sexta-feira, 10 de março de 2017

Nos Embalos do Rei do Rock - "Loiras, Morenas e Ruivas"

Link para os textos anteriores do especial:
http://www.devotudoaocinema.com.br/p/criticas_14.html


Um fiapo de roteiro que faz todos os seus filmes anteriores parecerem “Cidadão Kane”, a trama pode não ter um antagonista, mas “Loiras, Morenas e Ruivas”, a despeito do péssimo título nacional, produzido por Ted Richmond (que seria responsável por “Papillon”, em 1973), prova que o carisma de Elvis Presley conseguia operar milagres.


Loiras, Morenas e Ruivas (It Happened at The World's Fair - 1963)
Após dirigir o cantor em três sucessos de bilheteria (“Saudades de Um Pracinha”, “Feitiço Havaiano” e “Garotas, Garotas e Mais Garotas”), o veterano Norman Taurog conseguiu o que parecia impossível, transformar um projeto de baixo orçamento pensado apenas como divulgação da Feira Mundial de Seattle, na recém-construída Seattle Center, evento movido pela temática da Era Espacial, em um filme emocionalmente funcional. 

Elvis vive Mike Edwards, um piloto de avião que faz todo tipo de bico com o sócio Danny (Gary Lockwood, que viveria anos depois um dos astronautas de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”), um jogador inveterado que perde tudo nas cartas. Os dois chegam por acidente em Seattle, pegando carona com um chinês vendedor de maçãs e sua pequena sobrinha, Sue-Lin (Vicky Tiu, que não trabalhou mais no cinema e depois foi primeira-dama do Havaí). Quando o tio desaparece, a menina pede ajuda ao piloto. Tiu afirmou em entrevistas posteriores que nunca irá esquecer o carinho que Elvis tinha por ela, ajudando, inclusive, em uma cena difícil em que precisava chorar. O colega, vendo que a menina não estava conseguindo finalizar e estava envergonhada, acenou para o diretor e disse sorridente: “É isso, por hoje é só, a pequena dama e eu iremos lanchar, amanhã continuamos”. Ele a acalmou, no dia seguinte a cena foi completada sem atraso.

É interessante notar que, pela primeira vez na filmografia dele, o roteiro explorava a relação de amizade entre o adulto e a criança, um aspecto que ajudava a definir a imagem comportada do cantor no cinema. Até mesmo o figurino dele evidencia esse objetivo, ternos elegantes que se assemelham mais com o deboche perpetrado por Steve Allen no programa televisivo de início de carreira, quando o jovem engravatado teve que cantar "Hound Dog" ao lado de um cão. Na trilha sonora, três canções são direcionadas nesse sentido: “Cotton Candy Land”, “Take Me to The Fair” (que chegou a ser cogitado como o título do filme) e “How Would You Like to Be”. Ver Elvis entretendo a menina, tentando fazê-la dormir, ou buscando animar ela depois de sofrer uma decepção, momentos que podem parecer demagogia sacarina em teoria, mas a execução é tão terna e o sentimento transmitido é tão puro que encantam o espectador. As canções do filme são fracas, com exceção da bela balada “They Remind Me Too Much of You”, inserida na cena como reflexão imaginária, algo que não havia sido tentado ainda em seus filmes, composta por Don Robertson, um dos preferidos do cantor. “Beyond The Bend”, que toca nos créditos iniciais, “One Broken Heart for Sale”, com seu hilário coral de aposentados viciados em jogo, “Happy Ending”, que conduz a trama para o desfecho, simpáticas, inofensivas, assim como “I’m Falling in Love Tonight”, “World of Our Own” e “Relax”, uma lista acima da média, mas apenas uma canção verdadeiramente marcante, o que já mostrava a dificuldade crescente dos produtores em fornecer material para a quantidade absurda de roteiros. E, para piorar, a MGM havia solicitado que as gravações no estúdio fossem desprovidas de qualquer eco, destruindo a ambiência natural, garantindo uma estética artificial, ao invés do swing improvisado que marcava as gravações do cantor para a RCA. Vale destacar que a interpretação de Elvis conseguia dar dignidade até para a mais tola composição.

