quinta-feira, 29 de junho de 2017

"Simbad e a Princesa", de Nathan Juran


Simbad e a Princesa (The 7th Voyage of Sinbad - 1958)
Quando o lendário Simbad (Kerwin Mathews), sai numa perigosa jornada para a misteriosa Ilha de Colossus, ele se envolve em uma incrível e movimentada aventura. Ele precisa quebrar o encanto que o diabólico feiticeiro Sokurah (Torin Thatcher) jogou em sua amada princesa Parisa (Kathryn Grant). Mas, antes que possa salva-la, Simbad, vai enfrentar uma incrível coleção de monstros místicos, o ciclope devorador de homens, um exército de esqueletos, um feroz pássaro de duas cabeças e um dragão que expele fogo.


Ray Harryhausen dedicou vários anos à construção de monstros genéricos para suprir a demanda de destruição alienígena que lotava as salas. Ele não podia exercitar muito a criatividade, então decidiu se aventurar no universo da mitologia em “Simbad e a Princesa”, protagonizado pelo herói que, para o mestre dos efeitos stop motion, simbolizava o ápice do entretenimento fantasioso. Ele sabia que uma série centrada no personagem daria asas à sua imaginação. A Dynamation foi criada para o projeto, um processo que facilitava a mistura fluida de elementos live action e stop motion nas cenas coloridas, outro desafio que, com certeza, estimulava o artista.

Nathan Juran não era um comandante especialmente engenhoso, mas era extremamente competente como diretor de arte (com destaque para “Winchester ‘73” e seu trabalho premiado em “Como Era Verde o Meu Vale”), além de conseguir manter um clima agradável nas filmagens, algo que transparece no produto final. Kerwin Mathews, que vive Simbad, é um ator muito limitado, mas não prejudica o todo, ainda mais quando temos algo melhor para focar a atenção nas cenas, como a belíssima Kathryn Grant, a adorável princesa que, mesmo miniaturizada por encanto do mágico, transborda carisma e sensualidade. Claro, o Ciclope, o Pássaro Gigante de Duas Cabeças, o Dragão e o Esqueleto são magníficos, vale pausar as cenas para conferir em detalhes a animação, mas a imagem que nunca esqueci foi a da princesinha, que parecia estar se divertindo horrores em sua nova condição física. O senso de perigo é razoavelmente bem trabalhado no roteiro, mas é uma aventura leve, perfeita para a criança interna que, com sorte, vive em você, que agora dedica alguns minutos nesta leitura.

A arte de Harryhausen evoluiria nos próximos projetos, alcançando o apogeu com “As Novas Viagens de Simbad”, de 1974, mas “Simbad e a Princesa” é uma obra fundamental, a trilha sonora de Bernard Herrmann é brilhante, sempre citada entre os melhores trabalhos do compositor, capturando com perfeição o senso de empolgante heroísmo. É um filme que merece constar na coleção de todo cinéfilo dedicado.


* O filme está sendo lançado em DVD, com opção de dublagem em português, pela distribuidora "Classicline".

"Frantz", de François Ozon


Frantz (2016)
“Dentro da Casa”, ”8 Mulheres”, “Potiche”, “Ricky”, “Swimming Pool” e “Sob a Areia”, para me ater aos títulos mais populares, uma filmografia que comprova a versatilidade de François Ozon, ainda que eu encontre problemas graves na execução de todos os citados. Com “Frantz”, o diretor realiza seu melhor trabalho até o momento, aquele em que a estética e a substância fluem de forma orgânica. O roteiro, inspirado livremente na peça “L'homme que j'ai tué”, de Maurice Rostand, que já havia sido adaptada por Ernst Lubitsch em “Broken Lullaby”, de 1932, utiliza o psicológico devastado das vítimas da guerra em todas as frentes como leitmotiv para desenvolver uma trama simples e sensível, com a utilização frequente do preto e branco sublinhando a presença do personagem-título na vida de seus pais, de sua noiva Anna (Paula Beer) e do enigmático Adrien (Pierre Niney), um recurso que agrega sensorialmente e não soa pretensioso.

