sábado, 15 de julho de 2017

Faces do Medo - "A Ilha das Almas Selvagens", de Erle C. Kenton


A Ilha das Almas Selvagens (Island of Lost Souls - 1932)
Lançada no mesmo ano do polêmico “Freaks”, de Tod Browning, também se beneficiando do crepúsculo da era mais ousada de Hollywood, antes da censura do Código Hays, esta primeira versão de “A Ilha do Dr. Moreau”, de H.G. Wells, entrega um dos desfechos mais brutais da história do gênero, apesar da vítima, o amoral doutor vivido pelo sempre competente Charles Laughton, merecer cada segundo do pesadelo que enfrenta, cercado por todos aqueles que escravizou e utilizou como cobaias de seus experimentos em sua ilha, misturando genes de humanos e feras, conceito bizarro que ainda não perdeu impacto, o filme segue eficiente em revisão.

Uma subtrama, em especial, seria impossível com a censura, a tentativa macabra de facilitar a relação sexual entre o marinheiro Edward (Richard Arlen) e a enigmática mulher-pantera Lota (Kathleen Burke), com o doutor brincando de Deus ao manipular suas versões distorcidas de Adão e Eva, uma sequência perturbadora, já que o rapaz ignora a natureza animalesca da bela seminua que o deseja, com seus movimentos corporais emulando o comportamento de um felino. Bela Lugosi como o líder das feras, o responsável por mantê-las obedientes ao controle do doutor pela tortura, um papel que é potencializado na fotografia soturna de um mestre que trabalhou em “Aurora”, de Murnau”, e que anos depois faria parceria com Chaplin em “O Grande Ditador” e “Luzes da Ribalta”: Karl Struss, quase sempre aproximando ameaçadoramente na câmera o rosto peludo, maquiagem de Wally Westmore, um recurso visual pensado para a tela grande.

O grande mérito da obra está na atmosfera arrepiante que consegue estabelecer logo nos primeiros minutos. Apesar da versão de 1977, dirigida por Dan Taylor, ser mais conhecida pelo grande público, o clássico de Erle C. Kenton segue sendo minha versão favorita da obra. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Versátil" na caixa "Obras-Primas do Terror - Vol. 6", que conta também com: "A Sociedade dos Amigos do Diabo", "A Mansão Macabra", "A Sétima Vítima", "Internato Derradeiro" e "A Máscara do Horror". 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

"Monika e o Desejo", de Ingmar Bergman


Monika e o Desejo (Sommaren med Monika - 1953)
A simplicidade é o último grau de sofisticação, como já dizia Leonardo Da Vinci, exatamente por este motivo discordo do senso comum que insere Ingmar Bergman no panteão dos diretores de “filmes cabeça”. É um conceito equivocado que incita apenas o desprezo daqueles que, compreensivelmente, consideram um termo arrogante, primo próximo da terrível frase: “este filme não é para todos”. O diretor sueco apenas não se permitia subestimar a inteligência do público, algo cada vez mais raro. Com pouco tempo de duração, os seus roteiros diziam muito, convidando o apreciador a refletir sobre os temas durante e, principalmente, após a sessão.

“Monika e o Desejo” causou muita polêmica na época por tratar da sexualidade de adolescentes e a gravidez antes do casamento, a nudez da bela Monika (Harriet Andersson) representando o elemento libertário, inconsequente e erótico, que contamina o pacato Harry (Lars Ekborg). O jovem casal, cansado da rotina diária de seus inglórios trabalhos, decide largar tudo e se aventurar pelo mundo fugindo de barco para uma ilha, até que, em pouco tempo, as responsabilidades do mundo adulto e a cobrança da sociedade invadem brutalmente o sonho idílico. A utilização genial da quebra da quarta parede, como quando Monika convida o espectador a julgar sua atitude, aceitando que a utopia da vida sem limites é ingênua e pode ser fragilmente dominada pelo desejo, cena profundamente triste em essência, já que, ao trair a confiança do namorado, a personagem decreta morte em vida, o total desprezo por sua própria imagem no espelho. A paixão que nasceu como válvula de escape não consegue sobreviver à bonança, a estabilidade faz vir à tona o real caráter, que havia se escondido no desespero por ar daquele ser que existencialmente se afogava. 

Em seu momento de reflexão, ao final, Harry, abandonado e segurando no colo o inocente fruto da relação intempestiva, o resultado físico de sua irresponsabilidade, resgata em sua mente doces momentos perdidos no tempo, o corpo nu de Monika banhado pelo sol, o afago recebido. Bergman demonstra que, apesar de tudo, ainda é possível encontrar beleza até no erro cometido. 