O interesse romântico da vez, Diane, uma enfermeira que sonha em trabalhar para a NASA, papel vivido por Joan O’Brien, cantora de sucesso na década de cinquenta que tentava se firmar em Hollywood. O ator Kurt Russell, de “Os Aventureiros do Bairro Proibido” e “O Enigma de Outro Mundo”, grande fã de Elvis, faz uma ponta hilária como um menino que é pago para chutar a canela do protagonista, que buscava um motivo para se reencontrar com a enfermeira. O filme é muito divertido, o humor funciona, mas é perceptível que a indústria já não estava mais se importando em inserir o artista em algo minimamente relevante, o interesse era apenas agradar seu público adolescente. Como ponto positivo, a coreografia das lutas nunca esteve melhor, ajudadas pela montagem dinâmica. Uma sequência perdida no meio da trama, o encontro romântico do piloto com uma belíssima Yvonne Craig, que teria papel de destaque no ano seguinte em outro projeto de Elvis: “Com Caipira Não Se Brinca”, mas ganharia fama mundial como a “Batgirl” da série protagonizada por Adam West, sintetiza a falta de cuidado. Não há preocupação em preparar um terreno crível para que as canções sejam defendidas, ele simplesmente solta a voz em qualquer situação. Esse desleixo foi o alvo principal das críticas da época. 

A Seguir: "O Seresteiro de Acapulco" (Fun in Acapulco)

"Koza", de Nuri Bilge Ceylan


Koza (1995)
É fascinante o apreço de Nuri Bilge Ceylan pelo silêncio, que ele considera uma forma de expressão mais sincera do que o espetáculo de palavras usualmente lapidadas pela necessidade de se viver em comunidade. A essência pura, a nudez de sentimentos, a verdade que não se permite ser filtrada pelos plugins intelectuais, a selvageria instintiva que nos obriga a encarar a origem de tudo. A experiência dele como fotógrafo facilita o impacto da síntese imagética que propõe na simplicidade narrativa de “Koza”, o seu primeiro curta-metragem. Ele utiliza seus pais, Mehmet Emin e Fatma Ceylan, na composição desse retrato poético, sem diálogos, que pode parecer incrivelmente impenetrável em uma análise superficial, porém, reserva para os espectadores mais dedicados um sabor residual intenso e verdadeiramente agradável, apesar de abordar temas existencialmente espinhosos.

A breve experiência humana como um casulo temporário, a sensação de se estar confinado permanentemente a um corpo frágil em progressiva degradação, a mórbida lucidez que cruelmente se mantém admirando o reflexo cada vez menos reconhecível no espelho, a dificuldade de se compreender as necessidades do outro, o peso do tempo nas atitudes impensadas, a dor de se submeter às consequências. Ao optar iniciar mostrando antigas fotografias, ele salienta o conceito do aprisionamento, o leitmotiv mais forte, reduzindo décadas de vida a momentos captados em alguns segundos por uma máquina. O ser humano percebido como objeto. Vemos o homem e a mulher, da vaidosa juventude, passando pelo ritual frio do casamento, a cumplicidade amorosa no toque dos braços, até o desgaste na relação, simbolizado pela separação dos corpos e pelos braços cruzados, refletindo insegurança diante do mundo.

A porta que se fecha diante da esposa, cena que antecede o título e remete ao desfecho de “O Poderoso Chefão”, o mais próximo que chegamos de uma explicação sobre a razão da ruptura emocional, a perda da cumplicidade em algum momento do relacionamento a dois, simbologia que encontra rima visual numa cena posterior, como que enfatizando para a personagem a qualidade cíclica da desilusão amorosa, a lágrima que desce de seu rosto na cama, elemento cênico usualmente conectado ao desejo, o amadurecimento desfazendo naturalmente o ímpeto sexual da paixão e abraçando a lúcida amizade entre duas pessoas no crepúsculo de suas vidas. Ao potencializar conscientemente os sons diegéticos, como o rangido de uma porta que soa como um trovão, Ceylan demonstra seu bom humor e, especialmente nas sequências ao ar livre, salienta o abismo que se abriu entre o marido e a esposa, entre ele e a própria natureza, entre aquele menino despreocupado de outrora e o adulto solitário que encontra dificuldade para expressar um simples sorriso. É quando o filme insere a exploratória aventura do menino na floresta, a memória que se recusa a ser esquecida.

