quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

"Toque de Mestre", de Eugenio Mira


Toque de Mestre (Grand Piano - 2013)
Analisando com olhos que buscam verossimilitude, até mesmo o clássico de Hitchcock: “Um Barco e Nove Destinos” poderia ser criticado como altamente ilógico e cheio de furos. Ao percebermos que a trama é uma desculpa, com os sobreviventes no barco sendo uma metáfora que representa a sociedade alemã perante a ascensão do nazismo, começamos a nos focar em outros detalhes. É muito fácil descartar “Toque de Mestre” como tolo pela sua trama e eventuais implausibilidades narrativas, mas o elemento mais importante em um suspense é a eficiência do roteiro/direção na elaboração das cenas. E levando em consideração que o roteiro foi escrito pelo fraco Damien Chazelle, de “O Último Exorcismo – Parte 2”, e a direção ficou a cargo do pouco experiente espanhol Eugenio Mira, achei válido o resultado final desse projeto que tinha tudo para ser uma catástrofe. 

É interessante notar na iluminação e no trabalho frenético de câmera a óbvia inspiração nas obras que Brian De Palma realizou no gênero, especialmente “Vestida Para Matar”. Sua estrutura minimalista e claustrofóbica, que remete a “Por Um Fio” e “Velocidade Máxima”, acompanha um pianista (Elijah Wood) que executa seu concerto mais difícil após cinco anos se recuperando de um fiasco profissional, sabendo que irá morrer caso seus dedos errem alguma tecla do piano. John Cusack, num trabalho que prima pelas nuances em sua voz, interpreta o enigmático atirador que também ameaça a esposa da vítima, interpretada por Kerry Bishé. 

A voz é uma metáfora para o intenso pavor interno de um artista que tenta resgatar a coragem necessária para enfrentar novamente um público após um evento traumático, sabendo que a sua vida e a de sua família dependem de sua competência dedilhando o piano que era de seu mentor. A ideia de que em cada peça musical de pura beleza ocorre uma ingrata batalha entre a genialidade por trás da composição e os esforços tremendos do homem que treina para pôr em prática a complexidade de emoções propostas pelo autor. Deixando clara a função simbólica da trama, a motivação do terrorista, como em todos os filmes de temática similar, não é o foco do roteiro. Não dá para desprezar, por exemplo, a criatividade técnica empregada na melhor cena, onde o pianista luta para se comunicar pelo celular, enquanto se mantém tocando o piano. Também é impossível relevar um terceiro ato que desperdiça o potencial revelado nos primeiros trinta minutos, abraçando uma previsibilidade típica de roteiros escritos por estudantes. 

O filme possui vários problemas, excesso de diálogos expositivos e alívios cômicos pouco eficientes, mas em sua curta duração satisfaz precisamente naquilo que se propõe a oferecer.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Cine Samurai - "A Traição"

Link para os textos do especial:


A Traição (Daisatsujin Orochi – 1966)
O diretor Tokuzo Tanaka não tinha o apreço pela grandiosidade temática de um Kurosawa, ou interesse pelas divagações filosóficas de um Ozu, estando mais próximo do tipo de abordagem feita por Mizoguchi e Kobayashi. Como assistente de direção de Kurosawa e Mizoguchi, ele bebeu das melhores fontes possíveis em sua área, utilizando sua técnica a favor dos chambaras realizados pelo estúdio Daiei. Ele é conhecido apenas por aqueles fãs mais dedicados do gênero, pelo seu trabalho nos projetos da série “Zatoichi”, mas a sua obra-prima indiscutível é “A Traição”, uma refilmagem de “Orochi”, dirigido por Buntaro Futagawa em 1925.

Indo contra o tradicional estilo dos chambaras da época, com os primeiros dois atos dedicados a minuciosas construções de desenvolvimento dos personagens e suas motivações trabalhadas em longos diálogos, com a ação reservada para o clímax, o roteiro de Seiji Hoshikawa entrega um ritmo frenético, com intensas cenas de ação que preparam a catarse da batalha final, elogiada de forma justa como sendo uma das mais longas e brutais no gênero, onde assistimos o personagem vivido por Raizo Ichikawa, um samurai honrado que é acusado injustamente por um crime, lutar sozinho contra mais de duzentos guerreiros.

E se a trama evita aprofundar melhor, por exemplo, o relacionamento de amizade que se forma entre o samurai exilado e o ladrão que roubou sua carteira, ela compensa com um dos momentos mais impactantes, não somente dos chambaras, mas do cinema de ação como um todo: a hora em que o herói, exaurido no longo combate final, precisa forçar seus dedos a soltarem o tsuka/cabo de sua espada quebrada, para poder continuar o confronto. É angustiante ver o corpo ir além dos limites, ele fica desidratado, busca saciar sua sede entre uma esquiva e outra, não se trata apenas de uma luta, é carregado de simbologia, a epifânica transformação de alguém que está consciente de que perdeu tudo, movido apenas por seu caráter. 

