sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Jerry Lewis - Um Diretor Subestimado


Joseph Levitch nasceu em um berço de artistas. Seu pai, Danny Lewis era um ator de Vaudeville e sua mãe Rachel Levitch tocava piano para uma estação de rádio local. Desde os cinco anos de idade já gostava de fazer os outros rirem e aos quinze já havia criado uma brincadeira que viria a ser usual em seus projetos futuros, acompanhar com gestos exagerados uma música. No início da década de quarenta formou parceria com o cantor Dean Martin. Em uma época onde o humor era burlesco e formado por esquetes baseadas em uma ação única (mais ou menos como o atual programa global: “Zorra Total”), direcionado a um público mais simplório, Martin e Lewis traziam em sua bagagem uma forte carga de ironia e anarquia, escondidos por trás de duetos nada harmônicos onde Lewis, que cantava muito bem na vida real, forçava sua voz a ponto de torná-la um tormento aos ouvidos, enquanto inseria trechos cômicos nas melodias de seu parceiro. Outra inovação era o formato de humor livre, baseado apenas na interação e nos improvisos da dupla, algo que marcou profundamente o show business da época e modificou tudo desde então. 

Hollywood se apoderou da dupla e os colocou em uma fórmula vencedora, mesmo que aprisionada por vários clichês. Sempre haveria o momento onde o galã Dean cantaria uma bela canção de amor e um espaço reservado para o talento de Lewis brilhar sozinho (é nesse momento que ficava claro quem era o real gênio por trás da dupla). Meu filme favorito nessa parceria é "O Marujo foi na Onda" (Sailor Beware - 1952). Enquanto Martin sempre foi um ótimo crooner que conseguia ser engraçado, Lewis era extremamente engraçado naturalmente e conseguia cantar, fazendo muito bem as duas coisas. Desde o início tentava expandir os limites do humor, trazendo novas maneiras de se conseguir uma gargalhada, seja por gestos exagerados, caretas ou intrincadas cenas realizadas perfeitamente, demonstrando excelente timing cômico. Os dois eram amigos fora das telas, porém o ciúme profissional e a crescente popularidade de Lewis fizeram com que Martin desfizesse a parceria após mais de quinze filmes. Os dois ficaram décadas sem se falar, até que um amigo em comum, Frank Sinatra, colocou-os frente a frente, para a comoção de uma surpresa plateia em um Telethon apresentado por Lewis em 1976. Naquele dia ficou notório o quanto os dois realmente se gostavam e haviam amadurecido. No final da década de cinquenta, já sem a companhia de Dean, Lewis continuou carreira nos estúdios Paramount. Foi nessa época que sua genialidade encontrou o equilíbrio perfeito, dando luz a obras-primas eternas e reverenciadas até hoje.

Em 1960 tomou o comando de sua primeira produção com total poder criativo, originando o clássico: “O Mensageiro Trapalhão” (The Bellboy) onde interpreta um mensageiro de hotel que não fala uma palavra durante toda a projeção, porém realiza as maiores trapalhadas. Seu trabalho nesta obra faz referência a astros do humor como Jacques Tati, Chaplin e Stan Laurel (seu grande ídolo e amigo), sendo na realidade uma linda homenagem ao cinema do gênero. Nesta pequena obra está contido o amálgama de tudo em que Lewis acreditava, com facetas de vários estilos de humor, o grotesco, físico, inteligente, cínico e o infantil, ingênuo e inocente. Sempre lembrado como ator, poucos valorizam seu trabalho como diretor. Sua originalidade na construção do cenário inovador de "O Terror das Mulheres", já bastaria para reverenciarmos sua ousadia. Ele também criou um artifício que muitos operadores de câmera hoje em dia nem fazem ideia que foi ele o inventor. Até aquele momento, o diretor filmava as cenas e tinha que esperar vinte e quatro horas para poder visualizá-las. Lewis, procurando resolver esse problema, patenteou um sistema onde colocava uma câmera de vídeo ao lado da câmera de filmagem, os dois compartilhando a mesma imagem. Assim ele poderia voltar e ver sua cena sempre que quisesse, realizando pequenos ou grandes ajustes. Esse protótipo hoje recebe o nome de “Assistente de Vídeo”, sendo presença obrigatória em todos os sets de filmagem.

