terça-feira, 17 de outubro de 2017

"O Bar", de Álex de la Iglesia


O Bar (El Bar – 2017)
Quem não conhece a obra do diretor espanhol Álex de la Iglesia, precisa urgentemente ver “Balada do Amor e do Ódio”, “A Comunidade” e “O Dia da Besta”. O seu novo projeto, “O Bar”, traz sua inimitável verve irônica com toques generosos de terror, uma identidade autoral facilmente reconhecível logo nos primeiros minutos desta fantástica alegoria. Estranhos tipos que se cruzam em um bar, caricaturas de diferentes classes sociais, idades e posicionamentos políticos, impedidos de sair pelo medo que sentem do desconhecido, motivados pelo ódio que extravasam ao primeiro sinal de perigo. 

A união diante da ameaça, bela utopia, dá lugar ao egoísmo extremo. O elemento externo, o ceifador que elimina rapidamente qualquer um que ouse deixar o local, existe como necessidade narrativa para suscitar discussões valiosas, especialmente nos tempos atuais, em que dignitários irresponsavelmente celebram o confronto, construindo muros ao invés de pontes. Os personagens, em questão de minutos, passam a desconfiar de tudo e todos, facilmente expondo preconceitos arraigados e alimentados por compreensões rasas de manchetes sensacionalistas, a simples convivência se torna o maior desafio. A barba grande do jovem hipster é motivo para que todos acreditem que ele é um terrorista. O mendigo que, no cotidiano, já era tratado como peça irrelevante no cenário, passa a ser visto como opção única para o sacrifício, ele não merece estar vivo. E, inteligentemente, o roteiro vai desenvolvendo os personagens no segundo ato, subvertendo estereótipos, conduzindo os sobreviventes ao esgoto, escuridão e excremento, forçados a abandonar ego e ilusões sociais. 

A razão para o caos pouco importa, espertamente não há esforço no sentido de explicar o que acontece fora daquele microcosmo, o foco é a interação das vítimas do fenômeno, basta analisar a nossa realidade diária para perceber que o ser humano não precisa de motivos para apedrejar, segregar e odiar, está em sua natureza. Se você prestar atenção na simbologia do desfecho, vai entender que o bar, as pessoas que estavam dentro dele, não qualquer força sobrenatural ou vírus apocalípticos, representavam perigo real para a sociedade. A negação da empatia, a rapidez no julgamento sem embasamento, a cultura de uma vida de aparência, a lucidez sendo subjugada pelo pensamento extremista, o desinteresse pelo aprimoramento intelectual constante. O vilão é o reflexo no espelho. 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Faces do Medo - "O Mistério de Candyman"


O Mistério de Candyman (Candyman - 1992)
Quando aluguei esta fita VHS na época de seu lançamento, achei que se tratava de mais um terror engraçadinho, não sabia de sua conexão com Clive Barker, mestre por trás de “Hellraiser” e do subestimado “Raça das Trevas”. É a adaptação do conto “O Proibido”, da obra “Livros de Sangue – 5”, um interessante trabalho sobre o tema das lendas urbanas, mas inferior ao roteiro cinematográfico. Só fui rever o filme recentemente, mas nunca esqueci o impacto daquela noite. A sua trama se manteve gravada em minha mente, as abelhas na boca, os reais cenários decrépitos do conjunto habitacional Cabrini-Green, a imponente figura de Tony Todd e o sangrento gancho enferrujado no lugar de sua mão.

O tom de ameaça constante alcançado pelo diretor Bernard Rose engrandece as convenções típicas de um slasher, ajudado por uma trilha sonora incrivelmente imersiva de Philip Glass e pela entrega competente da bela Virginia Madsen, que vive uma antropóloga que está escrevendo uma tese sobre lendas urbanas, seduzida pela história de Candyman, o assassino da periferia de Chicago, que aparece nas costas de qualquer pessoa que repita seu nome cinco vezes encarando o espelho. A crítica social apurada é mérito do filme, o personagem no livro é loiro e atua na Inglaterra, o conceito de utilizar o medo de se estar inserido em uma sociedade racista e as cicatrizes psicológicas da escravidão como pano de fundo agrega camadas de interpretação muito mais instigantes, transformando o que seria um monstro convencional em um anti-herói enigmático de origem trágica.

Analisado no contexto pobre do gênero na década de noventa, “O Mistério de Candyman” se destaca como pérola do terror adulto de raro valor que merece ser redescoberta pela nova geração. 

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

"Rastros", de Agnieszka Holland


Rastros (Pokot - 2017)
Cenas importantes como a do padre católico defendendo que Deus fez os animais para serem subservientes aos homens, pensadas como dramaturgia rasa de telenovela, filmadas sem qualquer sutileza, prejudicam um filme que tenta desesperadamente transmitir sua mensagem nobre com imperdoável didatismo. A solitária professora Janina, vivida por Agnieszka Mandat-Grabka, é uma ativista pelos direitos animais que passa a investigar a origem misteriosa de uma série de crimes que ocorrem na Polônia.

Como crítica à cultura da caça e aos dogmas religiosos, o esforço é tremendamente válido, mas enfraquecido pela previsibilidade absurda que envolve o desenvolvimento do roteiro e, especialmente, opções estéticas como o foco nos olhos ou lábios dos personagens quando expressavam algo asqueroso, recursos simplórios e desgastados. O ritmo se perde após os primeiros trinta minutos, a experiência se torna bastante cansativa, a diretora Agnieszka Holland parece não saber exatamente qual subtrama seguir. 