O pequeno aborrecido, vivido por Turgut Toprak, caça pássaros com seu estilingue, mas não há sinal de alegria em seus atos, ele corre na grama, enquanto sua contraparte mais velha é mostrada frequentemente emoldurada pela janela de sua casa, escondida nas sombras do quarto, aprisionada em estado contemplativo, aguardando o inexorável fim. O menino se revolta diretamente com sua versão adulta, numa metáfora bonita, quando derruba o caixote com abelhas, prejudicando sem razão alguma o trabalho alheio, o revide do espírito vigoroso que reside no homem e que não aceita as limitações físicas da idade.  Com o estilingue ele tenta obter controle, mas a implacável natureza se encarrega do trabalho, o gato é visto se alimentando e, no segundo seguinte, aparece morto, o vento que leva a foto do casal, o filhote de pato que enfrenta seu primeiro desafio ao nadar, a mulher que retorna para casa e se assusta ao ver a figura abatida do homem que amava, em suma, ele não tem poder algum.

O reencontro apenas resgata lembranças ruins, ela é mostrada aprisionada com ele na moldura da janela. Incapaz de modificar aquela situação, ela retorna para casa. Ele tenta se aquecer na solidão de seus pensamentos, o fogo na madeira que ele próprio cortou, a aceitação silenciosa de que está vivendo as consequências de seus próprios erros. “Koza” pode tratar da amargura no processo de compreensão da finitude na nossa viagem pela estrada tortuosa da vida, mas a caligrafia sensível de seu realizador emociona ao insinuar que o segredo pode estar na percepção da beleza que quase sempre se perde na paisagem da janela do carro em movimento.

* Texto escrito para o catálogo da Retrospectiva "Imagens da Turquia - O Cinema de Nuri Bilge Ceylan", que foi exibida de 07 a 12 de Março, na Caixa Cultural Rio de Janeiro.

terça-feira, 7 de março de 2017

"Logan", de James Mangold


Logan (2017)
Eu tenho uma relação forte com o personagem Wolverine, a revista em quadrinhos lançada pela Editora Abril em 1992 foi a primeira que acompanhei na infância desde o primeiro número, aguardava ansiosamente os capítulos de sua aventura solo em Madripoor, quando ele era conhecido pelo apelido “Caolho”. Naquela época, antes mesmo da série animada dos “X-Men” estrear no programa matinal TV Colosso, eu sonhava com um filme do carcaju. Os anos passaram, a indústria de cinema deu um abraço apertado na nona arte e Hugh Jackman, uma aposta nada convencional do diretor Bryan Singer, defendeu o personagem no primeiro filme da equipe mutante. Eu tinha quinze anos, já estava afastado do universo dos quadrinhos, vivendo aquele período em que tolamente recusamos ser associados com qualquer produto que nos remeta à infância. Mas eu me lembro de ter ficado feliz com aquela versão, o problema era o timing daquele projeto na minha vida.

“X-Men 2”, fantástico, uma das melhores adaptações de quadrinhos de todos os tempos. A frustração então virou uma constante com os projetos seguintes, atingindo seu ápice no horroroso “X-Men Origens: Wolverine”. A ironia é que, na época de seu lançamento, eu já estava atuando profissionalmente como crítico, então cobri a coletiva de imprensa do ator no Brasil, já esbanjando a simpatia que atualmente está sendo celebrada nas redes sociais. Ele está vivendo o personagem há dezessete anos, um feito digno de nota, creio que somente Christopher Reeve, no que tange quadrinhos no cinema, conseguiu estabelecer uma ligação tão forte de carinho com o público. E ele, tragicamente, não teve a mesma sorte que Jackman, a sua carta de amor para os fãs foi rasgada pelos executivos da Cannon na bomba “Superman 4 – Em Busca da Paz”.

“Logan” é um bom filme, mas longe de ser a obra-prima que muitos estão enxergando, o hype e o efeito manada são parte importante na estratégia de marketing das produtoras, alguns críticos são praticamente alçados ao posto de assessores de imprensa não-remunerados do filme. Os seus problemas prejudicam a imersão plena, então vou me ater inicialmente a eles, antes de tecer os elogios. Sem revelar muito, os vilões são absurdamente desinteressantes, não há sequer um nome que tenha ficado em minha mente minutos após o fim da sessão, não há peso em suas atuações, não há sensação orgânica de ameaça. O mais importante, aquele que em teoria representa o metafórico confronto do homem com sua finitude, com o ato do envelhecimento, literalmente é jogado na trama e não recebe um mínimo de atenção, por conseguinte, enfraquece terrivelmente um dos momentos que deveriam ser emocionalmente devastadores. O protagonista fala diversos palavrões logo nos primeiros minutos, como aquele adolescente que deseja chocar os mais velhos, um recurso que soa forçado, como que para deixar claro para os espectadores adolescentes que eles estão vendo um filme “para maiores”. Há sangue, há brutalidade nas cenas de ação, mas não há nada na trama que justifique a mudança na classificação etária, existe mais maturidade narrativa em animações da Pixar.

