quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A Psiquiatria no Cinema

Talvez o público brasileiro ainda não conheça como deveria Nise da Silveira, psiquiatra alagoana admirada por Carl Jung, que combateu os agressivos métodos convencionais de tratamento de doentes mentais: lobotomia, insulinoterapia, confinamento e eletrochoque, oferecendo uma opção linda, a cura pela arte. Como todos aqueles pioneiros que ousam fugir do senso comum, ela teve que enfrentar vários obstáculos no próprio sistema, porém, o seu legado eterno em sua área continuará sendo celebrado, décadas após o silenciar de todos aqueles que se opuseram ao seu estilo. A sua história está sendo contada no filme “Nise”, do diretor Roberto Berliner, protagonizado por Gloria Pires.

O cinema sempre abordou o tema, desde o clássico mudo do início da década de vinte: “O Gabinete do Dr. Caligari”, passando pela pérola de Hitchcock: “Quando Fala o Coração”, o extremamente popular “Um Estranho no Ninho”, de Milos Forman, até o mais recente: “Ilha do Medo”, de Martin Scorsese. Selecionei duas dicas, dois tesouros que merecem maior reconhecimento, afinal, esta é uma das funções essenciais de uma lista, direcionar o foco da luz para os cantos escuros da memória cultural.


A Cova da Serpente (The Snake Pit – 1948)
Virginia, vivida por Olivia de Havilland, sofre um ataque de nervos logo após seu casamento, sendo internada num manicômio. Tudo piora quando a enfermeira-chefe ameaça transferir ela para a “cova das serpentes”, o Pavilhão 33, onde são colocados os pacientes sem esperança de cura. Com a ajuda do marido e do psiquiatra, ela se recupera, mas é testemunha dos maus tratos e das péssimas condições às quais as outras internas estão submetidas. Analisando a obra no contexto de sua época, ela se torna essencial para psicólogos que queiram enxergar como a arte refletia o processo inicial de revolta pública na luta antimanicomial. A psicoterapia como filosofia de vida, o conceito de transferência, evidenciado na lucidez da protagonista ao entender-se curada por não se sentir apaixonada por seu psiquiatra. Vale destacar também a defesa da psicanálise como ferramenta importante no tratamento dos pacientes mais graves, dentro de instituições psiquiátricas, algo que, ainda hoje, é discutido na área. O roteiro retrata diversas variações do estado psicótico, de forma quase didática, emocionando ainda mais pelo pioneirismo de sua abordagem direta.


Paixões Que Alucinam (Shock Corridor – 1963)
Poucos diretores foram tão corajosos quanto Samuel Fuller. Ele apertava o dedo nas feridas abertas da sociedade, de forma crua, impiedosa. Não deixe o título nacional te enganar, a trama, que coloca o jornalista Johnny Barrett (Peter Breck) simulando insanidade para ser internado em um hospício e investigar o misterioso assassinato de um louco cometido dentro da instituição, utiliza a interação do personagem com os suspeitos como forma de criticar manchas históricas norte-americanas, como a Guerra Civil, a paranoia nuclear e o racismo. Vale salientar a fantástica sequência do ilógico temporal dentro da instituição, algo que parece saído da mente de Luis Buñuel. Com um desfecho marcante, evidenciando no protagonista os resquícios de mais uma mancha histórica, a obsessão pelo frágil sonho americano, representado pelo prêmio Pulitzer que motiva o profissional, o filme permanece como uma joia rara, o tipo de produção audaciosa que nunca receberia o sinal verde hoje.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Curta de lançamento do livro "Devo Tudo ao Cinema" (2013)

Um curta despretensioso que filmei em Agosto de 2013, como forma de divulgar o lançamento do meu livro "Devo Tudo ao Cinema", pela Editora Litteris, na Bienal do Rio de Janeiro. Contei com a carinhosa participação dos dubladores: Guilherme Briggs, Marisa Leal, Ricardo Schnetzer, Maíra Góes, Manolo Rey, Christiano Torreão, Mônica Rossi e Mabel Cezar.


"Vício Frenético", de Abel Ferrara


Vício Frenético (Bad Lieutenant – 1992)
Nesse, que é um dos melhores filmes da década de noventa, o diretor Abel Ferrara conseguiu construir um clima opressivo, narrando a queda e a redenção de um homem escravizado por todos os vícios mais degradantes, um tenente, vivido de forma irrepreensível por Harvey Keitel, que conscientemente sente prazer em abusar do seu poder, sendo capaz de roubar o produto do furto de bandidos, ou persuadir belas jovens que dirigiam sem carteira de habilitação a evitarem a prisão, satisfazendo seu imediatista desejo sexual em um estupro verbal.

O nome dele nunca é mencionado, o que reforça o aspecto simbólico da trama, que aborda, em essência, o conflito entre o corpo e a alma. A interpretação de Keitel, em seu melhor momento, transpira coragem e vulnerabilidade, carne trêmula falhando em encontrar resquícios de humanidade. O roteiro, escrito em parceria com a atriz Zoë Lund, utiliza um caso real que escandalizou a sociedade da época, o estupro de uma freira, como elemento condutor, já que o corrupto policial não consegue compreender o sentimento de perdão que move a vítima. É quando ele percebe que pode haver redenção em seu horizonte, por mais sombrio que seja o caminho até a luz, visualizado através do filtro de sua crença católica. Perceba o impacto imagético da cena em que o policial se encontra com a freira na igreja, a batalha definitiva entre o espírito e a carne, praticamente um ato de exorcismo. O efeito das drogas, enquanto válvula de escape, já não o ilude mais, o seu organismo já se acostumou. Ele reconhece, em seu choro seco e angustiado, a proximidade do fim e a urgência de sua missão.