Outras obras primas seguiram-se, como: “O Terror das Mulheres” (The Ladies Man), “O Mocinho Encrenqueiro” (The Errand Boy) e o insuperável “O Professor Aloprado” (The Nutty Professor). No filme de 1964: “O Otário” (The Patsy), foi o responsável por mais uma inovação cenográfica, quando ao final, as câmeras se distanciam deixando exposto que aquilo tudo era um estúdio de gravação. Ele se mostra, não como o personagem, mas sim como o diretor Jerry Lewis, desconstruindo o sonho da maneira mais engraçada possível. Fellini fez parecido em “E La Nave Va”, quase vinte anos depois, e foi considerado original. Jerry já havia ousado muito antes. 

Jerry dedicou sua vida em uma luta a favor das vítimas de distrofia muscular, realizando anualmente programas televisivos que buscam angariar fundos para a causa, os já citados Telethons. Ao final de cada apresentação emocionava-se cantando a clássica: “You´ll Never Walk Alone” (Você Nunca Andará Só). Em suas lágrimas, o comprometimento de uma vida dedicada à Arte, ao aprimoramento constante de seu ofício e sua incrível generosidade.

"Ensina-me a Viver", de Hal Ashby


Ensina-me a Viver (Harold and Maude - 1971)
A sensível história, um elegante manifesto de liberdade, foi o primeiro trabalho do roteirista e diretor Colin Higgins, que conseguiria ainda outro sucesso (ainda que não na mesma proporção) com o roteiro de “O Expresso de Chicago” (Silver Streak – 1976), o veículo que apresentou ao mundo a química que havia entre Richard Pryor e Gene Wilder. A direção de Hal Ashby envolveu a obra com uma ternura ímpar. Em nenhum momento questionamos a veracidade do sentimento do casal. 

O olhar zombeteiro que Harold direciona a nós, após assustar sua primeira pretendente, com o acompanhamento dos primeiros acordes da canção “I Think I See The Light” (excelente trilha sonora de Cat Stevens), marcou-me profundamente quando assisti pela primeira vez, ainda na pré-adolescência. Acredito que tenha sido a primeira vez que assisti algum personagem quebrar a quarta parede (sem contar com o sorriso de Christopher Reeve ao final de “Superman”), ainda que não soubesse que aquele ato era chamado dessa forma, achei incrível. Anos depois descobri que este momento não estava no roteiro, tendo sido inteligentemente improvisado pelo ator Bud Cort em cena.

Tantos momentos que ficam marcados em nossa memória emotiva. O garoto que vivia desafiando a morte numa valsa cômica, acorrentado aos anseios mediocrizantes de uma mãe fria (que belo momento, quando o jovem assusta-a com um simples abraço, complementando simplesmente com: “Isto é só um abraço”) e excessivamente preocupada com o que os outros irão pensar de sua própria vida. O encontro com a senhora septuagenária, vivida por Ruth Gordon, sobrevivente de um campo de concentração nazista, que se recusa terminantemente a abraçar sua finitude. A crítica divertida, mas contundente, aos militares e às guerras, simbolizada na genial cena em que, intencionando fugir do serviço militar proposto por seu tio, o jovem simplesmente demonstra seu excessivo apreço pela violência nos campos de batalha.

O amor que nasce às margens das exigências sociais, entre um senhor adolescente e uma jovem idosa, ambos compartilhando aprendizados sobre a vida, a morte e a importância da tenacidade perante a ignorância, que na vida de Harold era simbolizada (além da mãe) pelo representante do clero e o defensor da psicologia, profissionais tão viciados em seus próprios dogmas, que se mostram incapazes de reagirem naturalmente ao elemento mais natural do falível ser humano: O amor. Ao resistir, o garoto demonstra ter se tornado um homem, enquanto sorri para os caricatos e infantilizados adultos que o circundam, tão cheios de si e vazios dos outros.

Fellini no Divã


Federico Fellini expressava em sua arte algo muito pessoal. Assistindo aos seus filmes conhecemos o homem por trás das câmeras, o nome por trás do mito. Diferente dos projetos biográficos, suas qualidades e boas ações são minimizadas, dando espaço aos defeitos e falhas. Suas fraquezas são expostas sem medo do julgamento. Nós nos tornamos seus analistas, enquanto o cineasta narra suas angústias deitado em um divã. Esse texto não pretende contar a vida de Fellini, pode ser visto mais como uma breve conclusão de um analista sobre um paciente. Começo citando uma cena de uma obra que não está na minha lista de favoritos, mas acho que ela sintetiza magistralmente as intenções de Fellini. Em “E La Nave Va” (1983), duas moças estão no convés de um navio admirando o sol que já desce na linha do horizonte. O diretor deixa claro para nós os materiais usados para criar aquele entardecer, você nota que as moças estão sobre um estrado de madeira, sobre um tapete de plástico enrugado cobrindo o chão. Na frente delas uma parede, com um meio disco vermelho alaranjado representando o sol, que brilha exibindo sua artificialidade, enquanto uma das moças comenta que a tarde está tão bonita que até parece de mentira.

