sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Entrevista com o diretor Monte Hellman


Pode ser que você não saiba quem é Monte Hellman, mas existem dois ídolos seus que você provavelmente não conheceria hoje caso ele não tivesse apostado em seus talentos. Jack Nicholson e Quentin Tarantino. O americano que vive à margem de Hollywood iniciou sob o manto protetor criativo do genial Roger Corman, em “A Besta da Caverna Assombrada”, de 1959, um típico produto exibido nos Drive-Ins da época. Nele se nota algumas das características do estilo do diretor, mas o elemento mais importante consiste na mescla consciente de dois gêneros, o filme de assalto e o terror, uma prática que Tarantino, que deve a realização de “Cães de Aluguel” à essencial ajuda de Hellman, acabaria adotando em sua carreira.

Em “Guerrilheiros do Pacífico”, de 1964, trabalhando com um jovem Nicholson, ele novamente investe no cinema de gênero, no caso o de guerra, como forma de propor discussões mais profundas. Como autor ele ainda não está maduro, o desfecho insere, por exigência do estúdio, um discurso panfletário que simplesmente não combina com o que havia sido estabelecido até o momento. É interessante descobrir que, por causa do baixo orçamento, ele teve que usar bicicletas e cadeiras de rodas como os improvisados trilhos para a câmera, provando que a necessidade potencializa a inspiração criativa.


("Para Octavio Caruso e seus leitores. Monte Hellman")
O diretor gentilmente concedeu uma entrevista para o "Devo Tudo ao Cinema", que compartilho agora com meus queridos leitores: 

O - Monte, você começou experimentando sua técnica em filmes de gênero, com baixo orçamento. Sempre digo que a dificuldade é um terreno fértil para a criatividade, não é um empecilho, mas uma bênção. Como você definiria a relação entre o baixo orçamento e a criatividade especificamente nos filmes de gênero? Você poderia compartilhar com meus leitores algum exemplo de situação onde você teve que se forçar além dos limites financeiros, improvisando, como forma de finalizar uma cena? Você acredita que o terror/sci-fi pode se beneficiar de orçamentos baixos, o que possibilita ao cineasta a chance de correr riscos com ideias inesperadas, ousando encontrar novas possibilidades? 

M - Ótima pergunta. De forma geral, quanto menor for o orçamento, maior liberdade você tem. Dessa forma, com o roteiro sendo aprovado, há menos chances de ter alguém vigiando seu trabalho, espiando por trás do seu ombro em cada filmagem. Claro, contanto que você se mantenha no cronograma, já que, caso contrário, tudo pode acontecer, você perde o controle. Eu não tinha conscientemente a experimentação como objetivo, nunca pensava nisso. Em "A Besta da Caverna Assombrada", tudo de que me lembro era da dificuldade de se terminar cada dia. Ao longo de treze dias, com as câmeras constantemente congelando numa temperatura de dez graus abaixo de zero, aquilo era a única coisa que poderíamos pensar. Eu suponho que em "Disparo para Matar" e "A Vingança do Pistoleiro", os roteiros pediam mais do que o parâmetro de um típico filme de baixo orçamento. Corman percebeu isso e chegou a pensar em cancelar as produções. Ele só reconsiderou quando descobriu que o cancelamento provavelmente iria custar mais para ele do que avançar com as produções.  

O - Como você define a importância de Roger Corman em sua carreira? Há espaço na indústria atualmente para empreendedores como ele?

M - Eu provavelmente não teria uma carreira sem o Roger. Sempre há espaço para produtores dispostos ao risco de apostar em novos talentos. Só não há muitos como ele, que possuem a habilidade de reconhecer esses potenciais talentos.  

O - Quais eram suas influências artísticas quando decidiu se tornar um cineasta? Você se recorda dos filmes que assistiu quando criança, aqueles que te iniciaram nesse mundo de sonhos, captando sua imaginação? 

M - Minha maior referência artística foi Stanislavsky, cujo trabalho incitou em mim a ambição vaidosa de me tornar um artista. Os filmes que me inspiraram, quando criança e pré-adolescente, foram: os treze episódios do seriado para cinema de "O Cavaleiro Solitário", "Tarzan", "Fúria no Céu" (1941), "O Retrato de Jennie" (1948), "Duelo ao Sol", "O Segredo das Jóias" (1950), "Um Lugar ao Sol" e "O Pária das Ilhas" (1951).  

