sábado, 11 de abril de 2015

"Vício Inerente", de Paul Thomas Anderson


Vício Inerente (Inherent Vice - 2014)
É fácil preencher parágrafos salientando a impossibilidade de resumir a trama, algo que sequer tentarei, estabelecendo comparações com outras obras, mascarando com uma cotação alta a ausência de argumentos que justifiquem cada elogio, ainda que a grande maioria sinalize a necessidade de assistir mais algumas vezes, para compreender alguma coisa, afinal, é um filme de Paul Thomas Anderson, que já provou ser um dos mais competentes diretores dessa geração. O difícil é afirmar, sem ficar em cima do muro da subjetividade, que, dessa vez, o roteiro não acompanhou a pretensão de um projeto que audaciosamente buscou adaptar o difícil livro de Thomas Pynchon, uma interessante viagem metalinguística com o próprio cinema sobre os escombros da contracultura norte-americana do início da década de setenta, amalgamando elementos dos melhores pulps de Raymond Chandler, transpostos para a realidade desiludida dos hippies que acordavam sobressaltados do sonho lisérgico, com toques sutis de Adam Diment, autor de “Dolly, Dolly Spy”, resultando em um estilo libertário comparável ao de Jack Kerouac. 

O caos das páginas do livro não afasta o leitor, soa orgânico e acolhedor, a imaginação do leitor preenche naturalmente as lacunas do labirinto, porém, em um veículo com regras sensoriais diferentes, o roteiro arrastado e complicado dificulta o necessário investimento emocional, provocando um desconfortável distanciamento. A trama do clássico Noir “À Beira do Abismo”, de Howard Hawks, também não fazia sentido algum, porém quarenta minutos passavam depressa, com um elenco carismático e diálogos brilhantes, já em “Vício Inerente”, dez minutos parecem demorar uma eternidade, o que diz muito, caso entendamos que a duração total é de quase três horas. O senso de humor é tolo, sem timing, banalizando gags visuais, como a exótica predileção do personagem de Josh Brolin por simbologias fálicas, algo que perde, pela repetição estendida, sua função de evidenciar uma possível conotação homossexual entre o protagonista, vivido com a competência usual por Joaquin Phoenix, e seu alter ego, o policial violento. 

A composição visual de Doc, aliada à sua atitude na linha tênue do caricatural, é a representação de um homem deslocado no tempo, sem saber como se adaptar ao novo mundo. O caso que ele investiga, com todos os seus desdobramentos, não importa, o foco está na forma como ele lida, num estado quase constante de torpor psicotrópico, com seus demônios pessoais. O maior mérito nos filmes do diretor é a entrega dos atores, mais que o próprio roteiro, porém, o equívoco desse foi não conseguir tornar minimamente identificáveis os conflitos do protagonista, fazendo com que, até mesmo a forma resmungona com que ele se expressa, ao invés de agregar significado implícito a algum traço de personalidade, acabe se tornando um recurso irritante. A quantidade absurda de informação que envolve cada novo personagem que brota do nada, acaba conduzindo à frustração, já que o terceiro ato sequer insinua o interesse em torná-los relevantes. 

Não posso deixar de mencionar que, mesmo nesse que considero seu filme mais fraco, chato como poucos, existem méritos técnicos valiosos, como o frequente senso de desconforto alcançado pelas lentes da fotografia de Robert Elswit. Anderson novamente exercita sua paixão pelo trabalho de Robert Altman, conseguindo a proeza de compor um retrato fragmentado e fiel do livro original, com toques de sutil inteligência, como na cena em que evidencia o lado frágil do personagem durão de Brolin, mostrando ele em casa sendo manipulado pela esposa, filmada pelo ponto de vista de uma criança. A experiência pode ser pouco recompensadora, mas contém em seu cerne aquele brilho no olhar, uma coragem de arriscar, algo que, por si só, já merece reconhecimento.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Make 'Em Laugh - "Flint Contra o Gênio do Mal"

Link para os textos do especial:


