terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Chantal Akerman - A Arte de Ser Voyeur de Si Mesma


É de conhecimento público que a escritora Marguerite Duras, na ocasião da primeira exibição de “Jeanne Dielman” (Jeanne Dielman, 23, quai du Commerce, 1080 Bruxelles) em Cannes, no ano de 1975, saiu após a sessão, gritando a plenos pulmões que a personagem era louca, tentando utilizar sua respeitabilidade e o interesse da imprensa por sua opinião como ferramentas para diminuir o esforço da colega. A belga Chantal Akerman, sem perceber, havia confrontado a escritora com uma análise minimalista muito mais eficiente sobre a rotina diária do que o pretensioso “Nathalie Granger”, o tematicamente similar projeto cinematográfico de Duras, lançado alguns anos antes. Em seu rompante nada elegante, a autora acusou o golpe, a aula recebida.

O filme, protagonizado por Delphine Seyrig, hoje é reconhecido de forma justa como uma grande obra-prima, peça fundamental no cinema experimental feminista. São duzentos minutos em que somos conduzidos pela câmera a encarar, em tempo real, as práticas mais banais de uma dona de casa, abusando de longas tomadas sem movimentação, no mesmo padrão de enquadramento, estabelecendo uma aura quase insuportável de monotonia. O título original, com o endereço completo de Jeanne, evidencia que seu ilusório e frágil conforto existencial está inexoravelmente conectado à sua rotina. Quando atende seus clientes sexuais vespertinos, a câmera se mantém abaixo do pescoço, cortando o rosto, simbolizando a negação da lógica/raciocínio, além da ausência de emoção/afeto, sublinhando a imperturbável frieza com que ela conduz os estranhos para seu quarto.

A direção faz o espectador sentir a contundência de um único e moroso minuto na vida daquela mulher, como que o incitando a se desconectar daquela experiência audiovisual, apenas para que, nesse ato inconsciente, ele perceba então que faz parte intrínseca da crítica comportamental que ela propõe. Ao inevitavelmente frustrar o público, forçando cada sequência no limite do tédio absoluto, nós sentimos a mesma frustração de Jeanne com a vida que está levando. Já no segundo dia, sutis modificações em suas atitudes, como uma luz que é esquecida acesa em um ambiente vazio, demonstram que a estrutura psicológica está ruindo. No desfecho, a sensação de nojo com um dos clientes, o elemento desconhecido e amedrontador, faz com que ela tome uma atitude radical, violenta e intempestiva, algo totalmente novo para alguém que já havia se acostumado à indiferença como forma de proteção.


Os rituais excessivamente metódicos da personagem, aquela espécie de coreografia diária em sua “casa prisão”, foram levemente inspirados nos hábitos de sua mãe, Natalia Akerman, uma sobrevivente de Auschwitz, que a cineasta homenageou no belo “Não é Um Filme Caseiro” (No Home Movie), seu último projeto, lançado em 2015. Numa triste ironia, a última expressão de sua arte é um reencontro afetivo com a figura que motivou o seu despertar criativo, um ciclo que se fecha. O documentário reforça a identidade visual da diretora, com raras cenas externas, foco no leitmotiv do espaço restringido por portas e janelas, que atuam como molduras, amenizando sempre a característica naturalmente intrusiva da câmera. O registro despido de qualquer emoção, que se mantém por minutos perturbadores encarando o vazio, essa facilidade de distanciar e ser voyeur de si mesma, uma habilidade que se encaixou perfeitamente em “A Prisioneira” (La Captive), de 2000, a sua livre adaptação para a quinta obra de “Em Busca do Tempo Perdido”, escrita por Marcel Proust. Da mesma maneira, Akerman exercitou essa habilidade no desfecho de “Eu Tu Ele Ela” (Je Tu Il Elle), de 1974, seu primeiro trabalho de ficção, onde, como atriz, protagonizou uma longa e intensa cena de sexo lésbico, uma corajosa afirmação profissional e, acima de tudo, pessoal.

Vale destacar a importância dada em seu conjunto de obra ao silêncio, um recurso que em seus filmes aprisiona o espectador, fazendo com que ele esqueça a câmera e quase respire o mesmo ar dos personagens, incitando tremenda cumplicidade, já que ficamos conhecendo as arestas das personalidades mostradas, os espaços mortos entre as ações, o material humano que normalmente é desprezado em narrativas convencionais. Chantal transforma o ordinário em peça essencial. Até mesmo quando inserida em um projeto mais tradicional, como “Um Divã em Nova York” (Un Divan à New York), de 1996, ela não se rende aos clichês, operando nos diálogos, que beiram o nonsense satírico, uma crítica ao formato padronizado das comédias românticas hollywoodianas. Há uma recusa rígida em satisfazer o público com personagens unidimensionais, com identidades/motivações simplórias. Jeanne é uma dona de casa, uma mãe que se prostitui, e, quando achamos que a conhecemos, ela se mostra uma assassina.

