terça-feira, 22 de agosto de 2017

Sobre a preguiça intelectual do público e o "Bonequinho" do Globo

Você já deve ter lido várias vezes que "se o Bonequinho está dormindo, pode ir, que o filme é bom". O comentário é maldoso, tolo, além de revelar mais sobre aquele que o defende, o típico indivíduo que se orgulha em dizer que despreza críticos de cinema porque "tem opinião própria". No português claro, um bronco. Há uma questão fundamental, a incompreensão da função da crítica por grande parte do público. O usual é encontrar comentários bastante agressivos direcionados aos profissionais da área. Um absurdo, tremenda falta de respeito, especialmente quando partem de colegas. O problema não é a avaliação do crítico, que fala diretamente aos critérios que ele utiliza. O que vale ser discutido é o jornal utilizar apenas uma avaliação para cada obra. 

O público que já não valoriza leitura no dia a dia, pouca atenção dedica ao texto crítico, vê o "Bonequinho" e decide em poucos segundos se vai comprar o ingresso. O problema realmente grave é a tremenda falta de interesse do brasileiro, hoje em dia o indivíduo tem acesso pleno à informação. Se ele se baseia apenas em uma fonte, triste constatação. Como sempre afirmo, o mais correto é ler variados textos críticos, especialmente os discordantes, agregando aquelas análises à reflexão que a pessoa vai fazer após a sessão. Jogar pedra no crítico é estupidez, atestado de ignorância. Se o jornal não abre espaço maior para a crítica cinematográfica, uma pena, reflete apenas o pensamento comodista e preguiçoso de grande parte dos seus leitores. Futebol recebe páginas e mais páginas de análises, cinema recebe nota de rodapé, esta é a cara do Brasil. 

Buscar informação é elemento essencial, o Globo e seus "Bonequinhos" são apenas uma fonte de informação. E, acima de tudo, são profissionais que merecem respeito. Se os responsáveis não consideram financeiramente viável abrir mais espaço em suas páginas para o cinema, você pode encontrar dezenas de textos críticos na internet sobre uma mesma obra. Encare com mais atenção seu próprio reflexo no espelho e se pergunte com sinceridade: Eu realmente demonstro interesse no tema?

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Sobre o conceito de "filme velho" e o valor da revisão

O filme em preto e branco, mudo ou falado, em suma, aquela obra que foi lançada décadas antes de você nascer. É comum ler comentários de adultos que citam estes títulos com a certeza de que resgatam algo provavelmente esquecido, como se já antecipassem a resposta debochada: "Isso não é do meu tempo, coroa". Por vezes, a própria pessoa já se defende, dizendo de forma depreciativa que o filme é velho. Como assim? Velho é aquilo que você conhece há muitos anos. Se você tem dezoito anos e está começando a se interessar por cinema, TODOS os filmes já produzidos são NOVOS.

É importante, como crítico de cinema e um apaixonado autodidata pelo garimpo desde a infância, utilizar este espaço para tentar fazer você entender que, por mais que muitos jovens e adultos primem pelo limitado pensamento imediatista, o mais correto é apreciar a arte como algo atemporal. Aprofundando a análise, a forma como o indivíduo enxerga o passado é sintomática de seu nível educacional. Vale traçar um paralelo com o desrespeito generalizado com os idosos na sociedade. Como sempre afirmo, incentive em seus filhos desde cedo o amor pelo garimpo cultural. Aquele que não vê beleza no antigo, ou que sequer dá chance de conhecer estas obras, por preconceito tolo ou preguiça, está fadado a acordar um belo dia e perceber que já não é mais existencialmente relevante, afinal, envelheceu.