Flint Contra o Gênio do Mal (Our Man Flint – 1966)
Por mais que eu esteja gostando muito da nova fase da franquia James Bond, encabeçada por Daniel Craig, sinto falta do senso de humor debochado que fazia parte, em variadas porções, dos espiões vividos por Sean Connery, Roger Moore e Pierce Brosnan. Até Timothy Dalton, que levava a proposta da seriedade como primeira diretriz, foi protagonista de momentos absurdos, como quando utilizou um estojo de um violoncelo para esquiar na neve. Essa atitude sangue nos olhos do novo espião não me vende, com naturalidade, a ideia de que ele é um mulherengo, já que nenhuma mulher se interessa por homens sem emoção, sem humor. Bateu saudade do Derek Flint, vivido por James Coburn, nessa hilária resposta americana aos gracejos elegantes do herói inglês criado por Ian Fleming.

Vamos combinar que, em matéria de defesa pessoal, não tem como comparar os dublês das produções britânicas com os ensinamentos do mestre Bruce Lee. Coburn, que foi aluno do grande dragão na vida real, utiliza sua técnica em várias cenas verdadeiramente empolgantes. Um dos acertos do filme, mérito da direção de Daniel Mann, algo que foi ignorado na inferior sequência, é trabalhar as lutas como algo sério, com senso de perigo, ainda que, invariavelmente, elas terminem com algum alívio cômico, como a que ocorre dentro de um banheiro. A geração atual teve uma versão genérica, bastante superestimada, vivida por Mike Myers, na série “Austin Powers”, que abusava do mau gosto em várias gags, com alguns lampejos de criatividade. Flint é fruto de seu tempo, porém, direciona sua crítica bem-humorada aos excessos de psicodelia, potencializando-a de forma estereotipada, na sequência da hipnose das garotas, com direito até a um ambiente reservado às frenéticas danças da época, todos fazendo os mesmos movimentos, reforçando o ponto de que aquela sociedade estava robotizada, submissa a um padrão limitador de hábitos e costumes. Até Elvis Presley, dois anos depois, protagonizaria o filme “Meu Tesouro é Você”, em que também ocorria a mesma crítica social, travestida pela comédia.

Adoro a forma como a produção emula os gigantescos cenários, como o esconderijo do vilão dentro do vulcão, elemento clássico estabelecido pelo designer de produção Ken Adam, na franquia 007. Ela faz isso de uma forma tão segura, que o sorriso nasce da simples constatação de que são tolos elefantes brancos, funcionais apenas no cinema. Sem sutileza alguma, o roteiro chega a mostrar uma jovem descartando um livro, cópia exata das capas das obras de Fleming, afirmando que é um absurdo acreditar naquela tolice. Vivendo em seu harém, com quatro belas mulheres submissas, situação trabalhada em tom de indisfarçável ridicularização, fica implícita também uma crítica, à frente de seu tempo, ao machismo do espião britânico, no contexto do período pós-Connery, quando as mulheres eram, com raras exceções, objetos sexuais dispensáveis nas tramas. 

* O filme foi lançado em DVD pela distribuidora “Ocean Pictures”.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Personagens - Obi-Wan Kenobi


George Lucas escolheu apresentar o personagem Obi-Wan Kenobi, vivido por Alec Guinness, em “Star Wars”, de 1977, como uma cambaleante figura escondida em seu manto, capaz de afastar a ameaça do povo da areia à distância, emulando o som de um predador, logo após termos presenciado o jovem herói Luke Skywalker ser derrotado facilmente por eles. Ao mostrar sua face, quando ele se dirige gentilmente ao robô, percebemos que se trata de um senhor de idade avançada, voz mansa, uma postura elegante demais para aquela região selvagem. É o sábio mentor mais velho, como trabalhado na Jornada do Herói de Joseph Campbell, o responsável por guiar o jovem em sua missão de amadurecimento.

