terça-feira, 2 de dezembro de 2014

"Galo de Briga", de Monte Hellman


Galo de Briga (Cockfighter – 1974)
O tema é repugnante, deprimente, como a maioria das cenas que envolvem as brigas de galos, mas é impressionante como o roteiro consegue humanizar o protagonista, vivido por Warren Oates, que fez voto de silêncio, nos poucos momentos onde ele é confrontado emocionalmente por suas mulheres. Seria muito fácil adotar estereótipos, já que ele é um ser desprezível, capaz de vender a casa do irmão, apenas para conseguir comprar mais galos e sustentar seu vício de jogo. O mérito também é do ator, naquele que considero o melhor momento em sua filmografia, que se expressa com sutilezas no sorriso e no olhar. O produtor Roger Corman, insatisfeito com esses relances de humanidade, especialmente com a frase final, em que o personagem declara que é amado, chegou a atirar a versão final do roteiro na parede, após uma discussão com o diretor.

O diretor Monte Hellman inicialmente demonstrou incapacidade de sequer assistir as brigas de galos, o que chegou a preocupar o diretor de fotografia Nestor Almendros, mas acabou falando mais alto seu interesse pelas subculturas, em entender, antes de julgar. Ele procurou transmitir para o público a mesma sensação de revolta que ele sentiu inicialmente, objetivo que fica latente no breve momento que sua câmera mostra uma criança chorando, enquanto os pais vibram na plateia, tapando os olhos com uma cédula. Na tentativa de fazer com que a atriz Patricia Pearcy realmente vivesse o choque, ele não deixou que ela visse as brigas até filmar a cena final, para que a reação em seus olhos fosse a mais real possível.

A coragem do roteiro pode ser sintetizada na forma que o protagonista encontra, nos minutos finais, de demonstrar seu amor por sua mulher. Coerente, ainda que graficamente brutal, após ser questionado sobre sua devoção obsessiva aos galos de briga, Oates simplesmente corta a cabeça de seu galo campeão vivo com a bota, entregando-a na mão da mulher.  Por trás das cenas fortes, um estudo de personagem discreto, sobre a busca pela perfeição em uma profissão, mas também sobre a busca de ser plenamente aceito, com as imperfeições inerentes a todos, pela mulher que ama.

"Círculo de Fogo", de Guillermo del Toro


Círculo de Fogo (Pacific Rim - 2013)
Em qualquer forma de Arte, ignorar a proposta do autor é avaliar de forma errônea o seu trabalho. Logo, afirmar que "Círculo de Fogo" é um exemplo de estilo em detrimento da substância, nada mais é que constatar a competência de Guillermo del Toro naquilo que domina como poucos. A comparação imagética com "Transformers" serve apenas para potencializar a forma desastrada com que Michael Bay, um homem que mal sabe operar uma câmera, conduziu seu espetáculo. A beleza elegante na criação do universo em que habitam os robôs gigantes e monstros, assim como o refinamento no esperto roteiro, que apresenta seus personagens e suas motivações de forma direta, utilizando referências de obras do passado, como “Godzilla”, “Evangelion” e até "Top Gun", sem que o foco seja alterado para a inserção de melodramas tolos. Vemos claramente um adulto inteligente e criativo, brincando de resgatar sua criança interior.

Um exemplo de como um diretor, também roteirista, com Travis Beacham, visionário pode pegar um conceito tolo e desgastado, transformando-o em algo relevante, foi a forma escolhida para fazer com que nos importemos com os personagens humanos, normalmente caricaturais peões no tabuleiro da fantasia. Eles pilotam seus robôs através de uma conexão mental, porém, devido ao tremendo esforço cognitivo, recebem o auxílio de um colega, com quem compartilham memórias e segredos. É interessante também a escolha por subverter as expectativas, evitando as típicas ameaças alienígenas que escolhem conscientemente atacar o planeta em tantos projetos similares. A invasão na trama é despertada por uma ação natural do planeta. 

O diretor não se priva de abraçar os elementos característicos, como os discursos inspiradores e o heroísmo inconsequente, mas aborda-os com revigorante frescor. As cenas de batalha são empolgantes e de uma beleza sem igual no gênero. Apesar do imenso escopo e da impossibilidade de capturar no enquadramento tudo o que ocorre, a fotografia de Guillermo Navarro orienta o espectador para o coração motivacional das cenas, sem cair na tentação de confundir e esconder as falhas com um excesso de edição. Extremo cuidado é direcionado ao contraste no trabalho da iluminação. Claro que tudo não passa de um passeio num parque de diversões, mas com certeza muito satisfatório.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

"Separados, mas Iguais", de George Stevens Jr.


Separados, mas Iguais (Separate but Equal – 1991)
A trama reconstitui o julgamento do caso Brown contra o Conselho de Educação (1954), no qual a Suprema Corte dos Estados Unidos declarou inconstitucional a separação entre estudantes negros e brancos nas escolas públicas, um dos episódios mais importantes na história dos Direitos Humanos. 


