quinta-feira, 8 de junho de 2017

"Paterson", de Jim Jarmusch


Paterson (2016)
Não nos é dado conhecer muito sobre Paterson (Adam Driver) na semana em que acompanhamos sua rotina. Ele acorda pontualmente todas as manhãs sem necessidade de alarme, atravessa as ruas da cidade dirigindo o ônibus e, ao voltar para casa, passeia com seu cão e toma uma cerveja no bar. Paterson, a cidade, ele conhece de olhos fechados, nada muda, previsível mesmice, mas agradável aos seus olhos. A poesia em seu caderno de notas brota naturalmente, sem qualquer aspiração pretensiosa de estilo, a métrica de versos soltos risca a página como pura e vulnerável expressão da voz interna do rapaz. A rima, recurso que ele evita, acaba se fazendo presente enquanto simbologia visual, os gêmeos que aparecem em várias situações, ou, de forma mais lúdica, em frases surreais que se repetem à sua volta.

A sua vida é a poesia, construída a partir de cada escolha, cada erro, cada conversa captada de um passageiro, cada atitude impulsiva, cada paisagem lindamente fotografada pela lente de Frederick Elmes, em suma, construída a partir de tudo aquilo que se perdeu, com o ato de escrever sendo a tentativa de Sísifo alcançar o topo da montanha, frustrado sempre pelo peso da pedra, o tempo. A musa mais frequente é sua esposa Laura (Golshifteh Farahani), altamente sensível e doce, alguém que inconscientemente busca uma forma de se comunicar com o mundo, marcar sua presença como indivíduo. Ela encara o cotidiano como uma tela branca, infinitas possibilidades trabalhadas nos afazeres mais simples. Ao pintar os móveis da casa, ela cria algo novo e único sobre os escombros da padronização. Ela pode não cozinhar tão bem, mas dedica tanto carinho na preparação de seus cupcakes, que, para orgulho do marido, os bolinhos se transformam em obras de arte. Ela tem o sonho de se tornar uma cantora country famosa, o que a faz comprar um violão, apesar de não saber tocar. A beleza do filme está em admirar o casal, como ponte sobre águas calmas, lutando para encontrar sua linguagem artística.

No terceiro ato o protagonista encara a brutal irreversibilidade, elemento que, em um aprendizado tardio, percebe ser bênção criativa, ao invés de um obstáculo a ser temido. Águas calmas não formam bons marinheiros. O poeta precisa estar em constante processo de mutação. A arte do encontro, forma preciosa do roteiro conduzir a trama para seu desfecho, reverbera momentos anteriores, como o elogio dado ao estranho que ensaiava um rap na lavanderia, ou a compreensão da dor de um amigo de infância abandonado pela mulher amada, a celebração do esforço interno de cada indivíduo em enfrentar, com suas próprias ferramentas, a força da correnteza. É nesta cumplicidade que podemos enxergar as mais belas potencialidades humanas.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

"Mulher-Maravilha", de Patty Jenkins


Mulher-Maravilha (Wonder Woman - 2017)
O maior acerto do filme é investir no carisma natural de Gal Gadot, a câmera se apaixona por seu rosto, uma entrega que remete à abordagem despida de cinismo de Christopher Reeve, no clássico “Superman”, de Richard Donner. Ao invés de apostar na fórmula divertida, caótica e, em longo prazo, irrelevante, dos filmes recentes da Marvel, o roteiro de Allan Heinberg, Zack Snyder e Jason Fuchs, resgata a estrutura narrativa simples da época em que as adaptações de quadrinhos não precisavam ser interligadas. Esta opção faz parecer que estamos vendo algo antiquado, uma pérola perdida da década de noventa, o que combina com o material, a história de origem de uma personagem fundamental na cultura popular, ambientada durante a Primeira Guerra Mundial, a esperança que nasce do conflito sujo de trincheiras.

A diretora Patty Jenkins opta quase sempre por planos fechados, especialmente após o primeiro ato, reflexo de sua inexperiência no gênero, algo que, aliado ao recurso do 3D escurecendo a fotografia, prejudica alguns momentos que poderiam ser grandiosos. O início mostrando a vida das amazonas é impecável, Robin Wright, vivendo a tia guerreira que incentiva o treino da sobrinha, consegue estabelecer em pouco tempo a personalidade forte e amável da personagem, algo que os vilões, com muito mais tempo de cena, são incapazes de fazer. Sem estragar a experiência, vale ressaltar que o tratamento dado aos antagonistas é patético, o que diminui consideravelmente o impacto desejado pela trama em seu desfecho. Teria sido melhor se tivessem abdicado do terceiro ato e focado na participação da Mulher-Maravilha nos campos de batalha, ao invés de repetirem o molde já muito desgastado de chefe de final de fase de videogame. Aliás, a computação gráfica é tão presente que, de fato, nos minutos finais eu senti como se estivesse segurando um joystick.