É interessante contrastar com a apresentação do jovem Kenobi, vivido por Ewan McGregor, em “A Ameaça Fantasma”, de 1999, também como uma figura escondida em seu manto, aparentemente uma exata réplica de seu mentor Qui-Gon Jinn. Ao revelar seu rosto, com a utilização da frase símbolo: “Eu tenho um mau pressentimento quanto a isso”, ele demonstra extrema lucidez e coragem, já que confronta, com a mesma voz mansa, a tranquilidade de seu mestre com a certeza do perigo. Ele é sensato ao respeitar a posição do mestre, porém, segundos depois, elabora questões que novamente afirmam sua preocupação. Kenobi, em sua versão jovem e adulta, é o símbolo da rebelde elegância, a representação mais perfeita do que simboliza, em essência, os Cavaleiros Jedi. Alguns textos afirmam que o personagem vai amadurecendo ao longo das prequels, porém, basta uma análise mais atenta, para enxergar que ele já se mostrava preparado desde a primeira cena, maduro o suficiente para, consciente dos deveres como aprendiz padawan, respeitar as decisões dos superiores, enquanto, com delicadeza, os conduz a agirem exatamente como ele acredita ser melhor.

Anakin perde sua figura paterna, a mãe que é assassinada pelo povo da areia, ficando incapaz de controlar suas emoções. Kenobi perde sua figura paterna, o mestre Qui-Gon que perece na batalha com Darth Maul, reagindo ao trauma com compreensível impetuosidade, buscando a vingança imediatista, porém, exibindo total controle emocional, assumindo a tarefa do mestre. Ele é o único personagem na saga que se mostra totalmente seguro com a Força, conseguindo manter o foco nas situações mais tensas, longe de qualquer remota possibilidade de sedução pelo Lado Negro. 


* A Editora Aleph acaba de lançar o livro "Kenobi", escrito por John Jackson Miller, revelando aventuras que o personagem viveu enquanto estava escondido em Tatooine. 

sábado, 4 de abril de 2015

TOP – Woody Allen (1966-1983)

Link para os textos do especial:


12 – O Que há, Tigresa? (What´s up, Tiger Lilly? – 1966)
Allen demonstra já em seu primeiro trabalho a sua tremenda cara de pau, no bom sentido, se é que existe um, ousando pegar uma sátira japonesa dos filmes de espionagem, em ascensão à época, graças ao James Bond de Sean Connery, e redublar. Logo nas primeiras cenas, vemos o diretor sentado em um respeitável escritório, explicando que ele havia sido convocado por Hollywood a fazer o filme de espionagem definitivo. Quando questionado sobre o ineditismo de tal façanha, a redublagem, ele responde que o mesmo já havia ocorrido outras vezes, como em “E o Vento Levou”. Bastam três minutos para o jovem cineasta mostrar seu talento. Hoje em dia é comum vermos esse artifício ser utilizado em programas de televisão, filmes, como o horrível “Kung-Pow – O Mestre da Kung-Fu-são”, e até sucessos do Youtube, como “Bátima - Feira da Fruta”, realizado por Antonio Camano e Fernando Pettinati, mas na década de sessenta ele foi o pioneiro dessa arte extremamente duvidosa.


11 – Sonhos Eróticos de Uma Noite de Verão (A Midsummer Night´s Sex Comedy - 1982)
O roteiro foi concebido em apenas duas semanas, encomendado pelo estúdio no intuito de tapar o buraco que seria causado pelo atraso na produção de "Zelig". A pressa é facilmente perceptível no trabalho concluído, com personagens pouco desenvolvidos, como o médico que é mostrado como uma pessoa centrada, mas que tenta se suicidar por não ter o amor de uma mulher que acaba de conhecer, ainda que ele possua algumas cenas muito boas, o seu conjunto é bastante irregular. Buscando inspiração em seu ídolo Ingmar Bergman, especificamente em "Sorrisos de Uma Noite de Amor", de 1955, o roteiro explora o jogo de flerte entre três casais que se reúnem em um idílico local, para celebrar o casamento de um deles. Foi o primeiro projeto que contou com Mia Farrow, numa longa parceria que renderia ótimos frutos artísticos e um problemão na justiça. Dentre os pontos altos, destaco o rompante de libido de Adrian com o marido, após receber da espevitada Dulcy, algumas dicas de sexo (Allen: "Não podemos fazer sexo no lugar onde nos alimentamos, além do mais, tem um homem entoando o Pai Nosso na sala, iremos ficar cegos"). Simplificando sua opinião sobre a importância das relações sexuais, o personagem de Allen afirma: "Sexo alivia a tensão, enquanto o amor causa tensão". Após o elegante Leopold contar sobre seu sonho erótico selvagem com Dulcy, ela assustada o questiona: "Jesus, o que você comeu antes de ir dormir?". São pequenos momentos onde podemos perceber que, mesmo criando algo de forma apressada, Woody consegue fazer um filme de qualidade. 


