sexta-feira, 15 de setembro de 2017

"Loja do Doido", de John Paddy Carstairs


Loja do Doido (Trouble in Store - 1953)
Norman Wisdom, Norman Sapiência, sobrenome perfeito para a comédia, especialmente considerando que o tipo que o tornou famoso é um tremendo pateta, espécie de Jerry Lewis britânico que nunca chegou a ser muito conhecido no Brasil, apesar de ter salvado a indústria de seu país durante a década de cinquenta.

O garimpo na internet me possibilitou entrar em contato com suas obras, que não foram lançadas por aqui nem em VHS. Ele fez mais de quinze filmes, foi citado por Charles Chaplin como seu “palhaço favorito”, mas a qualidade das obras varia muito, o seu melhor momento está registrado em “Loja do Doido”, a sua premiada estreia, em que recebeu o BAFTA de revelação mais promissora do ano, um exagero, grande parte do mérito da obra está na criatividade visual da direção, gags como a do carro e da bicicleta logo no início. A voz aguda dele em situações de desespero, a gargalhada contagiante e a personalidade ingênua são características muito similares às que facilmente identificamos no tipo que Lewis já defendia nas produções da Paramount com Dean Martin, mas é possível que Frank Tashlin tenha se inspirado neste filme para trabalhar o conceito de “Errado pra Cachorro”, realizado dez anos depois e protagonizado por Lewis, também ambientado em uma loja de departamentos.

A trama é simples, Norman, que trabalha no almoxarifado, conhece o novo chefe e já comete uma tremenda gafe, o que faz com que seja despedido. Ele então passeia pela loja, tomando laranjada num saloon estilizado do velho oeste, ajudando indiretamente nos furtos de uma idosa (a respeitada Margaret Rutherford) bastante ousada, declarando desajeitadamente seu amor de forma musical para uma jovem atendente, até que consegue seu emprego de volta, o que abre diversas possibilidades cômicas, pastelão de alto nível, como a ótima sequência em que tenta provar sua competência como vitrinista. 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

"Na Mira do Atirador", de Doug Liman


Na Mira do Atirador (The Wall - 2017)
Com esta pérola ambientada em 2007, na fase crepuscular da guerra do Iraque, Doug Liman prova que é um dos mais competentes cineastas em atividade, construindo tensão utilizando espaço cênico reduzido, a parede em ruínas que serve como proteção, apenas dois atores e um terceiro personagem que se comunica por rádio. E considerando que o soldado vivido por John Cena é abatido logo nos primeiros minutos, o roteiro de Dwain Worrell tem o desafio de prender nossa atenção por oitenta minutos, sem apelar uma única vez para recursos convencionais como flashbacks ou trilha sonora emotiva, apoiando toda a carga dramática nos ombros de Aaron Taylor-Johnson, excelente ao transmitir, entre uma teatral exibição de bravata patriótica e outra, a fragilidade inerente à motivação de sua presença naquele inferno.

Como todo bom filme de guerra, o interesse maior está em evidenciar quão estúpida e sem sentido é aquela realidade. Apesar do péssimo título em português, simplificação que, como sempre afirmo, ressalta o baixo nível educacional do brasileiro, a mensagem poderosa reside na metáfora da parede que separa o soldado norte-americano e o atirador de elite iraquiano (voz de Laith Nakli), a incapacidade de um compreender o outro, os olhares turvos pelo véu de manipulação doentia e gananciosa que os posicionou naquela situação. “Irônico, a mesma parede que seu país veio destruir, agora você tenta a todo custo evitar que caia. Esta parede em que você se esconde já foi uma escola. ” O diálogo sintetiza a riqueza crítica do texto, algo pouco usual em obras do gênero, quase sempre movidas pela construção de cenas de ação progressivamente mais empolgantes. Em “Na Mira do Atirador”, o estímulo intelectual é mais contundente que qualquer explosão.

A voz tranquila do caçador que demonstra conhecer mais sobre a cultura norte-americana do que aquele que teoricamente está lá para defender a pátria, a opção consciente por tomadas longas que intensificam a sensação de frustração crescente da vítima, a fotografia bruta de Roman Vasyanov emulando o torpor causado pela exposição ao sol ardente do deserto, elementos que engrandecem o resultado.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sobre o caso da exposição no Santander Cultural

Um pouco de lucidez, uma reflexão simples: O ato de censurar arte é sintoma de um sistema desprezível composto por indivíduos claramente desequilibrados emocionalmente, movidos pelo instinto baixo de traçar uma linha imaginária na areia e defender que algo não deve ser considerado relevante (questão de opinião que deve ser respeitada) e, por conseguinte, não merece existir (algo indefensável). Nem mesmo o argumento moralista utilizado desta feita é novidade, a Alemanha nazista e sua exposição "Arte Degenerada" já segregava pintores como Picasso e Matisse na década de 30. Ray Bradbury mostrava em seu "Fahrenheit 451" uma sociedade distópica em que todos os livros eram queimados, obra adaptada para o cinema por François Truffaut em 1966. O tempo passou, mas os seres humanos seguem chafurdando na lama da estupidez. É vergonhoso que este tipo de coisa ainda suscite discussões em 2017.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

"Um Acidente de Caça", de Emil Loteanu / "Cossacos de Kuban", de Ivan Pyryev


Um Acidente de Caça (Moy Laskovyy i Nezhnyy Zver – 1978)
Adaptado da novela de Anton Chekhov, publicada como folhetim em 1884-85 e considerada precursora do romance policial psicológico, o filme penetra no vazio moral da aristocracia decadente ao narrar o drama da jovem Olga, filha de um servo, cobiçada por três homens de meia-idade.