Exatamente por esse diferencial, enquanto feminista, trabalhando com uma equipe técnica onde as mulheres ocupam posições usualmente defendidas por homens, Chantal fez questão de explorar as diversas possibilidades, as variadas facetas da mulher na sociedade. Uma cineasta provocadora em uma indústria que parece, cada vez mais, primar pelo conformismo.

* O texto foi escrito para o catálogo da Mostra Melhores Filmes do Ano 2015, realizado pela ACCRJ no CCBB, como homenagem ao conjunto de obra da cineasta Chantal Akerman. 

sábado, 16 de janeiro de 2016

Sétima Arte em Cenas - "Soberba", de Orson Welles


Soberba (The Magnificent Ambersons – 1942)
Indianápolis, final do século XIX. A família Amberson se revela relutante em acompanhar as transformações que a rodeiam. Uma mulher desperdiça sua vida ao deixar de se casar com sua grande paixão por dois motivos: o primeiro foi em razão de uma serenata na qual houve um pequeno acidente, que fez com que ela se sentisse ridícula e acabasse se casando com um homem que não amava. O segundo foi a interferência do único filho na vida da mãe. Quando este homem, agora viúvo assim como ela, tenta se reaproximar, o filho por pura estupidez bate a porta na sua cara.

               
É triste constatar a estupidez dos produtores que, preocupados com as reações negativas de sessões teste, decidiram retalhar a obra, tomando o controle das mãos de seu criador. A versão que o mundo conhece do filme representa, com sorte, 40% do que o diretor pretendia realizar. E, mesmo assim, após todos os cortes e adições equivocadas, especialmente um desfecho absurdamente incoerente com o tom estabelecido nos primeiros dois atos, ainda é possível reconhecer no produto final os traços de genialidade que, com certeza, atraíram a inveja de muitos colegas. Orson Welles, assim como o nosso Anselmo Duarte, guardadas as devidas proporções, foi vítima de sua extrema competência.

“Soberba” tem uma das cenas mais impactantes da história do cinema, a confissão do arrependimento do filho, George Amberson Minifer, vivido por Tim Holt, arrogante na infância e intensamente egoísta na vida adulta, no leito de morte vazio de sua mãe. Ajoelhado, uma silhueta tomada pelas sombras, excelente fotografia do mestre Stanley Cortez, o homem implora por um perdão que nunca viria.  O nome de sua família, elemento que o fazia acreditar ser tão importante, esquecido nas ruínas de uma nova sociedade industrial. Quando ele sofre um acidente, pouco tempo depois, o grande George Amberson se torna uma mínima nota no jornal, reduzido a ser citado como um dos vários empregados da companhia. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora Versátil, na caixa "O Cinema de Orson Welles", em parceria com a Livraria Saraiva. Também estão incluídos, além de ótimos documentários sobre as produções, os filmes: "O Processo", "A Dama de Shangai", "Verdades e Mentiras", "É Tudo Verdade" e "Grilhões do Passado".

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

"Creed: Nascido Para Lutar", de Ryan Coogler


Creed: Nascido Para Lutar (Creed - 2015)
Com uma estrutura similar a do recente “Star Wars – O Despertar da Força”, a trama reaproveita basicamente o esqueleto narrativo do filme original, com inserções de trechos que remetem aos melhores momentos das sequências. Não é original, nem pretende ser, o diretor/roteirista Ryan Coogler busca homenagear o histórico da franquia, emocionar os fãs antigos e abrir possibilidades para possíveis continuações. O que importa é analisar o grau de eficiência dessa tentativa. O passo mais arriscado, o elemento novo, representado pelo personagem vivido por Michael B. Jordan, o filho de Apollo Creed, é um tremendo sucesso. O ator é competente, tem carisma, e o contexto psicológico em que ele é mostrado, da infância complicada em reformatórios juvenis, passando pela negação da figura paterna, até a oportunidade de ouro no boxe, é uma jornada interessante, talvez não tanto quanto a do cobrador de agiota que se recusa a agredir pessoas fora dos ringues, apaixonado pela tímida atendente de pet shop.