O racismo no início da década de cinquenta era avassalador. Brancos e negros não podiam compartilhar o mesmo banheiro nas cidades sulistas americanas. Ainda faltavam alguns anos para que um jovem Elvis Presley escandalizasse os pais através da nação, com seu gingado inspirado nos cantores negros que ele idolatrava. A situação era insuportável, com a segregação atingindo brutalmente as crianças. Cansado de tanto ver seu filho chegar cansado da escola, após uma longa caminhada, tendo seu foco nos estudos prejudicado, um pai decide ir até o professor do menino e implorar para que a escola proporcionasse um ônibus. Uma reação rude do superintendente deu início a uma série de petições judiciais, fundamentais para o fim da segregação racial nas escolas.

Era inadmissível para o dedicado advogado, vivido brilhantemente por Sidney Poitier, uma sociedade onde as mesmas crianças que brincavam juntas nas ruas, tivessem que ser separadas ao adentrarem o microcosmo escolar. Os longos e belos discursos são imbuídos de um fervor que transcende a simples atuação, podemos enxergar além do ator exercendo sua função, ficamos diante de um homem e sua verdade. E é importante salientar que o roteiro/direção de George Stevens Jr. evita simplificar a questão, abraçando os tons de cinza dos dois lados, sem apelar para equívocos narrativos cometidos usualmente até em celebradas obras modernas, como “12 Anos de Escravidão”, onde os brancos são definidos de forma maniqueísta, como cruéis seres insensíveis.

O peso das quatro horas de duração desse filme para televisão é aliviado com um refinado toque de humor, acertando também ao se esquivar das convencionais quebras de ritmo, sem desviar o foco para a vida pessoal dos personagens, na folhetinesca busca pelo melodrama. A atenção da obra está no hercúleo trabalho do advogado e de sua equipe, contra todas as probabilidades, sendo mal remunerados e trabalhando no limite de suas energias, objetivando algo que era considerado utópico.

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Versátil". 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Cine Bueller - "A Fortaleza" / "Paraíso Azul"

Link para os textos do especial:


A Fortaleza (Fortress – 1985)
A professora Sally Jones (Rachel Ward) e seus alunos estão em mais um dia comum na escola quando são sequestrados por homens mascarados - eles usam assustadoras máscaras de animais e de Papai Noel. Os bandidos levam Sally e as crianças para uma gruta e os deixam lá para resolverem as demandas do resgate. Só que as espertas crianças conseguem escapar para o meio do mato. Quando os sequestradores descobrem a sua localização, a professora e os jovens chegam ao seu limite, sendo obrigados a responder com crueldade e fúria diante de seus opressores. 

Tive acesso recentemente ao livro original, escrito por Gabrielle Lord, fiquei impressionado com a fidelidade da adaptação. A autora se baseou em um caso real ocorrido na Austrália, no início da década de setenta, uma professora que foi sequestrada com suas alunas e conseguiu escapar com as adolescentes, atitude que a fez receber uma premiação por sua coragem. O roteiro não se preocupa tanto com a verossimilhança, várias sequências são pensadas como alegoria, uma espécie de conto de fada subversivo. O nível de violência é alto, não era o tipo de entretenimento que costumava ser exibido naquela faixa de horário, o desfecho mostrava crianças ensandecidas assassinando friamente seus sequestradores, fazendo questão de manter como souvenir o coração do líder deles, guardado em um pote na sala de aula. Esse detalhe desperta uma questão interessante: ao ultrapassarem seus limites morais, dominados pelo instinto animalesco de sobrevivência, as crianças não somente perderam qualquer conceito de inocência, como também abraçaram a violência como força motriz em qualquer situação. Eles se tornaram exatamente o reflexo daqueles monstros que enfrentaram.

Hoje em dia esse telefilme australiano só seria exibido durante a madrugada televisiva. Eu, com a ingenuidade da idade, torcia para viver uma aventura dessas naquelas excursões da escola, mas a maior emoção de que me recordo foi uma vez que o pneu do ônibus furou e tivemos que esperar algumas horas para retomar a viagem. Eu lembro que assisti a reprise da minissérie “Os Pássaros Feridos” no SBT somente por ter gostado desse filme, já que teria a possibilidade de ver mais uma vez a bela Rachel Ward. Ela era a professora que todos nós gostaríamos de ter. Nunca me esqueço da cena em que ela, explorando a gruta com um dos alunos, ficava nua e atravessava nadando a água gelada. Era impagável a expressão do garoto, quando ela voltava dizendo que havia encontrado uma saída. Com toda certeza, por alguns minutos, ele até esqueceu que estava em uma situação de perigo. Mais adiante, quando ambos voltaram com o restante da turma, a professora nadou tranquilamente com as roupas de baixo, o que me deixava uma nítida impressão de que ela havia anteriormente provocado o aluno de propósito. Claro que era criação da minha cabeça pervertida de pré-adolescente introvertido, mas já bastava. Engraçado que, na mesma cena, havia uma linda aluna seminua envergonhada, mas eu só tinha olhos para a professora, acho que inconscientemente eu sempre preferi mulheres mais velhas.