Um de seus filmes mais belos é “A Estrada da Vida” (La Strada – 1954), onde ele se utiliza do cenário circense para mostrar o que resulta de um encontro entre a pura brutalidade, representada pelo rústico artista Zampano (vivido por Anthony Quinn) e a doçura inocente, papel que coube como uma luva nas mãos de Giulietta Masina e sua inesquecível Gelsomina. O choque entre ambos resulta em sequências que ficarão na memória do público eternamente, evidências de que a brutalidade necessita da doçura, assim como a doçura somente se faz percebida na presença da brutalidade. Um choque que representa claramente a angústia de um diretor que acreditava que teria apenas dez anos para produzir suas obras mais notáveis.

Além da angústia e desta eterna luta entre seu lado bruto e manso, podemos reconhecer em sua obra-prima “8 ½” (1963) o Fellini inseguro, que seu alter ego Guido (vivido por Marcello Mastroianni) tão bem personifica. O filme retrata a crise de criatividade de um cineasta que demonstra um esgotamento em seu estilo de vida e resolve se isolar para buscar inspiração. O próprio título nasceu desta insegurança, pois o autor já havia realizado oito projetos e não tinha a menor ideia do que iria fazer em seguida. Com a crescente pressão dos produtores, nasceu esse conceito instigante que culminou no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e homenagens como o musical “Nine”.

A sua frustração com a decadência da sociedade romana na década de sessenta o fez criar o genial “A Doce Vida” (La Dolce Vita – 1960). Mais uma vez falando pela boca de Mastroianni, o diretor abriu suas feridas e deixou-as expostas, assim como os olhos do enorme peixe que havia acabado de ser retirado do mar e que os participantes da festa hedonista (uma metáfora descarada da sociedade) correm para ver, com latente desejo sádico. No entanto, quando o personagem de Mastroianni, um jornalista de meia-idade, está para perder as esperanças no futuro, aparece uma menina angelicalmente inocente que chama por ele à distância. Como um toque de gênio, o personagem não consegue escutá-la, devido à algazarra no local.

Assim é o cinema de Fellini, uma constante busca por redenção e compreensão. Para nós, fica difícil explicar o que nos atrai em seus projetos, mas eu exemplificaria da seguinte forma: como em uma linda cena de “8 ½”, onde o protagonista que está preso em um trânsito insuportável dentro de seu carro, faz com que sua mente o leve voando por sobre a extensa formação de automóveis. Do alto e com o vento soprando seu cabelo, mal se ouve a balbúrdia de buzinas abaixo. Ele finalmente encontra a paz, mesmo que irreal. Um sentimento libertador. Ao escutarmos o relato de sua liberdade, nos sentimos capazes de, mesmo compartilhando a frágil existência humana, romper as barreiras e atravessar o trânsito da vida pelo alto.

domingo, 5 de janeiro de 2014

A Violência em Filmes e Jogos Influencia a Violência na Vida Real?

“O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons.” (Martin Luther King)

A sociedade caminha para um futuro de incertezas e violência. Basta ligarmos a TV para que percamos a esperança, se não são nossos jovens admirando produtos de pouca ou nenhuma qualidade, são os crimes e assassinatos horrendos. Há aqueles que colocam a culpa na violência exibida em filmes e jogos. A violência é inerente ao ser humano, canalizada serve a propósitos maiores, porém se aliada a uma total ausência de cultura, torna-se uma arma letal.

Em “Taxi Driver” de Martin Scorsese, podemos testemunhar a degradação mental do personagem de Robert De Niro, cada vez mais inconsequente em sua jornada. Insatisfeito com os rumos da sociedade, a qual ele vê como totalmente corrupta e vendida, decide fazer justiça com as próprias mãos e salvar ao menos uma alma, a da jovem prostituta, vivida por Jodie Foster. Em “Laranja Mecânica”, Stanley Kubrick nos apresenta um futuro composto de jovens descontrolados em sua fúria. Seu líder é apaixonado pela Nona Sinfonia de Beethoven (ideia genial do escritor Anthony Burgess), o que é extremamente contraditório com sua conduta. Após o seu tratamento torna-se incapaz de realizar qualquer ato violento, nem mesmo em defesa própria, assim como escutar sua composição favorita. No ótimo “A Outra História Americana”, temos o exemplo de um jovem (Edward Norton) que integra um grupo de neonazistas, preso após matar dois negros. Os preconceitos alimentados por sua família extremamente racista o transformaram ao longo dos anos em um sociopata. O racismo nada mais é que a ignorância cultural elevada à “enésima” potência. Um exímio matemático pode se tornar um psicopata. A violência atinge qualquer classe social. Mas nunca conheci um filósofo que tenha assassinado alguém. Acredito que quanto mais cultura geral uma pessoa tenha, mais difíceis são as chances dela cometer algum ato de violência extrema.

