terça-feira, 20 de março de 2018

"Arquivo X - O Filme", de Rob Bowman


Arquivo X - O Filme (The X-Files - 1998)
Quem viveu a época do auge da criação de Chris Carter sente um arrepio ao escutar o clássico tema minimalista composto por Mark Snow, "Arquivo X" foi um fenômeno televisivo que pais e filhos admiravam na mesma intensidade, vale destacar, exibida nas noites de sexta-feira pela Rede Record, talvez o único acerto da emissora após ser comprada pela corja de estelionatários neopentecostais. Eu acompanhava com brilho nos olhos, não deixava de adquirir mensalmente a saudosa revista "Sci-Fi News", praticamente dedicada exclusivamente às aventuras de Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Anderson).

O projeto cinematográfico que servia primordialmente como uma ponte elegante entre as temporadas cinco e seis, mas que visava atrair também aqueles que sequer acompanhavam a série, continua surpreendentemente eficiente hoje, o filme envelheceu muito melhor que os episódios mais celebrados pelos fãs. O roteiro, escrito em apenas dez dias, bebendo diretamente na fonte dos filmes "Uma Sepultura para a Eternidade" e "Quatermass 2", do estúdio Hammer, entrega dose generosa de suspense ao captar a essência conspiratória sci-fi em uma trama aparentemente simples envolvendo alienígenas e o governo norte-americano. Aproveitando o orçamento maior, o primeiro ato já marca território com os dois pés na porta ao mostrar o atentado terrorista em um prédio federal, evento planejado pelo próprio governo, na tentativa de queimar arquivo, abafando um caso de vírus alienígena que volta à superfície após milhares de anos. Apenas Kurtzweil (Martin Landau, sempre competente), médico que sabe tudo sobre o esquema, tenta alertar a dupla de agentes, mas é vítima de uma campanha que visa desacreditar seu nome perante a opinião pública.

Vale salientar que Carter evitou a tentação de entregar respostas demais, ou avançar narrativamente com sequências genéricas de ação, algo que poderia ter agradado o grande público. Ele preferiu ser fiel ao espírito da série, adicionando camadas de enigma a cada passo da investigação, reforçadas pela atmosfera perfeita de inquietação. Há perigo em cada decisão tomada pelos personagens, o maior mal pode estar escondido no lugar aparentemente mais tranquilo. O filme inteligentemente compreende que o aspecto mais interessante de saber que "a verdade está lá fora" reside na busca, na jornada, nas perguntas formuladas no caminho.

sexta-feira, 16 de março de 2018

"Amante por Um Dia", de Philippe Garrel


Amante por Um Dia (L'amant d'un Jour - 2017)
Consciente de que o coração é um músculo elástico, o diretor francês aposta na simplicidade, despindo toda intelectualidade do discurso. 

Na trama de “Amante por um dia” (L’Amant D’un Jour), a jovem Jeanne (Esther Garrel, filha do diretor) retorna impulsivamente ao apartamento do pai, Gilles (Eric Caravaca), professor de filosofia, após terminar seu longo relacionamento com o namorado Matéo (Paul Toucang), apenas para descobrir que sua figura paterna está tendo um caso com Ariane (Louise Chevillotte), uma aluna de sua idade. 

O choque inicial incita rivalidade pela atenção do adulto, mas acaba sendo substituído naturalmente por um forte senso de cumplicidade entre as meninas, algo que é trabalhado no roteiro de Jean-Claude Carrière, Caroline Deruas-Garrel, Philippe Garrel e Arlette Langmann com todos os tons de cinza, ressaltando o inconsciente feminino e a complexidade que envolve o difícil processo de amadurecimento do trio. Apesar do pai representar uma geração diferente, nem mesmo o reconhecimento profissional é capaz de suprir sua insegurança emocional. 

Jeanne representa o afeto puro infantil intocado pela maldade, terreno fértil para rompantes de desespero, já Ariane, decidida a testar os limites de seu poder de sedução, representa a libido, o desejo livre que é rejeitado em uma sociedade machista e tradicionalmente monogâmica. Duas facetas comportamentais que convivem em eterno confronto também em Gilles, que é levado a entender o significado menos óbvio da traição, emoldurado frequentemente por sombras na elegante fotografia em preto e branco de Renato Berta. 

