domingo, 20 de outubro de 2013

Faces do Medo - "Nosferatu" (1922)


Nosferatu (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens – 1922)
A distribuidora “Classicline” está lançando no mercado um tesouro de valor inestimável para os cinéfilos mais dedicados. A obra definitiva de horror, que até o presente momento havia sido lançada no home vídeo brasileiro de forma bastante desleixada, com imagens escurecidas em preto e branco (sem a tintura original) e com vários cortes, está recebendo o merecido tratamento de luxo. O DVD utiliza a matriz da versão restaurada pela Kino, que resgatou a obra completa em seus 93 minutos, com expansão de cenas, criação de uma nova trilha sonora, inserção de intertítulos que haviam sido perdidos e retrabalhando as matizes das tinturas que diferenciavam ambientes e ajudavam na imersão dos espectadores. O resultado é o mais próximo possível da experiência que o público teve na época de sua estreia. E tenho inveja desses senhores...

O nome do protagonista nasceu do eslavo “Nosufuratu”, que por sua vez foi adaptada do grego “nosophoros”, que significa “transportador de pragas”. E é exatamente o que o Conde Orlok (Max Schreck) representa na obra. Ele carrega a praga para Bremen em sua viagem marítima, numa alusão a uma praga de ratos real que ocorreu na cidade por volta de 1840, exatamente o período retratado no filme. A aparência do vampiro também reflete esse tema, diferindo totalmente do “Drácula” aristocrata de Stoker, assemelhando-se claramente a um rato.


Um fator que considero fundamental para entender a importância desse filme é ele ter sido responsável por uma das regras essenciais no eterno mito do vampiro (pelo menos, até “Crepúsculo” aparecer e destruir o conceito): a aversão à fatal luz do dia. O diretor F.W. Murnau sabia que corria risco de ser processado pelo escritor Bram Stoker, já que iria realizar uma cópia de “Drácula”, então sabiamente decidiu modificar o desfecho da trama. Em vez do embate com Van Helsing e sua estaca, o vampiro seria destruído pelo contato com os raios solares. Incrível imaginar que esse e outros elementos do filme que seriam amalgamados ao mito, não nasceram de qualquer impulso criativo consciente, mas apenas do medo de não serem flagrados cometendo o crime de plágio. E fracassaram no intento, o que é ainda mais fascinante. O ato não impediu o eventual processo, que foi vencido pela viúva de Stoker, resultando num acordo que implicava em uma “queima de arquivo”, com todas as cópias e negativos tendo sido destruídos. Foi o único filme lançado pelo estúdio “Prana Film”, de Albin Grau e Enrico Diekmann, que abriram falência após os problemas legais. O mundo seria impedido de assistir essa obra-prima do Expressionismo Alemão. Claro que, como todo vampiro, Nosferatu aguardava apoiado em sua janela, espreitando a sociedade e aguardando a hora certa para voltar.

Uma única cópia foi salva do fogo e enviada para os Estados Unidos, tornando-se a matriz de todos os lançamentos feitos desde então. Conquistando públicos cada vez mais fiéis em suas exibições, por volta da década de 60, ele já havia sido alçado ao posto de Cult e clássico admirado. Sem os esforços de Murnau e o sucesso do filme em seu lançamento, com toda certeza a “Universal” não teria considerado lucrativo realizar sua versão com Bela Lugosi, quase dez anos depois. Sem falar que a postura corporal e o caminhar lento e ameaçador imortalizado por Max Schreck, serviu de influência para o “Frankenstein” de Boris Karloff. E se pensarmos que “O Vampiro da Noite”, realizado pelos estúdios “Hammer” em 1958, só foi lançado como consequência do sucesso popular do vampiro nas décadas anteriores, conclui-se sem exagero que “Nosferatu” é o principal responsável pela existência do mito na cultura popular até os dias de hoje. 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Chumbo Quente - "Adeus Gringo"


Adeus Gringo (Adiós Gringo – 1965)
Um jovem pistoleiro, Brent Landers (Giuliano Gemma), é convencido por um homem desonesto a comprar gado roubado. Os problemas têm início quando o verdadeiro dono do gado o enfrenta, tentando forçá-lo a devolver seu rebanho. Seguindo os rastros do facínora, o herói acaba encontrando uma garota nua e amarrada no meio do deserto. Descobre que ela é Lucy Tillson (Ida Galli), que foi levada como refém após o assalto de uma diligência, e ainda estuprada e torturada por três homens.


