terça-feira, 11 de agosto de 2015

Nos Embalos do Rei do Rock - "Saudades de Um Pracinha"

Entrevista exclusiva com Ginger Alden, a última namorada de Elvis / Introdução do especial:
Ama-me com Ternura:
A Mulher Que eu Amo:
O Prisioneiro do Rock:
Balada Sangrenta:


Elvis havia conseguido provar aos críticos seu talento como ator em seu filme anterior: “Balada Sangrenta”, mas perdeu dois anos sendo domado, acorrentado ao serviço militar, longe de seu público. O cenário musical havia mudado bastante, Chuck Berry estava preso, Little Richard estava num monastério, Buddy Holly estava morto. O jovem viu a necessidade de se reinventar enquanto artista, expandindo seu carisma para além da atitude roqueira, demonstrando abrangência vocal ao entoar a operística “It’s Now or Never” (O Sole Mio) e abraçando o tipo de produção cinematográfica que poderia se encaixar perfeitamente ao estilo de seu ídolo Dean Martin, a comédia musical romântica. Com “Saudades de Um Pracinha”, Elvis deixou o nicho de rebeldia adolescente e conquistou um público que era formado por crianças, pais e avós.


Saudades de Um Pracinha (G.I. Blues – 1960)
Tulsa McLean (Elvis) é um soldado cujo maior sonho é ser dono de um "Night Club". Para conseguir o valor em dinheiro para que ele possa abrir o seu empreendimento, ele aceita participar de uma aposta, onde, na qual, ele deve passar uma noite com uma bailarina famosa (Juliet Prowse) no local, porém, os dois acabam se apaixonando.


Com o sucesso avassalador de “Ama-me Com Ternura” (Love Me Tender – 1956), uma produção de baixo orçamento, os estúdios perceberam que havia um forte potencial financeiro nos projetos direcionados aos adolescentes americanos. Os produtores entenderam o clamor dos jovens, interessados principalmente em retirá-los de frente da televisão, essa invenção que estava tirando o sono dos executivos de cinema, focando toda atenção nesse cantor extremamente carismático que os levava a assistir diversas vezes suas produções, qualquer que fosse o nível do entretenimento em que estivesse inserido.

“G.I. Blues” era o quinto filme na carreira do cantor, um retorno muito aguardado pelos fãs e curiosos, algo que motivou até mesmo um especial televisivo onde Frank Sinatra se encarregava de dar as boas-vindas ao pracinha roqueiro. A Paramount não poupou despesas, aceitando o risco de que os jovens americanos já não estariam mais tão interessados no rapaz de Tupelo, Mississippi. O produtor Hal Wallis se encarregava de filmar algumas locações na Alemanha, enquanto Presley ainda tinha seis meses de serviço militar pela frente. O investimento era considerável, acreditando que a ausência do astro na mídia durante aquele longo tempo teria servido para aumentar o mito do artista. O diretor escolhido foi o veterano Norman Taurog, que havia sido um dos responsáveis pelo clássico “O Mágico de Oz”, além de ter comandado comédias de Bing Crosby e da dupla Martin/Lewis, como “O Meninão” e “O Rei do Laço”. Em entrevistas à época das filmagens, o diretor louvava a educação do jovem e sua sensibilidade como bom ouvinte, qualidade essencial de um bom ator. Sua relação com Elvis foi tão bacana que ele acabaria dirigindo mais oito produções protagonizadas pelo Rei do Rock.

O conceito inicial previa uma comédia musical com uma trilha sonora que abraçasse diversos gêneros, evidenciando a versatilidade de um cantor que havia aprimorado bastante seu talento desde seus primeiros escandalosos rebolados em rede nacional. Com impecável entrega, Elvis revisitou o rock embrionário de Carl Perkins “Blue Suede Shoes”, o rockabilly diluído de “Shoppin’ Around”, o bate-estaca divertido de “Frankfurt Special”, a balada romântica em “Doin’ the Best I Can” e “Pocketful of Rainbows” (de Ben Weisman e Fred Wise), e, versátil como nunca antes, foi da música de ninar “Big Boots” a uma versão da clássica opereta “Barcarola” de Jacques Offenbach: “Tonight’s So Right For Love”, passando com desenvoltura por “Wooden Heart”, baseada em uma tradicional canção folclórica alemã, além da marchinha militar “Didja Ever” que finaliza a obra, sempre com um sorriso contagiante no rosto. É interessante notar o gradativo desinteresse do astro ao longo de sua década dedicada quase que exclusivamente à Hollywood, especialmente após 1965, onde era cada vez mais raro perceber alegria genuína em suas atuações. A ótima seleção musical é encabeçada por “G.I. Blues”, uma das pérolas subestimadas de Elvis na década de sessenta, especialmente o registro do sexto take, a versão que deveria ter sido a master, lançada comercialmente em uma caixa de CD’s alguns anos atrás.

