sexta-feira, 7 de julho de 2017

Kung-Fu Fighting - "Chocolate", de Prachya Pinkaew


Chocolate (ช็อคโกแลต-2008)
É comum boa parte da crítica profissional brasileira desprezar os filmes de artes marciais, sequer escrevem críticas negativas, simplesmente ignoram a existência. Cinema de qualidade para eles são os projetos umbilicais dos diretores nacionais de esquerda financiados com dinheiro público, quase sempre, experimentos pouco refinados sobre a capacidade de tédio que o indivíduo exposto ao material pode suportar antes de desmaiar. 

A realidade é que a arte exibida em um filme como “Chocolate”, por exemplo, requer extrema competência, uma técnica apaixonada que, literalmente, coloca em risco a vida do elenco. São filmes que não tentam ser avalizados por qualquer outro mérito que não envolva a perícia coreográfica. Ao invés de filmar por cinco minutos uma árvore de ponta-cabeça e um casal se agarrando no galho, pretensiosamente buscando firmar uma patética imagem cult rebelde, para o deleite de meia-dúzia de chapados da alta sociedade, o realizador do gênero se esforça ao máximo para desafiar os limites impostos pelo baixo orçamento, invariavelmente criando sequências que refletem o ápice técnico de cada peça da engrenagem, lotando as salas de exibição, alimentando a indústria do país, abrindo as portas para novos talentos e garantindo futuro para o mercado.

O tailandês “Chocolate” é impecável naquilo que se propõe a ser, rendendo homenagens à Bruce Lee (a primeira luta de Jeeja Yanin se dá em uma fábrica de gelo, como em “O Dragão Chinês”), Jackie Chan e Sammo Hung (a trama se assemelha a “Coração de Dragão”), além da reverência mais explícita à prata da casa: Tony Jaa (a adolescente vê frequentemente seus filmes na televisão). Além de defender de forma crível o autismo de sua personagem nos momentos mais dramáticos, algo especialmente notável levando em conta que este foi seu primeiro trabalho, a jovem Jeeja executa o amálgama do Taekwondo que dominava e o Muay Thai, que aprendeu especialmente para o filme, com a segurança de uma veterana, exalando intenso carisma, equilibrando doçura e impulsos animalescos, trabalhados com inteligência cênica por Prachya Pinkaew e pelos coreógrafos liderados por Panna Rittikrai, que ganhou maior reconhecimento em “Ong-Bak”, cinco anos antes. 

É difícil superar o brilhantismo de sequências como a da batalha no frigorífico, com a utilização generosa de todos os elementos disponíveis no cenário, além de uma boa dose de humor, mas o filme entrega na meia-hora final o momento que já entrou para a história do gênero, uma elaborada batalha que abraça a ruptura emocional definitiva da protagonista, avançando a narrativa e encontrando novas possibilidades para promover catarse visual, conduzindo o conflito do confinado Dojô do vilão para o telhado de um prédio.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

"A Família Fuleira", de Jerry Lewis


A Família Fuleira (The Family Jewels - 1965)
Neste filme encontramos Jerry em seu momento mais leve, praticamente emulando, enquanto diretor, a pegada desenho animado de seu mentor Frank Tashlin, utilizando o piegas fio condutor da menina, vivida pela adorável Donna Butterworth, que está à procura de um novo pai e precisa escolher entre seus seis tios, como desculpa para elaborar esquetes protagonizadas por variações caricaturais de sua própria persona.

Ao optar por esta estrutura, ele aceitou correr o risco de entregar um produto comicamente irregular. Algumas cenas, como a da desastrada ajudinha no posto de gasolina, ou a da exibição de habilidade na sinuca, homenageando “Sherlock Jr.”, de Buster Keaton, apesar de hilárias, parecem enxertos de ideias menores rejeitadas em projetos anteriores. Já em outras, como na aventura protagonizada pelo tio aviador, deboche de Lewis com o amigo Tony Curtis, ou em simples tiradas visuais geniais, como o livro retirado da estante, o andar preocupado que abre uma clareira no gramado, a banda de rock do filho Gary Lewis em um cubículo do avião, ou a solução encontrada para a inserção do “The End”, podemos ver um cineasta em seu auge criativo, disposto a se divertir junto com o público.