Hitler queimava livros. Os que faziam parte de sua biblioteca pessoal (Nietzsche e Schopenhauer) ele deve ter lido superficialmente, interessando-se apenas pela instrumentalização da filosofia. A cineasta alemã Leni Riefenstahl chegou a citar ter escutado do próprio ditador, que ele não conseguia entender as propostas de Nietzsche. Traduzindo em miúdos: ele era um estúpido que tentava passar uma imagem intelectualmente superior. Ousando utilizar a psico-história criada por Isaac Asimov em sua “Trilogia da Fundação”, baseando-me pela sociedade que vejo hoje, com os jovens que mundialmente consomem porcaria audiovisual e afastam-se cada vez mais dos livros (isso sem falar no avanço impressionante das manipuladoras religiões com contas bancárias no exterior), podemos esperar um futuro pleno em avanços tecnológicos e sem alma. Analogamente, tal qual um jogador de futebol de origem humilde, que de uma hora para a outra aumenta consideravelmente sua conta bancária, apenas para ostentar com brinquedos caros e relógios de ouro. Necessitamos de um futuro em que esses jogadores, ao receber estes salários altíssimos, percebam a oportunidade de crescer como seres humanos, adquirir cultura.

Do jeito que a coisa anda, o futuro é mais uma crônica de uma tragédia anunciada. E ainda me aparecem psicólogos oportunistas na televisão colocando a culpa da violência atual nos filmes e jogos. A culpa real pesa nos ombros dos pais que ensinam aos filhos pequenos, que se o coleguinha é de um time contrário ao dele, deve ser motivo de deboche. Naqueles que não instigam pelo exemplo o prazer pela leitura e pela busca de conhecimento. No pai que agride a mãe, física ou verbalmente, na frente do filho. Assistem “CQC” e se consideram politizados; leem psicografias e se consideram espiritualizados; fazem o sinal da cruz e se consideram religiosos; citam frases populares de filósofos cujos livros nunca leram e se consideram cultos. Divulgam nas redes sociais vídeos de danças bizarras, músicas de mau gosto e pessoas escorregando em cascas de banana, enquanto largam na obscuridade trabalhos belos (que por vezes são resultado do suor de equipes criativas e dedicadas). Salientam o grotesco e reclamam da ausência do que é belo. Esses são os seres humanos, sempre dispostos a se engajarem em causas nobres (quando em lugares públicos, onde isso possa lhes trazer notoriedade), porém incapazes de perdoar aquele motorista que sem querer lhes corta na estrada ou ajudar uma idosa a atravessar a rua.

O mundo seria melhor se o pai ao invés de presentear o filho com uma camiseta de time de futebol, desse a ele um livro. Ao invés de jogar a responsabilidade total nos ombros das escolas, sentasse com seu filho pré-adolescente e fizesse um festival de cinema em casa (como relatado no ótimo livro biográfico: “O Clube do Filme” de David Gilmour). Por intermédio da Sétima Arte e com a ajuda do pai, o jovem aprenderia sobre a história do mundo. Com “Patton – Rebelde ou Herói”, “O Mais Longo dos Dias” e “O Resgate do Soldado Ryan”, aprenderia sobre a Segunda Guerra Mundial. Logo após, veria as consequências da bestialidade humana em “O Pianista” e “A Lista de Schindler”. A riqueza cultural advinda de simples tardes valeria por anos de estudos universitários. A Sétima Arte é uma ferramenta cultural importantíssima. Caso quiserem respostas para o nível de violência que se alastra sem limites aparentes, olhem-se no espelho.

