sábado, 30 de agosto de 2014

Cine Samurai - "A Fortaleza Escondida"

Links para os textos do especial:



A Fortaleza Escondida (Kakushi-toride no San-akunin – 1958)
Japão, século XVI. Um general escolta a bela princesa de um clã derrotado por território inimigo. Em sua viagem, cruzam com dois medrosos fazendeiros. É o início de uma série de incríveis aventuras.


“Um filme verdadeiramente bom é fácil de entender”. (Kurosawa)

Quando se fala nesse filme, quase sempre é pelo viés da comparação com o épico espacial de George Lucas e, com menor frequência, seu prelúdio lançado em 1999, mas, apesar dele oficialmente afirmar ter se inspirado num detalhe ou outro, apenas com um olhar até pouco atento, fica bastante óbvio perceber que a referência era dominante na estrutura de seus roteiros. Eu prefiro me ater unicamente à beleza desse trabalho. A frase citada em destaque acima simboliza a proposta cinematográfica de Akira Kurosawa. E, nessa obra, talvez ele tenha conquistado a simplicidade máxima, com uma trama cuja essência é universal, além de um perfeito equilíbrio entre o alívio cômico, o senso de aventura e as cenas de ação.

Os incomuns heróis da aventura são dois desajeitados que ambicionam apenas o enriquecimento, como uma versão ainda mais patética da dupla Takezo e Matahachi, do clássico literário “Musashi”. Eles acabarão cruzando o caminho de um general samurai, vivido por Mifune com a competência usual. O roteiro acaba se enveredando pela comédia, quando uma jovem princesa entra nessa equação, equivocadamente tida como surda e muda pelos dois amigos. O interessante é ver a transformação dela, de garota mimada à guerreira, graças ao convívio diário com a coragem de seus protetores. É linda a cena que superimpõe a bandeira de seu clã, no rosto da jovem em prantos, que acaba de entender a gravidade de sua responsabilidade. A metáfora mais interessante reside no conceito da aparência. O ouro que passa despercebido se escondendo dentro dos galhos, a nobreza heroica escondida pelos trapos que vestem os protagonistas, comuns e desleixados no exterior, podem passar por coisas sem valor algum.

O diretor estava criativamente empolgado, pois estaria utilizando pela primeira vez, já com extrema segurança, o sistema TohoScope, resposta japonesa ao CinemaScope americano, uma desculpa agradável para que ele experimentasse colocar os atores nas extremidades da tela sempre que possível. O artifício foi utilizado com maestria pelo diretor de fotografia Kazuo Yamasaki, que podia não ser muito bom em panning shots, mas emoldurou algumas das sequências mais belas no cinema samurai, como a inicial onde somos surpreendidos pela ameaça que faz tombar um guerreiro e, principalmente, a intensa batalha com Toshiro Mifune brandindo sua espada, montado no cavalo, enquanto persegue o oponente que galopa à distância.

* O filme está sendo lançado, em versão restaurada e com quase uma hora de extras, pela distribuidora "Versátil".

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Make 'Em Laugh - "Bola de Fogo"

Links para os textos do especial:


Bola de Fogo (Ball of Fire - 1941)
Uma parceria entre Billy Wilder, no roteiro, escrito com Charles Brackett, e Howard Hawks, na direção, só poderia resultar em algo fantástico.  Um dos pedidos de Wilder, que estava se preparando para iniciar seu ciclo como diretor, foi poder acompanhar todas as gravações, para que pudesse absorver o máximo de aprendizado possível. E, ainda que o próprio tenha sempre afirmado sua admiração por Ernst Lubitsch, vejo claramente em seus trabalhos iniciais uma inspiração maior no estilo de Hawks.

A inspiração veio da "Branca de Neve" adaptada na animação da Disney. Os professores se portam como os anões, com direito a caricatos gestos e trejeitos, além de se posicionarem sempre juntos nas cenas. Já o lacônico Gary Cooper exercita seu talento como um professor de linguística, numa óbvia piada interna, brincando com a fragilidade de seu personagem, deixando a voluptuosidade de Barbara Stanwyck dominar cada frame. Vale destacar a fantástica cena dela no clube noturno, exalando sensualidade ao som de “Drum Boogie”, cantado por Martha Tilton, com a lenda da bateria Gene Krupa. Interessante perceber como Gregg Toland, o gênio por trás da fotografia de "Cidadão Kane" e "A Longa Viagem de Volta", resolveu a bela cena em que apenas os olhos de Stanwyck se destacam no escuro onde sua personagem se esconde. Toland pintou o rosto dela de preto, num truque bastante eficiente.