Mas não há necessidade dele ser o foco da atenção, temos a presença do próprio Rocky Balboa, em mais uma entrega honesta de Sylvester Stallone, um ótimo ator que, somente agora, com o aval da premiação no Globo de Ouro e o aplauso da crítica internacional, verá boa parte do público se sentindo finalmente confortável em elogiar. A realidade é que Stallone, além de eficiente roteirista e diretor, já havia provado ser um ator competente em “Os Falcões da Noite”, de 1981, e “Copland”, de 1997, além do fato de ter mais carisma no dedo mindinho, do que muito ator hypado pelos pseudointelectuais. Voltando a abordar o filme, outro ponto arriscado, a substituição do compositor Bill Conti, o responsável por uma das trilhas sonoras mais icônicas da história do cinema. O sueco Ludwig Göransson consegue criar um tema poderoso para o protagonista, uma melodia que reflete a vulnerabilidade emocional de um rapaz no caminho do entendimento do perdão, mas, também, estabelece a mesma pegada inteligentemente simples e empolgante da fanfarra imortalizada por Conti. É uma trilha que complementa musicalmente o legado cinematográfico de Rocky. 

O interesse romântico, assim como a ideia de que o que importa não é vencer, mas, sim, manter-se vivo na luta, revidando os golpes da vida até o soar do gongo final, é parte fundamental na mitologia da franquia. Não são filmes sobre boxe, as lutas são utilizadas como alegorias para conflitos que todos nós vivenciamos no nosso cotidiano. Tessa Thompson vive uma cantora que sofre com perda gradual de audição, um drama que não é tocado pelo roteiro com mão pesada, o que é sempre uma atitude bem-vinda, porém, a jovem é esquecida no terceiro ato, o que prejudica a conexão emocional. Basta você se lembrar da Adrian na luta do original, aquele momento em que ela fecha os olhos por um tempo, enquanto escuta o som dos golpes no corpo de seu namorado, a carga emocional que essa breve cena silenciosa carrega, intensificada pela composição bem estruturada da personagem nos dois primeiros atos. Em “Creed”, a paixão do casal soa um pouco forçada, construída de forma rápida. Fica faltando uma sequência como a da solitária patinação no gelo, onde Rocky e Adrian se mostram vulneráveis. Adonis e Bianca vendem bem o aspecto do desejo natural, mas o companheirismo não é trabalhado de forma orgânica no roteiro.

O ponto mais fraco é a figura insossa do antagonista, o lutador Tony Bellew, sem carisma e defendendo um personagem que não vende ser uma ameaça no ringue, tampouco, uma personalidade que incite no público o necessário ódio. Ele é o oponente mais apático da franquia, conseguindo bater a insignificância representada por Tommy Morrison e Mason Dixon. Com o senso de ameaça existindo apenas em teoria, sobra para o público focar sua atenção na relação que se forma entre Adonis e Rocky, o coração pulsante do filme. Nesses momentos de interação, com inserções muito eficientes de humor, é que “Creed” se torna grande, mais do que um filme, um evento da cultura pop. Sem revelar muito, o que me impossibilita de aprofundar a análise sobre a amizade dos dois, afirmo que as lágrimas me tomaram de assalto em, pelo menos, três sequências. O respeito com que Coogler abordou a mitologia do personagem, mostrando conhecer muito bem cada curva da jornada dos seis filmes anteriores, transparece especialmente nessas cenas, nunca resvalando no sentimentalismo barato.

É um reboot disfarçado? Sim, em vários aspectos. Mas quisera todos os filmes originais que são produzidos, muitos deles direcionados ao umbigo dos realizadores, exalassem pelo menos 1/3 desse profundo amor pelo próprio material, ou fossem medianamente eficientes em suas propostas. “Creed”, assim como os melhores filmes na franquia, é uma experiência emocional incrivelmente satisfatória. 

domingo, 10 de janeiro de 2016

"Spotlight - Segredos Revelados", de Tom McCarthy


Spotlight - Segredos Revelados (Spotlight - 2015)
Um dos sintomas de preguiça intelectual entre profissionais da crítica é comparar esse filme correto, honesto, com o excelente “Todos os Homens do Presidente”, de Alan J. Pakula, apenas por tratar de um tema similar. É óbvio que o filme quer desesperadamente ser comparado, faz todo o esforço possível nesse sentido, mas não podemos aceitar tal absurdo. O trabalho anterior do roteirista/diretor Tom McCarthy foi “Trocando os Pés”, uma horrorosa comédia protagonizada por Adam Sandler. O seu momento mais interessante foi como um dos criadores da história da animação “Up: Altas Aventuras”, da Pixar. Seus primeiros filmes, “O Agente da Estação” e “O Visitante”, são simpáticos e problemáticos, nada mais que isso. 