Nunca me esqueço do que ocorreu no evento paulista “virada cultural”, onde os organizadores convidaram José Mojica Marins para se apresentar como “Zé do Caixão” e abrir o show da banda de punk rock: Misfits. O cineasta de 75 anos foi colocado em um caixão preso a um guindaste, para das alturas poder se apresentar ao público e conduzir seu trabalho. Além dos vários xingamentos proferidos, os vândalos presentes acabaram jogando garrafas no cineasta, que lá de cima pedia desesperado aos organizadores que contivessem o público, inclusive informando que estava machucado e que um dos objetos quase o havia cegado. Revoltante assistir esta demonstração de violência gratuita com um senhor de idade avançada e que representa tanto para o cinema nacional. Mas o que mais me revoltou foi perceber que não existia o menor sinal de arrependimento nesses jovens, que ainda se vangloriaram depois no Twitter (recebendo a aprovação de outros marginais). Um recado para os pais irresponsáveis: tomem cuidado com os monstros que estão criando.

Enganam-se aqueles “politizados” que acreditam estar em uma decisão eleitoral o futuro da nação. Pouco importa quem ganhe, se o povo continuar preguiçoso e promovendo os maus exemplos. Hoje em dia não tem mais o falso glamour de grupos de “esquerda”, “direita”, pois todos roubam da mesma forma. Nenhum candidato irá cumprir nem 2% das coisas que prometem, já que o mais importante ato político não é utilizado. Política não é decidir votar em “X” ou “Y”, política é discutir assuntos que tem que ser discutidos, questionar crenças (sem medo de perder votos), tentar realmente modificar o ambiente em que habita e torcer para que seu exemplo insira em outros o desejo de fazer o mesmo. Isto sim, em longo prazo, pode trazer reais resultados. Existem pessoas de caráter e boas intenções, mas que ao serem inseridas no sistema político, visualizam duas opções: a "prostituição" ética ou continuarem lutando até serem “apagadas”, como queima de arquivo. Como o xerife Will Kane do faroeste “Matar ou Morrer”, sozinho em uma cidade de medrosos que lhe viraram as costas. São as pequenas decisões que nos tornam exemplos. Beber socialmente ou beber até cair, sorrir para os outros ou franzir a testa, dar valor à cultura ou celebrar a mediocridade. Se todos tentarmos agir assim, os políticos (e o sistema político como um todo) terão que se adequar a nós.

Correu o mundo na época, em todas as manchetes de jornais. Um jovem entrou fortemente armado em uma sessão do filme “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, promovendo uma chacina que tirou a vida de doze pessoas e deixou várias outras gravemente feridas. A mídia sensacionalista aproveitou a oportunidade e debateu sobre a possível relação entre este atentado terrorista e a violência no próprio filme (assim como fizeram à época, em um caso similar com “Clube da Luta”), questionando se deveria haver um limite no que pode ser mostrado em filmes e jogos eletrônicos.

A violência é inerente ao ser humano, um impulso primitivo que reside no inconsciente de cada um (até mesmo um notório pacifista como Gandhi), precisando ser disciplinada, nunca reprimida. A repressão utópica leva apenas ao descontrole emocional, que aliado a alguns fatores (como educação e cultura) pode agir como uma bomba-relógio pronta para explodir a qualquer momento. Freud acreditava que todos nós possuímos uma dupla personalidade, uma constante batalha entre o nosso inconsciente (id) e a consciência (superego) moral (que pode ou não, ser moldada pela crença em algo), onde o resultado mais satisfatório é sempre a coexistência harmônica, nunca a supressão de um pelo outro. Trocando em miúdos, trata-se do clássico caso do homem que nunca caminhou descalço e mostra-se incapaz de cruzar um deserto. Uma sociedade ascética, onde somente livros, jogos eletrônicos e filmes que inspirem paz e conforto são aceitáveis, não produziria menos assassinos que uma sociedade que aja de forma radicalmente contrária. Precisamos adentrar no cerne da questão, da forma mais objetiva possível: Quais os malefícios da violência mal disciplinada? Como um jovem de vinte e quatro anos pode entrar em uma loja e legalmente sair com um arsenal (incluindo colete à prova de balas, um fuzil AR-15, uma escopeta calibre 12, duas pistolas calibre 40 e 6.000 balas de munição), sem porte de arma? Questões que não são tão instigantes politicamente quanto reverberar a afirmação feita pelo jovem, de que ele era o “Coringa”. Ele poderia ter ido mais a fundo e afirmado ser também “Travis Bickle” (personagem de Robert De Niro em “Taxi Driver”), “Alex DeLarge” (Malcom McDowell em “Laranja Mecânica”), “Harry Calahan” (Clint Eastwood em “Dirty Harry”), “Tony Montana” (Al Pacino em “Scarface”) e qualquer outro personagem violento cuja história já foi contada pela Sétima Arte. Como se esquecer dos personagens que nasceram do universo literário, do gato “Tom” (da animação infantil “Tom e Jerry”) e de cada soldado que já participou de alguma guerra no mundo? O obrigatório dever militar reservado ao imaturo adolescente que acaba de completar dezoito anos, não seria um incentivo à violência? Seria utópico imaginar uma sociedade em que jovens de dezoito anos adentrassem obrigatoriamente em um liceu que abrangesse filosofia e psicologia? Ensinamentos que formariam homens de forma mais recompensadora que um simplório treinamento que os leva a rastejar na lama e aceitar berros de superiores (designação concedida por medalhas de latão), ao invés do estímulo diário à técnica da argumentação.