Ao levar flores no túmulo do alemão Frantz, morto em trincheira na Primeira Guerra Mundial, Anna encontra um estranho, um jovem francês, prestando homenagem ao seu noivo. Adrien revela que ambos nutriam forte amizade em Paris, compartilhavam até mesmo a paixão por uma pintura de Édouard Manet que visitavam sempre em passeios pelo Louvre. Anna, fragilizada e enxergando no rapaz um reflexo do falecido, começa a sentir uma ternura especial por ele; a história que ele conta, simbolizada na imagem da pintura, passa a representar a paz destruída pela morte, o zeitgeist bucólico de uma vida ainda não perturbada pela guerra. A arte sublimando o amor. Os pais, após vencerem o compreensível bloqueio inicial, abraçam a figura taciturna do amigo do filho, cada informação transmitida preenche lacunas, suturando a ferida, aliviando a dor. Ozon, durante o primeiro ato, permite ao espectador tirar suas próprias conclusões sobre a natureza romântica do relacionamento entre Frantz e Adrien, opção coerente com sua trajetória na indústria, mas, demonstrando tremenda segurança, ele desconstrói a expectativa, revelando uma camada de significado muito mais complexa para a trama.

(É recomendável continuar lendo após a sessão)

Quando é revelado o real motivo que levou Adrien a visitar a lápide de Frantz, o filme ganha contornos poéticos, revelando-se um bonito conto sobre o poder do perdão e da mentira como forma de arte. Os pais de Frantz sorriem mantidos na ignorância plena, Anna enfrenta seu medo e revela seu sentimento, algo tão forte que sequer a rejeição enfraquece, muito pelo contrário, no delicado desfecho, consciente do efeito curador da mentira contada por Adrien, com a fotografia colorida ressaltando o futuro promissor que se revela no horizonte, livre da culpa, a jovem agradece à pintura por mantê-la viva. 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

"Ao Rufar dos Tambores", de John Ford


Ao Rufar dos Tambores (Drums Along The Mohawk - 1939)
Em 1776, o fazendeiro Gilbert Martin (Henry Fonda) se casa com a refinada Lana Borst (Claudette Colbert) de Albany (Estado de Nova York) e os dois viajam até Deerfield no Vale Mohawk, parte central do Estado e fronteira com o Canadá. Lana sente dificuldade em se adaptar ao lugar, principalmente por temer os índios selvagens, mas decide ficar e ajudar seu marido nos trabalhos da fazenda.

John Ford entregou em 1939 três grandes filmes, “No Tempo das Diligências”, reinventando o faroeste, “A Mocidade de Lincoln”, uma aula de como realizar uma cinebiografia, e, aquele que é normalmente eclipsado pelos citados, “Ao Rufar dos Tambores”, a primeira experiência do diretor com o technicolor e, vale salientar, um dos melhores projetos no tocante ao tema da Revolução Americana.

Gosto especialmente de como o foco se mantém no desenvolvimento dos personagens, não apenas do casal protagonista, com a ação tendo destaque apenas no terceiro ato. Por exemplo, a viúva falastrona vivida por Edna May Oliver, papel que rendeu uma indicação ao Oscar de Atriz Coadjuvante, um elemento que o roteiro inteligentemente vende como alívio cômico, mas que revela camadas mais complexas. Se a sequência de ataque indígena no quarto, com ela se recusando a abandonar sua cama, aponta obviamente para a comédia pastelão, a representação da força libertária da mulher inserida em uma realidade machista é, em vários momentos, mais corajosa e emocionalmente madura que as celebradas heroínas cinematográficas que hoje em dia arrancam aplausos das feministas.

