quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Faces do Medo - "A Noite do Demônio"

Link para os textos do especial:


A Noite do Demônio (Night of the Demon – 1957)
Uma série de estranhas mortes acontece quando um psicólogo americano viaja para um congresso em Londres, para desmascarar o líder de uma seita demoníaca.


Existem poucos filmes realmente bons que tratem especificamente de seitas satânicas, um tema que normalmente se equilibra na linha tênue entre o risível e o exagero. Eu gosto muito de “As Bodas de Satã”, dos estúdios Hammer, mas nenhum foi mais eficiente nas sutilezas que o diretor francês Jacques Tourneur. Claro que destoa a tola imposição dos produtores, exibindo em toda glória no terceiro ato o demônio como um monstro de seriados japoneses (chegaram a cogitar entregar o trabalho nas mãos de Ray Harryhausen), mas isso não desvaloriza toda a impecável construção de suspense que o roteiro de Charles Bennett, parceiro do Hitchcock da fase inicial britânica, executa desde o início.

O personagem vivido por Niall MacGinnis, o líder do culto, é mostrado de forma radicalmente oposta à caricatura usual, sendo apresentado como um afável filhinho da mamãe, amigo das crianças do vilarejo, que costuma entretê-las com mágicas inofensivas. Ao colocá-lo mais próximo dos corações dos inocentes, o roteiro cria um agente do mal muito mais inteligente e ameaçador. Ele também subverte o conceito geral das obras do gênero, que sempre ligam a presença do mal à escuridão da noite, inserindo uma tempestade em plena luz do dia, como uma simples exibição dos poderes do Dr. Julian (MacGinnis) a um perplexo Dana Andrews, que mesmo vivendo um período difícil onde se refugiava frequentemente no álcool, atua com segurança e representa muito bem o eterno conflito entre a racionalidade cética e as superstições sobrenaturais. É possível perceber a influência dessa cena em obras posteriores no tema, como o excelente “A Profecia”, de Richard Donner, além de “Os Pássaros”, de Hitchcock.

O ponto alto do filme está na questão que ele propõe ao final, fazendo-nos considerar a possibilidade de que exista uma realidade desconhecida que não desrespeite as leis da racionalidade, algo sombrio que simplesmente não possa ainda ser codificado pelo cérebro humano.

* O filme está sendo lançado, em versão restaurada, pela distribuidora Versátil, no box "Obras-Primas do Terror".

O RoboCop de José Padilha


RoboCop (2014)
O primeiro erro que se pode cometer é buscar nesse projeto um produto que visa substituir o original. Não é essa a intenção do diretor José Padilha, que sabe, eu tenho certeza, quão bem o original de Paul Verhoeven resistiu ao tempo. É uma releitura que já demonstra sua legitimidade ao utilizar brevemente o tema composto por Basil Poledouris como parte da crítica corporativa. Ela deixa de emoldurar o heroísmo do protagonista, tornando-se uma fanfarra que simboliza mais os interesses dos engravatados por trás da máquina.  Até mesmo a utilização de algumas frases facilmente identificáveis é feita com sagacidade, especialmente a que ecoa o “Eu pago um Dólar por isso”, retirando o gosto amargo da utilização desse recurso em outras refilmagens com menos atitude, como “Planeta dos Macacos – A Origem”.

No original, o robô era apontado pela corporação OCP como a evolução máxima do policial, já que ele nunca entraria em greve. O novo atualiza a crítica social, inserindo na equação o elemento da cultura midiática do medo, situação que o brasileiro está acostumado a viver, com revoltantes programas policiais que acompanham o horário de almoço da família. Fica claro logo nas primeiras cenas o comprometimento autoral, que provavelmente rendeu uma batalha árdua para ser conquistado, fugindo do piloto automático com que os produtores costumam tratar projetos similares. A existência do filme se justifica nas discussões que o roteiro de Joshua Zetumer incita, deixando de lado o tom pomposo divertido, mas focando com seriedade na eterna questão: o que nos faz humanos? O excelente momento em que Alex Murphy (Joel Kinnaman) é apresentado ao que restou de seu corpo, por si só, já validaria a refilmagem. A vontade própria em RoboCop, quando atua em batalha, é somente ilusão?

É dado espaço para a ação, mas quem esperava a catarse do original, com certeza se frustrou. No filme de Verhoeven havia várias cenas em que o público vibrava, mas a sobriedade dá o tom da obra de Padilha, preocupado mais em passar uma mensagem, defendida especialmente pelo personagem vivido por Samuel L. Jackson, certeira o suficiente para ter irritado boa parte do público americano, o que explica a rejeição por lá. O elenco, com destaque para Gary Oldman (Norton), como o centro moral da trama, e Michael Keaton (Sellars), não foge dos estereótipos, tendo arcos narrativos bastante previsíveis, especialmente Keaton. A violência está lá, mas a proposta realista/detalhista, como Christopher Nolan fez com “Batman”, acaba minimizando a sátira social do original.

