quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Faces do Medo - "Os Invasores de Corpos"


Os Invasores de Corpos (Invasion of the Body Snatchers - 1978)
Esse é um dos melhores exemplos de como uma refilmagem pode ser superior ao filme original, além de ser uma adaptação mais fiel ao livro que o originou, um clássico de Jack Finney. A invasão alienígena, que tomava de assalto um vilarejo, transportada eficientemente para a cidade grande, modificando o foco da opressão claustrofóbica para a paranoia do anonimato, onde o individualismo parece se perder, um conceito profético para os dias atuais, com a sociedade se tornando cada vez mais padronizada e se olhando menos nos olhos.

O suspense é estabelecido com perfeição já em seu primeiro ato, com destaque para uma breve cena que muitos nem lembram, onde um padre, vivido por Robert Duvall, é visto se balançando junto às crianças em um parque, direcionando um olhar sombrio para a câmera. Você percebe que existe algo de muito esquisito ocorrendo naquele lugar. O terceiro ato é aterrorizante, não dando tempo para o espectador respirar. Foi o primeiro trabalho valoroso de Philip Kaufman na direção. Anos depois ele criaria, com George Lucas, o roteiro de "Os Caçadores da Arca Perdida". Todos os elementos funcionam, da crítica social aos efeitos visuais, até o alívio cômico interpretado por Jeff Goldblum.

Don Siegel, o diretor do filme original de 1956, faz uma ponta como o motorista de táxi que conduz os personagens de Donald Sutherland e Brooke Adams. É interessante salientar a forma como o diretor utiliza a cor vermelha, como uma representação simbólica da perda de entusiasmo e do conformismo que sucedem à duplicação. Outro detalhe interessante e que evidencia a inteligência criativa de Leonard Nimoy, a meia-luva que utiliza em apenas uma mão, foi decisão do próprio ator, buscando tornar seu personagem mais enigmático.  Os créditos finais são apresentados em tenebroso silêncio, aspecto que funcionou com a proposta, mas não foi algo pensado, um complemento perfeito para os arrepiantes momentos que o antecedem. Diferente do desfecho acomodado da adaptação anterior, o público é brindado com uma cena genuinamente apavorante, satisfazendo plenamente o intelectual e o sensorial. 

sábado, 13 de setembro de 2014

"O Homem Duplicado", de Denis Villeneuve


O Homem Duplicado (Enemy - 2013)
É impossível analisar profundamente a obra sem revelar segredos, mas tentarei abordar os aspectos comuns ao livro original e sua adaptação, a fidelidade à mensagem de José Saramago e a inteligência do roteirista Javier Gullón, que utilizou a base crítica do escritor português e a reforçou com personalidade, utilizando aquilo que é exclusivo da linguagem cinematográfica, criando uma simbologia que é sutilmente perceptível no decorrer da trama.

O livro é rico no senso de humor peculiar do autor, com as constantes intervenções do senso comum a questionar os atos do protagonista, mas o filme escolhe deixar totalmente de lado esse viés, reduzindo a jornada literária hercúlea do professor deprimido em busca de sua duplicata - que descobre existir ao assistir despretensiosamente um filme - ao estritamente necessário para o entendimento do espectador que não leu a obra. A duração é curta, os eventos são rápidos e as motivações dos personagens são estabelecidas de forma sucinta, mas a simbologia aracnídea evidenciada desde a primeira cena ajuda a fazer compreender que estamos vendo uma ágil fábula urbana, não um profundo estudo psicológico como nas páginas de Saramago.

O roteiro capta sutis analogias do autor ao totalitarismo e, como em toda fábula, as potencializa generosamente. Conhecemos o professor (Jake Gyllenhaal) exatamente enquanto ele tentava ensinar aos seus alunos sobre a obsessão do Estado em controlar o povo, entregando “pão e circo” e mantendo-os ignorantes, pois é mais fácil manipular um gado com preguiça de pensar. Como educador, ele é o principal alvo daqueles que tencionam o regime ditatorial, já que é o responsável por incitar nos jovens o estímulo ao questionamento. Tomadas rápidas mostram o que parece ser uma teia de aranha sobre a cidade, ilusão criada pelo ângulo da câmera ao focar simples cabos elétricos. E essa é apenas uma das várias exposições simbólicas que são mostradas, algumas sutis e outras explícitas, mas que não serão aqui reveladas por respeito à experiência do leitor.

Em outro momento, uma rápida tomada aérea transforma vários prédios em um imenso labirinto, reforçando a batalha diária dos indivíduos que se espremem pelos “corredores”, muitas vezes sem encontrar sentido para tal esforço. Uma “teia” que anestesia enquanto sufoca gradativamente sua vítima. O totalitarismo, nas palavras do próprio professor, “tolhe todas as formas de expressão individual”, exatamente o que ocorre com ele quando descobre surpreso que não é mais um indivíduo, que existe uma duplicata exata sua, uma perfeita antítese, vivendo uma vida de aventuras, um artista especialista em representar outros papéis. No livro, esse aspecto é aprofundado, inserindo no professor a vergonha pelo nome de batismo, Tertuliano, fazendo questão de chamá-lo sempre pelo nome completo, ocasionando situações que eu gostaria que tivessem sido aproveitadas pelo roteiro.