* O filme está sendo lançado pela distribuidora "Versátil", na caixa "Cinema Samurai 3".

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

"Contos Brutais de Honra", de Kiyoshi Saeki


Contos Brutais de Honra (Showa Zankyo-den – 1965)
Um dos aspectos imagéticos mais interessantes que um leigo pode captar nesse pioneiro trabalho da Toei, dirigido por Kiyoshi Saeki, é o confronto entre duas gerações. De um lado, os homens honrados, herdeiros do código samurai, que representam o espírito da tradição japonesa, simbolizado especialmente pelo personagem de Ken Takakura, com sua silenciosa expressividade, capaz de sacrificar seus amigos em respeito ao pedido de seu mestre no leito de morte. Do outro, mafiosos motorizados, com camisetas floridas, símbolo de uma cultura que já não é mais pura, capazes de desferir um tiro de revólver nas costas de um homem portando uma espada. O país devastado concluía a transformação de um Estado-nação tradicionalista para o capitalismo ocidental com todas as suas vantagens e desvantagens.

A trama do rapaz que retorna para casa e se vê inserido em um combate onde não se deve utilizar a violência, mesmo que para se defender, foi utilizada em diversos projetos, como no clássico de Bruce Lee: “O Dragão Chinês”. A tradicional catarse da vingança no clímax, após várias exibições agressivas de injustiça, sempre funciona. É interessante notar que, no confronto final, quando os personagens de Takakura e Ryo Ikebe decidem encarar sozinhos toda a gangue, o primeiro utiliza sua espada, enquanto o segundo porta um revólver. A representação metafórica da união de duas gerações, onde nenhuma sairá ilesa, num sacrifício que possibilitará a esperança num futuro mais harmonioso, conduzindo à imagem final das pombas sobrevoando o templo, que nos remete ao deus japonês da guerra: Hachiman, que tinha a pomba como símbolo da paz que deve ser objetivada após uma batalha.

Com um formato inspirado nos filmes de gangsteres norte-americanos, os “Ninkyo-eiga” podem ser considerados uma evolução natural dos “Chambara”, com tramas que lidavam com os conflitos entre a gananciosa sede de poder e os códigos tradicionais de honra entre cavalheiros, colocando o herói sempre num dilema entre seus deveres e seus sentimentos pessoais. O antagonista do respeitável Yakuza era o gurentai, o mercado negro do pós-guerra da Era Showa, infratores sem nenhuma consideração pelo rigoroso código de honra dessa sociedade criminosa. Essa visão romantizada dos membros da Yakuza seria radicalmente invertida nos “Jitsuroko-eiga” da década de setenta, que passaram a mostrar os membros dessa sociedade como criminosos sem honra, cruéis, traiçoeiros, uma visão mais cínica e próxima dos anseios dos jovens estudantes japoneses que tomavam as ruas em protestos. 

*O filme está sendo lançado pela distribuidora "Versátil" na caixa "Cinema Yakuza", com "Flor Seca", "Guerra de Gangues em Okinawa", "Sonatine", "A Marca do Assassino" e "Os Lobos", além de documentários e entrevistas. 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Guilty Pleasures - "American Pie 2"

Link para os textos do especial:


American Pie 2 – A Segunda Vez é Ainda Melhor (American Pie 2 – 2001)
Vou confidenciar pra você, caro leitor, um dos critérios que utilizo nesse especial. Após selecionar alguns filmes em um rápido resgate emocional, foco minha atenção naquele cujo texto mais me demoro escrevendo. Vou parando em cada linha, analisando se é válido confessar publicamente aquele prazer culposo. Esse texto em que agora pousa seus olhos foi especialmente difícil de terminar. O caso é que eu era uma mistura de Jim e Finch na vida real. Até fisicamente, já que compartilho com o ator Jason Biggs um nariz um pouco avantajado, ou, como minha mãe costumava dizer, nariz de italiano. E, naquela época, como eu era muito magro, ele realmente se sobressaía na multidão. Como o personagem vivido por Eddie Kaye Thomas, eu era considerado um erudito chato por quase todos da turma. Sério e praticante da arte de inserir referências literárias e cinematográficas em praticamente qualquer assunto, faltava-me apenas encontrar minha musa, minha “Stifler’s mom”, a milf dos sonhos. Assistir esse filme, enquanto estudante adolescente nerd e pouco desenvolto com as mulheres, fazia obrigatoriamente com que eu me identificasse naquele contexto.