Excelente ao mostrar que é possível ser autoral em uma releitura, tornando-a válida, mas um pouco distante demais, frio. O novo “Robocop”, para o bem e para o mal, é um protagonista de filme B levado a sério, mas, ainda assim, levando em consideração o nível do Sci-Fi genérico que a indústria americana regurgita anualmente, resulta num produto acima da média. 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

"O Lobo de Wall Street", de Martin Scorsese


O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street - 2013)
É muito válido que o roteiro, de Terence Winter, não julgue as atitudes do protagonista, interpretado com excelência por Leonardo DiCaprio. Também é válido constatar que Martin Scorsese continua desafiador aos 71 anos, até mais do que aquele jovem que filmou “Taxi Driver”. Mas algo nesse épico de três horas sobre a degradação moral e a ambição humana não funciona tão bem. 

Após a quinta cena focando as estripulias de Jordan Belfort (DiCaprio) e sua equipe, o recurso começa a cansar e soar gratuito. Há um excesso discutivelmente venerativo na exposição das atitudes exóticas desse grupo, mas nenhuma preocupação em trabalhar o elemento comportamental que move essas atitudes. Essa pretensa glorificação da sociopatia é explicada pela narração em primeira pessoa. Ao colocar a trama pelo ponto de vista de Belfort, possibilita que percebamos quão distorcida é a mente de alguém que deseja ser reconhecido pelo poder proveniente do dinheiro que acumula. O objetivo de Scorsese é torná-los caricaturas desprezíveis, enfatizando os valores podres do sistema econômico, corretores que enriquecem arruinando as vidas de seus clientes. O ponto negativo é que o filme flerta tempo demais com os absurdos, anestesiando consideravelmente o impacto da crítica que existe nas entrelinhas. Um caso clássico de “menos seria mais”. 

É interessante a forma como o roteiro trabalha a figura do agente do FBI (Kyle Chandler) e de outras figuras de autoridade, evidenciando que estão longe de serem coerentes à ideologia de justiça que defendem. Vestidos com o manto da lei e da ordem, eles constantemente abusam de seus direitos. Não existem santos nesse sistema, então como podemos traçar uma linha que divida o que é certo e o que é errado na natureza humana? Uma discussão que não chega a ser aprofundada, graças ao grave problema citado no parágrafo anterior. O maior acerto foi a escalação do comediante Jonah Hill para fazer parceria com DiCaprio, como se para deixar óbvio que o objetivo principal é rir da cara desses personagens. Uma das melhores cenas, a conversa entre DiCaprio e Matthew McConaughey sobre masturbação e cocaína, não disfarça em nenhum momento o tom de deboche, de farsa, em uma comédia sobre a estupidez humana. Ao final, temos a clara noção de que o ilusório “sonho americano”, para ser plenamente realizado, necessita corromper espíritos dispostos a descer aos mais baixos níveis da degradação ética e moral. 

Pelos Olhos de Maisie


Pelos Olhos de Maisie (What Maisie Knew - 2012)
Vivemos em uma sociedade imediatista na qual o ato de ter filhos de forma impensada é irresponsavelmente incentivado pelo governo, pela igreja e pelos vizinhos. Crescei e multiplicai-vos. Buscando satisfazer de forma prazerosa um capricho emocional, muitos se esquecem da tremenda responsabilidade que acompanha o nascimento de uma criança. A inserção de um novo elemento transformador, cujas ações e omissões futuras irão afetar, para o bem ou para o mal, a vida de outros. E é disso que trata o romance de Henry James, escrito em 1897, mas que se mostra incrivelmente atual. Uma doce menina que sofre a influência negativa de adultos recentemente divorciados e que não demonstram competência sequer para guiar suas próprias vidas. A mãe, vivida por Julianne Moore, uma egoísta estrela do rock em declínio. O pai, vivido por Steve Coogan, um marchand que vê a filha como uma pedra em seu caminho profissional. Utilizam a menina como arma em uma guerra diária, ignorando que gradativamente estão destruindo a psique da criança. 

Nos olhos de Onata Aprile (que vive Maisie), no constante uso de close-ups, percebemos desde a primeira cena uma resiliente força de caráter, como se ela já soubesse desde cedo que sua sobrevivência dependeria apenas de seus próprios esforços. Longe dos pais, ela se mostra alegre e livre, mas é possível perceber em alguns planos-detalhe, símbolos clássicos de solidão que se mostram à espreita. Ela sabe que a diversão dura pouco tempo, que a ilusão se desfaz no momento em que retorna para sua casa. O roteiro de Carrol Cartwright e Nancy Doyne incita a revolta ao exibir claramente a criminosa manipulação dos pais, que se mostram capazes de iniciar novos relacionamentos, inserindo mais vítimas às suas estatísticas de destruição, apenas como estratégia de ataque. No lugar da gentil Sra. Wix literária, a adaptação nos entrega Margo (Joanna Vanderham), que ao lado de Lincoln (Alexander Skarsgard), ambos inseridos como peças em um calculista tabuleiro alheio aos seus sentimentos, dão vida à ideologia mais bonita do filme. Maisie percebe no carinho sincero desses dois personagens, que realmente se importam com ela, o real significado da parentalidade.