"No Limiar da Vida", de Ingmar Bergman


No Limiar da Vida (Nära Livet - 1958)
A primeira imagem que me vem à mente quando penso no filme ocorre logo no início, tão simples que, perto da complexidade dos diálogos dominantes, pode até ser esquecida. O bebê de brinquedo que cai das mãos da paciente. O símbolo é forte, atemporal, a sociedade prepara as meninas, desde a infância, à maternidade, por conseguinte, a mesma sociedade pressiona psicologicamente a mulher que, por qualquer motivo, decida não ter filhos. É cruel, desumano, estabelecer que o ato de ignorar um ritual represente demérito ao indivíduo. O julgamento começa cedo, quase sempre amparado por dogmas religiosos, elas são tidas como egoístas, frias, pessoas ruins que não gostam de crianças, apenas por não aceitarem a maternidade romantizada como imposição em suas vidas. Se hoje em dia o assunto ainda rende debates calorosos com psicólogos, imagine em 1958!

Ingmar Bergman aborda o tema de forma intimista, utilizando o cenário reduzido de uma maternidade, três pacientes que, por acaso, estão compartilhando o mesmo quarto. Cecilia (Ingrid Thulin), que teve uma hemorragia que colocou a gravidez em risco, Stina (Eva Dahlbeck), saudável e apaixonada pela ideia do bebê que está vindo, e a adolescente Hjördis (Bibi Andersson), que esconde da mãe a gravidez e deseja abortar. Stina é o modelo ideal vendido pelo sistema, feliz, cheia de sonhos, planejando a chegada do bebê com o gentil marido (Max von Sydow). Quando a dura realidade se faz presente, cortando o véu da ilusão, ela retorna para seu estado infantil, frágil, incapaz de saber como lidar com o problema. Cecilia sofre a perda do bebê, não tanto pela vontade de ser mãe, mas, sim, por não ter mais aquilo que poderia segurar seu relacionamento desgastado com o marido. Ela aprende que o relacionamento deve ser debatido sem muletas, fugir nunca é solução. Hjördis nunca desejou ser mãe, mas, no decorrer das horas, amadurece, desabafa e se despe de preconceitos, aprendendo que precisa enfrentar seu medo, restabelecer contato com sua mãe e enxergar o bebê, realidade inescapável, como a possibilidade de um novo caminho a ser desbravado.

Os arcos narrativos são trabalhados de forma impecável na curta duração da obra, uma pérola pouco lembrada e que merece constar entre os melhores filmes do mestre sueco.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Nos Embalos do Rei do Rock - "O Seresteiro de Acapulco"


Por razões que nunca consegui entender muito bem, “O Seresteiro de Acapulco” é o filme de Elvis mais popular no Brasil. As várias exibições na televisão com certeza ajudaram, mas considero um dos momentos menos interessantes do cantor no cinema, as canções são quase todas ruins (até para os padrões dos filmes posteriores), a disposição delas na trama é bastante preguiçosa, o arco narrativo do protagonista é absurdo. Um trapezista norte-americano de circo traumatizado após um acidente acaba trabalhando como salva-vidas nas piscinas de um hotel em Acapulco, faz amizade com uma criança esperta que se torna seu empresário quando aproveita para ganhar mais uns trocados como cantor à noite, até que conhece uma jovem que o ajuda a encarar seu medo de altura e pular do penhasco La Quebrada, após várias tentativas frustradas de saltar nas piscinas. Nada faz sentido...


O Seresteiro de Acapulco (Fun in Acapulco - 1963)
Allan Weiss, responsável pelo roteiro de “Feitiço Havaiano” e “Garotas, Garotas e Mais Garotas”, não estava muito inspirado, mas merece crédito por inserir na trama um deboche nada sutil ao empresário de Elvis, o Coronel Parker, na figura do pequeno Raoul (Larry Domasin), o mercenário de oito anos de idade que consegue garantir das formas mais absurdas remunerações polpudas para seu cliente informal. A fórmula de sucesso avançava com a adição do elemento de parceria infantil, algo que havia dado certo no projeto anterior, mais um passo na domesticação da persona cinematográfica do cantor.

Elvis, contra sua vontade, não chegou a pisar em Acapulco, o excesso de cenas com trucagem visual prejudica ainda mais a imersão, assim como o baixo nível da atuação dos coadjuvantes, como Elsa Cárdenas, vivendo uma toureira oferecida, e Alejandro Rey, o mais próximo de um antagonista que a história entrega. Até mesmo Ursula Andress, que havia acabado de ganhar fama mundial como a namorada de James Bond em “007 Contra o Satânico Dr. No”, não consegue disfarçar a ausência de química com seu parceiro de cena, o que tira qualquer organicidade das sequências românticas.

A trilha sonora tenta captar a essência latina que já contaminava o trabalho de Elvis na RCA, em discos como “Pot Luck”, mas soa genérica e sem brilho, letras terríveis como “No Room to Rhumba in a Sport’s Car”, “Mexico” e “The Bullfighter Was a Lady”, ou grandiosas bobagens como “El Toro” e “Marguerita”, dividem espaço com uma versão desajeitada de “Guadalajara” e uma canção-título que brinca sem muita criatividade com expressões latinas, tudo bastante pueril. O único tesouro, “Bossa Nova Baby”, composta pelos craques Jerry Leiber e Mike Stoller, emoldura uma das sequências de dança mais memoráveis do cantor, verdadeiramente empolgante.