O primeiro elemento que emociona na obra é a trilha sonora maravilhosa composta por Eugen Doga, especialmente a valsa de casamento, que atravessou a fronteira cinematográfica e entrou na cultura popular, tendo sido escolhida em 2014 pela UNESCO como a quarta obra-prima musical do século vinte. A sequência que a apresenta ao público esbanja requinte, qualidade perceptível até nas cenas filmadas em ambientes claustrofóbicos, com a câmera isolando o rosto da jovem Olga (Galina Belyaeva) durante a dança, evidenciando em sua expressão a satisfação por ter conquistado finalmente o status social de nobreza que sempre desejou. Ela, a terna besta do título, em sua inconsequência adolescente, brinca com os sentimentos dos três adultos, que enxergam nela a glória perdida de uma aristocracia em ruínas, a projeção saudável e radiante de seus ímpetos de poder. Os pilares podem estar descascando, o torpor do álcool já não consegue mais ser controlado, o único prazer advém da caça, do ato de abater seres incapazes de se defender. Aquela bela jovem, sem esforço algum, faz deles presas patéticas. A fotografia de Anatoliy Petritskiy, responsável pelo “Guerra e Paz”, de Bondarchuk, agrega uma aura onírica sombria, a presença constante da morte à espreita, tragédia anunciada, reforçada pelo peso que cada componente do elenco injeta no texto, algo que felizmente afasta o tom de melodrama que poderia ter sido adotado por um cineasta menos competente. É um grande filme que merece ser mais conhecido pelo público brasileiro.



Cossacos de Kuban (Kubanskie kazaki – 1950)
Ambientado nas estepes do rio Kuban, nos primeiros anos do pós-guerra, o filme conta a história de dois kolkhozes (cooperativas agrícolas) que competem para ver quem consegue colher mais trigo. Realizado em cores, foi a maior produção musical do cinema soviético.

Como peça explícita de propaganda, um primor em cada detalhe, a sequência inicial nas montanhas representa muito bem a utopia comunista de Stalin, com os trabalhadores agrícolas sorridentes a cantar, enquanto na vida real o povo passava fome. Ao contrário de Eisenstein, que encenava a revolta popular com sujeira e agressividade, o gênero que realmente servia ao propósito da máquina comunista era o musical, o único que satisfazia plenamente o interesse em glorificar/mitificar o ideal de seus pensadores, como “Volga-Volga”, de 1938, não por acaso, o filme favorito de Stalin. “Cossacos de Kuban” foi lançado já na fase crepuscular, talvez por isto seja tão desesperado, tão forçado, o desejo de imprimir felicidade excessiva em cada cena pintada em cores vibrantes. Era a tentativa dos soviéticos de seguirem o molde industrial de Hollywood.


* Os filmes estão sendo lançados em DVD pela distribuidora "CPC - Umes Filmes".

domingo, 10 de setembro de 2017

"O Cair das Folhas", de Alice Guy Blaché

Alice Guy Blaché
O Cair das Folhas (Falling Leaves - 1912)
Em 22 de Março de 1895, a francesa Alice Guy Blaché é convidada pelos irmãos Lumière para testemunhar uma demonstração do cinematógrafo. No ano seguinte, apaixonada por aquela nova ferramenta que, ao contrário dos seus anfitriões, enxerga como potencial recurso de entretenimento, ela escreve e dirige “La Fée aux Choux”, com apenas sessenta segundos, mas pioneiro na utilização da narrativa ficcional, quando o usual era captar cenas comuns do cotidiano. Ela foi a responsável por inserir teatralidade na equação. Quase sempre eclipsada por Georges Méliès nas páginas da história, ela teve papel fundamental no processo inicial de amadurecimento desta arte, fazendo questão de manter total controle criativo em suas produções, da escolha de figurinos, passando pela seleção de elenco, até a pesquisa para encontrar as locações adequadas. Infelizmente, grande parte de seus trabalhos foram perdidos, mas aqueles que sobreviveram seguem inspiradores. Como admirador dos textos de O. Henry, gosto especialmente do curta “O Cair das Folhas”, inspirado livremente em um de seus contos mais bonitos: “The Last Leaf”, que também foi adaptado em “Páginas da Vida”, de 1952.


A trama simples evoca a pureza da criança. Ao escutar o médico da família informar elegantemente que sua irmã mais velha, com tuberculose, “morrerá ao cair da última folha de outono”, a pequena, vivida por Magda Foy, idealiza um plano para impedir a fatalidade, ela inocentemente utiliza fios de barbante para prender as folhas nos galhos e devolver aquelas que já haviam caído. A linda atitude impulsiva da menina, deixando a cama e desobedecendo a ordem dos adultos, possibilita que seu caminho se cruze por acaso com o de um médico que passeava na região. Ao revelar a razão por trás de seu gesto exótico, ele, que estava trabalhando em uma cura, vai ao encontro da enferma, conduzido pela mão daquela corajosa menina de seis anos de idade que ousou lutar contra algo que era tido como impossível pelos mais velhos. A poética inocência venceu o medo. A opção pela naturalidade nas atuações, marca registrada da diretora, garante alguns momentos encantadores.