O chofer, aquele por quem a menina realmente nutre afeto, o único adulto na trama que não se leva a sério, a figura paterna não-oficial que, emulando Carlitos em “O Garoto”, beija a pequena na boca, representa o conceito à frente de seu tempo de uma nova configuração familiar. Se hoje em dia a ideia ainda incita polêmica, imagine a reação do público na época da estreia. E quando a lei se coloca no caminho da decisão da criança, a farsa, a arte, toma o controle da situação, objetivando a vitória do amor sincero, que não se importa com a herança polpuda da menina. 




* O filme está sendo lançado em DVD, com opção de dublagem em português, pela distribuidora "Classicline".

quarta-feira, 5 de julho de 2017

"A Bela e a Fera", de Jean Cocteau


A Bela e a Fera (La Belle et La Bête - 1946)
Versões posteriores ressaltavam os aspectos românticos da obra literária de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, mas o interesse de Cocteau está no conto moral, na amarga tragédia daqueles que orbitam os protagonistas, as irmãs invejosas e o ególatra Avenant, seres desprovidos de caráter, gananciosos, os verdadeiros monstros da história. 

Na essência, todos os contos de fada são sombrios, trabalham o inconsciente da criança. O diretor francês apenas utilizou sua sensibilidade de poeta ao trazer à tona estes elementos, pedindo, inclusive, nos criativos letreiros iniciais, que os adultos, público-alvo, enxerguem a sessão com olhos de criança. O pós-guerra teria aniquilado toda a inocência do povo? Cocteau, em um ato de coragem artística, aceitou o desafio de resgatar a pureza nos corações dos espectadores. A utilização onírica da câmera lenta durante o passeio de Bela (Josette Day) pelo castelo encantado, com seu corpo deslizando no piso, a fumaça expelida das vítimas da maldição, recursos técnicos que não teriam funcionado caso o tom e o texto não fossem acertados pelo mesmo diapasão. A jovem, ao conscientemente decidir sacrificar o conforto da vida com seu pai e encarar sozinha a Fera, deixa sua infância para trás, amadurecendo. 

A Fera (Jean Marais) é gentil, sua voz clama por compaixão, seus olhos transmitem ternura, o roteiro inteligentemente critica a sociedade e a própria fonte, o conceito de que o príncipe bonito é amaldiçoado com a feiura. Cocteau faz da Fera um ser tão pleno em personalidade, que, ao final, quando seu corpo se transforma, regredindo para um tipo humano de beleza convencional, com maneirismos de galã canastrão, o espectador consegue perceber o incômodo no rosto da mulher. Bela teria agora que suportar seu “felizes para sempre”, condenada a viver um relacionamento socialmente aceitável de intensa monotonia. 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

"Batman - O Retorno", de Tim Burton


A safra atual de adaptações cinematográficas de quadrinhos satisfaz grande parte dos adultos infantilizados, com seus roteiros preguiçosos e inofensivos, sabotando a criatividade com a necessidade mercadológica de entregar tudo o que o público deseja, elaborando universos compartilhados, uma fórmula que, em longo prazo, deixará um rastro de tramas fracas e personagens tolos que, vistos sem o frisson do hype do lançamento, não sustentam sequer seus próprios arcos narrativos. Já o adulto emocionalmente maduro que, inteligentemente, mantém viva sua criança interna, paga o ingresso e suporta o desconforto dos óculos 3D na vã esperança de encontrar um mínimo de organicidade no produto. Todos os heróis com o mesmo coach de piadas bobinhas, musculosos barbados agindo como adolescentes na escola, vilões genéricos com motivações trabalhadas de forma pífia, tudo calculadamente pensado para não ofender ninguém, não irritar ninguém, tratando o espectador como criança mimada.

Em 03 de Julho de 1992 estreava no Brasil uma adaptação de quadrinhos que ousava ser autoral. 25 anos depois, o fascínio por “Batman – O Retorno” só aumenta, uma bela carta de amor ao expressionismo alemão, que merece ser analisada com carinho. 