Começando pelos detalhes básicos. O primeiro western do diretor Giorgio Stegani (que havia colaborado no roteiro do sucesso anterior “O Dólar Furado”), que foi convidado pelo próprio Giuliano Gemma, que vivia seu momento de ouro na indústria de cinema italiana, com uma corrente de sucessos de bilheteria. Fotografado em Eastmancolor, por Francisco Sempere, que realça as paisagens sujas tocadas pela bruxuleante luz do sol. Vale destacar também a boa trilha sonora de Benedetto Ghiglia (o mesmo não se pode dizer da fraca letra da canção-tema cantada por Fred Bongusto), que emoldura a época onde os italianos ainda se debruçavam desavergonhadamente no estilo das obras feitas em Hollywood, muito longe das pradarias pessimistas e vaqueiros ambíguos que seriam explorados nos projetos de Sergio Leone. 

Sua trama simples, direta e eficiente, que aborda o tema do herói acusado injustamente e que precisa provar desesperadamente sua inocência, acabou se repetindo em vários outros genéricos nos anos seguintes. Um aspecto interessante (e que vai contra a tendência que havia no gênero) é a crítica direcionada à hipocrisia machista, que condena a mulher vítima de um estupro, ao invés de culpar os molestadores. O mais comum, até mesmo em produções posteriores, era insinuar que as mulheres internamente sentiam certo prazer em ser dominadas.

Sem dar tempo para o espectador respirar, o roteiro já estabelece o conflito do protagonista nos primeiros e intensos seis minutos. É tudo orquestrado da forma mais ingênua possível, fazendo-nos sentir como se estivéssemos folheando as páginas daqueles livrinhos de bolso “Faroeste Beijo e Bala”, que podíamos pagar com alguns trocados. Gemma, que iniciou como dublê e boxeador, aproveitou sua confortável relação com o diretor boa praça e inseriu o máximo possível de sequências de ação em que pudesse demonstrar seu excelente preparo físico (levantar do chão em um salto, sem usar as mãos, por exemplo, era um diferencial). Sua presença em cena e seu carisma só poderiam ser comparados aos de Gianni Garko (eterno “Sartana”) ou Franco Nero (eterno “Django”). Ele melhoraria como ator ao longo dos anos, chegando ao seu ápice no ótimo filme de Valerio Zurlini “O Deserto dos Tártaros” (1976). 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Primeiros Calafrios

Quando somos crianças, realmente sentimos medo nos filmes de terror. Fechamos os olhos em algumas cenas, para conseguirmos dormir sozinhos depois. Tememos a escuridão e achamos que alguém nos vigia em algum canto do quarto. Crescemos e o medo some. Continuamos gostando do gênero, mas se alguma cena nos causar um leve arrepio ou um susto, já nos damos por satisfeitos. As lembranças daquela sensação perdida no tempo, em meio aos deveres escolares e primeiros flertes, sempre me levam de volta à infância. Como são memórias muito vivas em minha mente, decidi fazer um TOP das cinco primeiras vezes em que realmente fiquei apavorado com o gênero. A lista não está em ordem de preferência. Caso queira, sinta-se à vontade para fazer sua lista nos comentários. Vamos voltar no tempo...


