quarta-feira, 15 de outubro de 2014

"Killer Joe", de William Friedkin


Killer Joe - Matador de Aluguel (Killer Joe - 2011)
O diretor William Friedkin realiza seu melhor filme desde "O Exorcista" (1973). Impressionante como o cineasta continua provocador, utilizando um senso de humor peculiar, alguns considerarão ofensivo, e comandando um elenco impecável. A condução do primeiro ato como uma comédia de humor negro e a transição para um segundo ato filosoficamente instigante, a caracterização dos personagens, o vestuário de Joe e Dottie, que diz mais que páginas de roteiro, o suspense orquestrado em cenas angustiantes, a perseguição dos motoqueiros, por exemplo, a naturalidade com que a nudez, coerente ao tema, é trabalhada, tudo regido com extrema franqueza.

Como não quero estragar a experiência, pouco direi sobre a trama. Matthew McConaughey, em excelente atuação, interpreta um elemento visceral nascido de seu próprio meio corrupto. Um detetive que faz bicos como assassino contratado. Cada reação contida e fala murmurada evidencia seu profundo desequilíbrio emocional. A sua reação em seu primeiro encontro com a jovem, demonstra o quanto eles dois são almas gêmeas perturbadas, dois seres que fingem para não sofrerem. Juno Temple, perfeita em cada nuance, vive uma mulher infantilizada, presa em traumas passados, que busca esconder com uma fingida timidez excessiva, seu profundo desejo sexual. A calculada escolha por inicialmente evitar utilizar um vestido negro, sensual, em um encontro amoroso contrasta com a rapidez com que ela aceita entrar no jogo de sedução.

Nenhum filme é para todos os gostos, posto que consideremos nessa equação pessoas com algum senso de critério seletivo e personalidade. Friedkin entrega uma obra muito corajosa, flertando até com o surrealismo, sem inibições. Com um terceiro ato que deixaria Sam Peckinpah orgulhoso e uma excelente fotografia, de Caleb Deschanel, de "A Paixão de Cristo", em seu primeiro trabalho com digital, que acentua com uso intenso de sombras, a tênue linha que separa a consciência do homem, entre manter-se íntegro ou abraçar a violência.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

"Rush - No Limite da Emoção", de Ron Howard


Rush – No Limite da Emoção (Rush – 2013)
O filme foca na rivalidade entre o playboy inglês James Hunt (Chris Hemsworth) e o metódico austríaco Niki Lauda (Daniel Brühl); o roteiro de Peter Morgan, retomando sua parceria com o diretor Ron Howard após o excelente “Frost/Nixon”, resgata a temporada de 1976. Inteligente, não repete os erros de projetos similares do passado, utilizando a corrida de carros como uma analogia dos conflitos que todos nós podemos enfrentar. Os personagens são identificáveis e as cenas de ação realmente empolgam. O grande mérito nasceu de uma decisão nos primeiros rascunhos, quando Morgan acreditava que, caso o trabalho chegasse a ser filmado, seria com baixo orçamento, o que fez com que ele priorizasse o confronto que ocorria fora das pistas.

A lente intrusiva da fotografia de Anthony Dod Mantle resgata a elegância de uma década em que o esporte permitia a saudável competitividade e a inconsequência dos corredores; uma época em que a competência individual era o fator decisivo em uma vitória. A obra também marca o crepúsculo dessa era gloriosa, simbolizada pelas atitudes bon vivant do mulherengo Hunt, colocando-o em contraste com a rígida disciplina de Lauda, que simboliza um esporte menos guiado pela emoção. O confronto em cena entre esses dois pilotos com atitudes distintas resulta em momentos bastante engraçados, um alívio cômico na medida certa. Algumas liberdades tomadas, totalmente compreensíveis numa narrativa cinematográfica, como o encontro inicial dos dois na F3 e, especialmente, a agressão de Hunt contra o repórter que havia ofendido Lauda, comprovam a esperteza do roteiro.

A ótima trilha sonora de Hans Zimmer evidencia cada derrapagem e batida como se estivesse emoldurando uma guerra, o que garante o peso emocional necessário, fazendo até mesmo o espectador menos interessado em Fórmula Um se contorcer na poltrona e se emocionar com a trama. Quando somos conduzidos ao momento de maior resiliência de Lauda, retornando às corridas após seu acidente, somos levados a colocar em dúvida os estereótipos, sem nunca limitar os personagens ao cômodo viés: herói/vilão, como equivocadamente fez o documentário “Senna”. A mensagem, ainda que exposta sem nenhuma sutileza, desnecessariamente, no monólogo de desfecho, é de grande beleza e atemporal. O desafio é que nos estimula a superar nossas limitações.