A pessoa debocha porque você está vendo um filme repetido. O clássico "este eu já vi" simplesmente não faz sentido na apreciação cinematográfica. O ato de rever um filme é fundamental. Imagine escutar a canção apenas uma vez. Imagine beijar a pessoa amada apenas uma vez. Quem vê o filme apenas uma vez enxerga no cinema um passatempo pueril, facilmente substituível por uma partida de gamão, ou um treino de cuspe à distância. O amor urge pelo reencontro.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Nos Embalos do Rei do Rock - "Com Caipira Não Se Brinca"


“Viva Las Vegas” foi filmado antes, mas lançado depois de “Kissin’ Cousins”, o que já evidencia uma característica fundamental do segundo, a produção de baixíssimo orçamento, filmada em duas semanas. O empresário, preocupado com os custos do refinamento do anterior, quis garantir que o próximo compensaria na rapidez, então convocou o produtor Sam Katzman, especialista em extrair leite de pedra. Apesar dos obstáculos naturais, os cortes financeiros são facilmente perceptíveis se comparados à “O Seresteiro de Acapulco”, por exemplo, o roteiro de Gene Nelson e Gerald Drayson Adams, especialista em tramas leves e agradáveis, como “A Princesa do Nilo”, foi indicado para o prêmio do sindicato de roteiristas na categoria musical.


Com Caipira Não Se Brinca (Kissin' Cousins - 1964)
Josh Morgan (Elvis Presley) é um oficial do Exército que precisa visitar parentes caipiras e convencê-los a permitirem que uma base de mísseis seja instalada em suas terras.

Se fosse lançado alguns anos antes, teria sido elogiado pela crítica como despretensiosa comédia, o problema foi o timing, os Beatles invadiam os Estados Unidos, a juventude vibrava com a atitude roqueira dos garotos britânicos, já não tinham paciência para ver Elvis, o ídolo rebelde de outrora, inserido em uma trama cômica caricatural sulista. Mas, em revisão, o filme segue divertido, espécie de primo pobre de “Sete Noivas Para Sete Irmãos”, utilizando sua estrutura simples como base para sequências encantadoras emolduradas por boas canções.

O diretor Gene Nelson era dançarino, o que garantiu o alto nível das coreografias no terceiro ato. O trabalho rendeu a ele uma nova parceria com Elvis, no inferior “Feriado no Harém”, no ano seguinte. O elenco era ótimo, com Glenda Farrell, veterana de obras como “Almas no Lodo”, clássico gângster da Warner, o impecável Arthur O’Connell, que já havia trabalhado com Elvis em “Em Cada Sonho Um Amor”, e a bela Yvonne Craig, que namorou com o cantor durante um tempo, irresistível em seu misto de ingenuidade e malícia, que se tornaria mundialmente conhecida anos depois como a Batgirl da série “Batman”, com Adam West. O elemento inovador foi o truque visual que permitia que Elvis realizasse dois papeis, o militar elegante da cidade grande e o seu primo caipira abrutalhado, a diferença estava apenas na cor do cabelo. O recurso é executado favorecendo o humor, não há intenção alguma de aprofundar o desenvolvimento dos personagens. O cantor havia acabado de conquistar a faixa preta de karatê, uma de suas paixões, ele estava motivado, trabalhando nuances de interpretação que diferenciassem um tipo do outro. O grupo feminino das “mulheres gavião”, beldades da montanha que perseguem os homens que se aproximam do local, elemento que realça o tom antinatural de desenho animado, funciona exatamente por ser coerente com o todo.

A trilha sonora não é especialmente boa, mas as canções funcionam dentro da proposta. “Kissin’ Cousins” (a segunda versão, escutada ao final, com o cantor defendendo o sotaque puxado nas linhas entoadas pelo caipira), a irônica balada “One Boy, Two Little Girls”, “Once is Enough”, “Tender Feeling” e “There’s Gold in The Mountains” merecem destaque dentro da filmografia de Elvis. O sucesso nas bilheterias, comparado com “Viva Las Vegas” e sua refinada produção, estimulou o Coronel Parker a investir sem medo nos anos seguintes em uma fórmula duvidosa: filmagens rápidas, baixo custo e muitas canções.

A Seguir: Amor à Toda Velocidade (Viva Las Vegas)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

"Ladrões de Sabonete" e "Volere Volare", de Maurizio Nichetti


Ladrões de Sabonete, de Maurizio Nichetti (Ladri di Saponette - 1989)
Maurizio Nichetti é uma espécie de Woody Allen italiano, menos talentoso, menos carismático, mas que compensa na ousadia temática. “Ladrões de Sabonete”, em revisão, funciona melhor na teoria, o esperto jogo em diferentes níveis narrativos homenageando o neorrealismo e criticando duramente a forma como o cinema se tornou subproduto televisivo.

