quinta-feira, 8 de setembro de 2016

"Jornada nas Estrelas - O Filme", de Robert Wise


Jornada nas Estrelas - O Filme (Star Trek: The Motion Picture - 1979)
Celebrando o aniversário de cinquenta anos de “Star Trek”, revi o DVD com a Versão do Diretor, que considero a definitiva, a melhor forma de apreciar essa obra. O fenômeno “Star Wars” foi o responsável pelo interesse dos produtores em resgatar a série clássica de Gene Roddenberry para sua primeira aventura cinematográfica, mas a história de Alan Dean Foster presta reverência à grandeza reflexiva da obra-prima: “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, com o uso frequente de longas tomadas de apreciação do universo em que a equipe de heróis está inserida, reforçadas pela competência nos efeitos de Douglas Trumbull, que também foi responsável pelo clássico de Kubrick. O que muitos enxergam como um andamento arrastado, na realidade traz intrínseco nos questionamentos que propõe um peso intelectual adulto que faz as novas produções na franquia parecerem divertidos livros infantis. É fiel ao espírito dos episódios, trata com respeito os personagens principais, entrega boas tiradas de humor e esporádicas sequências de ação, com a ousadia de não se debruçar em vilões caricatos, estratégia que seria impensável na indústria de hoje.

O ritmo lento trabalha a favor da narrativa, por exemplo, após uma demorada exibição da nave Enterprise, emoldurada pela linda trilha sonora de Jerry Goldsmith, o veterano capitão Kirk adentra uma caótica ponte de comando tomada pelos barulhentos jovens tripulantes, uma nova geração que é representada pela figura de Decker, que fica indignado ao descobrir que será substituído por aquele coroa. O caso é que William Shatner, visivelmente orgulhoso de retornar ao personagem, entra no jogo de Stephen Collins, elevando consideravelmente a qualidade dos diálogos nesse conflito com olhares e gestos sutis, coisa de quem conhece plenamente as motivações emocionais que fogem às páginas do roteiro. A preocupação em jogar luz em cada cantinho da nave, detalhando situações comuns com o olhar de um pesquisador, nada mais é que uma evolução necessária das limitações técnicas da série televisiva. A nave se transforma praticamente em um personagem vivo, você se importa com o carinho que a tripulação sente por aquele patrimônio, o que faz cada ameaça ao seu funcionamento ser mais eficiente, possibilitando a força emocional da cena de sua destruição no desfecho da terceira produção.

A direção do grande Robert Wise potencializa a elegância épica da trama, a direção de arte austera, os uniformes da tripulação são perceptivelmente desconfortáveis, ao contrário das camisetas simples da década de sessenta, quase como armaduras em seu corte, o que exigia que o elenco se mantivesse num estado de alerta constante, figuras míticas imponentes, algo que se perdeu já no filme seguinte, que funciona melhor como entretenimento, mas não tem a mesma relevância. “Jornada nas Estrelas – O Filme” é uma boa graphic novel, enquanto “A Ira de Khan” é um excelente gibizinho mensal. A ideia da procura pelo criador, algo que seria retrabalhado de forma inferior no quinto filme, ganha contornos filosóficos surpreendentes ao ser compreendida pelo único membro plenamente lógico e racional: Spock, o saudoso Leonard Nimoy. Ele chora por V’Ger, ele se identifica com o desespero causado pelo vazio existencial. Somente a racionalidade e o conhecimento não bastam para que fiquemos satisfeitos, precisamos de algo mais, o mistério nos motiva a seguir caminhando inexoravelmente em direção ao fim de tudo, a sensação de fazer parte de algo maior nos conforta e alivia o fardo.  

Kung-Fu Fighting - "Operação Condor - Um Kickboxer Muito Louco"

Link para os textos do especial:


Operação Condor – Um Kickboxer Muito Louco (Fei ying gai wak – 1991)
Agente do governo é enviado a Europa e ao norte da África, para recuperar tesouro escondido pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, ele e suas três auxiliares terão que enfrentar bandidos mercenários e cumprir a missão.

Com o justo reconhecimento que terá na próxima premiação da Academia, Jackie Chan provavelmente será celebrado pelos críticos que usualmente torcem o nariz pra filmes de artes marciais. Eu sou um fervoroso apreciador do gênero, comecei esse especial em 2013 exatamente com um dos projetos mais conhecidos do ator, “Rumble in the Bronx”, e pretendo abordar diversos trabalhos dele das décadas de setenta e oitenta. Quando penso em “Um Kickboxer Muito Louco”, dirigido pelo próprio Jackie, a nostalgia me conduz às sessões televisivas frequentes no SBT, o dominical “Sessão das Dez” e o vespertino “Cinema em Casa”, com a dublagem impecável do Carlos Takeshi, eterno “Jaspion”, símbolo da minha infância. 