O - Eu imagino se você conhece o filme brasileiro "Filme Demência", dirigido por Carlos Reichenbach, em 1986, onde ele faz uma homenagem a você, dando seu nome a uma marca de cigarros especialmente fortes. Você consegue mensurar sua importância para jovens cineastas de todas as nações? O impacto de seu trabalho em culturas diferentes. O que você pode dizer sobre a relação entre os críticos e o público, no tocante ao seu trabalho? 

M - Eu nunca assisti esse filme, mas alguém uma vez me enviou um maço vazio dos cigarros usados na filmagem. É difícil mensurar, já que a indústria americana nunca teve espaço para o meu trabalho, tive que trabalhar fora dela. Eu só fui nomeado para a Academia há sete anos. Mas te digo que me sinto muito honrado quando jovens cineastas afirmam que meu trabalho os inspirou. Os críticos estrangeiros, como você, me descobriram primeiro, mas agora eu sinto que sou respeitado igualmente pelos críticos americanos. Os críticos sempre gostaram mais dos meus filmes que o público. Basta você comparar as opiniões sobre "Caminho para o Nada" no Rotten Tomatoes e no IMDB. 

O - É fácil enxergar sua marca, as características visuais em seus filmes, um estilo único de edição, uma rara qualidade.  Existem detalhes específicos que você deixa claro para seu diretor de fotografia ao iniciar uma filmagem? O que você procura em uma tomada? 

M - Eu demoro bastante tempo até encontrar um diretor de fotografia que enxergue da mesma forma que eu, mas, assim que encontro, continuo trabalhando com ele o máximo possível. Fiz quatro filmes com Gregory Sandor, até agora fiz três com Josep Civit. Falamos muito pouco na elaboração das cenas. É uma questão de confiança. Quando ele me passa sua visão para a cena e percebo que ele captou a essência do que quero, não há nada mais a ser dito.  



O - Você teve a sensibilidade de enxergar em Warren Oates um potencial alcance de emoções, em uma época em que ele estava sendo estereotipado, com seu talento limitado pelos roteiros que recebia. Como em "Galo de Briga", que acredito ser o melhor momento dele em cena, quando foi desafiado com o silêncio. Você pode abordar essa química que existia entre vocês, como se iniciou? E, dentre todos os filmes dele, qual a cena que você considera especialmente brilhante? 

M - Tudo se inicia com a descoberta do ator. "Casting", como o personagem Mitchell Haven gosta de dizer em "Caminho para o Nada".  Depois disso, assim como com o diretor de fotografia, poucas palavras precisam ser ditas. A única direção que dei para Warren em "Disparo para Matar" foi para que ele falasse mais alto em uma das cenas. Não por discordar de sua interpretação, mas porque nosso limitado equipamento não estava conseguindo gravar sua voz no nível que ele preferia. Uma das minhas cenas favoritas dele está em "Corrida Sem Fim", quando seu personagem diz que se ele não fosse segurado no chão, ele iria entrar em órbita. 

O - Eu gosto muito da forma como você argumenta sua recusa em utilizar o recurso do zoom, explicando que o olho humano não é capaz de fazer o mesmo. Você pode explicar melhor esse conceito? Quando você, conscientemente, integrou isso em suas rotinas de filmagem?

Às vezes usava o zoom em cenas como um trilho de pobre. Sempre soube disso inconscientemente, mas apenas comecei a utilizar a teoria como argumento quando passei a ensinar. Eu certamente sabia do poder do zoom como ótimo efeito cômico.  


O - Eu já assisti "Disparo para Matar" mais vezes do que consigo me lembrar. Eu adoro a aura onírica que você conseguiu nesse filme. Sobre o desfecho, com a experimentação no tempo, diminuindo/congelando os frames, acredito ser a melhor versão imagética para aqueles segundos que antecedem o despertar de um sonho, ou, no caso do protagonista, um pesadelo existencialista Nietzschiano. O personagem de Oates encara a si próprio em seu abismo interior. Como você lida com as diferentes interpretações dos espectadores e críticos sobre suas obras?

M - O efeito onírico que menciona foi sugerido pela transmissão televisiva do assassinato de Lee Harvey Oswald. Eu não costumo pensar nas interpretações quando faço meus filmes. Sendo os temas realísticos ou surreais, minha abordagem é sempre literal. Kracauer chama de "redenção da realidade física". O público é meu colaborador final. Eu abraço cada interpretação individual de braços e coração abertos. Todas são igualmente válidas. 