O arco narrativo de Logan não é desenvolvido, ele não muda com os acontecimentos vividos, por mais que a última cena insinue algo nesse sentido, não soa crível. A emoção nasce do sentimento que foi estabelecido entre o público e o protagonista nesses dezessete anos, não é mérito do texto, ou das escolhas criativas do diretor. E há um problema imperdoável, total desleixo, um vídeo gravado em celular, espécie de found footage que serve como elemento expositivo, mas editado de forma impecável, com direito até a uma narração em off. Se isso fosse mostrado rapidamente, ainda dava para engolir, mas a cena é longa, não é possível que ninguém percebeu como aquela sequência destoava da estética realista que o filme tenta estabelecer desde o início. A referência ao clássico faroeste “Os Brutos Também Amam” é inserida com mão pesada, talvez um pouco de sutileza seria mais elegante e respeitaria mais a inteligência do espectador, demonstrando segurança em sua louvável ambição dramática. Quando o foco está na interação entre Logan, Xavier (Patrick Stewart) e a pequena Laura (Dafne Keen), o roteiro flui muito bem, porém, a subtrama com Caliban (Stephen Merchant) quebra o ritmo ao tentar forçar uma relevância emocional que o personagem não carrega no universo cinematográfico, apesar de ter sido recorrente nos quadrinhos dos anos oitenta, ele teve apenas uma ponta no recente “X-Men: Apocalipse”, interpretado por outro ator.

O roteiro acerta ao não revelar o que aconteceu no período de tempo entre os dias de glória e esse futuro opressivo, a imaginação sempre realiza um trabalho melhor que a computação gráfica. Algumas dicas são dadas em diálogos, há muita amargura e culpa no peso das palavras, o heroísmo parece existir apenas nas páginas dos quadrinhos lidos pela menina, um toque genial, assim como o boneco do Wolverine que aparece nas mãos de uma criança, ressaltando a importância desses símbolos mitológicos na formação de um indivíduo. Dafne Keen impressiona pela facilidade com que trabalha a ferocidade incontrolável e a vulnerabilidade doce de sua personagem, por vezes, na mesma cena, sem dúvida, ela é o ponto alto do filme. Stewart entrega a dignidade de sempre, ainda que o roteiro não forneça grandes momentos para ele. Jackman está envolvido de corpo, alma e coração no projeto, isso é perceptível e agrega emoção. O corpo cansado, envenenado pela própria condição que o permitiu se tornar uma máquina de guerra, os olhos vermelhos, o andar trôpego, uma composição visualmente impecável, ideia inspirada pelo arco “Old Man Logan”, escrito por Mark Millar e ilustrado por Steve McNiven. Vale destacar o trabalho primoroso de Isaac Bardavid na versão brasileira, até pelo peso da idade, ajudando a dar veracidade ao lamento constante que rasga o peito do personagem.

“Logan” é uma despedida digna para o ator, uma respeitosa carta de amor para os fãs, o filme que finalmente me resgatou a sensação da importância que o personagem teve em minha infância. Os problemas existem, não há obra perfeita, mas o tratamento dos quadrinhos pela indústria cinematográfica está tão preguiçoso atualmente, diversão despretensiosa e uma fórmula irritantemente inofensiva, que considero revigorante a maneira como o desfecho evoca uma emoção madura, sem concessões. 

segunda-feira, 6 de março de 2017

"Máquina Mortífera" e "Máquina Mortífera 2", de Richard Donner


O quarto filme foi decepcionante, exagerando nos elementos cômicos que já haviam prejudicado o terceiro, mas os dois primeiros seguem eficientes em revisão. A explosiva união de Shane Black, Richard Donner, Mel Gibson, Danny Glover e Joe Pesci, o ápice do cinema de ação norte-americano dos anos oitenta. 