Muitos saudosistas afirmam que não houve melhor projeto sobre o tema que “Grand Prix”, de 1966, mas provavelmente ignoram que, com exceção das pioneiras cenas de corrida, a trama era um excelente sonífero. Steve McQueen protagonizaria o superior, ainda que pouco lembrado, “As 24 Horas de Le Mans”, em 1971, mas me arrisco a dizer que esse é o melhor projeto a abordar o esporte. Competente como espetáculo, eficiente como cinebiografia e corajoso como estudo de personagens.

sábado, 11 de outubro de 2014

O corajoso "A Dama e o Vagabundo", de Walt Disney


A Dama e o Vagabundo (Lady and the Tramp – 1955)
Sempre lembrada pela adorável cena, ao som de “Bella Notte”, que mostra a dama e o vagabundo compartilhando um fio de spaghetti, poucos contextualizam a obra e reconhecem o quão corajosa foi essa produção para os estúdios de Walt Disney.

Após o fim da guerra, o mundo havia modificado bastante, principalmente o papel da mulher na sociedade americana e no mercado de trabalho. E é possível notar nuances feministas na cena em que os outros cães debocham do pedigree da Dama, fazendo com que a cadela vira-lata Peg parta em sua defesa, da mesma forma que também é perceptível o ranço do preconceito contra asiáticos da época dos projetos de propaganda, nos terríveis gatos siameses, que falam com dificuldade, trocando letras e visam apenas o caos. É interessante salientar a abordagem de temas espinhosos, levando em consideração o público alvo, como a disputa de classes e as variadas formas de abandono, desde a rejeição com que uma criança pode se identificar ao ver nascer um irmão, até o abandono social dos marginais, aqueles que, na alegoria de Disney, não possuem coleira.

Com uma trama simples, sem antagonistas fortes ou grandes desafios, a beleza do desenho, realçada pelo widescreen na primeira tentativa do estúdio com o CinemaScope, acaba chamando mais atenção. A opção por nomear os donos simplesmente como Jim querido/querida, além do enquadramento baixo, mostrando a ação pelo ponto de vista dos cães, evidenciam a perspectiva canina e elevam a qualidade de momentos como a perseguição ao rato dentro de casa, no terceiro ato. A conexão emocional, ponto forte do estúdio, é estabelecida logo na primeira sequência, quando a Dama é dada como presente dentro de uma caixa, exatamente como Walt outrora havia feito com sua esposa. É notório o carinho do criador com esse produto, um veículo para a bela mensagem que é apresentada no início, sobre o amor verdadeiro que representa o abanar do rabo de um cão.

O que acho mais bonito nesse filme é que, diferente de outros clássicos do estúdio, ele nunca apela para o sentimentalismo exagerado, preferindo solucionar conflitos sem diálogos expositivos e piegas. Um exemplo está no desfecho da sequência que mostra a Dama se sentindo ignorada pelos donos, com o nascimento do bebê. Ela rodopia entre os pés deles, ansiosa para descobrir a razão de todo aquele rebuliço em sua casa, até que silenciosamente seu dono a pega no colo e a ajuda a enxergar o bebê dentro do berço. Os dois então acarinham seu pelo, como que para deixar ela segura de que ainda é importante para os dois. Sem exageros, num revés silencioso de muita sensibilidade, o roteiro deixa claro que a cadela se sente responsável pela segurança do bebê.

Disney arriscou tocar em temas muito mais adultos e profundos do que em suas produções anteriores, incluindo até um cão comunista que cita Gorky, um bloodhound com crise existencial após perder o faro, sem falar no protagonista Vagabundo de libertária vida amorosa, que nos remete ao Carlitos de Chaplin, ao lidar com uma figura de autoridade policial. Uma linda animação que sobreviveu muito bem ao árduo teste do tempo.

"Uma Vida Roubada", de Curtis Bernhardt


Uma Vida Roubada (A Stolen Life - 1946)
Realizado no mesmo ano do tematicamente similar Espelho d’Alma (The Dark Mirror), onde Olivia de Havilland também interpretava irmãs gêmeas, mas abusando de artifícios facilitadores, como estilos de vestuário antagônicos ou joias com as diferentes iniciais em cordões, o filme dirigido por Curtis Bernhardt se entrega plenamente à competência monstruosa de sua protagonista. 

Por mais eficientes que fossem as técnicas de super-imposição do diretor de fotografia Ernest Haller, truque que ele iria melhorar ainda mais em Alguém Morreu em Meu Lugar (Dead Ringer, de 1964), também protagonizado por Davis, o mérito vai todo para a espetacular atriz, que realiza quatro variações totalmente distintas: Kate (tímida, sensível e desajeitada), Pat (sensual, sofisticada e intempestiva), mas além dessas interpretações mais visíveis, temos a sutileza de Pat emulando a personalidade de Kate e vice-versa. E, em nenhum momento, nenhuma dessas variações soa forçada ou se apoia em clichês de temperamento. 