A sequência inicial já dá o tom de perfeito equilíbrio entre ação e humor, o aventureiro caçador de tesouros se surpreende com a generosidade dos membros da tribo selvagem, que parecem incentivar o roubo de suas pedras preciosas, até que o pobre rapaz decide matar a sede com a água sagrada do povo. Qual o castigo? A morte? Não, o casamento com a índia mais feia do local. O resultado? O herói desce uma montanha íngreme dentro de uma bola inflável, um momento que me remete à clássica corrida de Buster Keaton em “Seven Chances”. Apenas cinco minutos são suficientes para que o protagonista conquiste a empatia do espectador. É uma espécie de refilmagem superior de “Armour of God”, de 1986, que é mais lembrado como sendo o filme que quase matou o astro, em uma cena que o fez despencar do alto de uma árvore, direto para a ambulância, o que resultou em uma complicada cirurgia cerebral. 

Misturando Indiana Jones e James Bond, o roteiro cria oportunidades incríveis para sequências inacreditáveis, como aquela em que Jackie, numa motocicleta, foge de seis carros pelas estreitas ruas da Espanha, com direito a salvamento de bebê, peripécia que contou com a ajuda da equipe de dublês de Rémy Julienne, responsável por alguns dos melhores momentos na franquia do agente secreto britânico. O senso de ritmo que evidencia a segurança do diretor, aliado ao carisma do mesmo diante da câmera, garante ao filme um charme irresistível. A presença da bela Carol Cheng, vivendo a ajudante desastrada, ajuda bastante, entregando situações que parecem saídas das fitas dos Três Patetas. A cena mais lembrada é a do voo no túnel de vento, que permite ao ator uma exibição acrobática espetacular, explorando várias possibilidades cômicas. 

Sobre debates políticos televisivos

Quando escrevemos sobre filmes, livros, música, arte em geral, adentramos em um universo de pura beleza regido pelas plenas potencialidades da inteligência, tentando extrair reflexões lúdicas e que inspirem o ser humano no constante aprimoramento. Escrever sobre política no Brasil em tempo de eleição é, infelizmente, nada estimulante. Esse jogo de assessores engravatados, que envolve agressões, difamações públicas, mentiras, um sistema falido que se mantém apenas pela obrigatoriedade do voto, uma verdadeira aberração em uma nação que se diz democrática. Até mesmo alguém que não sabe sequer argumentar algo que se assemelhe a um raciocínio lógico, com a máquina política atuando, pode se tornar o candidato mais votado à presidência. Nós acabamos de ver o final dessa história. E, por incrível que pareça, aquele que sabe se expressar e possui estofo político e cultural, pode aparecer em último nas pesquisas. E, completando essa esquisita equação, a urna eletrônica não é segura, tendo sido rejeitada em mais de sessenta países. Holanda e Alemanha, por exemplo, consideram essas urnas “criminosas”. O eleitor consciente é obrigado a escolher o candidato que é menos terrível, já que as rasas opções refletem o trambique que rege esse sistema, que nutre esse círculo vicioso de corrupção.

Numa realidade mais séria e lúcida, o voto consciente seria conquistado pelo político que tivesse conseguido argumentar os motivos que o tornam, por meritocracia, o candidato certo. Ao invés de programas televisivos melodramáticos maquiados no horário eleitoral, com um roteiro pobre já desgastado, jingles e figurantes em cenas constrangedoras, os políticos agiriam sem roteiros analisados previamente pelos assessores, debatendo temas importantes com profundidade e coerência ideológica, não apenas alguns poucos segundos de réplicas e tréplicas. E nem irei comentar sobre os alívios cômicos, vergonha alheia suprema, que, de tão bizarros, chego a pensar que estou sob o efeito de alguma substância lisérgica. Os debates que ocorrem nas emissoras de televisão, por melhor conduzidos que sejam, apresentam caricaturas que parecem não saber pensar e cruzar os braços ao mesmo tempo. Quando algum começa a falar por impulso, agindo sem o roteiro memorizado, o tempo acaba. Os políticos precisam falar bastante, pois eles irão, caso eleitos, receber uma fortuna, além dos maravilhosos benefícios do cargo, pelo trabalho que intencionam realizar. Mais argumentos e coragem de questionar temas polêmicos, menos agressões, jogo sujo e consumo populista de pastéis oleosos da padaria do subúrbio, uma realidade que só visitam em época de eleição.

