terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Cine Bueller - "Namorados por Acaso", de Mel Damski

Link para os textos anteriores do especial que resgata as lembranças dos vespertinos "Sessão da Tarde" e "Cinema em Casa":


Namorados por Acaso (Happy Together - 1989)
As comédias românticas adolescentes dos anos oitenta marcaram a adolescência da minha geração devido às exibições frequentes na “Sessão da Tarde”. O “Cinema em Casa”, do SBT, satisfazia mais os impulsos sexuais da garotada, somos eternamente gratos aos programadores. “Namorados por Acaso”, eu consigo me lembrar exatamente da tarde em que vi pela primeira vez, com a dublagem maravilhosa da Herbert Richers, com Vera Miranda e Selton Mello garantindo o charme especial da nossa versão brasileira.

Patrick Dempsey era o ídolo dos garotos introvertidos, no que me incluo, já que defendia quase sempre personagens tímidos e que sofriam a rejeição das gatinhas da escola. E Helen Slater, como esquecer aquele rosto? A encantadora “Supergirl” vive Alex, uma espevitada estudante de artes cênicas, com direito a breve nudez parcial, não poderia ser melhor. O difícil era acreditar que Chris, o jovem escritor, por mais compenetrado que estivesse em sua arte, cogitaria sequer por um momento a hipótese de reclamar do gênero de sua colega de quarto. Forçada de barra compreensível, caso contrário não haveria trama para meia-hora de filme. Ele é uma caricatura divertida, dorme abraçado ao tomo “A Arte da Escrita”, mas só consegue criar algo interessante após encontrar sua musa inspiradora. Claro que os dois vencem seus medos e ele se arrepende de ter sugerido uma substituição. É hilário quando ele finge ser o gay mais afetado do mundo, com ajuda dela, para afastar o rapaz que foi enviado. Selton domina a cena com um caco espirituoso, ao pedir para que o visitante suba o zíper de seu vestido: “Faz essa caridade, tá, criança”. Aliás, a dublagem clássica entrega vários momentos deliciosamente debochados, como um vozerio na cena do banheiro masculino que insere a ária “La Donna è Mobile” na cantoria solitária de um estudante.

O roteiro procura tocar em temas típicos dos projetos mais refinados de John Hughes, ainda que nunca alcance o mesmo nível de credibilidade. O personagem Stanley é um símbolo dessa tentativa, ele vive sozinho, acompanhado por uma boneca sexual, elemento que o torna exótico e afasta qualquer relacionamento. A estratégia acaba sendo revelada no terceiro ato, a forma que ele, alguém decidido a aproveitar ao máximo os estudos, encontrou para não se deixar levar pelo pouco compromisso de seus pares. Chris é o único que não o repele, logo, eles se tornam amigos e confidentes. Outra sequência que consegue emular Hughes ocorre no quarto, quando Chris e Alex, separados por uma cama beliche, encontram paz no simples toque das mãos, a linda cumplicidade entre pessoas perdidas num mundo de muitas possibilidades e cobranças sociais. O mantra que simboliza o filme, repetido pelos dois em diversos momentos, “eu posso ser amado por você, você pode ser amada por mim”, a conclusão sincera que os redime. Como ela ressalta ao final, o melhor erro cometido pode ser libertário, abrir novos caminhos, não é necessariamente algo a ser temido. O amor pode estar ao seu lado, na figura de uma melhor amiga, aguardando apenas uma chance. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Rebobinando o VHS - "Inocência Ultrajada" (1974)

Link para os textos anteriores do especial que resgata a nostalgia dos tempos do VHS:
http://www.devotudoaocinema.com.br/p/rebobinando-o-vhs.html


Essa pérola produzida para a televisão norte-americana sequer foi lançada em VHS oficialmente por aqui, apenas em fitas piratas, sem legendas. Ela chegou a ser exibida com cortes nas madrugadas televisivas brasileiras, mas não me recordo de ter visto alguma exibição. O meu primeiro contato com a obra foi através da novelização literária, encontrada em um de meus garimpos nos sebos, com o título original: “Nascida Inocente”, escrita por Berhardt J. Hurwood, baseada no roteiro de Gerald Di Pego. 