Vale destacar a ótima fotografia, de Loyal Griggs, responsável também pela obra-prima “Os Brutos Também Amam”. O filme foi um sucesso de bilheteria, tendo recebido críticas favoráveis e até uma importante indicação ao “Writers Guild of America”, como “Melhor Roteiro de Musical”, além da indicação ao Grammy como “Melhor Trilha Sonora”. A parceria em cena com a bela dançarina Juliet Prowse pode ser considerada apenas um degrau abaixo da química que ele alcançaria anos depois com Ann-Margret em “Amor a Toda Velocidade” (Viva Las Vegas – 1964). Ela era namorada de Frank Sinatra na época, o que não intimidou o jovem, que teve um caso com ela durante as filmagens. Era indiscutível que aquele garoto rebelde que havia revolucionado o mundo com sua música havia se tornado um adulto sofisticado, um genro que toda mãe gostaria de ter. Mas essa constatação não diminui o brilho de seu carisma em cena, capaz de carregar nas costas uma produção.

A Seguir: “Estrela de Fogo” (Flaming Star)

"O Melhor Pai do Mundo", de Bobcat Goldthwait


O Melhor Pai do Mundo (World’s Greatest Dad – 2009)
Robin Williams, com exceção de suas breves participações em “Uma Noite no Museu” e “Happy Feet”, estava amargando uma longa sequência de fiascos. O último filme realmente interessante em que havia participado era “Insônia” (2002), de Christopher Nolan, onde teve mais uma chance de demonstrar sua competência em dar vida a personagens sombrios, algo que já se mostrava presente no subestimado thriller “Retratos de Uma Obsessão”. Exatamente por causa dessa maré de indiferença, poucos foram os que perceberam essa pequena pérola, uma tremenda injustiça, já que se trata de um dos filmes mais interessantes em seu gênero, verdadeiramente original, com uma direção corajosa de Bobcat Goldthwaith, comediante stand-up, conhecido pela geração anos 80 como o pirado Zed, de “Loucademia de Polícia”.

Interpretando uma espécie de antítese de seu personagem em “Sociedade dos Poetas Mortos”, Williams vive um professor de poesia frustrado, que sempre sonhou em ser um escritor valorizado. O seu filho adolescente, intensamente grosseiro e tarado, acidentalmente se suicida em uma experiência sexual, fazendo com que o pai, pensando no legado do filho, decida escrever um falso bilhete de despedida, modificando a cena do acidente. A reviravolta ocorre quando o texto acaba se tornando um sucesso em sua escola, inspirando os alunos a enfrentarem seus medos e suas fragilidades. O garoto que era odiado, desprezado por todos, passa a ser o ídolo da garotada. A emoção na cena em que o pai encontra o filho asfixiado é potencializada em revisão, já que traça óbvios paralelos com a morte do ator, que, numa cena posterior, chega a afirmar que o suicídio é uma solução permanente para um problema temporário.

A interpretação contida transparece a ressonância do tema no homem por trás do personagem. Abaixo da camada de humor, vários pontos são levantados, como a necessidade de acreditar em sua vocação, além da imediata beatificação dos mortos em nossa sociedade. A obra também oferece uma das melhores utilizações de uma canção popular no cinema recente, inserida inteligentemente em seu contexto, no bonito desfecho ao som de “Under Pressure”, a inesquecível parceria de David Bowie e Queen. A cena, um literal mergulho apoteótico e libertário, onde o homem, despido de todo o verniz hipócrita de uma existência escravizada pela opinião dos outros, celebra sua vitória interna, o ato de ter abraçado a dura verdade, sorrindo como um bebê que havia acabado de nascer. 

Chumbo Quente - "Um Clarim ao Longe"


Um Clarim ao Longe (A Distant Trumpet – 1964)
O Tenente Hazard, que acabou de sair da Academia de Westpoint, chega ao Território do Arizona pelo quente e empoeirado Fort Delivery. Aterrorizado pela relaxada disciplina da tropa, ele restringe seus privilégios e os submete a árduo rigor. Ao mesmo tempo, ele se acha apaixonando-se por Kitty, a esposa de seu oficial comandante. Esse romance fica complicado quando sua noiva de Back East decide fazer-lhe uma visita. 