As pesquisas de intenção de voto, que mais parecem ferramentas de indução de voto, acabam surtindo efeito desastroso numa grande parcela da população analfabeta funcional, que decide o voto como se escolhesse o cavalo vencedor na corrida. “Ah, não vou votar no político X, ele não tem chance de ganhar”. Ganhar? Conceito equivocado. Eleição não se ganha, não é loteria ou luta de boxe. O tolo teme votar naquele que a pesquisa diz que irá receber menos votos, pois se sentiria como se tivesse apostado no cavalo errado. Sua escolha não é ditada pelo estudo das propostas e da argumentação do candidato. Analisando filosoficamente, como um sistema tão falho como esse, em uma nação carente de educação e princípios, pode resultar em algo minimamente válido? É humanamente impossível.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

"A Comunidade", de Thomas Vinterberg


A Comunidade (Kollektivet - 2016)
O cineasta mais competente saído do movimento Dogma 95, Thomas Vinterberg, após o irregular “Longe Deste Insensato Mundo”, repete a excelência demonstrada em “A Caça” com o profundamente emocionante “A Comunidade”, buscando inspiração em suas experiências pessoais de adolescente na conturbada década de setenta, época em que seus pais viveram em uma comuna. Ele parte de uma ideia simples, um casal de meia-idade, um arquiteto e uma apresentadora de telejornal, com uma filha adolescente, herdam uma mansão e decidem poupar despesas transformando o local em uma comunidade. Para Anna, interpretação brilhante de Tryne Dyrholm, aquela seria uma possibilidade interessante de injetar ânimo na relação conjugal que já estava desgastada. Mas o elemento do caos é inserido na equação quando o seu marido, vivido por Ulrich Thomsen, revela estar apaixonado por uma aluna mais jovem, Helene Reingaard Neumann emulando visualmente a Camille, de “O Desprezo”. Ao contrário da personagem de Brigitte Bardot no clássico de Godard, que via seu relacionamento conjugal desmoronar, essa femme fatale tem papel ativo na desconstrução familiar, e, por conseguinte, na constatação de que a utopia do coletivismo socialista é frágil. O marido, ao primeiro sinal de discordância do grupo com relação à entrada da namorada, perde totalmente o controle emocional e reivindica de forma arrogante a sua condição prévia de dono da casa.

O espírito libertário do período, pouco antes da Guerra do Vietnã destruir a inocência do mundo, fala diretamente aos valores que o cineasta procurou resgatar, uma camaradagem que sobrevive às desilusões e perdas naturais na vida de qualquer um, a capacidade de sorrir quando se decide aliviar o fardo dividindo-o com alguém. O desabafo tátil, o poder psicológico do toque, expressado simbolicamente na história contada à mesa sobre o experimento terrível de um rei, algo cada vez mais desvalorizado em um mundo dominado por pessoas escravas das telas de seus smartphones, é um leitmotiv que potencializa a emoção em diversos momentos, como quando as mãos da filha acalmam o desespero da mãe, ou até mesmo agindo como apelo silencioso na mesa de jantar, a mulher ferida também busca alento após a exteriorização da raiva no contato com as mãos daquela que foi responsável por seu sofrimento. Ao acordar com o som da relação sexual no quarto ao lado, acende um cigarro, visualmente compondo a noção de que ela, ainda dependente do outro, busca complementar automaticamente a satisfação de um prazer que não usufruiu. Até mesmo na consumação sexual da filha ela se torna coadjuvante indireta, com a câmera deslizando da cama ao aparelho de televisão, mostrando seu rosto na tela.

Outro tema importante trabalhado é o conceito elástico de família. A absurda desumanidade de um atendente de hospital que se recusa a dar informações ao telefone sobre um paciente para quem não é de sua família nuclear. E vale ressaltar a beleza da metáfora representada por um menino que vive a fase do amor pleno, sendo inserido no microcosmo que representa a cruel realidade do mundo adulto. Como a criança de “O Mágico de Oz”, descobrindo em tom poético que o caminho de tijolos amarelos precisa desaparecer para que a maturidade se imponha, conduzindo a um momento belíssimo ao som de “Goodbye Yellow Brick Road”, de Elton John. É impossível revelar mais sobre essa sequência sem prejudicar a experiência do espectador, mas garanto que é inesquecível. 