Inocência Ultrajada (Born Innocent - 1974)
Feito na esteira do sucesso mundial de “O Exorcista”, um veículo ousado para a pequena Linda Blair firmar seu nome na indústria, “Inocência Ultrajada” aborda um tema espinhoso, os abusos sofridos pela garota em um reformatório. Ela tinha apenas quatorze anos quando filmou a sequência forte de estupro no banheiro, algo que jamais seria cogitado nos dias de hoje. Sem nudez, todo o sofrimento transmitido em seu rosto, uma declaração de coragem rara, especialmente quando a postura mais confortável seria ela abraçar a fama e optar por papéis bonitinhos em filmes inofensivos. Em “A Garota Viciada”, no ano seguinte, ela interpretou uma menina viciada em álcool. É uma pena pensar que a sua carreira foi destruída no final da década de setenta, ao aparecer nas manchetes em um escândalo com drogas. Ela, que tinha talento para ser uma das maiores atrizes de sua época, foi esquecida por Hollywood e se manteve trabalhando em projetos fracos, sem relevância.

Analise a cena do primeiro banho de sua personagem, logo após a chegada na instituição, o choro convulsivo, a angústia contida que explode ao encarar a frieza do local. Christine (Blair) é fruto da parentalidade irresponsável, os pais, vividos por Kim Hunter e Richard Jaeckel, alternam a agressão física com a pressão psicológica, vivem brigando na frente dela, um cenário caótico que a impele a fugir. A crítica é direcionada ao sistema que, em teoria, serve para ressocializar os jovens, mas, na prática, apenas termina de destruir o indivíduo. Ela chegou inocente, compreensivelmente perturbada, com o olhar de criança, um detalhe que a atriz evidencia brilhantemente na sua gradual transformação, porém, sob o manto das figuras de autoridade no local, ela foi seviciada de todas as formas. O único elemento humano que a mantém sã é o irmão mais velho, vivido por Mitch Vogel. Quando ele a atrai na intenção de facilitar a aproximação do policial que vai conduzir a jovem de volta para o reformatório, as correntes emocionais se rompem, a sociedade consegue finalmente criar um monstro irrecuperável.

O filme conquistou a maior audiência televisiva no ano. E, como pude constatar na revisão, ele se mantém eficiente, com uma linda trilha sonora composta por Fred Karlin, injustamente pouco lembrado, responsável por uma das melhores baladas cantadas por Karen Carpenter: “For All We Know”, escrita para o filme “As Mil Faces do Amor”, de 1970. 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

"John Wick - Um Novo Dia Para Morrer", de Chad Stahelski


John Wick - Um Novo Dia Para Morrer (John Wick: Chapter 2 - 2017)
É um toque de gênio iniciar com uma exibição acrobática de Buster Keaton sendo projetada no prédio. O cinema independente “cabeça”, as obras umbilicais dramáticas, o equivocado conceito de “filme de arte” defendido por cinéfilos pseudointelectuais e críticos tolos, essas produções só existem graças ao lucro obtido com as fitas de gênero. O cinema se formou com as estripulias perigosas pioneiras de Keaton, o balé cômico de Chaplin, Harold Lloyd se pendurando no ponteiro do relógio, Stan Laurel e Oliver Hardy se equilibrando no alto de um edifício em construção e Douglas Fairbanks saltando como uma raposa em “A Marca do Zorro”. O cinema não existiria hoje sem a contribuição dos filmes de ação. A homenagem proposta é, acima de tudo, um ousado resgate para um público-alvo formado em sua maioria por adolescentes, o que, por si só, já mereceria aplausos. “John Wick – Um Novo Dia Para Matar”, dirigido pelo mesmo Chad Stahelski do original “De Volta ao Jogo”, promove outra bela homenagem no terceiro ato, um tiroteio em uma sala de espelhos, o que remete diretamente ao clássico de Bruce Lee: “Operação Dragão”.

