quarta-feira, 28 de maio de 2014

Woody Allen - Zelig

Após um longo período sabático, em que cheguei a ficar enjoado de tanto assistir o Lee Van Cleef atirando, retorno com o resultado do “Desafio Cultural – Woody Allen”, esse inquestionável marco na história das redes sociais. A ideia do desafio era criar algumas linhas (ou algo mais elaborado) cômicas utilizando pelo menos dois personagens que eu havia criado para o especial, citando em algum momento o nome do homenageado. Minha conta de e-mail não resistiu à inundação de participantes, tive a constatação prática do quanto o brasileiro realmente ama ser instigado a escrever. Foi um trabalho hercúleo decidir entre o calhamaço de folhas impressas, mas o seleto júri composto apenas por mim mesmo chegou a uma decisão...
 
E a vencedora foi: Adriana Garcia. Ela já recebeu em sua casa, com todas as despesas pagas, o DVD de “Sonhos de Um Sedutor” (numa parceria com a distribuidora "Classicline") e meu livro “Devo Tudo ao Cinema”. Irei reproduzir agora um trecho de seu texto:

“No texto do Octavio (em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa) não há a descrição dos personagens. Sempre que leio, imagino como são. Minha Annie Hall (ex-namorada) e meu Alvy Singer (escritor) seriam interpretados por Audrey Hepburn e William Holden, repetindo a dupla de Quando Paris Alucina, mas com direção de Woody Allen. Atemporal. Dia seguinte, no mesmo cenário que se repete todas as noites, quarto do escritor desarrumado, mesa do computador com lixeira repleta de papéis, cama não desfeita. O escritor levanta-se, olha desanimado para a plateia, hoje nem seus pais estão presentes, aniversário de um primo distante. Observa um senhor cochilando na última fila, um casal com cara de tédio, mais três ou quatro pessoas.

Cansado daquilo tudo, de repente, como em um filme de Woody Allen, o escritor deixa o palco, sai do teatro sob o olhar atônito dos poucos espectadores, ganha as ruas. Não está em São Paulo, mas em Nova York, na Broadway. Caminha pelas ruas, sente frio, está só de manga de camisa. Mexe nos bolsos à procura de algum dinheiro. Personagem não carrega dinheiro. Acha umas moedas que devem ser do ator, pensa. Precisa tomar alguma coisa, sente vontade de fumar. Entra em um bar, tocam jazz. Joga as moedas no balcão. Agora são dólares, não reais. Pede um brandy para se aquecer e um maço de cigarros. Fica um pouco ali. Quem sabe aquela atmosfera não ajude a aumentar sua criatividade como escritor. Olha para um canto e parece ver sua ex-namorada...”.

Querida Adriana, infelizmente, por razões orçamentárias, não pude contratar o William Holden e a Audrey Hepburn, mas creio que ficará feliz ao saber que conseguimos dois sósias fantásticos. Abrindo um parêntese, acho fantástica a capacidade de emular fisicamente outra pessoa. Exatamente o que fazia Leonard Zelig, mas sobre isso irei tratar mais adiante. Já estão até emulando Machado de Assis, mas inexplicavelmente com um vocabulário muito pobre. Fico imaginando um jovem folheando “Dom Casmurro” e tentando entender qual o diferencial desse escritor entre tantos, já que a mágica estava exatamente na elaborada construção de frases. Sósia é um negócio complicado, quando modifica muito o trabalho do homenageado.

O escritor imaginado pela Adriana manda recado (psicografado por mim) dizendo que está tremendamente feliz em Nova York, escutando Jazz e contando dólares. A mulher que ele acreditava ser sua ex-namorada, na realidade, se tratava de uma projeção holográfica. Essa moda está pegando, inclusive, até mesmo o Vaticano já estaria mostrando interesse nesse recurso para organizar uma nova aparição da Virgem, que se cansou de bater ponto em vidros de janelas na América Latina. Como é usual, o evento irá ocorrer no interior profundo de alguma vila inóspita esquecida pelo mundo. Qual seria a graça de surpreender o povo da cidade grande? Mantendo-me no assunto, o Papa acaba de afirmar que o celibato clerical não era pra ter sido levado tão a sério todo esse tempo. Num futuro próximo, ele pretende aparecer de bermudas e cantando no videokê um clássico de Guilherme Arantes. O mundo irá aplaudir cegamente, como sempre.