Um dos elementos mais interessantes, trabalhado com pouca sutileza, pode ser percebido em uma cena breve, quando o tenente espia a bela freira nua no quarto do hospital. Ele, nesse momento, indo contra suas convicções religiosas, compartilha o mesmo desejo sexual dos dois estupradores, como se, pela primeira vez, ele estivesse se sentindo mal por se colocar no lugar dos bandidos. Essa constatação acaba se refletindo em sua atitude no desfecho, que obviamente não irei revelar. 






* O filme está sendo lançado em DVD, em versão restaurada, pela distribuidora "Versátil".

domingo, 2 de agosto de 2015

"Para Sempre, Alice", de Richard Glatzer e Wash Westmoreland


Para Sempre, Alice (Still Alice - 2014)
Se, por um lado, o roteiro do filme é estruturado como um projeto televisivo exploitation da década de noventa, há de se aplaudir a coragem na escolha do tema, que precisa realmente ser discutido, ele precisa estar nos holofotes. Com exceção de “Amor”, de Michael Haneke, “O Filho da Noiva”, de Campanella, e “A Separação”, de Asghar Farhadi, o Alzheimer normalmente é utilizado com excesso de melodrama, um recurso pouco elegante, apelativo. “Para Sempre, Alice”, do diretor Richard Glatzer, não chega a entrar nessa categoria, por pouco, porém, é vítima de uma utilização minuciosamente calculada, o que dá a impressão de que trata a doença como força motriz banal para um gradual crescendo de suspense, buscando lágrimas, algo que se poderia esperar, por exemplo, de uma telenovela mexicana.

A atuação de Julianne Moore, que vive uma professora de linguística que começa a perceber estar esquecendo as palavras, acompanha a proposta folhetinesca da condução da trama, porém, em pequenos momentos, muito discretos, ela demonstra grande inteligência, como quando, no início do filme, ela, em um discurso público, enfatiza sua preocupação exagerada com cada sílaba proferida, enriquecendo, em subtexto, a fragilidade do roteiro. Essa atitude diz muito sobre a personalidade dela, e, especialmente, sobre a importância psicológica de sua formação profissional, enquanto alicerce principal de sua segurança. Ao perceber os primeiros sinais da doença, ela perde sua confiança, desaba, já que todos os elementos externos, família, amigos, são coadjuvantes de luxo em sua vida. Moore preenche com essas sutilezas o histórico de sua personagem, que o filme se limita a revelar, de forma canhestra e convencional, em flashbacks bucólicos.

O filme acerta ao retratar os vários estágios da doença, a desorientação, as distorções visuais, a reação dos familiares, como o marido, vivido por Alec Baldwin, que prefere fingir crer que não há nada de errado, como forma de mascarar sua preocupação. Outro ponto importante que é salientado, o fato de que, diferente do senso comum, o estereótipo que se limita aos devastadores estágios finais, o Alzheimer já passa a ser uma árdua batalha desde a averiguação inicial dos sintomas, que causam no indivíduo uma perda total de autoestima, os primeiros passos de uma jornada solitária por uma longa estrada cada vez mais escura. O medo usualmente faz com que as pessoas temam tocar no assunto, o que é sempre prejudicial. Quanto mais filmes e livros forem feitos sobre o tema, maiores serão as chances de que, num futuro próximo, as vítimas tenham um problema a menos para se preocuparem: a ignorância da sociedade.

"Vida Cigana", de Emir Kusturica


Vida Cigana (Dom Za Vesange - 1988)
Perhan é um jovem que mora com a avó na periferia de Sarajevo e sonha se casar com Azra. Para isso, é convencido por Ahmed a ir para a Itália, a troco de uma promessa de fortuna rápida. A viagem revela-se uma armadilha, onde o jovem descobre que o “emprego”, na verdade, tem a ver com o tráfico de crianças. O grande público pode se lembrar de “Arizona Dream”, com Johnny Depp e Jerry Lewis, que é um excelente ponto de partida para a obra verdadeiramente única do diretor Emir Kusturica, mas, para esse escriba, os quatro melhores filmes dele são: “Vida Cigana”, "Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios", “Gata Preta, Gato Branco” e “Underground – Mentiras de Guerra”. 

O cineasta iugoslavo, como sempre, direciona sua atenção para as camadas menos favorecidas da sociedade, utilizando humor e generosas doses de realismo mágico, a difícil arte de captar o elemento surreal a partir de uma encenação fincada na realidade, criando sequências que realmente permanecem na mente por um longo tempo após a sessão. Adoro todos os momentos de interação entre o garoto e sua avó, o coração da trama, especialmente na cena em que ela defende o neto da verborragia preconceituosa da gananciosa mãe da namorada dele. Como esquecer também o hilário “sequestro” das paredes da casa da família, o ato desesperado de um viciado em jogo? O roteiro utiliza a comunidade cigana como microcosmo, com todos os diálogos falados na língua romani, tendo na figura de seu protagonista, vivido por Davor Dujmovic, o relato clássico do inocente que desce ao inferno, em essência, um conto de amadurecimento. 

E vale destacar a importância da trilha sonora de Goran Bregovic nessa encantadora imersão que a obra nos proporciona, uma espécie de paixão à primeira vista. Temas como “Scena Perhanove Pogibije” e “Glavna Tema”, com sua fascinante aura de melancolia, e, claro, a impressionante “Ederlezi”, uma versão de uma canção folclórica balcânica, que toca na cena onírica ambientada na festa de São Jorge.