A sequência pré-créditos repete algumas ideias coreográficas do primeiro, intensificando o tom e oferecendo variações embasbacantes, mantendo os enquadramentos na simplicidade, sem trepidações de câmera, fazendo do combate corpo a corpo uma espécie de dança, maneira impecável de estabelecer para o público novo o personagem título, vivido por Keanu Reeves, como a figura imponente que intimida até os marginais mais insanos. O resultado é inferior ao “De Volta ao Jogo”, apesar de contar com um orçamento maior e superar tecnicamente o anterior em todos os aspectos. O problema principal está no roteiro. A longa duração acerta ao explorar com mais detalhes os meandros da organização de assassinos, mas sabota terrivelmente o ritmo ao inserir uma subtrama dispensável defendida por Laurence Fishburne, decisão que parece ter sido pensada apenas como forma de reunir a dupla de “Matrix”. O segundo ato se arrasta, minimizando o impacto dos rompantes de ação. A motivação criada para fazer o personagem atrasar sua aposentadoria é desgastada, o vilão, vivido sem brilho pelo italiano Riccardo Scamarcio, obriga Wick a cumprir uma missão genérica, sem qualquer relação emocional com ele, como forma de honrar sua promessa de sangue. É difícil enxergar relevância na tarefa, o que prejudica a imersão do espectador. Ruby Rose vive uma assassina muda, recurso utilizado pelo roteiro sem muita criatividade, parece ter sido inserido apenas para dar um toque exótico.

Outro problema é que o roteiro falha em trabalhar as consequências físicas e psicológicas dos danos sofridos nos conflitos, o filme se torna um videogame de tiro em primeira pessoa, Wick é quase invulnerável. No primeiro, apesar dele passar pelas situações mais absurdas, o roteiro se preocupava em evidenciar o desgaste que ele sentia a cada oponente vencido. O submundo da organização é expandido consideravelmente, com o roteiro de Derek Kolstad aceitando o risco de forçar a barra na suspensão da descrença, especialmente na sequência que finaliza a trama, uma opção que abre as portas para a possibilidade de uma franquia, porém, consequência natural, banaliza o impacto do primeiro filme e reduz o protagonista a um genérico tipo etiquetado para o consumo rápido nas bilheterias. Não me surpreenderei se, em alguns anos, estiver vendo John Wick sendo enviado para uma missão espacial, perseguido por caçadores de recompensa marcianos. Torço sinceramente para que o plano do diretor envolva apenas uma trilogia fechada, algo que respeite os fãs e seja coerente ao tom do original.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

"De Volta ao Jogo" de Chad Stahelski e David Leitch


De Volta ao Jogo (John Wick - 2014)
É comum afirmar que os gêneros fantásticos, ficção científica e terror, são desprezados por aqueles tontos pseudointelectuais que só conseguem enxergar beleza nos dramas umbilicais e obscuros. Mas eu creio que os filmes de ação sofrem ainda mais, ignorados por essa parcela do público e subestimados pela crítica especializada. Se a obra não traz nada de novo, ela é apedrejada. Se inova, ela é apedrejada. “De Volta ao Jogo”, com seu orçamento mediano, conseguiu entregar algumas das sequências mais espetaculares, mérito dos diretores Chad Stahelski e David Leitch, estreantes na função, porém, com tremenda experiência na indústria como coordenadores de dublês. Chad trabalha como dublê de Keanu Reeves desde “Caçadores de Emoção”, companheirismo que resultou na compreensão exata de como utilizar da maneira mais visualmente impactante os recursos do ator, que nunca foi conhecido por sua versatilidade.