Máquina Mortífera (Lethal Weapon - 1987)
O segredo do sucesso do roteiro está na criação de um protagonista à beira de um colapso mental, um homem que perdeu a esposa em um acidente de carro, alguém que lida diariamente com a pulsão suicida, o policial Martin Riggs (Mel Gibson). Ele foi se tornando mais socialmente aceitável nas sequências, mas no original ele está pedindo para ser liquidado por seus oponentes. A ideia do criador dos personagens, o roteirista Shane Black, conduzia Riggs para a morte no desfecho do segundo, porém, por compreensíveis razões financeiras, os produtores se recusaram e o autor se afastou do projeto. É inesquecível a clássica cena em que o policial tenta persuadir um suicida a desistir do ato pulando junto com ele do alto do prédio, o que conduz à sequência mais forte da franquia, uma aula de atuação de Gibson, provando para o colega que ele é realmente capaz de tirar a própria vida, que as suas atitudes radicais não eram uma forma de conseguir pensão da instituição, uma maneira genial do roteiro quebrar as expectativas do público.

A trilha traz Michael Kamen, Eric Clapton e David Sanborn, uma identidade sonora de personalidade, você escuta um riff e a sua memória afetiva já te leva para aquele momento no tempo. Eu vi pela primeira vez aos seis anos, em VHS, na casa de um tio, mas só fui apreciar de verdade na época do lançamento do segundo nas locadoras de vídeo. A estreia do segundo teve ampla cobertura nas revistas SET, Cinemin e Vídeo News, acompanhei com mais consciência cinéfila. O terceiro foi marcante, gravei na exibição do primeiro “Tela Quente” do ano, devo ter visto umas cinco vezes só naquela semana. É curioso constatar que o aspecto humano que move a franquia prevalece sobre a violência, as crianças da década de oitenta se apaixonavam por esses filmes, puras e sensíveis, captando esse coração nas tramas. É, acima de tudo, uma história de amizade, cumplicidade e amor pelo conceito de família. A questão racial nunca é levantada, outro ponto importante, já que o projeto similar: "48 Horas", lançado anos antes, era alicerçado nos estereótipos, Eddie Murphy vivia o criminoso falastrão, o malandro de rua. 

Os heróis do gênero à época simbolizavam o positivismo bélico da era Reagan, corpos esculpidos, máquinas perfeitas de destruição. “Máquina Mortífera” introduzia nesse contexto um louco e um parceiro cinquentão cansado, aposentado, um certinho homem de família, Roger Murtaugh (Danny Glover). O encontro desses dois opostos garantia o charme que até hoje a indústria tenta, sem sucesso, igualar. A essência emocional também era diferente de tudo que estava sendo produzido, a importância da família, representada na subtrama de vingança de Michael Hunsacker (Tom Atkins), após o assassinato da filha, ou no instinto protetor de Murtaugh com sua filha mais velha, mas, especialmente, na relação que se estabelece entre Riggs e Murtaugh, a forma como o veterano o acolhe em seu lar. Outro fator importante que não foi superado nas continuações é a figura do vilão Joshua, a imponência visual de Gary Busey, a briga noturna na chuva iluminada pelo holofote de um helicóptero, cena responsável por apresentar o Jiu-Jitsu brasileiro ao mundo.


Máquina Mortífera 2 (Lethal Weapon 2 - 1989)
Evitando repetir o tema do primeiro, o combate às drogas, o roteiro aposta em diplomatas sul-africanos que utilizavam sua imunidade para cometer crimes, com Riggs e Murtaugh sendo enviados para uma missão aparentemente simples, manter a segurança de Leo Getz (Joe Pesci), um contabilista especializado em lavar dinheiro para a máfia. O personagem se tornaria um alívio cômico irritante no terceiro e no quarto, mas ele está na medida no segundo, hilário! Novamente, o filme não disfarça isso, a trama serve apenas como desculpa elegante para que a relação da dupla se desenvolva em sequências maravilhosas como a estreia da filha de Murtaugh em uma propaganda televisiva de preservativo, ou a impagável bomba no vaso sanitário. O tom do humor é potencializado, o texto, mérito de Jeffrey Boam, nunca esteve tão esperto, ágil, tão bom que parece que foi improvisado no ato da gravação. Patsy Kensit é tão linda, que é perdoável sua pouca habilidade na função e a existência desnecessária de uma subtrama romântica para Riggs, algo que apenas quebra o ritmo da ação, repetindo preguiçosamente a motivação da vingança, forçando a barra ao estabelecer conexão entre os vilões e a morte de sua esposa, e, por conseguinte, conduzindo para a cena mais absurda, a destruição de uma casa de palafitas por um automóvel. A trilha sonora entrega “Cheer Down”, composição de George Harrison, altíssima qualidade que se manteria no filme seguinte, com “It’s Probably Me”, de Sting, Eric Clapton e Michael Kamen. “Máquina Mortífera 2” é diversão genuína, uma das melhores sequências da história do cinema. 