Eu estou terminando de gravar em estúdio meu próximo álbum sacro, intitulado: “Dogmas, pra quê?”. Na faixa-título, um Hip-Hop, eu faço um dueto bacana com o MC Cutuca, homem de Deus e aviãozinho do tráfico de drogas. Como sacerdote moderninho, eu não posso perder o timing dessas revoluções que o Papa está conduzindo na igreja. Quero aproveitar e elogiar o escriba pelo retorno ao especial, pois estava sentindo falta de divulgar meu trabalho. 
ASS: PADRE CARMELITO, O BONDOSO.


Zelig (1983)
Em sua genialidade, Woody Allen estrutura esse filme como um documentário (repetindo o estilo de “Um Assaltante bem Trapalhão”) sobre Leonard Zelig, um (literalmente) camaleão social da década de vinte. Sem nenhum esforço, ele é capaz de adotar características físicas e mentais de qualquer pessoa com quem se relacionar. Ao lado de franceses, ele conversa fluentemente em francês, com direito até ao clássico bigodinho fino. Mas o que realmente fascina no roteiro é a forma como o personagem se adapta socialmente, como quando discute jargões de medicina ao lado de doutores, com total conhecimento sobre a área.

A crítica é certeira, mostrando como as pessoas se moldam, até o caráter, no intuito de agradar e serem aceitas. E, claro, dignitários com os mais diversos interesses passam a utilizar suas palavras como alegoria para suas atividades. Zelig acaba se tornando na sociedade uma espécie de “Chance”, o jardineiro interpretado por Peter Sellers em “Muito Além do Jardim”. Mia Farrow vive uma doce doutora que acredita que o fenômeno seja psicológico, uma manifestação de alguém que não consegue se expressar, levando o roteiro a abordar também o machismo da época, mostrando a reação agressiva dos médicos a essa nova hipótese. O processo de tratamento é tão eficiente, que ele passa a conseguir até discordar de outras opiniões, algo impensável em sua realidade de outrora. Quantas pessoas assim você conhece em sua vida?

terça-feira, 27 de maio de 2014

Make 'Em Laugh - O Castelo Sinistro


O Castelo Sinistro (The Ghost Breakers - 1940)
Mary Carter (Paulette Goddard) herda uma mansão em uma pequena ilha de Cuba e, apesar de sofrer ameaças, resolve tomar posse do local. Em companhia de Larry Lawrence (Bob Hope), uma personalidade do rádio, ela decide ir conhecer sua nova mansão assombrada, mas eles não fazem ideia do tamanho da confusão que estarão arrumando com os "fantasmas" do lugar.


Bob Hope era um embaixador da cultura americana. Entendia como poucos o funcionamento das engrenagens dos bastidores de Hollywood, além de genuinamente amar o mundo do entretenimento. Um intelectual que graças ao seu carisma e bom relacionamento com todos, transitava com liberdade pelos corredores dos estúdios. Em seus filmes, mandava indiretas cômicas para seus amigos, que ele sabia, estariam assistindo na estreia. Fazia graça com os gêneros, como nesta ótima brincadeira com os castelos mal-assombrados que emolduravam o horizonte enevoado dos clássicos de terror. 

O diretor George Marshall se responsabilizaria também pela inferior refilmagem, veículo para as trapalhadas de Jerry Lewis e Dean Martin, em "Morrendo de Medo" (Scared Stiff - 1953). A ideia nasceu de uma peça de 1909, já filmada por Cecil B. De Mille (com codireção de Oscar Apfel) em 1914 e por Alfred E. Green em 1922. Com o auxílio dos usuais escritores da equipe de Hope e o roteirista Walter DeLeon, os estúdios Paramount decidiram refilmar o projeto.  A química entre Hope e o comediante Willie Best garante ao filme excelentes momentos. Outra decisão acertada foi trocar o castelo da Espanha para Cuba, permitindo a inserção de elementos como o vodu e até zumbis. 

A parceria de Hope com a bela (então em processo de divórcio com Charles Chaplin, após "O Grande Ditador") Paulette Goddard em "O Gato e o Canário" foi um sucesso de público, o que levou a Paramount a escalá-los novamente em um projeto similar. Existem várias cenas muito engraçadas em "O Castelo Sinistro", porém uma se destaca como a melhor tirada de sua carreira. Ele atenciosamente escuta a explicação dada pelo personagem de Richard Carlson, sobre o modus operandi dos zumbis: "Um zumbi não possui vontade própria. Você os vê caminhando sem rumo, com os olhos sem vida, seguindo ordens, sem saber o que estão fazendo, sem se importar..." No que Hope complementa: "Como os democratas?".

sexta-feira, 23 de maio de 2014

"Mamma Roma", de Pasolini


Mamma Roma (1962)
A inesquecível Anna Magnani vive Mamma Roma, uma prostituta que sonha em mudar de vida e de classe social, para poder voltar a viver com Ettore, seu filho adolescente. Para isso, ela decide economizar dinheiro. Infelizmente, a realidade coloca muitos obstáculos em seu caminho. 