O - Como foi retornar para a indústria após vinte anos, com novas tecnologias e diferentes formas de distribuição e disseminação? Você acompanhou de perto as transformações no cinema através dos anos. Como essas mudanças influenciaram seu trabalho como professor em suas masterclasses? 

M - Eu sempre achei que aprendi mais com meus alunos do que eles comigo. Mais importante, eles continuam me desafiando e me forçando a testar minhas teorias. Eu sempre me adaptei rápido às mudanças, então me sinto orgulhoso de que "Caminho para o Nada" tenha sido o primeiro projeto filmado com uma câmera DSLR. 

O - Como você vê o futuro do cinema? Quais são os filmes recentes que você recomendaria? 

M - Sou muito esperançoso com o futuro dessa Arte. Tem muito diretor que escolhe o caminho inverso da preguiça do cinemão mainstream. Gosto de muitos cineastas jovens, mas posso citar alguns filmes que vi recentemente e gostei bastante: "A Separação", de Asghar Farhadi, "The Delay", filme uruguaio de 2012, "Putty Hill", de 2010, e "Três Macacos", filme turco de 2008. 

O - Finalizando o nosso papo, você poderia deixar uma mensagem especial para meus leitores?

M - Agradeço o interesse em meu trabalho, Caruso. E, para seus leitores: Acreditem sempre em vocês mesmos, não deem atenção às opiniões dos outros. 


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

"Tempo de Guerra", de Jean-Luc Godard


Tempo de Guerra (Les Carabiniers – 1963)
Num país imaginário, o rei declarou guerra a um país vizinho. Uma família humilde, composto pela mãe, uma filha e dois filhos, recebe uma intimação para que os rapazes comecem a lutar por seu país, com a garantia de voltarão ricos graças aos saques. A oferta é tentadora e eles partem  para o front, dispostos a cometer qualquer atrocidade  pelas riquezas.


Um filme pouco lembrado de Godard, conduzido de forma direta, sem muitas experimentações, com um humor anárquico que potencializa o absurdo do tema abordado, a mentira da guerra. Costumo indicar esse trabalho da fase inicial do diretor para todos aqueles que demonstram interesse em entender o mito que o envolve.

Nele podemos enxergar o cineasta embrionário, ainda movido pelo equilíbrio entre a razão e a emoção, algo que foi perdendo ao longo de uma carreira dedicada à desconstrução crítica da linguagem. Ao escolher localizar o conflito em uma nação inexistente, evita a necessidade de recriar e contextualizar o cenário, podendo direcionar sua verve ironicamente brutal exclusivamente na imbecilização que aflora no ser humano, quando ele se encontra diante dos horrores de uma guerra. A maldade ingênua, infantil, dos soldados que se aproveitam da situação de superioridade, levantando as saias das mulheres. A ignorância daquele que acata ordens sem compreender absolutamente nada do que motivou sua convocação, movido pela ilusão fabricada por aqueles mais interessados, que sempre assistem a tudo do alto, confortáveis em suas posições de destaque, tão ilusórias quanto, sendo representadas por medalhas de latão.

Quando os dois soldados paspalhões se empolgam com a falsa notícia do fim do confronto, Godard habilmente nos mostra o negativo de uma celebração com fogos de artifício, retirando qualquer verniz de beleza na cena, ela se torna deprimente. O diretor, com esse gesto, mostra que esse não é apenas um filme antiguerra, mas, numa ousadia corajosa, uma crítica aos próprios filmes antiguerra, que, servindo ao propósito teórico de apontar os absurdos, acabam reutilizando as mesmas fórmulas imagéticas, a espetacularização do combate, que caracterizam aqueles produtos industriais que celebram o militarismo. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Nos Embalos do Rei do Rock - "Ama-me com Ternura"

Link para a entrevista com Ginger Alden, última namorada de Elvis:


Poucos sabem disso, mas o grande sonho de Elvis era se tornar um astro do cinema. Ele trabalhou como lanterninha durante um bom tempo, memorizava os diálogos dos filmes, idolatrava James Dean, gostava de imitar seu personagem em “Juventude Transviada”, como uma forma de disfarçar sua introversão. Quando começou a lucrar com seus discos, pediu ao seu empresário, o Coronel Parker, uma chance em Hollywood. Como cantor, ele decidia tudo nos estúdios de gravação, mas como ator, ele achava fascinante estar submetido aos ensinamentos de seus diretores e colegas em cena, levando tremendamente a sério essa função. Dedicado, ele memorizava o roteiro completo, até mesmo as cenas em que seu personagem não aparecia. Foi assim, pelo menos, em seus primeiros projetos, antes de começar a se desinteressar pela forma com que a máquina industrial o conduzia inexoravelmente a repetir a mesma fórmula de sucesso.