Eu pagaria ingresso para ver duas horas da heroína lutando na Terra de Ninguém, cenário para a melhor sequência do filme, o momento em que a realidade do conflito e a simbologia mítica se unem, fortalecidos pelo contexto social do machismo estúpido que permeia a indústria. Mas é importante salientar que o roteiro não cai na armadilha de simplificar o discurso e adotar os clichês feministas, Steve Trevor (Chris Pine) não é, por revide, tratado como interesse romântico, ou alívio cômico. A sua influência é tremenda na evolução de Diana, que descobre um mundo novo e precisa se adaptar rapidamente, enquanto toma para si a responsabilidade de desfazer os males que contaminaram as mentes humanas.

O filme perde muito vigor quando tenta desenvolver a medíocre ameaça, mas se torna irresistivelmente encantador quando se foca no relacionamento que se estabelece entre Diana, Steve e seus companheiros. O texto esperto e ousado discute com humor a representatividade da mulher na sociedade, revelando que, infelizmente, apesar de importantes conquistas, pouco se modificou desde aquela época. É vergonhoso pensar que apenas nos últimos anos a indústria de cinema começou a investir alto em projetos de aventura protagonizados por mulheres. E, pior ainda, dá desgosto perceber que existem feministas tacanhas que reclamam da axila raspada da heroína. O problema está sempre nos extremos, enquanto a lucidez não dominar o discurso, a evolução será lenta e mínima.

“Mulher-Maravilha” é o melhor projeto cinematográfico neste universo compartilhado da DC, pleno em coração, sintonizado com o espírito original dos quadrinhos e defendido por uma atriz com mais carisma na sobrancelha esquerda, que todo o elenco Marvel e DC reunido. 

sábado, 3 de junho de 2017

"Corra!", de Jordan Peele


Corra! (Get Out - 2017)
Ao perceber o carro de polícia se aproximando na cena do crime, o rapaz negro, apesar de estar consciente de sua inocência, levanta os braços aguardando a injustiça do sistema. O ato de viver em alerta constante, o medo de se permitir confiar em alguém, Jordan Peele, roteirista/diretor em sua obra de estreia, impressiona pela segurança com que trabalha os elementos tradicionais do gênero terror, focando nessas questões sem ser panfletário, equilibrando com desenvoltura na equação os alívios cômicos.

O protagonista, Chris (Daniel Kaluuya), encontrou uma maneira de expressar sua angústia social pela fotografia. Em um de seus trabalhos, na parede de sua casa, um cão branco desafia o dono forçando a coleira atacando algo fora da imagem. Símbolo visual que me remeteu ao poderoso filme de Samuel Fuller: “Cão Branco”, outro imprescindível trabalho crítico sobre o tema. Logo no início, o carro da figura mascarada que sequestra um negro em sua caminhada noturna é branco. A utilização da cor pode soar tola em um primeiro momento, um artifício nada sutil, mas reconhecendo a origem de Peele na comédia, estes detalhes ganham peso satírico, enfatizando exatamente o simplista discurso que, por muitas vezes, reduz o preconceito racial a uma peça no tabuleiro do joguete político. O pai (Bradley Whitford) da namorada, uma jovem branca (Allison Williams), na tentativa de passar uma imagem acolhedora, defende o voto em Obama. A forma como ele insere a informação na conversa é constrangedora, nada orgânica. A mãe (Catherine Keener), psicóloga, hipnoterapeuta, está sempre com um leve sorriso no rosto, invariavelmente demonstrando estar ofendida com as brincadeiras fora de tom do marido e de seu filho adolescente (Caleb Landry Jones), provocador e emocionalmente instável. A família é a caricatura perfeita do liberalismo norte-americano hipócrita que favoreceu nos bastidores a absurda ascensão de Trump.

Revelar mais sobre a trama seria um desserviço à experiência, os eventos que se sucedem à chegada do casal na residência luxuosa da família Armitage rapidamente ganham contornos cada vez mais incômodos, arrepiantes, especialmente após a chegada de um grupo de visitantes da alta sociedade. "Corra!" é, desde já, um dos melhores filmes do ano.

terça-feira, 30 de maio de 2017

"Mulher-Maravilha" (1975), de Leonard Horn


Mulher-Maravilha (The New Original Wonder Woman - 1975)
Estabelecendo o contexto histórico correto da origem nos quadrinhos, o patriotismo norte-americano na Segunda Guerra Mundial, sintetizando a importância da personagem, defendida pela espetacular Lynda Carter, na empolgante música-tema, este piloto roteirizado por Stanley Ralph Ross consegue a proeza de, mesmo com muitos de seus efeitos datados, se manter eficiente hoje. O tom divertido e despretensioso agrada mais o público adulto que as tentativas modernas, que inserem elementos fantásticos em um cenário realístico, por vezes, pessimista, sombrio, o que sempre acho que torna o material original ainda mais bobo e infantil. 