A direção de Scott McGehee e David Siegel evita o melodrama e capta nas entrelinhas o amor que a filha sente pelos pais, ainda que estes não a mereçam. A opção de visualizar tudo pela ótica da criança foi muito acertada, já que compartilhamos a confusão mental dela, indiferente aos motivos que os levaram a tanta hostilidade. Chegamos a compartilhar a sensação de desconforto ao escutarmos o som da voz da mãe se aproximando. O problema não está na incompatibilidade dos pais, mas na inclusão da inocência nesse cenário corrupto. Inicialmente escutamos involuntariamente as brigas ao lado da menina, escondidos e apoiados no corrimão de uma escada, mas em pouco tempo os xingamentos passam a ser proferidos objetivando a percepção dela, com a intenção clara de posicioná-la ativamente em um campo de batalha. Maisie procura o silêncio como forma de preservar sua sanidade e proteger seus pais. Sua preocupação evidencia sua maturidade precoce. A crueldade inerente a essa tortura diária transforma os pais em monstros. E é a constatação dessa odiosa face no espelho, que poderia trazer uma possibilidade de redenção. Mas a realidade é dura, assim como o filme. 

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Faces do Medo - "A Aldeia dos Amaldiçoados"

Link para os textos do especial:


A Aldeia dos Amaldiçoados (Village of the Damned – 1960)
Em uma cidade da Inglaterra todos, de forma inexplicável, desmaiam por algumas horas. Meses depois, as mulheres ficam grávidas. Mas a crianças que nascem demonstram ter estranhos poderes.


A refilmagem da década de noventa, dirigida por John Carpenter, existe apenas para reforçar a contundência do original, que de maneira mais objetiva e simples, transmitia melhor a mensagem contida no livro “The Midwich Cuckoos”, do inglês John Wyndham. A versão mais recente, por incrível que pareça, ficou datada, enquanto a obra dirigida pelo alemão Wolf Rilla continua eficiente na atmosfera opressiva que envolve cada aproximação das crianças, potencializada pela trilha sonora de Ron Goodwin, que faria “Frenesi”, de Hitchcock. O horror é trabalhado onde melhor prospera, no subconsciente do espectador, que acaba sempre imaginando situações mais sombrias do que qualquer roteirista poderia conceber. O brilho nos olhos das crianças foi um recurso inserido para o mercado americano, enquanto os ingleses ficaram com uma versão mais sutil da execução dos poderes alienígenas. É difícil imaginar o filme sem esse traço característico.

A presença de George Sanders e Barbara Shelley traz respeitabilidade e ainda mais refinamento, servindo como a âncora de humanidade que torna tudo crível, tendo a ameaça das crianças loiras como uma alegoria para o pavor de se formar uma juventude como a que apoiou Hitler na Alemanha. O garoto Martin Stephens, líder do grupo, faria no ano seguinte o excelente “Os Inocentes”, de Jack Clayton. O que mais gosto no roteiro é o arco narrativo do personagem de Sanders, um professor extremamente racional que é confrontado com uma parentalidade inesperada, com uma esposa muito mais jovem em um relacionamento desgastado, desprovido de emoções. Ele reage inicialmente com fascínio perante um evento fantástico, deixando pela primeira vez em muito tempo sua emoção subjugar sua razão, até perceber desolado que aquele nascimento não representava uma bênção, mas sim uma maldição que afetaria todo o mundo. Essa triste constatação conduz a obra ao seu impactante desfecho.

O cinema clássico de horror não costuma ser valorizado pelas distribuidoras nacionais, ainda que exista um público imenso que adoraria encher suas estantes com as obras marcantes do gênero, então o esforço da Versátil deve ser novamente celebrado, pois está lançando no mercado um elegante digistack com seis influentes filmes inéditos, em versões restauradas e com extras. O filme abordado nesse texto e mais “A Noite do Demônio” (tema do próximo texto), “O Chicote e o Corpo”, “A Orgia da Morte”, “O Túmulo Vazio” e “Na Solidão da Noite”. Com seu usual selo de qualidade, nós esperamos que o horror seja abraçado com o mesmo carinho que está sendo depositando nos clássicos de samurai, outro estilo que era ignorado mercadologicamente por aqui.