sábado, 3 de setembro de 2016

Buñuel, Uma Jovem e Valiosa Peça de Resistência


O surrealismo é uma atitude revolucionária diante do ordinário cotidiano, mais do que um curioso movimento artístico a ser estudado, uma convocação para que se ative o instinto inconsciente e se desligue os impulsos racionais, em suma, um instrumento crítico sociopolítico transformador altamente perigoso nas mãos certas. Luis Buñuel, até então um dedicado cronista de cinema para a Gazeta Literária de Ernesto Giménez Caballero, fascinado pelo viés poético daquela ferramenta, foi aplaudido pela burguesia francesa por sua implacável estreia como cineasta em “Um Cão Andaluz”, em 1929, uma colagem ousada de imagens impactantes sem qualquer elo lógico, a resposta agressiva de um jovem desencantado com o materialismo deturpado dessa mesma classe social que, ignorando o reflexo doentio no espelho iluminado pela lanterna mágica da arte, incorporou rapidamente o curta em suas longas e vazias conversas enaltecendo o próprio umbigo.

Com a ajuda dos colegas de elegante rebeldia, o pintor Salvador Dalí e, como fonte de provocadora inspiração, o poeta e dramaturgo Federico García Lorca, fortes amizades forjadas nas salas esfumaçadas da Residência de Estudantes de Madri, o rapaz havia assinado uma declaração corajosa de caráter que praticamente incitava o revide, um panorama trepidante que obviamente não foi amenizado com a realização de “A Idade do Ouro”, no ano seguinte, um proposital insulto direcionado ao hipócrita sistema religioso, seu berço enquanto estudante na adolescência, com direito a uma sequência final que traçava uma espécie de paralelo visual entre as orgias escritas por Marquês de Sade e a figura tradicionalmente identificável como sendo Jesus Cristo, simbolizando a supressão histórica da representabilidade do feminino pela instituição. Ao expor suas chagas psicológicas em seu ataque às práticas da igreja católica ele escutou o clamor de ódio dos intransigentes escandalizados, teve seu filme banido e seu nome difamado, na tentativa de que sua voz fosse devidamente silenciada pela eternidade, tal qual Giordano Bruno, Galileu e tantos outros livres pensadores de diversas áreas. Em 1932, após um frustrante exílio criativo de seis meses nos Estados Unidos, com todas as despesas pagas pelos executivos da Metro-Goldwyn-Mayer, onde percebeu que o modo de produção da indústria norte-americana favorecia um convencionalismo preguiçoso que não o interessava, Buñuel decidiu voltar para a Espanha, financeiramente quebrado, em um momento especialmente complicado para a nação.

Após sete anos da ditadura do general Miguel Primo de Rivera, substituída conturbadamente, em 1931, por um segundo governo republicano com promessas de profundas mudanças sociais, a nação passava por um momento de atraso em todos os setores, com cerca de trinta por cento da população em estado de analfabetismo. O desemprego atingia níveis vergonhosos, a degradação lancinante destruía o espírito, enquanto a fome fustigava impiedosamente o corpo. A comarca de Las Hurdes era a representação mais evidente dessa realidade deplorável dominada pela ignorância, logo, terreno fértil para o misticismo. O local chegou a ser retratado em artigos jornalísticos do início do século vinte como sendo habitado por primitivas criaturas sub-humanas com aspecto de lobo. Nesse contexto Buñuel encontrou a matéria-prima para seu terceiro trabalho, o excelente documentário “Terra sem Pão” (Las Hurdes, tierra sin pan), de 1933, realizado com o apoio financeiro do revolucionário anarquista Ramón Acín, pintor e jornalista, que havia prometido ao amigo cineasta que patrocinaria integralmente um filme seu caso ganhasse o prêmio máximo na loteria. Como nada é por acaso, a sorte sorriu para os dois. Numa análise mais atenciosa, fica latente que o investimento era de profundo interesse do grupo anarquista, revelar ao mundo pela ótica cinematográfica de um diretor que já havia comprovado ter coragem para enfrentar a batalha, as reais condições lastimáveis do povo rural, com o interesse óbvio de provocar repulsa e revolta nos espectadores. Toda a equipe era formada por militantes da causa, inclusive profissionais que já haviam sido presos na tentativa de documentar aquilo que os dignitários da nação não desejavam que se tornasse público. Nesse intuito, a estratégia mais eficiente é que a mensagem fosse passada de forma objetiva, sucinta, potencializando o choque, uma vocação natural que se mostrou parte intrínseca do repertório de Buñuel desde o corte do olho com navalha, o “cartão de apresentação” mais corajoso da história do cinema.