10 – Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo, Mas Tinha Medo de Perguntar (Everything You Always Wanted to Know About Sex But Were Afraid To Ask – 1972)
Similar ao que ocorreu com sua primeira obra, Allen não tinha em mente abordar esse conceito. A United Artists comprou os direitos do livro homônimo, escrito em 1969, pelo popular Dr. David Reuben, uma espécie de Dráuzio Varella da época, só que tarado. Woody ficou revoltado quando Reuben foi ao tradicional programa “Tonight Show” e citou uma das frases cômicas dele, sem dizer a fonte. O jovem cineasta então utilizou toda sua verve cômica e adaptou o livro da melhor forma possível, salientando os aspectos mais absurdos em uma comédia de esquetes. Dentre seus sete segmentos, existem dois que considero obras-primas na carreira do diretor: “O que é sodomia?” e “O que acontece durante a ejaculação?”, expõem um roteirista em pleno desenvolvimento, buscando subjugar os limites e ultrapassá-los. No primeiro, Gene Wilder vive um médico que se apaixona por uma ovelha. O brilhantismo está no fato de Wilder atuar de forma séria, como se fosse um personagem saído dos romances de Ian McEwan. Já no segundo, Allen interpreta um espermatozoide que passa por uma crise existencial, poucos minutos antes de seu grande momento, enquanto Burt Reynolds e Tony Randall comandam o cérebro de um jovem que busca fazer sexo com sua parceira. Os outros segmentos são divertidos, porém, pouco memoráveis.


9 – Bananas (1971)
O filme é bastante episódico e irregular, o que demonstra o quanto Woody ousou, arriscou. Ele ainda estava aparando suas próprias arestas. Existem cenas que considero geniais, como a tortura com opereta e aquela em que nosso herói organiza a fila dos rebeldes condenados à morte. Allen chama pelo número vinte e um, quando um cidadão no meio da fila acena eufórico seu bilhete. A felicidade daquele condenado é hilária, assim como a afirmação do revolucionário popular que é levado ao poder ditatorial, esquecendo-se de todas as promessas feitas anteriormente e pensando apenas em seu próprio enriquecimento e na escravidão de seu povo, pelo poder da ignorância controlada, algo que nunca acontece no mundo real, convenhamos... Certo?


8 – O Dorminhoco (Sleeper – 1973)
Após iniciar com uma despretensiosa brincadeira e dirigir três produções que eram colagens de ótimas ideias cômicas, esquetes, sem um fio condutor forte, Allen encarava seu primeiro desafio narrativo: um projeto “com pé e cabeça”, além de um nariz que comandava um sistema ditatorial. Engraçado do início ao fim, o filme representa perfeitamente a fase inicial do diretor, onde ele desejava apenas levar humor ao público. Miles Monroe, vivido por Allen, dá entrada em um hospital para uma operação simples, mas acaba acordando duzentos anos depois, em um mundo inspirado nas obras de H.G. Wells, Ray Bradbury e George Orwell. O diretor chegou a conversar com o mestre da ficção científica Isaac Asimov, avaliando a forma de abordar esse distópico mundo do futuro. A bela Diane Keaton interpreta Luna, uma pacifista poetisa que normalmente serve de escada para os ferinos one-liners de Allen, que aproveita a ambientação para criticar o governo de seu país, como quando se refere à “Associação Nacional do Rifle”, dizendo: “Uma organização que ajudava criminosos a conseguirem armas, para matarem cidadãos. Era chamada de serviço público”. O diretor começava a demonstrar um humor mais corajoso, com gags mais elaboradas.