“Rastros” não é competente enquanto suspense e a tentativa de injetar um interesse romântico no momento mais equivocado é pífia, sem qualquer relevância. Nas mãos dos irmãos Coen, este projeto até poderia funcionar, mas nem mesmo a aura de fantasia que a diretora estabeleceu tão bem em seu “O Jardim Secreto”, elemento presente no livro original de Olga Tokarczuk, consegue ser emulada desta feita. O melhor trabalho de Holland continua sendo “Eclipse de Uma Paixão”, de 1995.

"Logan Lucky - Roubo em Família", de Steven Soderbergh


Logan Lucky - Roubo em Família (Logan Lucky - 2017)
Se a estratégia do Steven Soderbergh com todo aquele papo de aposentadoria objetivava tirar da equação o elemento da expectativa em seus trabalhos, funcionou sobremaneira, porque se “Logan Lucky” viesse na esteira de seus projetos mais celebrados, provavelmente seria ignorado, mas, como inesperado retorno, entrega em sua leveza despretensiosa um par de horas agradáveis. 

Um filme de assalto em que o roteiro faz questão de não levar seus personagens a sério, espécie de primo pobre e propositalmente desajeitado de “Onze Homens e Um Segredo”, refilmagem do clássico protagonizado por Frank Sinatra, que Soderbergh revitalizou em 2001. Adam Driver e Channing Tatum vivem irmãos (ideia, por si só, engraçada) que se unem em um plano para fazer um assalto em plena corrida da NASCAR, mas quem rouba verdadeiramente a cena é Daniel Craig, vivendo um especialista que, de tão competente, acabou na penitenciária. Eles irão eventualmente unir forças com a irmã azarada, vivida por Riley Keough, neta de Elvis Presley. O terceiro ato perde ritmo com a entrada de uma personagem sem relevância na trama, momento inglório de Hilary Swank, desperdiçando tempo precioso que poderia ter sido utilizado para aparar arestas nas personalidades dos principais, que, sem exceção, são caricaturas unidimensionais. 

O humor funciona na maior parte das vezes, mas o charme inicial se desgasta rápido. Entretenimento inofensivo, o que não é um grande elogio quando se trata de um diretor como Soderbergh.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Sétima Arte em Cenas - "Os Guarda-Chuvas do Amor", de Jacques Demy


Os Guarda-Chuvas do Amor (Les Parapluies de Cherbourg – 1964)
“Eu nunca serei capaz de viver sem você...”

Cada linha de diálogo neste maravilhoso filme de Jacques Demy é cantada, o que pode afastar aqueles que não conseguem apreciar as potencialidades inerentes ao gênero musical. Eu sou completamente apaixonado pela obra, sentimento que apenas se fortaleceu ao vê-la recentemente, pela primeira vez, na tela grande, exibida na mostra “Jacques Demy – Entre o Realismo e a Fantasia”, em que tive a honra de escrever um texto para o catálogo, abordando a história de amor entre Demy e Agnès Varda.

O inesquecível desfecho é percebido por muitos como algo intensamente triste, até depressivo, mas eu enxergo nele a beleza da maturidade do rapaz (Nino Castelnuovo), a segurança com que ele se despede daquela que o trocou outrora por uma ilusão de estabilidade financeira e, emoldurada pela linda trilha sonora de Michel Legrand que ganha contornos apoteóticos no momento, a pura felicidade com que ele se volta para beijar a doce Madeleine (Ellen Farner) e brincar com seu filho. Geneviève (Catherine Deneuve), adolescente mimada, sem resistir aos impulsos gananciosos da mãe (Anne Vernon), aceitou entrar de cabeça em uma relação com alguém que sequer conhecia direito, Roland (Marc Michel), um elegante endinheirado, ao invés de aguardar o retorno de seu namorado pobretão que trabalhava em uma oficina mecânica, vale ressaltar, mesmo ofício do pai do diretor, e que havia sido enviado para a guerra. Ela, sim, como enfatiza o refrão da música, nunca será capaz de viver sem ele, o seu rosto, apesar de ricamente adornado, mesmo antes de reconhecer o rapaz pela janela do carro na noite nevada, ostenta uma miserável tristeza, ela ajeita o penteado no espelho como quem se agarra àquilo que restou de sua personalidade. Já Guy, esbanjando no início do filme leveza e ingenuidade, forjou seu caráter com a dor, agora a encara sem medo, enquanto ela frequentemente desvia o olhar, consciente do equívoco cometido. Ao questionar se ele gostaria de conhecer a própria filha, o rapaz não pensa duas vezes, por respeito à criança que não teve culpa, ele nega a oferta e indica que já está na hora dela partir. Aquela é a realidade que Geneviève buscou, que ela durma na cama que armou. “Só se morre de amor no cinema”. Na vida real, quando o indivíduo é emocionalmente maduro, ele se encarrega de redirecionar a rota, a adaptação faz parte do processo natural de autoconhecimento.

A separação é um final feliz, porque Guy silenciosamente confirma que fez a escolha certa ao prestar atenção na tímida e generosa Madeleine, que abdicou de boa parte de sua juventude para cuidar de sua tia adoentada, enquanto o admirava nas sombras. Ele merecia ser amado por ela, que merecia ser amada por ele. O trabalho dos dois irá garantir a justa estabilidade financeira que a mãe da outra tanto desejava. Já a sonhada riqueza material que Geneviève conquistou jamais trará paz à sua alma. A oportunista que seguiu viagem imersa em culpa merece continuar em seu casamento frágil alicerçado na mentira, elemento evidenciado na opção da melodia fúnebre como marcha nupcial. Eternamente frustrada, vazia, sem rumo. O afeto sem interesse, o amor genuíno venceu.