A execução poderia ser menos truncada, o ritmo melhora consideravelmente no terceiro ato, quando os personagens das duas mídias começam a interagir ludicamente. Nos segmentos em que acompanhamos a família diante do aparelho de televisão, dedicando pouca atenção ao filme que está sendo transmitido, o humor atinge seu ponto alto, aquelas pessoas claramente enxergam arte como simples distração imediatista, o texto trabalhado pelos atores na tela pequena tem o mesmo valor dos jingles dos produtos que são vendidos nos intervalos comerciais. Trazendo para a realidade brasileira, é por este motivo que as telenovelas, em essência, serão sempre entretenimento raso, apesar dos valorosos esforços das equipes criativas. 

Nichetti vive o protagonista do drama e, nos segmentos ambientados nos estúdios da emissora, vive ele mesmo, um diretor decepcionado com o pouco caso dos executivos com seu projeto, “Ladrões de Sabonete”, referência ao clássico “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio De Sica. A trama do filme dentro do filme é propositalmente irrelevante, a graça está na forma como a montagem interrompe o investimento emocional do espectador em cenas importantes com a inserção frequente da publicidade em cores vibrantes. Quando a confusão invade o reino da fantasia, emulando “A Rosa Púrpura do Cairo”, que Woody Allen havia lançado quatro anos antes, modificando a obra, o diretor revoltado decide resolver a questão na marra, garantindo alguns bons momentos. Mas, de modo geral, o exercício de estilo acaba chamando mais atenção que o conteúdo. O roteirista/diretor entregaria seu melhor trabalho dois anos depois.


Volere Volare, de Maurizio Nichetti e Guido Manuli (1991)
Eu tenho a vívida lembrança de ter conhecido essa pérola numa exibição televisiva noturna no início dos anos noventa, creio que na Bandeirantes, mas o que me interessava na ocasião era a frequente nudez feminina e a ideia incrível de inserir técnicas de desenho animado neste contexto. Somente pude apreciar melhor a obra em revisão, alugada em VHS anos depois. E agora, na sessão para a preparação deste texto, já conhecendo a filmografia de Nichetti, constato que representa o equilíbrio perfeito entre estilo e conteúdo, o grande problema de seus filmes.

A ideia nasceu após o sucesso mundial de “Uma Cilada para Roger Rabbit”, a trama é insanamente pouco convencional, ele interpreta um tímido sonoplasta de desenhos animados, enquanto o irmão, seu sócio, prefere se encarregar das dublagens de produções eróticas, convocando mulheres maravilhosas para o trabalho que é realizado no melhor estilo “método de atuação de Lee Strasberg”. Angela Finocchiaro vive uma prostituta exótica que se encarrega de satisfazer teatralmente seus clientes, cada um mais doido que o outro, uma artista do sexo, na literal definição do termo. A gradual transformação do sonoplasta em um cartoon, recurso que garante cenas hilárias, simboliza o medo dele diante da possibilidade de contato sensual com o sexo oposto, conceito que cai como luva no tom absurdo do roteiro. Ao contrário de sua amiga ambiciosa, que prioriza clientes ricos, Martina (Finocchiaro) encara seu trabalho como uma missão socialmente relevante, já que permite que loucos extravasem nela sua psicopatia, em variados níveis de periculosidade, de forma inofensiva para a sociedade, elemento que a humaniza sobremaneira.

É fascinante a opção por fazer do tradicional final feliz um abraço sem concessões no surreal, com a divertida entrega dela às possibilidades do sexo com o cartoon, ao invés do caminho óbvio narrativo da solução para o bizarro problema. Uma comédia que jamais seria lançada nos dias de hoje, um sopro de ar fresco em um gênero usualmente escravo da repetição. 

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Palestra "O Cinema por Octavio Caruso" e exibição do curta "Se" (RJ)


A palestra que informa, emociona e estimula o debate. O cinema pode mudar sua vida!

20 de setembro (quarta).

Horário: 20:30

Endereço: Cine Joia - Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 680 - Subsolo 

Ingresso: R$ 5,00