É sensacional a forma como o filme sutilmente trabalha o tema com admirada reverência, elemento perceptível até mesmo na trilha sonora, mostrando os habitantes do local como valentes símbolos de resistência, ao invés do viés de coitadismo que compreensivelmente poderia ter sido utilizado. Em um dos momentos mais impactantes, o narrador revela que o professor da região entrega os pães para as crianças, pedindo para que elas comam na sua presença, por medo de que, em suas casas, o alimento seja roubado pelos pais. As famílias consideradas privilegiadas eram aquelas que tinham um porco ao longo de um ano, refeição que durava cerca de três dias. Carne de cabra era rara, apenas quando alguma perdia o equilíbrio nas ladeiras íngremes e era encontrada morta. Infecções causadas por falta de higiene no tratamento de picadas de cobra, ou o bócio que atinge crianças e adultos, parece não haver escapatória para esses bravos desamparados. A morte é o único evento que perturba a apatia miserável, corpos sendo carregados por longas distâncias para serem enterrados nos poucos cemitérios. Já próximo do desfecho, entramos em contato com anões selvagens e os retardados frutos das frequentes relações sexuais incestuosas, a câmera registra com a clara intenção de explorar o medo do desconhecido, como se utilizasse o misticismo inerente à história do local como fonte narrativa. Mas nada disso é mais triste do que o relato de uma espécie de indústria que premiava a parentalidade irresponsável. Mulheres pobres que faziam dois longos dias de caminhada até a Assistência Pública e pegavam crianças abandonadas, mantendo-as em casa apenas como forma de garantir uma pensão mensal de quinze pesetas, um valor que sustentava essas famílias.

O governo vetou a exibição do filme alegando que manchava a imagem do país e atentava contra o orgulho do povo espanhol, acusando o golpe crítico certeiro desferido pelo cineasta, atitude que quebrou definitivamente a ilusão de Buñuel com relação à república. Apenas quando a Frente Popular centro-esquerdista retomou o poder, em 1936, o documentário receberia uma licença para exibição pública, somente para ser retirado do radar novamente com o início da Guerra Civil. Outro amor de formação, o surrealismo, também começava a ruir em seu idealismo, descontente com o crescente apreço de seus colegas de filosofia pela fama, e, por conseguinte, pela busca da satisfação de outrem, atitude que ia contra os princípios fundamentais do movimento. Em 1934 ele casa com Jeanne Rucar, a mulher que ficaria ao seu lado por cinquenta anos, e começa a trabalhar nos estúdios de dublagem da Warner em Madri.

No ano seguinte, recrutado como produtor executivo pela Filmófono, companhia espanhola pioneira na tecnologia do som, defensora de um cinema popular de gêneros e mercadologicamente competitivo, o jovem se viu novamente confrontado por suas crenças e com medo de ferir sua reputação. Pela primeira vez ele teria controle artístico, como produtor, editor e diretor, mas estava confinado em um sistema regido por um baixíssimo critério. Com dor na consciência, ele aceitou a proposta impondo uma única condição: o total anonimato. Essa condição radical acabou favorecendo o empreendimento, já que os censores, alertas para toda e qualquer movimentação artística do perigoso Buñuel, não se incomodavam com o tal fulano desconhecido que assinava os projetos. A experiência durou cerca de intensos dois anos, período em que ele teve oportunidade de amadurecer profissionalmente, aprendendo na prática a importância de se alcançar o elegante equilíbrio entre os desejos autorais e a demanda de mercado, o caminho que seguiu em seus projetos futuros, a única maneira de uma nação construir uma indústria forte de cinema. Sem essa passagem pela Filmófono, provavelmente ele não teria realizado suas várias obras-primas posteriores e seu nome seria hoje reconhecido apenas como curiosidade exótica pelos estudantes mais dedicados.

O mais importante ao analisar a gênese artística de Luis Buñuel é constatar que em apenas três produções, juntas elas não somavam sequer duas horas, um rapaz nascido na aldeia de Calanda foi capaz de estabelecer mundialmente o seu nome como algo a ser temido pelos conformistas ideológicos, uma personalidade tão íntegra que não tombaria ao sabor do vento. Em um meio que prima pela insegurança, pela necessidade mercadológica da obra ser validada pela quantidade de ingressos comprados, ele era uma valiosa peça de resistência. 

* Texto escrito para o catálogo da "Mostra Luis Buñuel - Vida e Obra", ocorrida na Caixa Cultural Rio de Janeiro, dos dias 23 de Agosto a 04 de Setembro (2016).