sábado, 4 de março de 2017

A irrelevância do Oscar enquanto parâmetro de qualidade

O grande problema do Oscar é ter se tornado, aos olhos do mundo, o símbolo maior de tudo o que representa o cinema. Na realidade, a premiação não diz quase nada sobre a beleza da sétima arte. O brasileiro médio, aquele que não valoriza filme como algo mais que entretenimento fútil, aproveita a farra que antecede o evento, participa de bolões, chega até a discutir na roda de amigos sobre os filmes indicados. No dia da cerimônia, na falta de estofo cultural sobre o tema, ele perde mais tempo analisando os vestidos no tapete vermelho, as gafes cometidas, a plástica no rosto da atriz, os memes nas redes sociais, enfim, tudo o que não é cinema. Quase sempre, sem interesse genuíno, dorme antes da metade da exibição.

O tema nesse ponto já perdeu o valor como status de elegância, aquilo já é assunto de ontem, não irá nem comentar no trabalho. Como analogia, perceba a forma como a Rede Globo trata o evento, transmitindo no dia seguinte um compacto que elimina discursos de agradecimento, edita segmentos, extrai toda a emoção, entregando um resumo medíocre preenchido de opiniões vazias. A emissora está apenas respondendo ao estímulo de grande parte do povo. A sétima arte volta a ser, para esse brasileiro, simples futilidade que ele adquire nas bancas dos camelôs, para assistir quando não tiver nada melhor na televisão, entretenimento inofensivo para passar o tempo, enquanto aguarda a chuva estiar. Um longo ano irá se passar até que ele volte a se interessar.

Eu sou apaixonado por filmes desde os quatro anos de idade, meu primeiro livro é intitulado: “Devo Tudo ao Cinema”, então não consigo compreender uma cerimônia que estabelece competição entre artistas envolvidos em roteiros com propostas totalmente diferentes, quase sempre, antagônicas. Não vejo cinema como uma corrida de cavalos, creio que o Oscar deveria ser uma celebração anual da indústria, ao invés de um jogo de azar. Mas, claro, o elemento da disputa é exatamente o que atrai essa parcela expressiva do público. E Oscar é um entretenimento televisivo movido por lobby que necessita de bons índices de audiência.

Essa máquina movimenta os negócios, aumenta e diminui salários da noite para o dia, promove redenções e empurra para o ostracismo, em suma, não tem valor algum enquanto parâmetro de qualidade. Boa parte dos projetos selecionados estreiam em períodos mercadologicamente propícios. Os produtores que investem na premiação colocam seus atores nos talk-shows noturnos e nos programas matinais, toda demonstração de simpatia é bem-vinda, sorrisos que simbolizam cifrões, qualquer possibilidade de polêmica é afastada, faz parte do jogo. Mel Gibson, por exemplo, conhecido por ser combativo ideologicamente, apareceria até rindo de fratura exposta nos últimos meses. Poderiam até ter xingado a mãe dele, que o australiano mostraria os dentes. Ele não é bobo, sabe que a indústria está oferecendo mais uma chance. O filme é o que menos importa na equação do Oscar.

A seleção de filmes nesse ano foi qualitativamente superior, um reflexo da controvérsia racial despertada na cerimônia passada. A justiça foi feita, algo raro, “Moonlight” é impecável em todos os sentidos, porém, creio que venceu como parte do ataque aberto que a indústria está desferindo contra o presidente Trump. A Academia escreveu certo por linhas tortas. O texto defendido pelo apresentador Jimmy Kimmel, opção equivocada que deu o tom morno da noite, deixou clara já nos primeiros momentos essa linha política. E, apesar de poucas homenagens rasas aos clássicos, estamos testemunhando uma tentativa agressiva de renovação, o espetáculo é direcionado à satisfação imediatista dos espectadores adolescentes, um tiro no pé. O início musical, com aquela animação artificial de festa infantil, os doces caindo de pequenos paraquedas na plateia, a tola pegadinha nada orgânica com os turistas “inesperados” (tão crível quanto os reality shows televisivos), o desleixo supremo ao inserir a imagem de uma produtora viva no segmento “In Memoriam”, a gafe absurda no desfecho, tudo leva a crer que estamos vivendo o crepúsculo criativo dessa brincadeira cara.