O ciclo do Neo-Realismo italiano já estava em uma fase transitória, quando Anna Magnani, considerando genial o filme de estreia de Pasolini: “Accattone – Desajuste Social”, decidiu entrar em contato com o diretor e mostrar seu interesse em protagonizar seu próximo projeto. Em seu segundo filme, já com total controle criativo, o poeta italiano demonstrou tremenda confiança e competência. A interpretação histriônica de Magnani concede o poder emocional, fornecendo a moldura perfeita para que Pasolini exercite seu já reconhecível (à época) estilo visual, unido à sua verve literária. Nos primeiros minutos podemos perceber que, ainda que a obra seja dedicada a Roberto Rosselini, sua intenção não é servir somente como pano de fundo para algum discurso social trágico (essência do ciclo), mas também fazer uma espécie de sátira utilizando o destemor e a intempestividade da protagonista. Diferente da Itália de “Roma, Cidade Aberta”, onde o povo valoroso e trabalhador se via compelido à miséria pelo ditador alemão, não há mártires no cenário de “Mamma Roma”.

A visão pessimista/realista de Pasolini faz lembrar seu roteiro para “Noites de Cabíria”, filmado por Fellini. Não há redenção satisfatória numa terra onde você aceita a corrupção da alma, sobrevivendo de forma medíocre à gradual destruição de seu caráter, ou é abatido por tentar genuinamente modificar o triste panorama. Vale ressaltar a participação de Lamberto Maggiorani (do maravilhoso “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio De Sica) no ato final, numa esperta homenagem, sendo novamente vítima de um roubo. Muito mais cínico que Rosselini, que terminava “Roma, Cidade Aberta” com uma insinuação de esperança, Pasolini escolhe finalizar a trama com um sutil recado nas entrelinhas de sua “Pietá”, evidenciando que o fim da guerra pode ter eliminado o regime ditatorial, mas não tornou os italianos mais fortes e preparados para a vida em liberdade. Não há mais nazistas, os opressores agora nascem da índole distorcida dos próprios filhos da terra.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Tesouros da Sétima Arte - "Fatalidade"


Fatalidade (A Double Life - 1947)
O famoso ator de teatro Anthony John (Ronald Colman) tem problemas com a sua vida privada devido às suas explosões imprevisíveis de humor. Essa característica já lhe custou sua esposa, Brita (Signe Hasso) e ameaça sabotar sua carreira. No entanto, Anthony faz as pazes com Brita e os dois passam a trabalhar em uma nova encenação de Othello na Broadway. A peça é um sucesso, agendando mais de 300 apresentações, mas a pressão de retratar um homem disposto a matar por ciúme domina Anthony completamente. 


Com uma interpretação que lhe rendeu um Oscar e um Globo de Ouro, Ronald Colman vive um ator perturbado por sua própria arte. Auxiliado por um ótimo roteiro do casal Ruth Gordon (que viveria a adorável Maude de "Ensina-me a Viver") e Garson Kanin, o injustamente pouco lembrado astro inglês entrega sua melhor interpretação, deslizando com inteligência entre os três níveis psicológicos de seu personagem. Ele inicia galante e bem-humorado, exercitando sua própria persona artística (o título da peça: "gentleman´s gentleman", como ele era conhecido na época), depois ficamos conhecendo sua dedicação dramática, quando interpreta em "Othello", mas o ponto alto, do filme e de sua atuação, se encontra no terceiro ato, quando ele sofre um colapso mental e perde totalmente o controle de suas ações. Além de um excelente monólogo sobre a função do ator, somos presenteados com a beleza de uma jovem Shelley Winters, em seu primeiro grande papel no cinema. A atriz estava extremamente nervosa por contracenar com Colman, fazendo com que o diretor George Cukor, durante as filmagens, pedisse ao seu experiente protagonista que a levasse para lanchar nos horários livres, para que ficassem amigos.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Curta - "Viagem ao Brasil"

Viagem ao Brasil
Harold está ansioso para finalmente conhecer o Brasil, mas não imagina as aventuras que irá viver naquela terra exótica...

O curta é uma singela homenagem aos grandes comediantes da época, Harold Lloyd, Charles Chaplin, Buster Keaton e Stan Laurel.