O que se mantém é a diferenciação dos personagens pela aliança no dedo do ator. O diretor Leos Carax, em seu excelente Holy Motors, abordou o tema com maior ousadia e criatividade, mas com uma proposta bastante diferente. O foco de Denis Villeneuve é na parábola sociológica macro, não nos conflitos existenciais do micro. Uma das adições que considerei mais válida foi na construção narrativa da personagem da noiva do ator (Sarah Gadon), que agora tem participação ativa, alterando para melhor sua contraparte literária, tornando suas ações mais complexas e interessantes, especialmente no terceiro ato. O resultado é, como nas melhores adaptações, uma obra complementar que respeita o material original, compreendendo perfeitamente sua mensagem, mas dando um passo além. Saramago ficaria orgulhoso. 

"O Grande Hotel Budapeste", de Wes Anderson


O Grande Hotel Budapeste (The Grand Hotel Budapest - 2014)
Existe um pouco da elegância cômica de Ernst Lubitsch, uma melancolia que ecoa a de “O Tempo Redescoberto” de Marcel Proust, criativas gags sonoras que remetem a Jacques Tati, uma respeitosa reverência à fictícia Freedonia dos Irmãos Marx, até mais explicitamente uma homenagem a Blake Edwards, em uma das situações mais engraçadas no terceiro ato e na inspiração em “Clouseau”, eterno Peter Sellers, nos trejeitos do personagem de Ralph Fiennes, mas também vejo grande similaridade com a abordagem metafórica, proposta por Vicki Baum em seu livro “Grande Hotel”, do estabelecimento de hospedagem como um microcosmo humano, um personagem que respira e evolui na história. O aspecto fabulesco, realçado pelo estilo visual inimitável do diretor, com a fotografia do usual parceiro Robert Yeoman, e pelo constante uso dos cenários pintados na paisagem, evidencia ainda mais a contundência emocional da mensagem, que se revela cada vez mais tocante em revisões. 

O roteiro de Wes Anderson é inspirado no trabalho literário do austríaco Stefan Zweig, autor de “Carta de uma Desconhecida” (que foi adaptado no belo clássico dirigido por Max Ophuls), que é representado na trama em duas fases de sua vida por Jude Law e Tom Wilkinson, mas cuja personalidade também é percebida na construção do personagem de Fiennes, em seu melhor papel em muitos anos. Somos presenteados com uma trama que é apresentada pela ótica criativa do autor, as lembranças que ele conta a partir das lembranças do dono do hotel, enquanto jovem impressionável, vivido por F. Murray Abraham e pelo promissor estreante Tony Revolori. Esse recurso narrativo possibilita, com o auxílio de uma espécie de “MacGuffin” (o quadro do garoto com a maçã), uma intensa experimentação com vários gêneros, como o filme de espionagem, o filme de prisão, o giallo italiano, a comédia pastelão e até o terror, representado especialmente pelo personagem vivido por Willem Dafoe. 

O resultado pode ser menos cálido e emocionalmente envolvente que o anterior “Moonrise Kingdom”, mas compensa com o senso de humor mais acessível e um ritmo empolgante, como se o diretor quisesse mostrar que pode brincar competentemente no terreno das produções formulaicas dos estúdios, sem perder sua personalidade. 

"A Canção da Estrada", de Satyajit Ray


A Canção da Estrada (Pather Panchali - 1955)
No final da década de quarenta, o cineasta francês Jean Renoir visitou a Índia para gravar "O Rio Sagrado". Na ocasião, conheceu Satyajit Ray, um jovem apaixonado por cinema e que trabalhava na época como ilustrador de capas de livros. Ray ajudou o diretor a encontrar várias locações para o filme e aproveitou para falar a ele sobre sua vontade de tornar-se um cineasta. Renoir o incentivou a continuar sonhando e ao regressar ao seu país, deixou para trás um homem modificado. O jovem indiano havia ilustrado uma versão do livro "Pather Panchali" e se identificava com a trajetória de vida do pequeno protagonista Apu. Foi enviado para Londres a trabalho e nos três meses que lá ficou, assistiu a noventa e nove filmes, entre eles o neo-realista italiano "Ladrões de Bicicleta", que serviu como motivação para que ele decidisse investir em suas ideias e realizar uma adaptação cinematográfica de sua obra literária favorita. Muitas das imagens criadas para o livro acabaram sendo transpostas para o filme.

