivelmente melhor produzida que o restante do filme, apenas se tratava de um trecho descartado do filme americano, o inesquecível momento em que Schwarzenegger exibe a estrutura mecânica que movimenta seus dedos, uma tomada não utilizada no corte final, comprada pelos italianos e inserida na produção. 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Rebobinando o VHS - "O Analfabeto"


Escolhi iniciar o ano com essa pérola esquecida da comédia mexicana. O humor de Cantinflas, Fortino Mario Alfonso Moreno Reyes, é mais próximo do estilo de humor brasileiro, com suas tiradas irônicas contundentes, gestual circense e jogos de palavras, que serviu de inspiração para Renato Aragão, entre outros. Chaplin, numa demonstração de incrível generosidade, afirmava publicamente que o considerava o melhor comediante vivo.


O Analfabeto (El Analfabeto – 1961)
“O Analfabeto” foi meu primeiro contato com ele, o único que assisti em VHS. Somente anos depois, com o advento das facilidades da internet, pude apreciar mais obras de sua filmografia, infelizmente, ainda tratada com muito desleixo pelas nossas distribuidoras. Nem mesmo seu filme americano “Pepe”, dirigido por George Sidney, chegou a ser lançado por aqui no mercado de DVD. É uma pena que a nova geração não se interesse em resgatar esses gênios do passado.

Muito similar ao seu sucessor no México, Roberto Gómez Bolaños, nós podemos enxergar no personagem Inocêncio Preto e Calvo, preto de pai e calvo de mãe, uma característica comum a vários de seus heróis, uma alma quixotesca que faz do medo sua principal arma, corajosamente sobrepujando aqueles que buscam se aproveitar de sua ingenuidade. Confortável sob a direção do parceiro Miguel M. Delgado, no papel de um adulto que deseja aprender a ler e escrever, Cantinflas se permite liberar das amarras dos modelos clássicos de linguagem, como sempre, utilizando um figurino que não se enquadra naturalmente ao cenário em que o personagem habita, com toques que representam a dignidade e o refinamento que ele ludicamente identifica ao se olhar no espelho, simbolizando um homem à margem da sociedade. A crítica social é óbvia, como podemos ver na cena em que o herói pícaro enfaticamente afirma preferir ser analfabeto e honrado, a ser culto e agir de forma desonesta com seus semelhantes.

O humor se alterna entre gags visuais e diálogos de duplo sentido espirituosos e eficientes, com um interlúdio musical hilário, onde Inocêncio tenta impressionar sua namorada, vivida pela bela Lilia Prado, cantando em um coro de igreja. Por simples que seja, é difícil esquecer a ternura contida nas cenas em que Cantinflas, com brilho nos olhos, saúda seus pequenos colegas de classe. 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Rebobinando o VHS - "O Jeca Macumbeiro" / "Tristeza do Jeca" / "Jeca Contra o Capeta"


Nada melhor do que terminar o ano acompanhado de Mazzaropi. Meu primeiro contato com ele foi assistindo o VHS de “O Jeca Macumbeiro”, alugado por meu pai, que diz ter assistido quase todos os filmes dele no cinema. A cópia era péssima, a imagem bastante amarelada, o som quase inaudível. Aquilo era diferente de tudo que eu já havia assistido, o humor tinha um timing próprio, a trama exalava uma liberdade, como se fosse tudo improvisado.


Tristeza do Jeca (1961)
O Jeca Macumbeiro (1974)
Jeca Contra o Capeta (1976)
A crítica normalmente despreza o popular como sendo, obrigatoriamente, resultado de um apreço com pouco critério, aplaudido por leigos que não sabem o que fazem. Não é um equívoco total de percepção, ainda mais nessa nação, onde a cultura nunca foi valorizada e a leitura não é um hábito sequer entre os adultos. O mercado nacional atual erra por buscar nutrir exatamente essa mediocridade confortável, produzindo comédias que, com raríssimas exceções, não seriam aceitas nem mesmo como pueril entretenimento televisivo em mercados mais competitivos. Mas é importante exercitar a sensibilidade e discernir o sofisticado que pode estar inserido em um produto sem maiores pretensões, da mesma forma que se pode constatar o vazio maquiado em uma obra que procura esbanjar sofisticação, com diretores celebrados e grandes orçamentos. Amácio Mazzaropi era muito inteligente, capitalizava em cima dos temas que estavam fazendo sucesso no mundo, transportando, por vezes, de forma até tímida, aquela temática para o universo de seu personagem.

A comédia nacional atual copia o estilo americano, afirmando estar falando a “língua” do povo brasileiro, quando, na realidade, ela está nutrindo a expectativa desse povo que se acostumou ao estilo americano de comédia. Nossa comédia não é simbolizada pelas gags de “Friends” ou “Seinfeld”, ou pelo humor visual meticulosamente construído de Jacques Tati e Jerry Lewis, não é tão elaborada. O humor genuinamente nacional de Chico Anysio, José Vasconcellos, Oscarito, Grande Otelo, Dercy Gonçalves, entre tantos outros, é direto ao ponto, frases contundentes, estrutura simples, que não precisa ser sinônimo de simplória e populista. O Jeca de Mazzaropi percebeu que “O Exorcista” lotava cinemas no mundo, então trabalhou o tema em “O Jeca Macumbeiro” e “Jeca Contra o Capeta”, criando as situações com base em seu próprio estilo, aquilo que seu público já sabia que iria encontrar. Quando ele dizia que pensava seu cinema objetivando o público, não a crítica, ele dava uma aula que ainda hoje não foi aprendida por aqui. Não há maneira de se criar uma indústria de cinema somente com projetos autorais e pretensões existencialistas, nós precisamos trabalhar variados gêneros, incentivando cineastas de qualidade a ousarem no terror, na ficção científica, no musical, não ficar reutilizando uma panelinha de meia-dúzia de incompetentes que pensam apenas no lucro, não no legado artístico que irão deixar para o cinema nacional do amanhã.

O Pirola de “O Jeca Macumbeiro” retruca o esquálido Nhonhô, após escutar que ele está sentindo a morte chegar, afirmando com segurança que ele está até forte e corado, numa demonstração do humor irônico e direto de Mazzaropi, uma espécie de Groucho Marx com fala mansa. Na mesma cena, ele se mostra mais direto, ao utilizar a simples analogia com o signo de Virgem, como explicação lógica para o fato do homem doente não ter se casado. Alguns segundos depois, emocionado ao descobrir que o homem irá deixar sua fortuna pra ele, numa abordagem ainda mais direta, na linha tênue do vulgar, ele faz um jogo de palavras: Nhonhô, Deus lhe pague por ocê ter escolhido eu pra ficar “comerdeiro” seu. Ele, nas palavras de Leonardo da Vinci, demonstrava que a simplicidade é o último grau de sofisticação. No inferior “Jeca Contra o Capeta”, o demônio aparece na forma de uma lei do divórcio, onde o exorcismo, como aconselhado pelo Jeca, poderia se resumir a um “banho de picão”. Já em “Tristeza do Jeca”, ele realiza profunda crítica social, extremamente atual em um governo de cotas e bolsas, quando seu personagem responde a um grupo de trabalhadores da roça, que afirmavam ingenuamente que a vida ia melhorar, já que eles todos iam votar no coronel. Mazzaropi afirma: “Vocês podem parar de encher minha cabeça com esse negócio de política? Entra prefeito, sai prefeito, vocês tão se queixando. Vocês não querem trabalhar, querem viver à custa de governo. Faz que nem eu: trabalha!”.