A fotografia de Daniel L. Fapp, premiado pelo trabalho em “Amor, Sublime Amor” e recém-saído de “Fugindo do Inferno”, garante um visual mais elegantemente elaborado (ele enriqueceria também "Spinout" e "Double Trouble"), enquanto a direção do competente Richard Thorpe, que já havia trabalhado com Elvis em “O Prisioneiro do Rock”, consegue manter o clima agradável e leve. O resultado é satisfatório, o filme agradou muito, foi a maior bilheteria de um musical no ano, mas o desgaste já era evidente. 

Alguns meses depois, os Beatles invadiriam os Estados Unidos, o cenário musical mudaria drasticamente, os jovens, que viram seu ídolo rebelde se transformar no comportado galã de roteiros cada vez mais bobos, agora vibravam pelos quatro rapazes de Liverpool. Elvis, muito incomodado, preso com os contratos em Hollywood, já não acreditava mais que a indústria permitiria que ele abraçasse papeis dramaticamente desafiadores.

A Seguir: "Com Caipira Não Se Brinca" (Kissin' Cousins)

segunda-feira, 10 de julho de 2017

"Homem-Aranha: De Volta ao Lar", de Jon Watts


Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming - 2017)
Qual é o grande problema na indústria de quadrinhos nos últimos quinze anos? O imediatismo tolo, a tentativa frágil de elaborar universos compartilhados e sagas grandiosas, somente para, alguns anos depois, inventar alguma crise cósmica que joga tudo no lixo, reiniciando de um zero que já nasce sem relevância alguma. O leitor compra a revista sabendo que, em dois anos, aquelas histórias serão tidas como fora do cânone. E, na tentativa complicada de fazer tudo soar coerente, os roteiristas constroem pontes alicerçadas em cartolina, tramas com furos frequentes e soluções narrativas convencionais. 

Quando o foco deixou de ser a qualidade do texto, quando os editores decidiram investir em arcos com prazo de validade curto, o mercado de quadrinhos deu um tiro no pé. Hoje, o adulto emocionalmente maduro compra apenas os tomos que resgatam histórias clássicas, sem paciência para as bobagens atuais, e a criança compra a revista mensal após a sessão do filme do herói que está na capa. A fórmula Marvel no cinema está cometendo os mesmos equívocos, deslizando precocemente na cronologia, produzindo tramas irrelevantes que funcionam apenas enquanto peças genéricas de uma engrenagem. O senso de diversão, eficiente nos primeiros projetos, agora soa repetitivo, o sorriso amarelo já prevê a punch line minutos antes, o público-alvo é formado por crianças e adolescentes infantilizados que não se importam se irão pagar ingresso dois anos depois para a sessão de uma reinterpretação do personagem, o que vale é o oba-oba do momento.

Vou tentar entrar em contato neste parágrafo com esta garotada esperta. “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” é bacaninha quando homenageia as comédias adolescentes de John Hughes, tem um vilão maneiro que voa tipo o Homem de Ferro, mas ninguém se importa com a motivação dele, ele nem é chamado pelo nome dos quadrinhos, o grande barato é ver o Michael Keaton tendo chance de atuar de verdade em uma cena rapidinha, só uma, dentro de um carro, demais! A Tia May é bem gata, milf sensacional, mas, tipo, não tem função na história, ela tem o mesmo senso de humor de todos os coadjuvantes das produções Marvel, o mesmo timing, incrível! Tem o Robert Downey Jr. também, ele quebra um galho como uma versão hipster do Tio Ben, que, aliás, nem é citado, mas uma versão sem relevância, sem gravitas, batendo ponto para ajudar na bilheteria, defende o sermão daquele lance de “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”, apesar da frase símbolo do herói nunca ser dita, mas como Tony Stark não tem nenhuma ligação emocional/familiar com o adolescente, perde qualquer potencial dramático que poderia representar no desenvolvimento do moleque. 

Já perto do desfecho, quando teoricamente devíamos estar na companhia do protagonista, somos presenteados com o desenvolvimento da trama do herói coadjuvante, ou uma cena gratuita que tenta incutir importância a uma personagem que, se duvidar, ninguém percebeu que existia no roteiro escrito por seis pessoas, algo que nunca é um bom sinal. Nada na trama emociona, nada, nem um arrepio nas cenas de ação, todos os momentos visualmente grandiosos são homenagens às sequências poderosas, verdadeiramente épicas, de filmes melhores, como o impecável “Homem-Aranha 2”, de Sam Raimi. Ah, tem uma reviravolta que pode surpreender os mais novos, até nove anos de idade, mas é trabalhada de forma tão apressada e preguiçosa que eles nem vão engasgar com a pipoca. Tom Holland como o herói, um adolescente de verdade, em suma, dá para entender porque o costume sempre foi selecionar atores mais velhos para interpretar adolescentes. Ele é carismático, defende bem a leveza do amigo da vizinhança, mas é dramaticamente limitado.

Jon Watts é um diretor inexpressivo que, como era de se esperar, não imprime qualquer personalidade. O resultado diverte medianamente, mas é esquecido minutos depois das luzes se acenderem.