Nem mesmo a atuação fraca do péssimo Troy Donahue prejudica essa nobre despedida do diretor Raoul Walsh, uma digna incursão no subgênero dos filmes de Cavalaria, obras de faroeste em que o foco está mais direcionado para a relação de camaradagem entre os homens da lei. Ele ainda tentou realizar “Monte Walsh”, que acabou se tornando “Um Homem Difícil de Matar”, dirigido por William Fraker. É bonito perceber que o cineasta, já no crepúsculo de sua vida, mantinha o entusiasmo pela criação, exalado em cada sequência, trabalhando o tema da igualdade de direitos, especialmente o do índio americano, que recebe nesse projeto uma apaixonada defesa.

Ele queria John Wayne como protagonista, porém, objetivando a imediatista atenção do público jovem, os produtores tomaram a decisão mais equivocada, escalando o canastrão Donahue como o honrado tenente Matt Hazard. Aproveitando a química do jovem com sua futura esposa Suzanne Pleshette, no sucesso popular: “O Candelabro Italiano”, lançado alguns anos antes, o estúdio considerou interessante repetir a dose, em uma ambientação completamente diferente. O ponto alto, algo que confirmei nessa revisão, é a participação da bela e pouco lembrada Diane McBain, como a noiva que percebe o despertar da paixão do seu amado pela gentil viúva, vivida por Pleshette. Outro detalhe importante, um diferencial que agrega maior mérito à obra, é que Walsh fez questão de que, nas cenas, os índios falassem em sua própria língua. Kevin Costner faria o mesmo, décadas depois, em “Dança com Lobos”.

A fotografia de William Clothier, habitual colaborador de John Ford, impressiona nas sequências de ação filmadas no Novo México. “Um Clarim ao Longe” é um faroeste revisionista, atitude simbolizada na cena do julgamento, onde o general afirma que a imprensa livre e o eleitor são as únicas armas possíveis na luta para que os índios recebam um tratamento digno.

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Studio Classic Filmes".

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

"O Conto da Princesa Kaguya", de Isao Takahata


O Conto da Princesa Kaguya (Kaguya-hime no Monogatari - 2013)
Como se fosse necessário ainda citar algum exemplo da total irrelevância do Oscar, principalmente enquanto parâmetro de qualidade, eu acredito que bastaria mencionar a derrota ultrajante dessa refinada obra-prima dos estúdios Ghibli para a grande bobagem esquecível que é “Operação Big Hero”. O diretor/roteirista Isao Takahata, responsável pela pérola “O Túmulo dos Vagalumes”, opta por realizar uma adaptação extremamente fiel da mais antiga narrativa folclórica japonesa existente, “O conto do cortador de bambu”. 

A beleza não reside na trama, sem novidade alguma para aqueles que já conhecem a história, mas, sim, na forma como ela é contada, utilizando uma técnica de animação que prima pela simplicidade, inspirada na pintura japonesa feita com tinta de caligrafia, o Sumi-ê, que leva em consideração o sentimento do artista em sua execução, tentando deixar transparecer a alma e a harmonia interna, elementos mais importantes do que o tema que o artista está trabalhando. Como forma de perceber a riqueza desse estilo, analise como o traço é classicamente bonito e suave, por exemplo, nas cenas em que vemos a bebê adorável aprendendo a andar, contrastando brutalmente com o traço borrado nas cenas em que a protagonista está emocionalmente perturbada. 

E, inserido no contexto da narrativa, vale destacar a crítica que é feita à submissão feminina na sociedade, a pressão que a jovem sofre dos pais, que entendem o ritual do casamento como a óbvia definição da felicidade, quando, na realidade, ela quer apenas conviver com seus amigos de infância, correndo descalça pelo campo, sorrindo e chorando sempre que esses sentimentos brotarem espontaneamente. As regras dizem que, no intuito de conquistar seus ricos pretendentes, ela deve aprender a conter todos os rompantes de emoção. Quando alguém aprende a andar imitando os movimentos das rãs, tendo a natureza, com sua maravilhosa imprevisibilidade, como modelo na vida, acaba se tornando impossível a aceitação conformista de qualquer ritual criado e imposto pelos humanos. 