Se a filha luta para compreender a razão do afastamento de seu namorado, enxergando o amor da forma mais romanticamente idealizada, o pai, já castigado pela experiência da vida, com cicatrizes psicológicas expostas, sabe que a dor pode ser momentânea e fundamental. O terceiro ato exibe o otimismo de Garrel, não aquele cristalizado nas comédias românticas de Hollywood, mas, sim, o reconhecimento sincero de que no relacionamento humano, mesmo quando tudo parece que deu errado, nada se perde, nada é em vão, tudo vale a pena.  

* Crítica escrita para o Caderno B do "Jornal do Brasil" (15/03/18).

terça-feira, 13 de março de 2018

Tesouros da Sétima Arte - "A Bruxa Inocente", de Heinosuke Gosho


A Bruxa Inocente (Osorezan no Onna – 1965)
O diretor japonês Heinosuke Gosho nunca atravessou a fronteira como seus celebrados colegas Kurosawa, Ozu, Mizoguchi e Miyazaki, ente outros, apesar de sua carreira ser tão consistente quanto a de todos os citados, com especial dedicação em procurar a beleza por trás da tristeza de personagens comuns, elemento que garante aos seus melhores filmes uma aura de melancolia fascinante. E, vale destacar, nesta linda obra produzida pelo estúdio Shochiku, a sua linguagem sobreviveu impecavelmente ao árduo teste do tempo.

A trama inicia no monte Osore (tradução: medo), a entrada para o inferno, com os passos trepidantes de uma idosa que busca uma xamã cega que a ajude a entrar em contato com sua falecida filha. Em flashback, conhecemos Ayako (Jitsuko Yoshimura), ingênua garota do interior, que acaba se vendo obrigada a trabalhar vendendo seu corpo no final da década de trinta, às vésperas da guerra, sacrificando a sua própria vida para poder alimentar os seus pais. Ao chegar no bordel, atrai a atenção de um repulsivo homem mais velho que paga pela exclusividade de seus serviços. A câmera na fotografia claustrofóbica de Shinomura Sôzaburô reforça o confinamento das prostitutas, filmando-as frequentemente através de vigas de madeira verticais que simulam as grades de uma prisão. Sem revelar muito sobre o desenvolvimento do roteiro de Hideo Horie, ela acabará envolvida indiretamente em três mortes de clientes unidos por um laço familiar, algo que despertará na sociedade hipócrita, machista e ignorante da época a fama de que ela está possuída por demônios. O intenso terceiro ato exibe corajosa crítica à religião organizada, evidenciando os danos psicológicos que os dogmas e as mentiras ritualísticas causaram na protagonista, que, acreditando ser culpada por tudo o que aconteceu, aceita atravessar a implacável e estúpida cerimônia de expurgo sobrenatural. Ayako, pura flor de gentileza que foi incapaz de respeitar o rígido código de nunca entregar seu coração no trabalho, padece humilhada diante de uma corja de víboras sacerdotais arrogantes, iludidas e supersticiosas.

Analisado hoje, impressiona como seu amargo discurso sobre repressão sexual alicerçada nas crenças religiosas infelizmente segue relevante, incrivelmente atual. A antinaturalidade forja o conceito do pecado, revestido pelo manto subjetivo da moralidade, subjugando as mentes fracas ao lucrativo controle comportamental. A mãe, ao final, abandonada por tudo e todos, refaz seu caminho sem respostas. Quando a lucidez é negada, não há redenção. Bravo, Gosho!

Jerry Lewis e Dean Martin - "Sofrendo da Bola" e "Morrendo de Medo"


Sofrendo da Bola (The Caddy - 1953)
Usualmente lembrado por ser o filme em que Dean Martin, pela primeira vez abraçando sua herança italiana, defende sua canção mais famosa, "That's Amore", indicada ao Oscar, estatueta que perdeu para "Secret Love", cantada por Doris Day em "Ardida Como Pimenta", "Sofrendo da Bola" é dirigido pelo sempre competente Norman Taurog, que era especialista em trabalhar temas leves com elegância. O roteiro tem a audácia de conseguir fazer comédia com um dos esportes mais chatos e elitistas, o golfe, utilizando generosamente o pastelão de Lewis para debochar a todo momento da austeridade das partidas. Apesar do roteiro ser convencional, gosto muito do desfecho, logo após a repetição ressignificada da canção: "What Would I Do Without You?", com a câmera acompanhando os protagonistas até a coxia do palco em que se apresentavam, quando contracenam magicamente com suas personas reais na indústria do entretenimento, uma simpática cena extremamente bem executada tecnicamente e que transborda a camaradagem genuína que havia entre eles naquela fase inicial de suas carreiras. 


* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline", com a opção da dublagem clássica em português.
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Morrendo de Medo (Scared Stiff - 1953)
O ato estabelecido nos palcos dos nightclubs já havia se tornado também sinônimo de sucesso no cinema, projetos estavam sendo desenvolvidos a toque de caixa, um dos roteiristas de "Morrendo de Medo", Ed Simmons, tentou modificar um pouco a fórmula, inserindo mais protagonismo cômico para Dean Martin, mas o produtor Hal Wallis rejeitou a ideia, com medo de arriscar prejudicar a química matadora entre o galã cafona que se leva a sério e o idiota infantilizado. A trama básica era uma reciclagem do conceito já utilizado no cinema mudo pelo mestre Cecil B. DeMille em uma produção perdida de 1914, e consagrado por Bob Hope e Paulette Goddard em "Castelo Sinistro" (The Ghost Breakers, de 1940), dirigida pelo mesmo George Marshall, também responsável pela estreia da dupla, "A Amiga da Onça" (My Friend Irma, de 1949), reaproveitando até mesmo alguns cenários, além de reutilizar na cara dura algumas tomadas. Lewis e Martin inicialmente consideraram equivocado tentar repetir a mágica mistura de humor e terror, casas mal assombradas e canções românticas, mas, como profissionais sérios, tiveram que obedecer o contrato. O filme é especialmente interessante para os brasileiros, já que registra a última aparição de Carmen Miranda, elemento que garante o momento mais curioso, a hilária imitação de Lewis dublando "Mamãe Eu Quero".  


* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline", com a opção da dublagem clássica em português.

segunda-feira, 12 de março de 2018

"Viridiana", de Luis Buñuel


Viridiana (1961)
Às vésperas de ser ordenada freira, Viridiana (Silvia Pinal) passa uns dias na mansão do seu tio (Fernando Rey), que, obcecado com sua beleza, tenta seduzi-la de todas as maneiras. Com a morte repentina dele, desiste da vida religiosa, indo morar na mansão. Movida pelo espírito de caridade cristã, ela abriga e alimenta todos os mendigos da região.

Luis Buñuel executa em "Viridiana" sua crítica mais brutal à hipocrisia da utopia religiosa, exatamente no momento histórico em que as bases do sistema de governo espanhol eram definidas pela igreja, desconstruindo o véu frágil dos devaneios maniqueístas e dos valores morais erigidos no terreno fértil da ganância por homens que, através do tempo, construíram rituais autofágicos alicerçados em conceitos abstratos, objetivando controle populacional/ideológico e, acima de tudo, poder inconteste, impondo culpa, dor, repressão e submissão ao estabelecer a divisão da natureza humana em dois extremos, o sagrado e o profano. 

Ao primeiro sinal de questionamento/dúvida, a protagonista é direcionada por sua superiora no convento ao ato da confissão, instrumento análogo ao cabresto equino, para que conscientemente aceite o enclausuramento, negando metaforicamente o sangue que verte da coroa de espinhos que, mais para frente na trama, será atirada ao fogo. A jovem ingenuamente pune seus impulsos sexuais com a mesma intempestividade tola que conduz o herdeiro da mansão a salvar o cão preso debaixo da charrete, apenas para que, segundos depois, a câmera nos mostre outro cão sofrendo na mesma situação, simbolizando o confronto entre os dogmas religiosos e a dura realidade do mundo, não há sentido em querer ajudar outrem, quando o indivíduo é levado a crer que seu próprio sofrimento é purificador sinônimo de valor. A sequência mais famosa do filme, o banquete dos mendigos, corajosamente remetendo visualmente à "A Última Ceia", de Leonardo da Vinci, potencializa temas que haviam sido trabalhados em cenas menores, como a subversão do papel do leproso bíblico, outrora curado por Jesus, agora, alvo da humilhação constante de seus semelhantes. 

Darren Aronofsky, no recente "mãe!", obviamente inspirado em "Viridiana", pode ter sido mais implacável e contundente no ataque aos alicerces católicos, mas a pureza estética com que Buñuel retrata a morte existencial de sua tradicional ideologia é imbatível, a desolação encapsulada no momento final, ao som do pop vazio de uma modernidade rasa, evidenciando a figura patética da mulher que encontrou a amarga liberdade na intensa frustração de sua visão romanceada da caridade, tentando desajeitadamente fazer as pazes com sua sexualidade ao aceitar seus sentimentos por seu primo. Mas, como o roteiro faz questão de apontar no simbólico jogo de cartas, a desilusão faz parte da vida real. Não há respostas fáceis ou justiça fora dos muros da mentira religiosa.