1- A Hora do Espanto (Fright Night – 1985)
A primeira vez que me lembro de ter sentido medo com um filme do gênero foi aos cinco anos, assistindo na televisão a cena onde Evil Ed (Stephen Geoffreys) é perseguido pelo vampiro (Chris Sarandon), caindo em um beco sem saída. Eu provavelmente nem estava entendendo a trama, mas a aparição do vampiro atrás do garoto me fez pular da cadeira.


2- Bala de Prata (Silver Bullet – 1985)
Eu devia ter por volta de sete anos. Nessa época eu já entendia totalmente as tramas. Esse filme foi um trauma na minha infância. A trilha sonora de Jay Chattaway me deixava perturbado, tamanho era o contraste entre a sua serenidade e a crueza de certos elementos no roteiro. O personagem principal ser paralítico e o lobisomem ser um padre, além da sutileza com que as melhores cenas eram trabalhadas, deixavam-me ainda mais impressionado. Eu ficava apavorado na cena em que o padre (Everett McGill) caolho procurava o menino (Corey Haim) num galpão (minha memória pode estar falhando, mas acho que era um galpão), andando lentamente e se abaixando para tentar vê-lo em meio ao entulho. E, claro, fechava os olhos quando se aproximava da cena final, quando a câmera ia chegando perto do corpo desfalecido do lobisomem. 


3- A Mosca (The Fly – 1986)
Como agradeço hoje aos meus pais por não terem me criado, quando criança, afastado dos filmes de terror. Sempre me ensinavam que aquilo era tudo maquiagem e truques, não era real. Lições simples que todos os pais deveriam legar aos filhos. Eu assisti “A Mosca” pela primeira vez aos cinco anos, mas poderia dizer que não assisti, já que passava a maior parte do tempo com os olhos fechados. Perguntava pra minha mãe: “Já passou a cena?”. Se ela dissesse que sim, somente então eu abriria os olhos. Era um medo misturado às gargalhadas que dávamos, com cada imagem medonha que aparecia subitamente na telinha. Depois de várias reprises foi que consegui realmente assistir ao filme. Mas eu me recordo vividamente o quanto me perturbava, nos anos seguintes, ligar a televisão de madrugada e dar de cara com o Jeff Goldblum. Não saberia dizer uma única cena que me apavorava mais. Qualquer uma em que ele aparecia, mesmo como ser humano, já me deixava inquieto.


4- A Coisa (The Stuff – 1985)
Por mais que esse filme passasse à tarde no "Cinema em Casa" do SBT, ele tinha cenas bastante pesadas. o momento que me deixava apavorado era um dos poucos que não envolvia nenhum efeito visual. A cena em que os pais do menino pressionavam-no para comer “A Coisa” o creme de barbear. A tensão era insuportável. 


5- Hellraiser – Renascido do Inferno (Hellraiser - 1987)
Imagine a cara da atendente da locadora ao ver um menino de sete anos discutindo com o pai para que ele alugasse pela vigésima vez um filme sobre cenobitas do inferno, prazer e dor, em suma: Clive Barker. Eu adorava tanto esse filme, que uma vez cheguei a pedir de presente de Natal um daqueles cubos. Eu me lembro de ficar numa felicidade extrema ao encontrar na banca de jornal uma revista em quadrinhos com o Pinhead na capa. Comprei na hora, para espanto do jornaleiro. Qualquer cena que insinuasse a presença do "homem sem pele" (como eu chamava na época) dentro do quartinho escuro, já me deixava completamente apavorado. Terror foi meu gênero favorito durante grande parte da minha infância e pré-adolescência. Estudava sobre o gênero e andava para todo lado com um ótimo “Guia de Vídeo – Terror”, lançado pela Editora Escala. Perdi a conta de quantas vezes eu lia e relia aquele guia, que utilizava em minhas garimpagens nas locadoras da região. 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A Guerra Espacial de George Lucas