7 – Memórias (Stardust Memories - 1980)
No filme, Allen explora um dos aspectos consequenciais da fama, o arregimentar de um séquito de admiradores, alguns até fanáticos, que buscam no realizador uma satisfação de seus desejos pessoais. Seu personagem procura um novo caminho, um desafio artístico, experimentando em gêneros diferentes, mas seu público o questiona debochadamente e o rejeita. Com certeza se trata de um desabafo do cineasta após a recepção fria do público com seu projeto dos sonhos: "Interiores". Seus fãs são interpretados pelos figurantes mais feios e caricatos já reunidos em um único projeto. Eles o abordam constantemente com argumentos absurdos, analisando suas obras fora de contexto e interpretando-as da forma mais equivocada ("o humorista é um símbolo para a homossexualidade"), interrompendo-o em situações rotineiras para pedir emprego para um parente ou jogando currículos em suas mãos. Até mesmo seres do espaço descem de suas naves para afirmarem a ele que preferem seus filmes cômicos de início de carreira. E é nesse filme que Woody solta aquela que considero sua melhor frase: "Para você sou um ateu, mas, para Deus, sou uma leal oposição".


6 – Interiores (Interiors – 1978)
O sucesso comercial de “Annie Hall” apenas firmou mais ainda na mente do diretor o desejo de demonstrar ser capaz de emular seu ídolo: Ingmar Bergman. Ele sempre subestimou o valor de suas próprias obras, comparando-as com os trabalhos que eram realizados por outros diretores mais engajados da época, sem perceber que a gargalhada critica com mais contundência que a austeridade. O caso é que o filme lida com um tema muito forte, sem nunca apelar para o necessário subterfúgio do alívio cômico, tornando tudo muito reflexivo. Em sua ânsia por impor uma profundidade na estética, que seria mais bem equilibrada nos posteriores “Setembro” e “A Outra”, Allen anestesia o espectador. O tema é bem conduzido, bela analogia é feita entre a preocupação da mãe com a decoração de interiores e o ruir das estruturas familiares, mas não cumpre com eficiência plena o seu potencial. O excelente diretor de fotografia Gordon Willis, elemento essencial na evolução de Allen como diretor, retoma a parceria iniciada no filme anterior, e que se estenderia até “A Rosa Púrpura do Cairo”, em 1985, garantindo longas tomadas sem cortes, potencializando os diálogos brilhantes do autor.


5 – Um Assaltante Bem Trapalhão (Take the Money and Run – 1969)
Os dez primeiros minutos são geniais, pois ficamos conhecendo os primeiros passos do jovem Virgil, vivido por Allen, no mundo do crime. Claro que antes ele tentou uma vida simples, como um violoncelista. O problema era acompanhar a bandinha da rua, com o seu instrumento numa mão e, na outra, uma cadeira. Não havia jeito, pois a rota do crime parecia estar em seu destino. Após pequenos furtos, acabou sendo preso pela primeira vez. Inspirado, tentou fugir utilizando uma barra de sabão e sua perícia artesã. Dias depois, com seu perfeito revólver de sabão pintado com graxa de sapato, ele se aventurou a cruzar os muros que o aprisionavam. Azarado, não percebeu a torrencial tempestade que castigava aquele local, fazendo com que, em poucos segundos, para a surpresa dos policiais, seu revólver virasse uma grande bola de espuma. Novamente atrás das grades, aceitou ser cobaia em um experimento com uma revolucionária vacina, pois aquilo iria atenuar sua pena. Ninguém imaginava efeito colateral tão absurdo: Virgil tornou-se um rabino, de barba longa, e pregou belos sermões para os oficiais. Foi o primeiro “mockumentary” (falsos documentários) da história do cinema, um estilo que o próprio diretor revisitaria posteriormente em “Zelig”.