A realidade é que o cinema, a literatura e os jogos eletrônicos são necessárias fontes de escapismo. Os pais que criam seus filhos afastando-os de filmes e jogos violentos estão realizando um desserviço em longo prazo. Eles se tornarão no futuro pessoas medrosas, dependentes e incapazes de suportar as frustrações inerentes ao ato diário de viver. Adultos emocionalmente frágeis, com possível conduta antissocial (como o recluso jovem abordado neste texto) e propensão a vícios, sempre buscando fugir das responsabilidades naturais de uma mente madura. A mitologia grega era intrinsecamente violenta (leia “Ilíada” de Homero, por exemplo), assim como a mitologia nórdica, egípcia, aborígene, védica, o antigo testamento cristão e obviamente a mitologia moderna formada pela Nona Arte (os heróis das revistas em quadrinhos). Impossível desassociar o instinto violento do ser humano, assim como ignorar sua importância (quando disciplinado) no progresso do mesmo. Precisamos parar de culpar o “carteiro” pelo conteúdo da “carta”.

Finalizo respondendo a pergunta feita no título com um sonoro: “NÃO”! Muito pelo contrário, eu torço para que a violência (leve ou excessiva) tenha sempre espaço nas narrativas literárias, cinematográficas e nos enredos dos jogos eletrônicos, pois esta cômoda forma de negar a responsabilidade (educação familiar, estabelecendo condutas íntegras e éticas) na vida real, colocando a culpa no escapismo, não somente dificulta o entendimento da simples diferença entre eles, como também forma uma sociedade covarde e incapaz de se defender.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

TOP - 2013


1 - A Caça (Jagten), de Thomas Vinterberg
“... Escolhendo revisitar o tema de seu primeiro filme: "Festa de Família", mas sem a estética crua, Vinterberg abraça o potencial emocional de um protagonista cuja inocência nos é apresentada de início. A bela fotografia de Charlotte Bruus Christensen auxilia ao emoldurar o cair das folhas de outono (inclusive como metáfora, simbolizando o crepúsculo de um homem oprimido), sendo complementada pela excelente interpretação de Mads Mikkelsen, que foge de sua zona de conforto, oferecendo um retrato humano e passional. O diretor nunca apela para o óbvio, enaltecendo mártires e pintando com tintas fortes os vilões, pois prefere mostrar todos como seres humanos falíveis e propensos a escolhas erradas. O leitmotiv da confiança é explorado até o brilhante desfecho, onde o roteiro ainda inclui uma poderosa crítica social e religiosa. O simples benefício da dúvida já seria o suficiente para auxiliar no processo angustiante em que o protagonista se vê vitimado, mas a mensagem que o filme aborda é cruel em sua veracidade: a sociedade (desde o início dos tempos) sempre está propensa ao apedrejamento coletivo, algo que requer menos argumentação que a árdua tarefa de tentar enxergar a flor no lodo...”. 


2 - Amor (Amour), de Michael Haneke
“... O ato de desaparecer, minguar sereno em direção ao grande desconhecido, sentindo cada vez mais pesada a luz cálida do amanhecer, por sabê-la representar a incontestável evidência de que mais uma noite terminou. Como se preparar para exercitar este desapego pessoal? Aquela complexa máquina que sempre agia em harmonia com seus desejos, quando menos se espera, começa a desaprender dia após dia um antigo hábito. A inefável sensação de impotência perante as coisas mais simples, como afugentar um pombo que adentra por uma janela, torna as noites cada vez mais bucólicas. Até o momento em que você não distingue mais a noite do dia, o real do imaginário, sobrando apenas o amor. Quando não se distingue mais o amor da indiferença, Haneke direciona seus personagens para uma conclusão inesquecível, o supremo ato de quem verdadeiramente ama: desapegar...”.