O melhor arco narrativo da heroína nas páginas foi escrito por George Perez no final da década de oitenta, nenhum artista conseguiu traduzir com tanta criatividade a simbologia feminista imaginada por William Moulton Marston e sua esposa, Elizabeth, na edição 8 da “All Star Comics”, de 1941. É perceptível nas primeiras aventuras uma respeitosa reverência à maneira como Carter trabalhou a ingenuidade sincera e a bravura doce de Diana Prince. No ano anterior a produtora havia tentado engatar uma série da personagem protagonizada pela loira Cathy Lee Crosby, escolha equivocada em uma abordagem que pouco respeitava os fãs, tudo parecia perdido até o papel cair nas mãos certas.  O figurino idêntico agradava os leitores, assim como a presença das legendas retangulares, fiéis ao espírito dos gibis, informando os locais em transições de cenas, toque precioso que complementa a experiência. Para o papel de Steve Trevor, escolheram Lyle Waggoner, que havia chamado atenção em “The Carol Burnett Show”. Cloris Leachman, como a rainha-mãe amazona Hipólita, e Kenneth Mars, ecoando o líder nazista da clássica comédia “Primavera Para Hitler”, garantem sutil humor em suas cenas. A vilã, uma espiã nazista vivida por Stella Stevens, a estudante que se apaixona por Jerry Lewis em “O Professor Aloprado”, protagoniza um embate final altamente satisfatório em sua engenhosa coreografia, surpreendente quando comparado com o nível de ação similar em séries da época. Outro momento marcante é a transformação, o rodopio encantador que foi inserido de última hora, ideia da própria atriz, solucionando o que era um problema para os realizadores, recurso visual que logo depois foi adotado também nos quadrinhos. 

O mundo evoluiu em muitos aspectos, a indústria de cinema norte-americana está começando agora a investir sem medo em protagonistas femininas fortes, mas é imprescindível que se valorize o esforço pioneiro daquelas que aceitaram os riscos no passado. "Agora o mundo está pronto para você", frase da canção-tema, encarava a estupidez machista da época com gentileza. A atitude agora é outra, as heroínas metem o pé na porta e inspiram meninas no mundo todo. Aquele sorriso matador de Carter, escolha perfeita para fechar a história, representava a esperança que a personagem alimentava em sua origem, o fogo que abriu a clareira para o que as mulheres conquistaram hoje. E que seja apenas o início.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

"Desejos Proibidos", de Max Ophüls


Desejos Proibidos (The Earrings of Madame de... - 1953)
Existem filmes que considero medicinais, poucos, conto nos dedos de uma mão, obras tão simples e perfeitas que resgatam minha esperança na humanidade. “Desejos Proibidos” entra nesta seleta lista. Um olhar superficial pode enxergar apenas um melodrama sobre uma dama (Danielle Darrieux) da alta sociedade parisiense dividida entre o amor de dois homens, o marido militar (Charles Boyer) e um simpático diplomata italiano (Vittorio De Sica), qualquer telenovela entrega este material. É muito mais que isto.

Quando a conhecemos, ela está em seu quarto explorando a dimensão de sua riqueza material, joias, vestidos, tudo o que o dinheiro pode comprar. Em uma visita rápida à igreja, cena inteligentemente tratada como alívio cômico, ela ora despretensiosamente pedindo que seu marido a presenteie com algo bonito. Louise é frívola, uma caricatura decadente do vazio existencial aristocrático, que preza mais por sobrenomes nobres. Nunca ficamos sabendo o dela, crítica já exposta no título original, o interesse está no indivíduo, a análise da pobreza inerente a todos que se se julgam superiores em sua ganância exagerada. E o roteiro genialmente utiliza um par de brincos como o elemento que nos conduz na história, o presente inicialmente dispensável, que gradativamente recebe valor agregado de relevância emocional.

O marido outrora havia oferecido a joia como demonstração de exibicionismo social, algo que se mantém hoje em dia nos rituais caríssimos que muitos abraçam pensando em satisfazer outrem, o amor reduzido a moeda de troca, que ela, em situação de necessidade, decide vender. A peça acaba nas mãos do diplomata, que genuinamente se apaixona pela mulher e, desconhecendo a origem da joia, devolve-a para a dona original, o presente não mais simbolizando superficialidade, mas, sim, a necessidade de expressar o sentimento proibido. O amor que ganha força a cada volta no salão de dança, em tempos distintos, o toque suave das mãos agindo como erótico desabrochar, a naturalidade lutando para vencer a crosta de farsa acumulada, a valsa entorpecente dos namorados admirada ao longe pelos olhos vigilantes daquele que se considera proprietário.

No terceiro ato, como forma de hipocritamente preservar sua honra, o general, tola mente tacanha movida pela violência, pede por um duelo. O embaixador, que preza pela lucidez e valoriza a paz, aceita o desafio consciente de que irá se sacrificar por um sentimento válido. Louise, já radicalmente transformada, retorna à igreja e agora ora dedicadamente pela vida do homem que ama. É uma pena que o aprendizado sempre venha com a dor.