4 – A Última Noite de Boris Grushenko (Love and Death – 1975)
Nessa comédia, Woody explora os limites de sua zona de conforto, utilizando referências ousadas ao trabalho literário de Dostoiévski e Tolstói, vale lembrar que em seus trabalhos anteriores, ele havia se amparado mais no pastelão e no humor popular, além de começar a demonstrar seu fascínio por seu ídolo Ingmar Bergman, notem a forma como ele filma, logo no início, um russo que fala diretamente à câmera, e em específico seu filme favorito “O Sétimo Selo”. A grandiosidade da produção impressiona e o diretor demonstra total confiança em sua técnica. Diane Keaton novamente preenche a tela com seu carisma e beleza, vivendo a prima do protagonista. Apaixonado pela complexidade da jovem, que defende diálogos muito espirituosos em seu existencialismo, elemento novo na obra de Allen, que viria a se tornar um padrão, frustra-se ao perceber que ela não o vê com os mesmos olhos de arrebatador desejo. O roteiro parece querer demolir aquela austera seriedade que normalmente se faz presente ao discutir esses temas.


3 – Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall – 1977)
O filme mais popular do diretor, laureado com o principal Oscar da Academia, além de justos reconhecimentos à atuação de Diane Keaton e à direção de Allen. O ápice na fase inicial de sua carreira, que começaria no ano seguinte a tomar caminhos mais ousados, com o inseguro autor acreditando cada vez mais em sua capacidade, arriscando mostrar para o público que não era apenas um excelente comediante, mas também um pensador existencialista, seguindo os passos de seu grande ídolo: o sueco Ingmar Bergman. O estilo mais sóbrio já demonstra a mudança de atitude logo nos créditos iniciais, título em fonte Windsor branca, contrastando com o fundo preto, adotando o formato que viria a acompanhá-lo pelas décadas seguintes. Depois de brincar com o futuro e o passado da sociedade, subvertendo como caricatura, Woody pela primeira vez se mostra como um personagem com o qual o público pode se identificar. Existe muito dele próprio no roteiro, tornando ainda mais interessante acompanhar seus relatos sobre sua infância, em especial a ótima sequência em que seus colegas de classe revelam o que se tornarão quando adultos, incutindo uma analogia simples e muito eficiente: a casa em que cresceu ao som das brigas dos pais, sob uma montanha-russa. Porém, meu momento favorito é quando Allen encontra um chato na fila do cinema, que berra sua pretensa cultura cinematográfica ao tentar impressionar sua namorada. Quem nunca passou por isso? Aquela pessoa que fala alto, por si só, um sinal de deselegância, na fila: “Todos os filmes desse diretor são uma droga”, quando na realidade a pessoa sequer conhece sua filmografia, ou “Só você mesmo para me arrastar para ver uma chatice em preto e branco”, da mesma empresa que trouxe até você as célebres frases: “de triste, já basta a vida”, e o insuperável: “putz, esses atores todos já morreram”.


2 – Zelig (1983)
Em sua genialidade, Woody estrutura esse filme como um documentário, repetindo o estilo de “Um Assaltante Bem Trapalhão”, sobre Leonard Zelig, um camaleão social da década de vinte. Sem nenhum esforço, ele é capaz de adotar características físicas e mentais de qualquer pessoa com quem se relaciona. Ao lado de franceses, ele conversa fluentemente em francês, com direito até ao clássico bigodinho fino. Mas o que realmente fascina no roteiro é a forma como o personagem se adapta socialmente, como quando discute jargões de medicina ao lado de doutores, com total conhecimento sobre a área. A crítica é certeira, mostrando como as pessoas se moldam, até o caráter, no intuito de agradar e serem aceitas. E, claro, dignitários com os mais diversos interesses passam a utilizar suas palavras como alegoria para suas atividades. Zelig acaba se tornando na sociedade uma espécie de “Chance”, o jardineiro interpretado por Peter Sellers em “Muito Além do Jardim”. Mia Farrow vive uma doce doutora que acredita que o fenômeno seja psicológico, uma manifestação de alguém que não consegue se expressar, levando o roteiro a abordar também o machismo da época, mostrando a reação agressiva dos médicos a essa nova hipótese. O processo de tratamento é tão eficiente, que ele passa a conseguir até discordar de outras opiniões, algo impensável em sua realidade de outrora. 