Eu guardo a matéria do jornal sobre a estreia do filme, meses antes do meu aniversário de nove anos. Meu pai me presenteava na época com tudo relacionado ao homem-morcego, quadrinização oficial por Dennis O'Neil e Steve Erwin, cartucho do jogo para SNES, bonecos, revistas de cinema que estampavam nas capas o Michael Keaton e a Michelle Pfeiffer, em suma, combustível suficiente para a expectativa cinéfila. Mas eu não vi "Batman - O Retorno" no cinema, o meu primeiro contato com ele foi deitado na cama dos meus pais, no dia do meu aniversário, com o VHS reservado semanas antes na "RG Vídeo Locadora". Este dia está marcado em minha lembrança. No meio da fita, tive que interromper a sessão noturna para receber a querida prima Carmen, que apareceu de surpresa para celebrar o dia trazendo um bolo de chocolate. Ao terminar a sessão na manhã seguinte, não sabia muito bem se havia gostado ou não, o tom era de estranheza. Anos depois, percebi que esta insatisfação inicial sintetizava o grande mérito do filme.


Batman - O Retorno (Batman Returns - 1992)
Para a indústria, o projeto era apenas uma desculpa bonita para vender brinquedos e lanches felizes, as crianças eram o público-alvo, o protagonista atormentado dos quadrinhos deveria se transformar em um herói convencional, o filme anterior já era considerado sombrio demais, algo que os produtores estavam dispostos a aliviar. O nome de Tim Burton na marquise era garantia de lucro agressivo nas bilheterias, então ele colocou as cartas na mesa e disse que só aceitaria conduzir a sequência se tivesse total controle criativo. O risco era grande, o futuro mostrou que um diretor sem personalidade pode destruir uma franquia, então os produtores abraçaram a causa do rapaz. 


O roteiro inicia mostrando um bebê deformado sendo jogado pelos pais ricos no esgoto. O cenário natalino, usual no cinema como representante da esperança e de gestos nobres, utilizado como moldura para as artimanhas cruéis do populista empresário Max Shreck (Christopher Walken), pensado como crítica à Donald Trump, um homem que é capaz de, estando inserido em uma situação de perigo, deixar seu filho na mira do bandido e fugir como um rato. É o reflexo distorcido no espelho de Bruce Wayne, a mesma persona gananciosa, o tipo de pessoa que o herói teria se tornado, caso não tivesse vivido seu trauma. A secretária dele, Selina Kyle (Michelle Pfeiffer), alvo diário do machismo no trabalho, chega em sua casa decorada em tons de rosa e escuta uma mensagem gravada no telefone que defende a utilização de um perfume especial para atrair romanticamente o chefe. Após ser flagrada por Shreck lendo arquivos secretos, ela é jogada pela janela, mas, como em um conto de fadas, sobrevive da queda ao ser lambida pelos gatos de rua, renascendo como uma nova mulher. Ao entrar novamente em sua casa, faz questão de destruir todos os símbolos de feminilidade passiva antes de produzir seu traje de guerra, que reflete visualmente a fragilidade de sua psique, uma tragédia anunciada, ela se torna a Mulher-Gato. 


A criança criada no esgoto por pinguins de um zoológico abandonado, cresceu e se tornou a antítese do Batman, o freak natural, filho rejeitado da riqueza, um indivíduo que deseja apenas ser respeitado. Shreck, o verdadeiro vilão da história, humano e vestindo roupas normais, aceita o desafio de reinserir o Pinguim (Danny DeVito) na sociedade, utilizando sua imagem em uma nefasta campanha política. E o Batman (Michael Keaton)? Ele é o personagem menos interessante na trama. A cena da morte do Pinguim é tratada com mais dignidade que todos os rompantes heroicos do vigilante. Batman não é divertido, ele é o órfão que abdica de sua vida adulta para cumprir sua missão. Ele termina o filme como uma figura deprimente, elemento captado com perfeição na melancólica trilha sonora de Danny Elfman, retornando com Alfred para a solidão de sua mansão, após levar lição de moral dos vilões, buscando consolo no gato de rua que resgata do frio noturno. Todas as crianças sentadas na sala escura querendo vibrar com a aventura prometida pelas peças de merchandising, mas o roteiro toma mais tempo desenvolvendo psicologicamente os vilões. Não há atitude artisticamente mais corajosa que desafiar seu público.