O diretor Don Siegel, que trabalhou com ele em “Estrela de Fogo”, chegou a lamentar publicamente as escolhas do empresário de Elvis, já que percebeu no cantor um tremendo potencial. O Coronel Parker simplesmente não acreditava no talento de seu protegido como ator, sentimento que explica sua atitude de sempre priorizar os números, ao invés dos papeis nos filmes. O jovem queria ser desafiado como ator, mas acabou desiludido com a profissão, somente retomando o desejo em meados da década de setenta, quando investiu em um longa-metragem sobre artes marciais, sua paixão na época. O projeto nunca saiu do papel. Ele já estava passando por sérios problemas de saúde, não havia mais tempo para realizar sonhos. Mas, voltemos ao início, encontrando um jovem obstinado, que acabou promovendo uma revolução cultural.


Ama-me com Ternura (Love me Tender – 1956)
A trama é ambientada na época da Guerra da Secessão dos EUA. Tendo recebido a notícia que seu irmão mais velho (Richard Egan) havia morrido em combate, um jovem fazendeiro do Texas (Presley) casa-se com a amada de seu irmão (Debra Paget). Mas o inesperado regresso do irmão detona uma amarga rivalidade fraterna e trágicos confrontos com os soldados da União.


Era comum nos faroestes posteriores a utilização de um jovem rebelde, quase sempre cantor, como forma de atrair um público que não prestigiava a indústria. O clássico “Onde Começa o Inferno”, de John Ford, teve Ricky Nelson. Isso só foi possível graças ao arrebatador sucesso de “Ama-me com Ternura”. A sorte de Elvis foi que a Paramount estava precisando desesperadamente de algum fenômeno que preenchesse o vazio deixado pela separação de Jerry Lewis e Dean Martin. O produtor Hal Wallis queria algum artista que fosse atraente para os jovens, o que encontrou ao assistir uma apresentação do cantor na televisão americana. A ideia era colocar ele na tela grande, cantando o maior número possível de temas, em locações exóticas. Emprestado para a Fox, leu o roteiro de “The Reno Brothers”, ficando empolgado ao constatar que seria um papel dramático, sem canções. Pressionado pelo empresário, que o fez acreditar que não fariam dinheiro daquela forma, Elvis aceitou a inclusão de quatro temas, incluindo aquele que passaria a ser o título do filme, que seria dirigido pelo inexpressivo Robert D. Webb. Essa atitude submissa acabaria afastando participações de destaque em obras importantes, como “Amor, Sublime Amor”, “A Lei da Montanha” e, anos mais tarde, em “Nasce uma Estrela”, onde foi substituído por Kris Kristofferson.

Enquanto filmava, o rapaz chocou os pais de família no horário nobre, com seu rebolado em “Hound Dog”, no tradicional “Ed Sullivan Show”, fazendo com que o estúdio acreditasse ainda mais no potencial financeiro daquele artista que seria, inicialmente, apenas um coadjuvante sem muita importância. Aumentaram suas cenas e deram maior destaque nas canções. No roteiro, seu personagem morre ao final de um tiroteio, mas os executivos sabiam que não poderiam deixar o público jovem sair da sessão num clima sombrio que o afastasse da hipótese de assistir novamente. Após várias reuniões, ficou decidido que o personagem morreria num ato de bravura e redenção, sendo visto no desfecho como um espírito de luz que continua a olhar por sua família, entoando uma versão mais melancólica da canção-tema, garantindo as lágrimas das meninas e o lucro na bilheteria. A Paramount viu o sucesso com a garotada, mas prestou mais atenção na indiferença do público adulto, nos cinemas mais tradicionais e respeitados, então decidiu não correr os mesmos riscos da empresa rival, fazendo com que Elvis interpretasse, nos três filmes seguintes, com mínimas variações, um cantor profissional.

Elvis fez três faroestes em sua carreira, sendo esse o menos interessante, ainda que apresente o jovem em seu estado bruto. Quando seu personagem sobe no palco e emenda: “Let Me” e “Poor Boy”, nós podemos ver o rebelde que escandalizou a nação, não o rapaz comportado que a indústria moldaria ao longo da década de sessenta.

