sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Cine Giallo - "Seis Mulheres Para o Assassino", de Mario Bava


Seis Mulheres Para o Assassino (Sei donne per l’assassino – 1964)
Isabella, uma jovem modelo, é assassinada por uma misteriosa figura mascarada numa Casa de Moda, pertencente à Condessa Cristiana. Quando o namorado de Isabela se torna suspeito do assassinato, o diário da vítima, contendo informações que relacionem a jovem ao assassino, desaparece. 


É interessante constatar uma das possíveis inspirações para o detetivesco Rorschach, de “Watchmen”, no assassino sem rosto dessa ótima incursão de Mario Bava no giallo, subgênero que ele havia criado, dois anos antes, com “A Garota Que Sabia Demais”, também conhecido como “Olhos Diabólicos”. A ausência de expressão, a teatralidade das luvas de couro pretas, a frieza na execução de seus atos, uma composição fiel ao espírito daquelas obras policiais psicologicamente despretensiosas, livrinhos de bolso de apelo imediatista, não exatamente de capas amarelas como a dos italianos, que comprávamos com trocados nas bancas de jornal. O triste é pensar que, apesar da beleza experimental inserida em cada frame do projeto, muitos críticos ainda encontrem argumentos para o menosprezo com o gênero, aplaudindo outros, tão criativos quanto, como o noir.

O trabalho com cores, sempre um atrativo especial nas obras do diretor, vive aqui um momento de glória, sendo impossível destacar apenas uma, dentre as várias sequências que poderiam facilmente ser emolduradas. Adicionando uma boa dose de sadismo ao tempero de sua tentativa anterior, além de um bom MacGuffin na figura do diário que incrimina praticamente todos os personagens, o roteiro utiliza os crimes como desculpa para o diretor pensar esteticamente sua coreografia do medo, conseguindo transmitir visualmente, com ajuda da atmosfera estabelecida pela iluminação, cenas que potencializam a dança da morte, fazendo com que esqueçamos, enquanto público, o desinteresse aparente em firmar as motivações por trás das ações dos personagens, característica que se tornaria usual nos slashers americanos, que, sem o estímulo visual inteligente e refinado do realizador italiano, não passavam de tola diversão inofensiva.

Como ocorria com Kubrick, por exemplo, a câmera de Bava transformava uma trama simples em um material interessante em diversas camadas. 

* O filme está sendo lançado numa versão restaurada em DVD, pela distribuidora “Versátil”, na caixa “Giallo”, que conta também com: “Tenebre”, “O Estranho Vício da Sra. Wardh” e “O Segredo do Bosque dos Sonhos”, além de vários documentários muito interessantes.

"Depois da Tormenta", de Curtis Bernhardt


Depois da Tormenta (Payment on Demand – 1951)
Joyce (Bette Davis) é uma dama da sociedade rica, cujo marido infeliz quer o divórcio. Ela começa a pensar nos momentos que viveu ao seu lado, refletindo sobre as engrenagens dessa relação.


Bette Davis se saía melhor quando operava sob o comando de um diretor com personalidade, que aparava suas arestas, como foi o caso de seus trabalhos com William Wyler. Curtis Bernhardt foi o responsável por um dos melhores trabalhos da atriz: “Uma Vida Roubada”, de 1946, e conseguiu extrair dela mais um impecável estudo de personagem. A estrutura é melodramática, com recursos datados, especialmente no terceiro ato, além de certa inconstância nas motivações da manipuladora protagonista, porém, a forma inteligente como o roteiro trabalha os flashbacks, mostrando várias fases no relacionamento do casal, numa anatomia das causas da separação, compensa qualquer falha. Hoje, a temática pode parecer simples, mas, em sua época, a postura da trama com relação ao divórcio, sem se debruçar em qualquer viés sensacionalista, deve ter sido impactante.

O comportamento da sociedade e, especialmente, das filhas, foge ao padrão moralista e machista do período. O filme foi finalizado antes da estreia de “A Malvada”, porém, o estúdio RKO adiou pacientemente o lançamento para aproveitar o vácuo do sucesso da obra de Mankiewicz. A atuação de Davis eleva a qualidade do material escrito, como sempre, com sua facilidade em resumir toda a agressividade dos diálogos em seu rosto, uma fúria contida. O mais interessante, um elemento que continua atual, é a crítica à hipocrisia da alta sociedade, que esconde suas frustrações e o vazio existencial com festas intermináveis e apreço exagerado pela adulação, uma pressão social que só existe na mente daqueles que optam pela escravidão a esses grilhões de futilidade. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".