Muitos questionam as mudanças que George Lucas opera em seus filmes ao transpô-los para novas mídias. Chamam-no de mercenário, porém esquecem que ele foi o criador da saga e tem o direito de realizar ajustes onde achar necessário. Buscando referências cinematográficas nas obras de Kurosawa e utilizando seu conhecimento sobre o trabalho de Joseph Campbell (mais especificamente em seu livro “O Herói de Mil Faces”, escrito em 1949), o jovem californiano que rumava para ser um antropólogo, acabou se apaixonando pela arte do cinema e roteirizou, dirigiu e soube vender um produto que o mundo inteiro ama. Com seus filmes, ajudou à própria indústria americana de cinema, evoluindo as técnicas de efeitos especiais e som ao padrão que hoje conhecemos, criando a “Industrial Light and Magic” (ILM) e o “THX”.

Lucas vê “Star Wars” como um único filme. Esperou décadas até que os efeitos digitais se aprimorassem, realizando assim a trilogia que antecede os eventos mostrados em seus filmes originais. São seis episódios de puro escapismo, aventura e diversão. Estruturados como nas matinês heróicas dos cinemas de outrora e seguindo fielmente a jornada mítica descrita por Campbell, que consiste em cenas que “rimam” em diferentes episódios, redenção de um personagem trágico e os arquétipos de Jung (como o mestre sábio vivido por Alec Guiness, o arauto que pode ser tanto Darth Vader quanto a princesa Léia e o pícaro, o alívio cômico representado pelos robôs C3PO e R2-D2).

A jornada do herói (nas palavras de Campbell) simboliza exatamente o caminho seguido por Lucas no primeiro filme lançado, em 1977. Resumindo bastante, inicia mostrando o “mundo cotidiano” de nosso herói Luke Skywalker, sua vida desinteressante na fazenda de seus tios. Ocorre o “chamado para a aventura”, onde ele precisa decidir se irá aceitar enfrentar seu maior desafio ou se manter confortável em seu mundo comum. Após aceitar acompanhar o mestre sábio Obi-Wan Kenobi e tentar resgatar a jovem princesa, ele conhece novos aliados, inimigos (Han Solo, Jabba the Hutt) e um mundo que se mostra muito maior e perigoso do que pensava. A “caverna oculta” (representada na mitologia como o mundo do desconhecido) é a fronteira que separa o herói de seu objetivo, como quando a nave Millenium Falcon é atraída para dentro da temida estação “Estrela da Morte”, onde Darth Vader os aguarda. Ao longo dos seis filmes, estas e outras “etapas” (32 ao total) são repetidas em diversos arcos de personagens. Recomendo que todos leiam as obras de Campbell, pois são fascinantes.

Muitos podem erroneamente tachar a criação de George Lucas como ingênua, boba, um conto de fadas para adultos, porém se trata de uma das mais criativas e inteligentes histórias de fantasia já criadas, pois se nutre profundamente de conceitos mitológicos, psicológicos e extensos estudos sobre a filosofia oriental. Para aqueles que possuem o conhecimento acerca deste embasamento, torna-se justo afirmar até que Lucas é um Homero moderno, pois utilizou a mídia do cinema para transmitir o legado universal (e atemporal) dos mitos a uma geração de jovens que desconhecem (em sua maioria) a existência dos arquétipos. Atos heroicos que vivem no inconsciente coletivo do mundo inteiro e que explodem na tela ao som da trilha fenomenal de John Williams.


"O Império Contra-Ataca", indubitavelmente o episódio mais memorável da saga, também é aquele que mostra mais claramente sua ligação com a “jornada do herói”, de Joseph Campbell. Claramente aborda uma fase chamada de “A Iniciação”, que inclui entre seus vários tópicos: “O Caminho de Provas”, “A Sintonia com o Pai” e “A Apoteose e a Bênção”.