O contraste metafórico entre o controle rígido do personagem de Cooper, que vive desconectado do mundo real, e a liberdade criativa de Stanwyck, com o sugestivo nome: “Sugarpuss”, é o leitmotiv, simbolizado pela definição dada pelo professor para as gírias: “a língua que tira o casaco, cospe nas mãos e pega no batente”. No intuito de conhecer esse universo, ele terá que se afastar do conforto ideológico que recebe dos vários livros amontoados em seu ambiente.  Com um tema atemporal e o usual refinamento cômico dos diálogos criados por Wilder, “Bola de Fogo” é uma das melhores screwball comedies de sua época.

Faces do Medo - "A Tortura do Medo"

Links para os textos do especial:


A Tortura do Medo (Peeping Tom – 1960)
A coragem do diretor inglês Michael Powell, na vanguarda de sua abordagem, acabou prejudicando sua carreira. Lançado no mesmo ano de “Psicose” de Hitchcock, apresentava ao público um assassino cujos atos de loucura não eram diagnosticados ao final, como ocorre com Norman Bates. Mark, vivido por Karl-Heinz Boehm, que faleceu recentemente, não eximia o espectador da culpa pela possível identificação. A perturbação em sua mente, cuja origem é revelada sutilmente em flashbacks, tornava a empatia ainda mais latente. Bates era um monstro caricato que assistíamos de longe, mas Mark podia ser nosso vizinho, alguém que nos conduzia pela mão e nos tornava cúmplices em seu voyeurismo. 

Essa atitude foi determinante na receptividade negativa da crítica, que sequer deu tempo para o público assistir e formar uma opinião, destruindo a imagem do diretor, outrora celebrado por obras como “Os Sapatinhos Vermelhos”, que fez ao lado de Emeric Pressburger. O curioso é constatar que seu esforço solo resultou em um produto superior aos projetos da dupla, tendo sido abraçado ternamente pelo tempo. É claro que o choque perdeu impacto na sociedade atual, com a banalização da violência, mas dá para imaginar a reação daqueles que assistiram na sala escura em sua estreia. O efeito que se mantém é mérito da franqueza narrativa e do desinteresse do roteiro em julgar o protagonista, exatamente os elementos que motivaram as críticas negativas. Powell foi artisticamente assassinado em vida pelos produtores, que se recusavam a investir em seu talento, mas ressuscitado anos depois pela inteligência rebelde da juventude, composta por Martin Scorsese, Coppola e George Lucas, entre outros, que se esforçaram ao máximo para restaurar o conjunto de obra daquele senhor que já se considerava esquecido. 

Karl, marcado pela doçura de seu personagem no romântico “Sissi”, ousou mudar radicalmente sua imagem, entregando uma insegurança infantil ao protagonista, como se seus atos cruéis nascessem de uma carência por atenção materna, já que, desde muito cedo, com a morte dela, teve que se acostumar à presença de uma “substituta”, expressão que utiliza com desdém em sua narração. O pai, interpretado em uma única cena pelo próprio diretor, uma mente insana com diploma de psiquiatria, capaz de utilizar o próprio filho como cobaia em suas experiências diárias na busca pelo sentido do medo. Em uma época do cinema que primava por ameaças sem tons de cinza, o brilhante roteiro de Leo Marks se aprofunda no trauma do adulto emocionalmente imaturo, incapaz de se afastar de sua câmera portátil 16mm, instrumento que utiliza para eternizar o pavor nos olhos de suas vítimas. A satisfação que obtém ao observar repetidas vezes essas gravações o conecta diretamente ao seu passado, aquele momento perdido no tempo onde perdeu sua inocência, alguns segundos de prazer na tentativa impossível de regredir ao seu molde psicológico original inalterado. 

* O filme está sendo lançado, em versão restaurada e com vários extras, pela distribuidora "Versátil".

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Cine Bueller - As Minas do Rei Salomão (1950)


As Minas do Rei Salomão (King Solomon's Mines - 1950)
No final do século XIX, o inglês Allan Quatermain (Stewart Granger) trabalha na África como caçador e guia de expedições quando recebe uma oferta de trabalho: partir em um safári para localizar o marido da rica Elizabeth Curtis (Deborah Kerr). O homem desaparecido deixou uma cópia do mapa, com a localização das lendárias Minas do Rei Salomão.