A estrutura do roteiro de “Spotlight”, o seu maior problema, é calcada no know-how televisivo do co-roteirista Josh Singer, copiando na cara dura a obra-prima já citada, tem cara de piloto elegante (até mesmo na opção frequente pelos enquadramentos fechados), funciona dramaticamente, ainda que com um ritmo pra lá de canhestro, aborda um assunto polêmico importante, mas está muito longe de ser brilhante. Cada personagem na equipe de jornalistas serve especificamente a uma função narrativa, unidimensionais seguidores de pistas, a mesma cartilha dos modernos filmes de super-heróis, seguindo as instruções do manual de Syd Field, ao invés de agirem de forma orgânica, como pessoas reais. Eles estão compenetrados unicamente na realização bem feita do trabalho, assim como os super-heróis querem salvar o mundo, uma visão simplista que funciona numa adaptação de quadrinhos, mas não em uma trama baseada em um evento jornalístico real. Com exceção do personagem de Mark Ruffalo, sempre um ator competente, não há interesse em inserir conflitos internos, falhas e dúvidas, pontos que humanizem as tiras de cartolina que passeiam pelos cenários. O elenco pouco pode fazer com a qualidade do material que precisam defender.

Não há intensidade tangível nas situações, apenas atores afirmando diversas vezes a existência dela, com o excesso de diálogos expositivos mascarando a total ausência de estilo/personalidade do projeto. O tema é explosivo, o esforço da igreja católica em proteger seus padres pedófilos, mas a execução consegue drenar esse potencial evitando qualquer questionamento mais profundo. É, quando analisado com atenção, o fruto do cinema industrial norte-americano que é realizado hoje em dia, pensado para a faixa etária que compra ingresso, o público adolescente. Roteiros como “Todos os Homens do Presidente”, “Z”, “Rede de Intrigas”, entre tantos outros clássicos modernos, eram escritos para adultos. O barulho que está sendo feito é hype motivado pelas premiações, essas festas movidas por lobby, escolhas que pouco, na realidade, quase nada, dizem sobre a qualidade dos filmes. 

sábado, 9 de janeiro de 2016

Cine Noir - "A Dama de Shangai", de Orson Welles


A Dama de Shangai (The Lady from Shanghai – 1948)
Michael O'Hara (Orson Welles) é um marinheiro que vê a bela Elsa Bannister (Rita Hayworth) passeando de charrete no parque. Ele a ajuda quando ela é assaltada por três homens, levando-a até seu carro. No dia seguinte Michael recebe a visita de Arthur Bannister (Everet Sloane), marido de Elsa e um advogado criminalista consagrado, que deseja que ele trabalhe em seu iate durante uma viagem que o casal fará. Inicialmente relutante, ele aceita o trabalho devido à atração que sente por Elsa. Na viagem também está George Grisby (Glenn Anders), sócio de Arthur, que oferece a Michael US$ 5 mil caso ele o mate.


Mesmo tendo sido prejudicado pelo produtor Harry Cohn, com inserção de trilha sonora onde o silêncio seria mais sábio, além de cenas editadas a ponto de confundirem ainda mais a trama, o produto final consegue ser um testamento da genialidade de Orson Welles, um noir visualmente único, praticamente um deboche do diretor com as convenções do gênero, com direito a uma sequência farsesca, quase onírica, passada em um tribunal.

O desfecho, o jogo de espelhos, sempre é lembrado pelos críticos, já que é a execução de estilo menos sutil, porém, há grande mérito em cenas menores, como aquela que inicia o filme, o primeiro encontro de Michael e Elsa, até o momento em que ele a resgata das mãos de três bandidos, conduzindo a jovem até a casa dela. A iluminação, os olhares, a maneira teatral como ela pede ajuda, complementada pela maneira antinatural com que ele edita a luta, abusando da aceleração do tempo e do corte de frames, a carruagem convenientemente vazia ao final, a divisão de classes simbolicamente evidenciada quando ele está conduzindo o veículo, em suma, a forma como toda a sequência é montada deixa claro que a inteligente mulher armou aquela situação para capturar o tolo e ingênuo marinheiro. Em revisão, sabendo o desenrolar da história, essa cena se torna ainda mais impressionante. A riqueza visual na construção dessa sequência inicial é muito mais interessante que o celebrado desfecho.

Rita Hayworth vive uma femme fatale diferente do que se costuma ver no gênero. Não há traço de ambiguidade em suas atitudes, não há ganância, sua voz é mansa, fria, controlada. Ela é uma mulher que foi vítima de tanto abuso psicológico pelo marido, que acabou desprovida de qualquer noção mínima de empatia.

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora Versátil, na caixa "O Cinema de Orson Welles", em parceria com a Livraria Saraiva. Também estão incluídos, além de ótimos documentários sobre as produções, os filmes: "O Processo", "Verdades e Mentiras", "Grilhões do Passado", "Soberba" e "É Tudo Verdade".