É forte a cena, emoldurada pela linda trilha sonora de Joe Hisaishi, em que enxergamos a alma da menina se quebrar, enquanto ela tem suas sobrancelhas raspadas, em preparação para uma maquiagem pesada que a impeça de verter lágrimas. Ao debochar da necessidade de escurecer os dentes, retirando facilmente a tinta numa escovada, para o espanto de sua colega, Kaguya evidencia quão frágil é a teatralidade que, ainda hoje, move o mundo, nos mais variados setores. A relevância dessa discussão é muito atual, basta estudar sobre a princesa japonesa Masako Owada, a “princesa triste”. Por baixo da camada de fantasia, o que me cativou foi a inteligência de transmitir valores tão importantes, de forma tão ousadamente direta, em um projeto que tinha tudo para ser compreensivelmente convencional.

domingo, 9 de agosto de 2015

Você já caiu num trote hoje?

Não sei exatamente a razão, pode ser algum tipo de superpoder especial mutante, mas consigo perceber o subtexto manipulativo em várias situações. Fenômenos midiáticos que invadem as redes sociais e, em pouco tempo, se espalham como fogo numa floresta, mobilizando uma massa que não parece interessada em questionar suas ações, apenas seguir a manada. Desconhecidos sem carisma que, da noite para o dia, são vendidos como ídolos em suas áreas. Com uma variação do Olho de Thundera, eu já visualizo com clareza o trambique de marketing, a negociação nada artística, os reais interesses que estão por trás daquela armação. Uma espécie de olho treinado para constatar o óbvio. E esse teatro está ficando cada vez menos sutil, ou o público está ficando menos esperto.

Usando um exemplo recente, a afirmação pública do diretor James Cameron, elogiando generosamente o novo projeto da franquia "O Exterminador do Futuro". Na hora, sem pensar duas vezes, enxerguei a razão: o filme é uma bomba nuclear. É como a Globo Filmes divulgando nos intervalos comerciais da emissora as opiniões agradáveis dos espectadores na saída da sessão dos filmes da Xuxa, uma jogada desesperada de marketing. Tudo que é muito ruim, acreditem no que digo, investe muito mais em propaganda. Quando o astro de uma franquia amada internacionalmente, alguém que nunca foi conhecido por ser desenvolto com a imprensa, decide se tornar uma variação do rapaz das propagandas das Casas Bahia, aparecendo para divulgar o projeto até como animador de festa infantil, abram os olhos, é furada na certa. Quando a produtora despeja uma quantidade absurda de spots/trailers, revelando praticamente todas as cenas importantes de um filme, não há dúvida, nem mesmo o diretor confia no material.

Eu acompanho alguns youtubers divertidos, o tipo de entretenimento rápido que relaxa o cérebro entre um texto e outro na madrugada. Semanas atrás, alguns deles começaram a repercutir um desafio, uma variação da brincadeira do compasso, tal de "Charlie, Charlie", onde a pessoa se comunica com espíritos, esses desocupados, utilizando dois lápis e um pedaço de papel. Na mesma hora, meu cérebro começou a trabalhar, uma espécie de sentido de aranha, pensei: isso é uma estratégia de marketing para o lançamento futuro de algum filme de terror. E era exatamente isso. Nessa semana, estava lendo sobre o futuro lançamento de "A Forca", dos mesmos produtores de "Atividade Paranormal". A brincadeira paranormal que aterrorizou crianças no Brasil, fez com que alunos de Manaus passassem mal e até motivou um exorcista espanhol oportunista do Vaticano, do nível de um entrevistado do programa "Superpop", a alertar as pessoas a respeito dos perigos envolvidos, não passava de uma estratégia de marketing para o lançamento de um produto que, nem preciso ter superpoderes para prever, será uma tremenda bomba.

As pessoas não estão mais exercitando o questionamento, aceitando que o artista "x" é o mais querido do Brasil, quando, na realidade, ele apareceu do nada, out of the blue, como um truque de mágica. Analisando a fundo, você descobre que ele é namorado do diretor da empresa. Nem preciso citar muitos exemplos, quem acompanha as redes sociais já consegue identificar. É tão patético quanto reality shows, que proliferam sobre os mais variados temas, com sua realidade artificial de novela mexicana. Alguém realmente acredita que esses programas são fincados em algum senso de realidade? O mestre mandou todo mundo vestir uma camiseta amarela e postar: #SomosDesocupados. A sociedade precisa urgentemente ler mais, praticar a arte do questionamento no dia a dia, para que o precioso tempo não seja ocupado como joguete de marketeiros, nas mais variadas áreas, com os mais diversos interesses.