Em sua estreia, eu lembro que morri de rir com as trapalhadas do rapaz ao tentar aprender a soltar um sutiã com apenas uma mão, exatamente porque eu também não tinha experiência alguma nesse sentido. O pai, vivido por Eugene Levy, sempre flagrando seu filho em desastradas aventuras sexuais, aquele pesadelo clássico de constrangimento que persegue os jovens inseguros, inseridos nus em ambientes públicos de seu cotidiano, fala diretamente aos medos compartilhados por adolescentes do mundo todo. O colega extrovertido e inconsequente, como o Stifler vivido por Seann William Scott, que parece viver em um universo paralelo, com leis próprias, escondendo por trás de suas ininterruptas festas regadas a álcool, o pavor de amadurecer, como um Peter Pan intensamente pervertido. É impagável a cena que mostra a reação dos amigos à chegada dele após ser vítima de mais uma brincadeira cruel, todo molhado de urina. Ela desperta aquele pré-adolescente interno em cada um de nós, que já passou por aquela fase tola de preparar sucos exóticos com ingredientes bizarros, somente para rir até chorar da cara dos amigos que tiveram que beber. Até eu, que, por ter sido excessivamente introvertido, era sempre o alvo dessas brincadeiras, não consigo me privar dessa risada nostálgica.

O filme do diretor J.B. Rogers, que considero o mais engraçado da franquia, faz parte de um subgênero que é importante em cada geração. Acho interessante a inspiração que o primeiro filme foi utilizar, na superproteção paterna e em sua cena mais famosa, a masturbação com o auxílio da torta, bebendo da fonte do bom livro “O Complexo de Potnoy”, de Philip Roth, que li na mesma época em que conhecia “Os 120 Dias de Sodoma”, do Marquês de Sade. É fácil menosprezar a comédia como bobinha, esquecível, mas acho mais válido buscar o diamante na rocha. Já com o olhar maduro, continuo me divertindo com esse grupo de amigos, sempre assisto quando está passando na televisão. Nunca me esqueço da última vez em que estive com meu pequeno grupo de amigos de escola, sentados no refeitório, planejando o que faríamos nas férias, imaginando quais desafios nos aguardavam. Ao final do papo, repetindo o gesto dos personagens de “American Pie”, levantamos nossos copos de refrigerante e brindamos ao próximo passo, sem imaginar que ele seria longo na estrada da vida e, eventualmente, nos afastaria em rumos diferentes. Rir hoje com Jim, Finch, Oz, Stifler e Kevin, significa retornar àquela mesa do refeitório, onde nosso maior problema era passar nas provas finais. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

"Serpico", de Sidney Lumet


Serpico (1973)
O protagonista está sentado descansando em seu jardim, escutando a ária “E Lucevan le Stelle”, momento marcante da ópera Tosca, onde o revolucionário Cavaradossi aguarda seus últimos minutos de vida em uma prisão. Um detalhe que pode passar despercebido, mas que demonstra a sensibilidade criativa do diretor Sidney Lumet, que adaptou a história real imortalizada no livro de Peter Maas. O trágico pintor de Puccini e o policial íntegro interpretado brilhantemente por Al Pacino possuem muito em comum, especialmente a qualidade de manterem-se fiéis aos seus valores, mesmo quando confrontados pela total desesperança. Frank Serpico só queria fazer seu trabalho, não defendia nenhuma causa nobre, mas cometeu o crime de ignorar que o sistema alimentava a corrupção que, em teoria, deveria combater.

O roteiro de Waldo Salt e Norman Wexler mostra a gradual frustração de um jovem que tinha uma visão idealizada de como ser um oficial da lei. O desconforto inicial ao perceber os primeiros deslizes de seus colegas, o choque ao constatar que seus superiores temiam sua resistência a receber propina, pois acabaria se tornando como o rei sábio do conto que escuta de sua namorada, um louco aos olhos daqueles que beberam da fonte envenenada pela ganância. Ele não estava disposto a sorver sequer uma gota daquela água pestilenta. Com real interesse, ele atravessa uma fase em que tenta genuinamente compreender as possíveis razões por trás dos atos ilegais de seus colegas, o baixo salário ou problemas familiares, mas logo descobre que não há dificuldade extrema que não seja subjugada pela dignidade daquele cujo caráter não se dobra.

Chega a ser tocante a interpretação de Pacino, exibindo profundas transformações psicológicas num espaço de poucos anos na vida do personagem, indo da tranquilidade gentil de quem entra na brincadeira de crianças na rua, passando pela fase madura da segurança profissional, cortejando pacientemente as mulheres que despertam seu interesse, culminando no retrato triste de um homem existencialmente cansado, cínico, angustiado e agressivo. É impactante o momento, capturado em inteligente plano longo e sem cortes, em que vemos sua explosão pra cima de seus colegas, após assistir eles conversando tranquilamente com o mafioso que havia conduzido para ser devidamente punido. Esse trabalho de construção de personagem é auxiliado pela decisão do diretor de fotografia Arthur J. Ornitz, que, em diversas cenas, utiliza lentes que achatam a imagem, criando a ilusão de que o cenário se impõe sobre o protagonista, oprimindo-o cada vez mais em sua jornada inescapável rumo à descrença total na honestidade em sua função.

* O filme está sendo lançado, em versão recentemente restaurada, pela distribuidora "Versátil".