O filme foi feito com uma verba irrisória. Sua equipe técnica e artística nunca havia trabalhado nesta área, as gravações tiveram que ser interrompidas várias vezes por falta de dinheiro e o filme só conseguiu ser completado com a ajuda do governo indiano. Todo o esforço e dedicação valeram à pena, pois foi um enorme êxito de público e crítica no mundo todo. O lendário cineasta americano John Houston deu o empurrão necessário à confiança do indiano, quando filmava na Índia e a pedidos do próprio, assistiu um pequeno trecho do filme, que ainda não havia sido completado, e fez questão de notificar ao Museu de Arte Moderna de Nova York que um talento imensurável se mostrava no horizonte. Ele recebeu um prêmio especial no prestigiado Festival de Cannes em 1956 e continua sendo respeitado até hoje. Ray desenvolve no filme um trabalho lírico e singelo sobre a infância e a união familiar. A história simples se passa num pequeno vilarejo no interior da Índia, onde uma mulher cuida sozinha de sua filha adolescente enquanto seu marido passa a maior parte do tempo longe de casa, procurando sem muito sucesso, realizar seus sonhos profissionais. O pequeno Apu nasce no meio do fogo cruzado entre três mulheres distintas: uma mãe digna, que se recusa a aceitar ajuda nos momentos de dificuldade, sua irmã sonhadora e sua tia à beira da morte. A trama é irrelevante, deixando em primeiro plano um relato realista do dia a dia desta pequena família, que sobrevive à pobreza, expectativas frustradas e tragédias naturais com uma força de espírito incomum.

Vários momentos ficam guardados na memória, como a celebrada cena onde Apu e sua irmã correm para ver a passagem de um trem, evento que, de tão fascinante e mágico, por representar uma nova perspectiva de realidade num futuro distante, acaba ocasionando a reconciliação entre os irmãos, que haviam discutido por causa de um pedaço de papel. Porém as imagens as quais sempre me recordo ao falar deste filme são as que envolvem a bela relação entre a filha adolescente e sua amada tia, como quando a jovem rouba frutas de pomares alheios para levar para a velha senhora, que sempre a recebe com um largo sorriso sem dentes.

A Seguir: "O Invencível" (1956)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

"O Lobo Atrás da Porta", de Fernando Coimbra


O Lobo Atrás da Porta (2013)
Esse filme é um raro exemplo de perfeição em todos os quesitos, do elenco principal ao coadjuvante, da fotografia excelente de Lula Carvalho à montagem, da trilha sonora ao roteiro e direção. Uma trama que envolve, ilude, manipula e surpreende, com exibição de pleno entendimento na linguagem utilizada. O roteiro do diretor Fernando Coimbra, estreando de modo promissor com a coragem de um Michael Haneke, ousa trilhar o caminho do cinema de gênero com personalidade, desobedecendo a uma informal cartilha que é passada a todos os estudantes da área e que incentiva de maneira simplista o desprezo por gêneros como medíocre enlatado estrangeiro, escondendo a incompetência e o medo de errar na prática de aperfeiçoamento das fórmulas. 

O filme é autoral e minimalista, mas inteligentemente não é anti-indústria. O impactante resultado final incita naturalmente o boca a boca no espectador, mérito exatamente das convenções do gênero bem executadas que a obra abraça. A história em si, um suspense que pode remeter a clássicos como "Atração Fatal", não é particularmente original, mas a forma como a câmera rejeita qualquer gordura extra, focando-se no quebra-cabeça que se estabelece logo no início, demonstra necessária segurança e não o complexo de inferioridade usual em tentativas nacionais similares nas quais os cineastas buscam transformar qualquer fiapo de trama em algo esteticamente revolucionário. 

Até mesmo os alívios cômicos representados principalmente pelo colega de trabalho do protagonista e pela comediante Thalita Carauta, elementos que costumam existir numa realidade paralela à trama, funcionam como movimentadores da narrativa principal. E é válido salientar que somos apresentados a personagens tridimensionais, com motivações bem fundamentadas, algo que não é essencial no gênero - que permite sem maiores problemas as caricaturas, tal como no já citado "Atração Fatal". Até mesmo o personagem vivido por Emiliano Queiroz, aparecendo pouco e sem dizer uma palavra, acaba se mostrando narrativamente essencial no entendimento do enigma comportamental que envolve a protagonista. 

Não saberia por onde começar os elogios às atuações de Leandra Leal e Milhem Cortaz. A bela e talentosa atriz entrega um desempenho assustador, transmitindo na sutileza de olhares a vulnerabilidade da personagem, atravessando os diversos estágios psicológicos de seu arco narrativo, indo da doçura à intensa crueldade em questão de segundos. Cortaz continua sendo uma força da natureza, praticante da difícil arte de fazer todos os diálogos do roteiro soarem como improvisos naturais, sempre com um toque de ironia. Ele vive um homem preso em um relacionamento desgastado, que acaba encontrando a injeção de ânimo no arriscado desafio amoroso que enxerga numa jovem que conheceu num transporte público, um simbólico motivo condutor do roteiro e que se apresenta desde os créditos iniciais até o desfecho, representando o fator desconhecido que se esconde nas várias encruzilhadas decisórias diárias na vida de todo indivíduo.