Ele vive John Wick, o assassino profissional tido como o melhor por seus colegas, que abandona o serviço motivado pelo amor que sente por sua esposa. Uma doença interrompe a relação, ele está presente no hospital quando a frágil mulher expira, nada pode reverter aquela situação, o profissional temido por todos se sente pela primeira vez impotente. Ela, consciente que seu amado não saberia lidar com aquela dor, havia organizado a entrega póstuma de um presente incomum, uma cadelinha filhote. Se o Ford Mustang na garagem, precioso emocionalmente para ele, representava os perigos da sua área de atividade, o animal era a garantia de que a humanidade dele estaria em constante vigilância, o último desejo de Helen, a aposentadoria definitiva. Um grupo liderado pelo filho de um mafioso invade sua casa à noite, rouba o carro e mata a cadelinha, tomando violentamente de Wick todos os elementos que o mantinham na coleira social, o reforço do leitmotiv animalesco subjugando um coletivo criminoso organizado que se julga civilizado.

A trama de vingança é saborosamente simples, as várias cenas de ação surpreendem pela crua objetividade estética, não há intenção de disfarçar com montagem frenética e movimentos de câmera epiléticos a pouca competência técnica, todos os envolvidos são especialistas talentosos, experimentando diversas possibilidades, do tiroteio comum em pequena e larga escala, passando por perseguições de carros e combate corpo a corpo. As coreografias são pensadas com o intuito do choque visual, afinal, trata-se do atrito entre mercenários selvagens que operam além da margem de seus próprios superiores. Os movimentos precisam ser rápidos, certeiros e brutais. O roteiro de Derek Kolstad estabelece inteligentemente a complexidade do universo em que o protagonista está inserido, sem especificar com diálogos expositivos a origem dos relacionamentos, estimulando no espectador a sensação de que está bisbilhotando perigosamente uma realidade que sequer imaginava que existia. A presença de nomes renomados como Willem Dafoe, Ian McShane e Michael Nyqvist, ajuda a reforçar os alicerces dessa construção.

“De Volta ao Jogo” é um dos melhores filmes de ação da década.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

"Em Nome da Razão", de Helvécio Ratton


Em Nome da Razão (1979)
Helvécio Ratton sobrevivia em Belo Horizonte na década de setenta fazendo filmes de publicidade, o período para o cinema brasileiro não poderia ser menos estimulante, ele buscava encontrar um tema importante para abraçar, algo que valesse o esforço absurdo de se produzir algo que não envolvesse pornografia. O psiquiatra italiano Franco Basaglia veio ao Brasil e despertou a discussão sobre a necessária reforma no sistema de saúde mental. Como o jovem já estudava psicologia, ele embarcou no tema e ousou realizar o documentário de curta-metragem “Em Nome da Razão”, filmado em apenas uma semana e de forma independente, denunciando as condições desumanas no Manicômio Colônia, de Barbacena.

O registro é forte, as imagens em preto e branco captadas por Dileny Campos, auxiliado pela montagem propositalmente caótica de José Tavares Barros, retratam a ausência de qualquer senso de dignidade, o que se escuta são os lamentos angustiados dos pacientes, sem qualquer efeito de som, o canto desesperado do homem que repete enfaticamente o refrão da canção popular: “Jesus Cristo, eu estou aqui”, como se buscasse ser notado na multidão, a ironia do grupo de olhos distantes que entoa o Hino da Independência, uma crítica mordaz e espontânea, os exilados de uma sociedade que se considerava sã em plena ditadura militar, os loucos condenados à clausura degradante, um coletivo de diferentes patologias, alguns pacientes até inseridos equivocadamente por seus familiares, opositores políticos, prostitutas, alcoólatras, crianças indesejadas, homossexuais, todos aqueles que não se encaixavam na imagem que os dignitários da época queriam vender para o exterior, em suma, como bem disse o respeitado psiquiatra italiano ao conhecer o local, “um campo de concentração nazista”.

O filme foi aplaudido em festivais e teve papel fundamental no fortalecimento do Movimento Antimanicomial. O público brasileiro, ignorando totalmente a situação, ficou chocado com a obra. É uma página da História que não pode ser esquecida.