3 - Gravidade (Gravity), de Alfonso Cuarón
“... Alfonso Cuarón é um dos melhores diretores da atualidade, conseguindo criar uma trama minimalista em um projeto de gênero e essencialmente industrial, unindo ousadia técnica (mérito da fotografia de Emmanuel Lubezki e dos efeitos especiais de Timothy Webber) com grande senso de ritmo. Uma das poucas obras atuais que são feitas imprescindivelmente para a experiência na sala de cinema, já que sua dimensão e a consequente imersão no cenário são prejudicadas em uma tela pequena. O roteiro acerta ao deixar claro que o protagonista é o vazio do espaço sideral (assim como o deserto em “O Deserto dos Tártaros”, de Zurlini), ainda que Sandra Bullock entregue uma interpretação verossímil, provavelmente a melhor de sua carreira. O suspense faz grudar nossos olhos na tela, mas é o subtexto de solidão e sacrifício que se manterá na lembrança, dias após a sessão...”.   


4 - Django Livre (Django Unchained), de Quentin Tarantino
“... Tarantino é um apaixonado pela arte. Como todo apaixonado, ele acumula em sua memória afetiva cinematográfica, inúmeras referências de diversos gêneros e épocas. Seus filmes resultam da união jazzística de várias emoções que marcaram sua infância e juventude, sem interesse pela opinião dos profissionais que analisam friamente. Esta é a melhor forma de entender o trabalho do diretor e analisá-lo: afinar seu clarinete e buscar acompanhá-lo em sua divertida blowing session, valendo-se apenas de seu instinto. O estofo cultural (não somente cinematográfico) que o diretor utiliza em suas referências, desde a utilização da lenda alemã “O Anel dos Nibelungos” (de onde se retira o nome da jovem vivida por Kerry Washington) até quando cita a pouco comentada ascendência negra do escritor Alexandre Dumas (de “O Conde de Monte Cristo”), como ferramenta de discurso de um personagem ao combater o racismo de outro, demonstram um zelo raro em seu ofício...”.


5 - Antes da Meia-Noite (Before Midnight), de Richard Linklater
“... A opção de emoldurá-los na Grécia, com suas ruínas e histórico teatral, não poderia ser mais ideologicamente coerente. Enquanto os dois primeiros lidavam com o jogo de flerte e o romantismo idealizado da juventude, neste ocorre o choque de realidade tão poucas vezes abordado pela indústria (mais interessada em acordes de violino que incitem lágrimas), com os personagens propondo uma discussão racional e anti-romântica sobre o desgaste emocional nas relações humanas. O que o público recebe é tão corajoso, que me remeteu a alguns trabalhos no tema realizados por Ingmar Bergman. Aqueles diálogos divertidos, onde um tentava sutilmente impressionar o outro, são substituídos por uma argumentação séria e profunda (extremamente bem escrita). O tempo, elemento essencial nos filmes anteriores, continua atuando contra os personagens, porém (numa inversão sensacional) desta vez dando-lhes total liberdade. Você se surpreende em dados momentos, por perceber que aquele relacionamento cinematográfico que você sonhava que ocorresse após o fade out, acabou se tornando um realista espelho de nossas fragilidades. Como um conto de fadas que se torna assustadoramente real...”.


6 - Os Suspeitos (Prisoners), de Denis Villeneuve
“... O diretor escolhe deixar bastante claro nos primeiros três minutos, o leitmotiv (a eficiência de sua execução é mérito do roteiro preciso de Aaron Guzikowski) que irá reger a exploração moral dos personagens que são colocados no limite. Todos, de certa forma, são prisioneiros (poderiam ter mantido o título original) de um código de conduta que será colocado à prova. Iniciando com a oração do Pai Nosso emoldurando o abate de um cervo, seguido pela utilização da canção gospel “Put your hand in the hand” na trilha sonora e finalizando ao apresentar a personagem da mãe e da filha, através do vidro embaçado do carro, focando no crucifixo que se balança no retrovisor. Estamos diante de uma fábula que instiga profundos questionamentos morais, ainda que exista ação suficiente nele para entreter os menos interessados. Existe um pouco de “Sobre Meninos e Lobos” e muito de “Seven”, mas a longa duração pode entediar aqueles que irão assistir pensando se tratar de um “primo elegante” de “Busca Implacável”. O filme vai além do que as estruturas limitantes do gênero costumam suportar. Quão longe nós seríamos capazes de ir, contra nossas crenças?...”.