1 – Manhattan (1979)
O melhor trabalho de Woody como ator, essa obra representa o fechamento do primeiro ciclo na carreira dele, após refinar o molde com "Annie Hall", e se arriscar em seu primeiro drama, com "Interiores", é a junção perfeita de drama, romance e comédia, sendo pioneiro no que muitos chamam de "Fórmula Woody". Desde o início, ao som de "Rhapsody in Blue", de Gershwin, emoldurando imagens da cidade, até o excelente diálogo final entre Woody e Mariel, onde ele descobre ser menos maduro que ela, nós encontramos um escritor confiante e em seu auge criativo. A fotografia em preto e branco de Gordon Willis, que afirmou ter sido esse o seu melhor filme, concede ainda mais elegância ao projeto, incluindo a icônica cena da conversa junto à ponte Queensboro, e o uso das sombras na conversa no planetário. A forma como Mariel se porta, sua naturalidade ao confrontar-se com Diane Keaton, quando ela pergunta sobre a ocupação da jovem, que responde: "vou à escola", e a sua latente admiração pelo homem mais velho, de gosto refinado, fazem com que um tema complicado, a diferença de idade no casal, soe extremamente natural. O texto é ótimo, coescrito por Marshall Brickman, repetindo a parceria de "O Dorminhoco" e "Annie Hall". 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

"À Sombra do Vulcão", de John Huston


À Sombra do Vulcão (Under The Volcano – 1984)
A obra original de Malcolm Lowry foi uma das experiências literárias mais perturbadoras que tive, o corpo ficava cansado a cada final de página. Após o tédio do primeiro capítulo ambientado um ano depois dos eventos mostrados, uma verdadeira provação até para leitores acostumados com um estilo mais denso, acabei entrando na mente do personagem, o cônsul britânico Geoffrey Firmin, praticamente ficando bêbado junto com ele, testemunhando seu último dia de vida no México, em plena celebração dos mortos. O diretor John Huston comanda uma excelente adaptação, que já havia despertado o interesse de, entre outros, Orson Welles, Joseph Losey e Luis Buñuel, com o roteiro de Guy Gallo extraindo a essência do livro, sem o protagonista do já citado primeiro capítulo, M. Laruelle, mantendo o triângulo amoroso entre o cônsul (Albert Finney), sua esposa Yvonne (Jacqueline Bisset) e seu meio-irmão Hugh (Anthony Andrews), tendo o desafio de traduzir em imagens a intensa prolixidade do autor ao, no melhor estilo James Joyce, detalhar os efeitos desastrosos do vício alcoólico na mente de uma pessoa.

O mérito vai todo para a espetacular atuação de Finney, que alterna diferentes níveis de torpor, sutilmente revelando características do personagem, já que a narrativa não é interrompida por flashbacks, monólogos internos, ou qualquer forma de exposição. Conseguimos enxergar em sua nobre vestimenta, sua armadura no passeio vespertino, a dignidade perdida no passado. A fotografia de Gabriel Figueroa ajuda, com a opção pela superexposição, a reforçar a sensação de sufocamento que envolve os personagens, reduzidos aos seus impulsos básicos, como se a câmera transpirasse por causa do calor. Ao perceber que sua esposa retornou, interrompendo sua divagação ébria no bar, Firmin checa várias vezes, até que sua mente acredite que aquela bela figura não é apenas uma ilusão brotada de seu desespero.

Essa atitude, assim como sua cena cômica no banheiro, denota claramente uma modificação estrutural na adaptação: o personagem é um tolo, bonachão, alguém que exibe, por baixo de todo o humilhante estado de um viciado, as características de um homem gentil e carinhoso, humanizando sua contraparte literária. Ele está obstinado em sua jornada de autodestruição, amargurado com a traição das duas pessoas que mais amou: sua esposa e seu meio-irmão. O seu objetivo maior, seu triste sacrifício, sua descida ao inferno, serve como punição para eles. O constante anestesiar, a supersensibilidade que sucede os tremores da dependência, a faustiana perda da inocência às vésperas da Segunda Guerra Mundial, elementos que vão elucidando, em revisões, o quebra-cabeça cheio de simbolismos proposto pelo autor, e complementado por Huston.

* O filme está sendo lançado em DVD, com extras, pela distribuidora Versátil.