Warren Beatty jogou a bomba na mão da colega, Faye Dunaway não teve culpa, tiros argumentativos para todo lado, a mídia busca agora problematizar cada detalhe, manchetes sobre maus-tratos do produtor com o astro idoso, celebração da atitude do mesmo produtor que tirou de letra o vexame, Emma Stone imaturamente incitando teoria da conspiração nos bastidores, enfim, muito barulho para nada. Um simples envelope errado expôs a ferida, os deuses sangram, o ídolo é de barro. O constrangimento, o gosto amargo ao final, espero que isso sirva como ensinamento. O cinema não merece ser reduzido à essa desajeitada festa anual fracamente roteirizada. Viva intensamente a realidade, não aplauda a caricatura.

Sobre as premiações, creio que se confirmou a tendência “coração de mãe” da Academia. Ninguém sai triste, todos recebem, no mínimo, um respeitoso tapa nas costas. O filme não precisa nem ser bom, “Esquadrão Suicida”, por exemplo, recebeu a estatueta por Maquiagem e Penteados. Os adolescentes ficam felizes, comentam no Twitter, isso é o que importa. A fotografia impressionante de James Laxton (“Moonlight”) perdeu para a obviedade acachapante de Linus Sandgren (“La La Land”), decisão que só pode ter sido tomada pelos jurados em uma disputa de palitinhos. Até imagino a discussão na reunião da cúpula. Na dúvida, Melhor Trilha Sonora, entrega obviamente para o único filme musical, ainda que a soma de suas composições bonitinhas não resvale sequer na qualidade artística do melhor disco do Guilherme Arantes.

O trabalho de Nicholas Britell (“Moonlight”), primoroso em suas nuances sonoras, merecia o justo reconhecimento. Melhor Filme Estrangeiro, o alemão “Toni Erdmann” é superior, mas vamos dar mais um golpe no Trump? Ah, entrega para o iraniano “O Apartamento”, para garantir o discurso emotivo de protesto. Se o diretor se recusar a comparecer, melhor ainda! O roteiro de “O Lagosta” é o único realmente merecedor, uma proposta verdadeiramente ousada, mas “Manchester à Beira Mar” tem mais cara de ser importante, aquele pretensiosismo dramático de roupa nova do rei. Pouco importa que a execução do roteiro seja ruim, com a trilha sonora excessivamente intrusiva banalizando a experiência. Temos que distribuir os afagos, não queremos rostos tristes na volta para casa.

Viola Davis merece todos os elogios por seu trabalho no teatro filmado “Um Limite Entre Nós”, assim como Denzel Washington, um dos maiores atores de sua geração, que precisou engolir seco e aguentar Casey Affleck agradecer o prêmio. Emma Stone é adorável em “La La Land”, mas precisa comer muito arroz e feijão para poder ser comparada à Isabelle Huppert e Meryl Streep. Mas o público adolescente sequer viu “Elle”, o que importa é satisfazer a garotada. O Melhor Diretor não comandou o Melhor Filme, algo que nunca compreendi bem. Como você pode executar o melhor trabalho na cozinha, sem preparar o melhor prato do restaurante? Damien Chazelle, jovem talento promissor. Todos os seus competidores são melhores que ele na função. 

Denis Villeneuve, Mel Gibson, Barry Jenkins e Kenneth Lonergan. Entregue uma câmera na mão deles e verá como conseguem operar mágica em diversos gêneros. Chazelle faz filmes dinâmicos, fast food inofensivo, “La La Land” caiu no gosto dos jovens nas redes sociais, não pensem muito, entreguem a estatueta para ele. Melhor Filme? Não, temos que abrir uma exceção, não podemos desperdiçar a atenção dos olhos do mundo, vamos matar dois coelhos com uma cajadada só: atacamos Trump e respondemos aos que nos criticaram ano passado pelo “Oscars So White”. A justiça ser feita, a premiação por mérito da obra é acidente, ponto fora da curva. É triste, mas é assim que a banda toca.