"O Julgamento de Viviane Amsalem", de Ronit e Shlomi Elkabetz


O Julgamento de Viviane Amsalem (Gett - 2014)
Como roteirista, eu sempre acreditei que o melhor caminho criativo é a restrição do ambiente em que ocorrem os conflitos dos personagens, o clássico conceito do “menos é mais”, como no caso da obra-prima de Sidney Lumet: “12 Homens e Uma Sentença”. E o trunfo dessa produção israelense reside na subversão do cenário usual dos dramas de tribunais, trabalhando com eficiência a claustrofobia de forma interna, palpável no desespero da esposa, já que o elemento externo, a sala dos juízes rabinos, iluminada e em tons brancos, não poderia aparentar ser mais confortável e harmoniosa. 

A pressão está confinada às expressões angustiadas da protagonista, interpretada por Ronit Elkabetz, que dirige o filme com seu irmão, Shlomi, com uma segurança invejável, mantendo a tensão em suas quase duas horas de diálogos, praticamente um teatro filmado. Os alívios cômicos brotam de forma inteligente no roteiro, com a função de salientar o absurdo da situação, a estupidez do machismo dominante em quase todas as ideologias religiosas. Em uma das cenas, o próprio irmão da personagem, ao testemunhar em sua defesa, inicia dizendo que, por mais que a ame, o marido dela canta tão bonito na sinagoga, parece até um pássaro, um homem perfeito. Ele complementa, para o choque dela, que já está vivenciando esse pesadelo burocrático há anos: “Uma mulher precisa ter limites”. As leis são criadas pelos homens, que se protegem em sua estupidez e insegurança.

O marido, uma amarga incógnita, não se preocupa em fornecer sequer um argumento para sua insistência no matrimônio, chegando ao ponto de, numa demonstração de total consciência do favoritismo da justiça, simplesmente se ausentar dos apontamentos no julgamento. Um dos juízes afirma, em uma cena importante, após escutar a reclamação do advogado da esposa, por ele ter questionado suas ações: “Todas as vidas dos homens estão em julgamento”. Esse julgamento patriarcal que abusa de conveniências, o que se escora no subjetivo elemento divino, é um dos alvos da trama, que expõe o ritual desumano de divórcio naquela sociedade, encabeçado por aqueles que acreditam deter uma autoridade superior, sempre posicionando a mulher abaixo de um mínimo nível de dignidade, precisando do consentimento do marido para obter a liberdade. Um dos muitos acertos da produção é nunca questionar esses procedimentos, estimulando a visão crítica que nasce da simples constatação, às claras, da tremendamente injusta escalada de absurdos inerentes ao fundamentalismo religioso. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Devo Tudo ao Cinema - S01E05 - É Possível Fazer Cinema Sem Recursos? (1 de 5)

É possível fazer cinema sem recursos? Nessa primeira parte do especial, dicas sobre como facilitar o processo de escrita e filmagem.


terça-feira, 1 de setembro de 2015

"Procurando Sugar Man", de Malik Bendjelloul


Procurando Sugar Man (Searching for Sugar Man – 2012)
O artista vive do material que nasce de seu sacrifício diário, ele se alimenta do resultado lúdico de sua total entrega emocional, uma espécie de vampiro autossuficiente. O sucesso, o lucro, os aplausos, são mais benéficos àqueles que se modificam ao experimentarem o produto, os receptores generosos e dedicados que aprenderam cedo em suas vidas a importância essencial do acúmulo de cultura, especialmente quando se percebem inseridos, padronizados numa linha industrial de pensamento, em uma sociedade que se perde cada vez mais na mediocridade narcisista do materialismo imediatista. O reconhecimento de um artista é apenas a forma mais justa de gratidão para com aqueles que verdadeiramente pavimentam a estrada criativa que inspira os seres humanos em suas realizações mais nobres.

Sixto Rodriguez, por muitos anos, acreditou ter sido irrelevante, totalmente desconhecido em seu país de origem, mas, na África do Sul, ignorava que era um músico idolatrado e que vendeu mais que Elvis Presley, responsável, com suas letras, por catalisar modificações políticas e comportamentais significativas nesse povo tão distante de sua realidade. Após dois discos que fracassaram em vendas na década de setenta, ele, com a integridade daqueles que não vivem de uma imagem mentirosa, continuou trabalhando, encontrando formas de ser útil à sua comunidade e, de forma modesta, pagar suas contas mensais. Sua mão calejada, o fruto de seus trabalhos como pedreiro, toca a guitarra com a delicadeza de um poeta; ele se transforma já nos primeiros acordes; morre a dura realidade e desperta o sonho.

O diretor Malik Bendjelloul consegue executar essa história fantástica em um ritmo preciso, sem pretensiosa gordura extra, como os melhores documentários, numa escalada de emoção que conduz a uma catarse inesquecível em seu desfecho. É lindo enxergar nos olhos desse filósofo a recusa em aceitar os mimos provenientes de seu resgate artístico, buscando compreender o que mudou no mundo, já que ele seguia sendo o mesmo.

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Versátil”, em parceria com a “Livraria Cultura”, em uma ótima edição, com um rico documentário, entrevistas e até um trecho de uma apresentação contemporânea do artista.