Muitas versões cinematográficas desta clássica história de H. Rider Haggard, publicada em 1885, foram realizadas, todas se desviaram bastante do original, incluindo um interesse amoroso, mas essa dirigida por Andrew Marton e Compton Bennett, removido durante a produção, por problemas com o protagonista, foi a que entregou um entretenimento de melhor qualidade, filmada em locação na África. Os jovens podem se lembrar do Allan Quatermain vivido por Richard Chamberlain na década de oitenta, mas elas eram obras que buscavam imitar a fórmula dos projetos com o arqueólogo Indiana Jones, construindo um desequilibrado misto de aventura e humor, com pouca personalidade. Rever Stewart Granger impondo dignidade ao papel é testemunharmos uma das inspirações de George Lucas.

Ajudando a compor o clima, a única trilha sonora que escutamos são os tambores e os cânticos nativos, o que, para a época, foi uma decisão inovadora. A fotografia premiada de Robert Surtees, que viria a participar também de "Ben-Hur" e "A Primeira Noite de Um Homem", entre tantos outros, se aproveita da imensidão e ajuda a criar momentos épicos, como a cena da debandada dos animais, que muitas produções tentaram imitar, mas nunca sequer igualaram. A personagem de Deborah Kerr, cuja interpretação foi clara inspiração para a Willie Scott de "O Templo da Perdição", busca encontrar seu marido na África selvagem, o que possibilita no primeiro ato um típico travelogue, com o protagonista explicando o conceito de caça e caçador na selva, mostrando didaticamente variados animais em ação predatória, além de algumas soluções que adiam a evolução da trama, únicos elementos que ficaram datados. Quando todas as peças estão no tabuleiro, incluindo o africano Umbopa, personagem essencial, mas com importância reduzida, o ritmo engata e somos presenteados com uma das melhores aventuras da era de ouro do cinema americano.

"O Capanga de Hitler" / "Os Carrascos Também Morrem"


O Capanga de Hitler (Hitler´s Madman - 1943)
O filme conta a história do assassinato de Reinhard Heydrich, comandante nazista, por rebeldes tchecos. Depois, houve a represália ao povo da Tchecoslováquia pelos nazistas, dizimando a cidade de Lídice.


Neste filme testemunhamos o primeiro trabalho de Douglas Sirk no cinema americano, com perceptível inspiração em Sergei Eisenstein e já mostrando muita coragem ao se impor em uma indústria diferente, além de traços narrativos recorrentes em sua filmografia, como o conflito entre as tradições e o novo regime totalitário. Trata-se de mais uma eficiente peça de propaganda, rodada em uma semana, porém com mais refinamento que a maioria que era produzida no período. O desfecho, onde o povo da cidade dizimada pelos nazistas clama diretamente ao público por um revide ideológico, ressalta a importância histórica da obra, ainda que seja um elemento que a deixe bastante datada.

Como ponto alto, a excelente atuação de John Carradine, como Reinhard Heydrich, organizador da Conferência de Wannsee, em 1941, que resultou na aprovação da monstruosa "solução final para os judeus": o holocausto. O roteiro evita a estratégia comum de buscar a empatia do público por um monstro das páginas históricas, inserindo-o em um contexto íntimo e ordinário, preferindo realçá-lo com tintas fortes. Em sua interpretação, assistimos o retrato de um sistema condenado, em que os homens devoravam a si mesmos, no intuito de destruírem a sociedade.


Os Carrascos Também Morrem (Hangmen Also Die! - 1943)
Franticek Svoboda é um médico tcheco membro da resistência que assassina um carrasco alemão. A Gestapo, então, resolve caçar o responsável e para conseguir o seu intento, os nazistas fazem execuções a cada hora de cidadãos tchecos, querendo forçar a população a entregar o assassino.


Escrito por Bertold Brecht, sua única contribuição para o cinema de Hollywood, com direção do sempre competente Fritz Lang, foi lançado na mesma época que "O Capanga de Hitler” e com tema similar, abordando o assassinato do nazista Heydrich. O maniqueísmo, usual nas peças de propaganda, aliado à atuação exagerada do elenco que compõe o núcleo nazista, acaba criando caricaturas. A fotografia expressionista é do grande James Wong Howe, responsável por "O Indomado", "O Velho e o Mar" e a gema injustamente pouco conhecida "O Segundo Rosto", de John Frankenheimer. 

No filme, podemos perceber que Lang, que auxiliou Brecht no roteiro, buscou inspiração em seu próprio trabalho nos filmes de "Dr. Mabuse", especialmente "O Testamento de Dr. Mabuse". Uma obra interessante do período em que a propaganda era uma arma utilizada na Segunda Guerra Mundial, em que o importante era incitar os valores do espírito humano defronte a possível aniquilação.