“O Caminho de Provas” (o momento no qual o herói deve sobreviver a uma sucessão de provas, auxiliado secretamente por conselhos, amuletos, agentes de um auxiliar sobrenatural ou por um poder benigno que o sustenta e que ele acaba de descobrir) se vê refletido em dois momentos distintos da trama: logo no início, quando Luke Skywalker (Mark Hammil) quase perece nas mãos do monstro Wampa (porém segue os conselhos de Obi-Wan Kenobi, que se manifesta sobrenaturalmente, conseguindo assim se livrar do perigo) e em seu encontro com Yoda no planeta Dagobah (quando o mestre Jedi o treina). Já “A Sintonia com o Pai” (o herói vence a “figura-pai”, tornando-se senhor de si próprio) se reflete na cena em que Luke em meio a uma alucinação, duela com Darth Vader nas florestas de Dagobah, descobrindo ao final que a cabeça decapitada de seu nêmesis revela seu próprio rosto, constatando que seu verdadeiro inimigo está dentro de si. Mais próximo do final, novamente se vê refletida na batalha real entre pai e filho, que nos leva diretamente ao próximo tópico: “A Apoteose e a Bênção” (onde o personagem adquire a convicção da responsabilidade que todos depositam nele, dando-se conta de que é um “escolhido”), onde ele descobre por intermédio do pai, estar destinado a destruir o Império e trazer paz à galáxia. Luke em seu sacrifício final, após perder sua mão em duelo, confirma sua incorruptibilidade (por conseguinte, “A Bênção”).

O longo segmento que aborda o intensivo treino de Luke em Dagobah, reflete de forma perfeita uma das intenções mais nobres de George Lucas: despertar nos jovens algum senso de espiritualidade, não focada em um sistema religioso, mas uma crença em um poder superior. Yoda utiliza a “Força” para retirar a pesada nave de Skywalker de dentro do lodo. A trilha de John Williams salienta o aspecto espiritual do momento, como que nos fazendo perceber nos olhos do jovem, a surpresa por estar pela primeira vez acreditando em algo “divino”. Ele já havia ouvido falar e tentado usá-la, porém somente passa a entender esta força mística a partir deste treinamento com o velho mestre Jedi. Daquele momento em diante, Luke estaria preparado para enfrentar seu primeiro grande desafio: Darth Vader.

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A Editora Bertrand Brasil está lançando no mercado brasileiro "O Livro dos Sith: Segredos do Lado Negro", de Daniel Wallace. 
Ele revela as raras páginas do universo criado por George Lucas. O leitor vai conhecer os maiores mestres, os armamentos, o vestuário, o surgimento do clã e vários segredos obscuros. Com excelente trabalho gráfico, esse livro é indispensável na estante de todos os fãs de "Star Wars".



segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A Arte de Akira Kurosawa


Akira Kurosawa é indiscutivelmente o nome mais importante no cinema asiático, cuja influência atravessou suas próprias fronteiras e tradições, levando consigo sua filosofia de vida e experiências pessoais. Influenciado por seu pai desde jovem a apreciar o cinema ocidental, o menino incorporaria em sua arte vários elementos das produções americanas. Durante muitos anos foi visto em seu próprio país como um diretor vendido, pois realizava filmes que se afastavam aparentemente das obras de seus compatriotas. Não se moviam lentamente como as obras de Kenji Mizoguchi e nem se levavam tão a sério como as experiências de Yasujiro Ozu, eram de apelo popular e conseguiam ter suas mensagens transmitidas/traduzidas facilmente para todos os continentes.

Nenhuma de suas mensagens foi mais bela que a contada em “Viver” (Ikiru – 1952), onde o idoso personagem vivido brilhantemente por Takashi Shimura enfrenta no crepúsculo de sua vida, o maior dos desafios! Vítima de um câncer, ele descobre ter desperdiçado sua existência sendo um funcionário modelo, sem faltas, sem momentos de lazer, plenamente dedicado a uma função burocrática que só fazia bem a seu empregador. Sabendo ter pouco tempo de vida, decide deixar um legado eterno (não somente tangível, na forma de uma praça, como moral, incentivando seus colegas a seguirem seu exemplo).