Tome, como exemplo, o arco narrativo de Lana (Colbert), inicialmente uma frágil e mimada filha da alta sociedade que fica apavorada ao ver um índio em sua frente. Ao ser forçada a fugir de sua casa com o marido, vê seus baús de roupas elegantes serem dispensados como peso desnecessário a ser carregado pelo cavalo. E, ao final, despida de vaidade, enfrenta os invasores do forte, chegando até a encarar armada um grupo de índios. A vida na fronteira fez com que ela amadurecesse rápido. Já no amanhecer de uma nova era, com o fim da guerra e a nova bandeira sendo hasteada, Ford celebra os filhos do amanhã, o casal de aventureiros, um ferreiro, uma mulher negra e um índio, todos respeitosamente admirando o gesto patriótico. Em um toque sutil, ao mostrar a negra e o índio, a câmera filma em ângulo baixo, recurso que injeta maior reverência, engrandecendo as figuras que ganham ares míticos, uma atitude, para a época, altamente ousada.

O conceito da vida em comunidade, com o indivíduo lutando por seu estilo de vida, tema marcante na obra do diretor, retornaria em seu próximo filme, o espetacular “Vinhas da Ira”, lançado no ano seguinte. Gil (Fonda) correndo quarenta e oito quilômetros, perseguido por três índios, para avisar sobre a chegada da companhia de tories e índios ao forte, versão livremente adaptada do histórico feito de Adam Helmer, está entre as sequências mais bonitas da carreira de Ford.





* O filme está sendo lançado em DVD, com opção de dublagem em português, pela distribuidora "Classicline".

terça-feira, 27 de junho de 2017

Banner do curta "Se"

Argumento/Roteiro/Direção: Octavio Caruso
Direção de Fotografia: Sihan Felix
Arte Gráfica: Laísa Roberta Trojaike


Chumbo Quente - "Gatilho Relâmpago", de Russell Rouse


Gatilho Relâmpago (The Fastest Gun Alive - 1956)
Aposentado como o atirador mais rápido do Oeste, George Temple (Glenn Ford) agora busca um pouco de paz ao lado de sua esposa Dora (Jeanne Crain). No entanto, um dia ele bebe além da conta e acaba exibindo suas surpreendentes habilidades no gatilho.

Eu tinha vívida lembrança de ter visto este filme na infância em alguma sessão televisiva, com o Glenn Ford dublado pelo Jardel Mello, mas não me recordava da trama. Graças ao resgate da “Classicline”, pude rever agora em DVD, uma experiência surpreendentemente prazerosa. É uma pérola usualmente ignorada em textos sobre o gênero, mas merece constar em qualquer lista de melhores faroestes psicológicos.

Além de contar com uma trilha sonora poderosa de André Previn e uma excelente sequência de dança acrobática de Russ Tamblyn, que vinha do sucesso de “Sete Noivas Para Sete Irmãos”, o projeto trazia na linha de frente duas feras, Ford e Broderick Crawford, que conquistou a crítica como o protagonista de “A Grande Ilusão”, de 1949. Vale salientar que a cena de dança quase foi excluída, já que o protagonista não se sentia confortável em dividir a atenção do público com o jovem das piruetas. Anos depois, os dois ficaram amigos. Por mais que contraste bastante com o tom de suspense dominante, é difícil imaginar o filme sem o interlúdio musical, coreografado por Alex Romero, verdadeiramente empolgante e, ainda hoje, eficiente. 

Apesar do baixo orçamento, obstáculo superado na mão firme de Russell Rouse, um diretor com pouca experiência, que só teria mais destaque em 1959, como responsável pela história de "Confidências à Meia-Noite", melhor momento da dupla Doris Day e Rock Hudson, "Gatilho Relâmpago" entrega um desfecho espetacular, uma reviravolta surpreendente, a desconstrução do mito das disputas de pistoleiros, inserindo na equação o fator do medo. Por outro lado, como insinua o comparsa do antagonista, o fraco desempenho sexual é o que motiva seu chefe a provar que é o gatilho mais rápido, um conceito ousado para a época. O medo e a insegurança, forças motrizes destruidoras em homens movidos pela vaidade. 


* O filme está sendo lançado em DVD, com opção de dublagem em português, pela distribuidora "Classicline".