7 - O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho
“... Sem o interesse simplório de buscar chocar o público, o roteiro (escrito pelo diretor) aborda os contrastes sociais e humanos em núcleos de personagens muito bem definidos, com o inteligente suporte do som (mérito de Pablo Lamar, num conceito já estabelecido no primeiro plano-sequência em um parque), ferramenta normalmente subutilizada em nosso cinema. Outro problema comum que não encontramos no projeto é o desnível nas atuações. Todos (protagonistas e coadjuvantes, mas vale ressaltar a competência de Irandhir Santos e Gustavo Jahn) na mesma sintonia, como se utilizassem o mesmo método, facilitando assim a imersão do público, que acredita em cada frase dita. A estrutura de divisão em três atos não fragmenta, mas sim enriquece o discurso de Kleber, conduzindo para um desfecho que satisfaz e respeita o investimento emocional e racional do espectador...”.


8 - Blue Jasmine, de Woody Allen
“... Desde Hannah e Suas Irmãs, Woody Allen não compunha uma personagem feminina com tamanha paixão pelos detalhes, sem abraçar a sempre confortável caricatura de extremos. Completamente antenado com o mundo de hoje, o roteiro estabelece uma jovial e mordaz sátira social abordando distinção de classes em um panorama pós-crise econômica. Allen abdica conscientemente de algumas de suas características narrativas, como sua entrega ao sentimentalismo, em prol de uma construção de diálogos mais corajosos, que não poupam seus personagens em nenhum momento. A generosidade com suas criações nunca foi o forte do diretor, mas o sadismo ideológico dessa vez se assemelha em vários momentos à forma como o escritor Tennessee Williams escolhia abordar suas tramas. Existe algo de R.W. Fassbinder, na forma como ele dedilha a tragédia da protagonista. Ele brinca com as nossas percepções no momento em que começamos a nos convencer de como o seu personagem irá agir, o que nos leva a automaticamente exercer um julgamento moral. O roteiro então nos acerta um murro “com luva de pelica”, ao nos fazer perceber que somos tão (ou mais) vulneráveis quanto o potencial alvo de nossas pedras. Afinal, testemunhamos as várias “Jasmines” que existem em nossa sociedade, aspirando apenas o “ter” (agregar valor à futilidade), vivendo de uma ilusão lânguida que corrompe as melhores virtudes humanas...”.


9 - Azul é a Cor Mais Quente (La Vie d'Adèle), de Abdellatif Kechiche
“... Diferente de Emma, que é uma artista independente que se nutre da liberdade para a realização de seu trabalho, Adèle é uma simples menina tímida e reprimida por uma sociedade machista, com objetivos de vida inofensivos e que não necessitam do elemento da ousadia. O atrito sexual desses dois polos tão díspares resulta em uma fascinante explosão de cumplicidade, com corpos que se exploram vorazmente, analisada pela câmera voyeur com interesse antropológico. E o relacionamento transcorre de maneira realística, sem se esquivar dos problemas que ocorrem em qualquer relação de intimidade, evitando um erro cometido em vários projetos de temática similar, onde promovem a celebração do amor homossexual como algo melhor (uma vertente do que Spike Lee faz com relação aos negros, por exemplo, lutando pela exaltação da diferença ao invés da homogeneização). Inserindo na discussão o conceito existencialista de Jean-Paul Sartre, o objetivo principal dessa excelente obra fica claro: apontar a hipocrisia que leva o público a se chocar com as cenas de amor, enquanto se mostram indiferentes à brutal estupidez da homofobia...”.


10 - Invocação do Mal (The Conjuring), de James Wan
"... Com uma classificação etária que afirma ser um produto amedrontador demais para os adolescentes, mesmo sem nenhum elemento de horror explícito, os produtores ganharam um presente. Não existe melhor chamariz para um adolescente, que querer impedi-lo de assistir algo. O mais interessante é que não se trata de pura jogada de marketing, já que o resultado final é realmente tenso na imersão que provoca. O diretor executa sua arte à moda antiga, mas com convicção poucas vezes igualada nos similares recentes. Sem apelar para o “gore” excessivo, ele cria cenas que arrepiam os pelos na nuca do cinéfilo acostumado com o gênero. A fotografia de John R. Leonetti induz você a encarar a escuridão de um ambiente pelo tempo suficiente de, mesmo sabendo o que está por vir, desejar não estar com os olhos abertos para ver. Numa época em que o terror está nas mãos incompetentes de industriais que abusam de CGI e com pouca criatividade, esse projeto satisfaz pela simplicidade em sua condução...”.