O roteiro evita o lugar comum de demonizar uma das irmãs, desenhando caricaturas. Somos brindados com duas mulheres altamente falíveis e vítimas de suas próprias ambições. O choque entre as duas nasce com a paixão em comum pelo marinheiro vivido por Glenn Ford. O personagem do rude pintor, vivido por Dane Clark, responsável por libertar Kate de seu complexo de inferioridade, levando-a indiretamente a assumir o lugar da irmã no terceiro ato, é o elemento do caos, necessário para instigar a revolução pessoal que ocorre com ela. 

O leitmotiv da manipulação é simbolizado numa cena breve, quando Kate está fingindo ser sua irmã e voltando para a casa dela, onde é mostrado que até a lealdade de um cão pode ser comprada. O desfecho pode ser preguiçoso, algo perdoável quando analisado no contexto da época, mas esse filme é um testamento eterno da genialidade de Bette Davis, uma das melhores atrizes da história do cinema. 

"Capitão América 2" - O Melhor Filme Solo da Marvel



Capitão América 2 - O Soldado Invernal (Captain America: The Winter Soldier - 2014)
O Capitão América dos quadrinhos nasceu apenas como um símbolo de esperança na Segunda Guerra, com um desenvolvimento narrativo tolo e que só encontrou alguma relevância nos dez anos de domínio criativo do escritor Mark Gruenwald, especialmente no arco em que o personagem questionava duramente o próprio governo que defendia, levando-o a refletir sobre a ideologia que o mantinha íntegro perante a óbvia manipulação de seus superiores. E uma das coisas que mais me agradaram em “Capitão América 2: O Soldado Invernal” foi perceber esse tom corajoso no filme, um posicionamento crítico político verossímil e análogo ao que os jornais nos apresentam diariamente, como nas melhores mitologias através dos tempos.

A Marvel entrega, num equilíbrio perfeito dessa vez, o que a DC/Warner está tentando de forma desesperada, mas não consegue: um projeto que respeita fielmente suas origens e seus leitores novos e antigos, com seriedade em intensidade suficiente para ser relevante para todos os públicos, mas sem ser sorumbático. O roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely inteligentemente movimenta as peças desse grande tabuleiro que a produtora está criando, ousando bastante nos plot twists e elaborando uma trama que caberia tranquilamente em uma galeria ao lado das obras literárias de Robert Ludlum. É perceptível que os diretores Anthony e Joe Russo, que haviam dirigido episódios das séries “Community” e “Arrested Development”, estudaram bastante os filmes de Michael Mann, para comporem as ótimas cenas de ação, nunca distribuídas em detrimento do desenvolvimento narrativo, como é usual no subgênero “adaptações de quadrinhos”. Cada uma delas existe com uma função lógica no contexto que o roteiro propõe, normalmente utilizando as emoções dos personagens como elemento motivacional, algo mais raro ainda caso levemos em consideração que o próprio filme anterior era, estruturalmente, um videogame ruim.

Chris Evans (Steve Rogers), sendo um ator mediano, consegue transmitir naturalmente o desconforto de um homem preso em um tempo que não é o dele, defendendo noções éticas ultrapassadas em uma sociedade hipócrita. E o fator mais interessante no personagem, mesmo nos quadrinhos, é esse conflito interno entre a segurança de um militar e seu caráter, que o faz entender que ele vive por regras já há muito tempo modificadas por interesses escusos. Sem me aprofundar na trama, por respeito à experiência do público, descobrimos que nem a S.H.I.E.L.D. estava imune à corrupção, introduzindo espertamente o personagem vivido por Robert Redford (Alexander Pierce). O renomado ator que, em décadas passadas, sempre foi cogitado pelos fãs para interpretar o herói, entrega uma atuação segura, contida. Nada melhor que o protagonista de um dos melhores thrillers de espionagem da década de setenta: “Três Dias do Condor”, estar presente nessa homenagem ao gênero. Anthony Mackie (Sam Wilson) e Scarlett Johansson (Natasha Romanoff) acabam sendo responsáveis pelos vários alívios cômicos, com o primeiro especificamente resultando um tanto quanto caricatural, o ponto mais fraco.

O melhor de tudo é constatar ao final, o que inclui as já costumeiras cenas pós-créditos, um desejo genuíno de saber o que está por vir na sequência. Pela primeira vez nesse universo cinematográfico da Marvel, não serão apenas os fanboys que estarão salivando de ansiedade ao final. Quem diria, o personagem mais fraco dos “Vingadores” protagonizou um projeto melhor que o próprio filme da equipe.