Sua obra mais famosa foi “Os Sete Samurais” (Sichinin no Samurai -1954), um conto sobre bravura e honra passado no século dezesseis, mas cujos temas poderiam ser empregados de forma atemporal. Até mesmo Hollywood utilizou sua premissa para o faroeste “Sete Homens e um Destino”. Pobres lavradores sofrem nas mãos de bandidos que saqueiam sua produção e levam suas mulheres, até o momento em que decidem reagir à crescente onda de ataques. Sem saberem se defender e com apenas o fruto de suas lavouras como moeda de troca, procuram a ajuda de Samurais que possam lhes ensinar as artes da guerra. Kurosawa demonstra sua universalidade narrativa ao compor seus sete guerreiros, cada um com uma habilidade especial, seja a excelência no manejo da espada, coragem, estratégia e humor, representando desta forma cada faceta do ser humano.

“Céu e Inferno” (Tengoku to jigoku – 1963) é um filme subestimado (acho-o superior ao mais celebrado “Rashomon”) e pouco conhecido na filmografia de Kurosawa. Talvez seja o que mais diretamente demonstre suas influências ocidentais. Sua trama evoca um grande dilema moral: um bem sucedido executivo (Tôshiro Mifune) se torna vítima de uma extorsão, quando por engano sequestram o filho de um de seus vários funcionários, achando ser o seu herdeiro. O pagamento pedido pelos sequestradores é a exata soma que salvaria sua empresa da falência. O suspense é intenso, porém trilha o caminho oposto de thrillers similares americanos, pois nas mãos de Kurosawa a obra se torna uma reflexão profunda sobre a honra e a decência.

No belíssimo “Dersu Uzala” (1975), Kurosawa trata de um tema muito mais profundo: a ligação do homem com a natureza. O filme conta a história de um explorador do exército russo que é resgatado na Sibéria por um simples caçador Goldi chamado Dersu Uzala. A parceria e ajuda como guia se desenvolve e torna-se uma profunda amizade entre dois homens tão distintos quanto o sol e a lua, porém tal qual eles, indissociáveis! A humildade e sabedoria do velho caçador captada com maestria pela direção segura e sensível de Kurosawa. Dentre as cenas inesquecíveis, destaco uma na qual os dois amigos estão em local aberto e são atingidos por uma forte nevasca. O capitão russo se abate e acredita numa morte certa, enquanto o pequeno e aparentemente frágil Dersu o convence a recolher os arbustos da estepe. Extremamente cansado, o capitão faz o que lhe foi pedido, mesmo sem entender a razão. Qual não é sua surpresa ao perceber que Dersu havia montado uma pequena cabana cavada na terra? A pureza e simplicidade do camponês haviam ensinado uma enorme lição ao experiente capitão.

Somente com estas obras citadas, Kurosawa já poderia descansar sob a sombra de sua contribuição inestimável ao mundo do cinema, no entanto ele ainda iria nos presentear com pelo menos mais duas pérolas: “Ran” (1985) e “Sonhos” (Dreams – 1990). A primeira, um fantástico épico baseado na obra de Shakespeare: “Rei Lear”. Já na segunda, o mestre decidiu compartilhar suas experiências pessoais com seu público, dando vida a uma obra dividida em capítulos, cada um representando um sonho de Akira. Dentre estes, destaco o meu favorito, onde o fascínio pela obra do pintor Vincent Van Gogh se faz presente de maneira emocionantemente bela. Um homem que admira um quadro do pintor se vê, como que por encanto, levado para dentro da obra do artista, tudo isso embalado pela nona sinfonia de Beethoven, compondo um tipo de cinema que infelizmente se mostra raro.

Alguns críticos afirmam que o cinema de Kenji Mizoguchi é para ser visto de joelhos em admiração, mas o de Kurosawa gentilmente lhe convida para entrar e se aquecer do frio em uma lareira nostálgica, uma obra acolhedora e vibrante.