A Seguir: “A Mulher Que eu Amo” (Loving You)

"Galo de Briga", de Monte Hellman


Galo de Briga (Cockfighter – 1974)
O tema é repugnante, deprimente, como a maioria das cenas que envolvem as brigas de galos, mas é impressionante como o roteiro consegue humanizar o protagonista, vivido por Warren Oates, que fez voto de silêncio, nos poucos momentos onde ele é confrontado emocionalmente por suas mulheres. Seria muito fácil adotar estereótipos, já que ele é um ser desprezível, capaz de vender a casa do irmão, apenas para conseguir comprar mais galos e sustentar seu vício de jogo. O mérito também é do ator, naquele que considero o melhor momento em sua filmografia, que se expressa com sutilezas no sorriso e no olhar. O produtor Roger Corman, insatisfeito com esses relances de humanidade, especialmente com a frase final, em que o personagem declara que é amado, chegou a atirar a versão final do roteiro na parede, após uma discussão com o diretor.

O diretor Monte Hellman inicialmente demonstrou incapacidade de sequer assistir as brigas de galos, o que chegou a preocupar o diretor de fotografia Nestor Almendros, mas acabou falando mais alto seu interesse pelas subculturas, em entender, antes de julgar. Ele procurou transmitir para o público a mesma sensação de revolta que ele sentiu inicialmente, objetivo que fica latente no breve momento que sua câmera mostra uma criança chorando, enquanto os pais vibram na plateia, tapando os olhos com uma cédula. Na tentativa de fazer com que a atriz Patricia Pearcy realmente vivesse o choque, ele não deixou que ela visse as brigas até filmar a cena final, para que a reação em seus olhos fosse a mais real possível.

A coragem do roteiro pode ser sintetizada na forma que o protagonista encontra, nos minutos finais, de demonstrar seu amor por sua mulher. Coerente, ainda que graficamente brutal, após ser questionado sobre sua devoção obsessiva aos galos de briga, Oates simplesmente corta a cabeça de seu galo campeão vivo com a bota, entregando-a na mão da mulher.  Por trás das cenas fortes, um estudo de personagem discreto, sobre a busca pela perfeição em uma profissão, mas também sobre a busca de ser plenamente aceito, com as imperfeições inerentes a todos, pela mulher que ama.

"Círculo de Fogo", de Guillermo del Toro


Círculo de Fogo (Pacific Rim - 2013)
Em qualquer forma de Arte, ignorar a proposta do autor é avaliar de forma errônea o seu trabalho. Logo, afirmar que "Círculo de Fogo" é um exemplo de estilo em detrimento da substância, nada mais é que constatar a competência de Guillermo del Toro naquilo que domina como poucos. A comparação imagética com "Transformers" serve apenas para potencializar a forma desastrada com que Michael Bay, um homem que mal sabe operar uma câmera, conduziu seu espetáculo. A beleza elegante na criação do universo em que habitam os robôs gigantes e monstros, assim como o refinamento no esperto roteiro, que apresenta seus personagens e suas motivações de forma direta, utilizando referências de obras do passado, como “Godzilla”, “Evangelion” e até "Top Gun", sem que o foco seja alterado para a inserção de melodramas tolos. Vemos claramente um adulto inteligente e criativo, brincando de resgatar sua criança interior.

Um exemplo de como um diretor, também roteirista, com Travis Beacham, visionário pode pegar um conceito tolo e desgastado, transformando-o em algo relevante, foi a forma escolhida para fazer com que nos importemos com os personagens humanos, normalmente caricaturais peões no tabuleiro da fantasia. Eles pilotam seus robôs através de uma conexão mental, porém, devido ao tremendo esforço cognitivo, recebem o auxílio de um colega, com quem compartilham memórias e segredos. É interessante também a escolha por subverter as expectativas, evitando as típicas ameaças alienígenas que escolhem conscientemente atacar o planeta em tantos projetos similares. A invasão na trama é despertada por uma ação natural do planeta. 

O diretor não se priva de abraçar os elementos característicos, como os discursos inspiradores e o heroísmo inconsequente, mas aborda-os com revigorante frescor. As cenas de batalha são empolgantes e de uma beleza sem igual no gênero. Apesar do imenso escopo e da impossibilidade de capturar no enquadramento tudo o que ocorre, a fotografia de Guillermo Navarro orienta o espectador para o coração motivacional das cenas, sem cair na tentação de confundir e esconder as falhas com um excesso de edição. Extremo cuidado é direcionado ao contraste no trabalho da iluminação. Claro que tudo não passa de um passeio num parque de diversões, mas com certeza muito satisfatório.