A motivação dos sequestradores mascarados recebe alguma atenção no livro, mas o roteiro inteligentemente os transforma em forças inexplicáveis da natureza, o que intensifica o senso de perigo constante. Ao contrário de muitos projetos similares da época, “A Fortaleza” sobreviveu muito bem ao teste do tempo, especialmente em sua versão sem cortes. 


Paraíso Azul (Paradise – 1982)
Dois adolescentes escapam do ataque de mercador de escravos no meio do deserto. Únicos sobreviventes do massacre, o casal de jovens foge de camelo e se refugia num oásis onde se apaixonam e começam a descobrir a sexualidade.

Já começo afirmando que o filme é horroroso. O único motivo que me fez nunca esquecer sua existência atende pelo nome de Phoebe Cates. Mais um presente apimentado do “Cinema em Casa” do SBT para os pré-adolescentes, que compartilhavam a certeza de que o dever de casa seria postergado e que, durante sua exibição, a porta do quarto ficaria trancada. Em um mundo sem internet, assistir a nudez feminina nas tardes politicamente incorretas era como tocar o céu, motivo de ansiedade e expectativa. A conversa na sala de aula era: “Sabe qual filme vai passar hoje? Paraíso azul!” Era a mensagem cifrada que fazia com que o tempo corresse. Com a Phoebe nos aguardando em casa, não havia matemática que nos irritasse. Já ficávamos doidos com ela em “Picardias Estudantis”, mas nessa cópia fajuta de “A Lagoa Azul” ela aparecia o tempo todo, aquele rostinho inesquecível.

Não vou enganar você, caro leitor, afirmo que não me recordo de absolutamente nada sobre a trama. Na época, após gravar em VHS, assistia apenas as cenas em que ela aparecia mais, digamos, confortável. Eu marquei na contracapa da fita os minutos, então era possivelmente o filme em que mais gastava o botão FF do aparelho. Nunca me esqueço da conversa dela com o rapaz, onde ele dizia que a nudez era um pecado, já que Adão e Eva usavam folhas grandes. E ela então afirmava: “Como pode ser pecado algo tão belo?”. Segundos depois, somos conduzidos a uma cena em que a jovem se banha dentro de uma caverna, apenas para, com os queixos no chão, confirmarmos o argumento dela. 

"O Teorema Zero", de Terry Gilliam


O Teorema Zero (The Zero Theorem - 2013)
O eterno Monty Python Terry Gilliam retorna à boa forma de “Os 12 Macacos” e “Brazil”, exercitando seu estilo visual característico, mas com senso de humor reduzido. Uma jornada mais pessoal, onde ele, assim como o personagem, no início do filme, encara o vácuo em busca de respostas. Ele utiliza o talento de Christoph Waltz, totalmente careca e, pela primeira vez, como protagonista, para compor sua fábula distópica sobre paranoia institucional. Um hacker cuja existência se limita a trabalhar sem descanso para sua empresa, mas que anseia apenas poder se afastar ainda mais da sociedade, trabalhando em casa. Sendo muito competente, a empresa recompensa-o com seu desejo, porém ele precisa obrigatoriamente encontrar o Teorema Zero, uma equação que comprova que o universo é vazio e que todos nós rumamos inexoravelmente para o filosófico “nada”.

O maior problema do filme é que o roteiro do estreante Pat Rushin falha ao não se impor de igual perante as invencionices visuais do diretor, como a frequente utilização das lentes grande angulares, nunca aprofundando as críticas além da satisfação fonética mecânica pela repetição, como a gag ideologicamente pouco sutil que envolve o protagonista sempre se referir a si próprio no plural. Enquanto isso, algumas ideias mais elaboradas, como a câmera de segurança que é posicionada no lugar da cabeça de Jesus em um crucifixo, poderiam resultar mais contundentes. É agradável encontrar essa coragem nos diálogos, que podem não ser fluidos, mas eles estão inseridos com o único intuito de provocar o espectador, estimulá-lo à reflexão após um breve sorriso. Em um de seus melhores momentos, numa festa onde os presentes não conseguem tirar os olhos de seus celulares, Gilliam consegue realizar uma crítica comportamental muito similar à de Spike Jonze em “Ela”, uma obra que poderia muito bem ser complementar a essa experiência.

Essencialmente, por trás de toda a perfumaria sci-fi proposta no roteiro, trata-se de um simples confronto entre a razão/ceticismo, simbolizada claramente em uma cena com Matt Damon no terceiro ato, e a fé/religiosidade, simbolizada pelo telefonema que ele aguarda de uma divindade que sabe todas as respostas. Quando era mais jovem, ao lado de seus colegas ingleses, Gilliam debochava da necessidade de um sentido para a existência nos ótimos esquetes de “The Meaning of Life”, mas dessa vez encontramos um homem no crepúsculo de sua vida, com a mesma verve irônica maravilhosa, mas perceptivelmente perturbado pelo tema. O resultado final me resgatou boas lembranças do desfecho de “Hannah e Suas Irmãs”, onde o personagem de Woody Allen abraça a finitude com um olhar de fascínio exploratório, aceitando a beleza que se esconde nos detalhes. O personagem de Gilliam não sorri com os “Irmãos Marx”, mas parece entender que existe graça, ainda que melancólica, no caos.