sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

"Noite e Neblina", de Alain Resnais


Noite e Neblina (Nuit et Brouillard – 1955)
O Holocausto não pode virar página esmaecida nos livros de história, um acontecimento distante a ser estudado durante um período da vida, um drama humano que eventualmente serve como pano de fundo objetivando lucro nas bilheterias do cinema. A banalização do mal abre espaço para equivocadas reinterpretações e facilita a repetição do erro. Alain Resnais, dez anos após a liberação dos campos de concentração nazistas, produziu o documentário mais importante sobre o tema. Com apenas trinta minutos, eu considero esse filme muito superior às celebradas dez horas de “Shoah”.

O pungente texto de Jean Cayrol, sobrevivente de um campo de concentração, consegue ser tão impactante quanto os registros em vídeo, exatamente pelo minimalismo certeiro com que salienta a necessidade de se refletir sobre o monstro que reside em cada indivíduo. De quem é a responsabilidade? Hitler sozinho não teria conseguido estruturar essa destruição em massa, ele não enfeitiçou milhões de alemães. Joseph Goebbels sozinho não teria conseguido operar sua máquina de propaganda em direção tão absurdamente cruel. Eles eram peças na engrenagem, alimentados pela propensão do ser humano ao apedrejamento, o apreço eufórico dos ignorantes pelo discurso de ódio, a negação do diálogo. Essa alquimia torpe possibilitou a doutrinação rápida, as sementes já estavam sendo irrigadas desde a infância. A câmera atravessa Auschwitz e Majdanek, enfocando que o “processo de limpeza” nazista estava alicerçado no sadismo, eles não queriam apenas eliminar os judeus, eles desejavam impor a humilhação extrema, a dor incalculável prolongada.

A conclusão que se tira é devastadora, não havia ideologia alguma em grande parte daqueles que agiram, direta ou indiretamente, nesse genocídio, apenas um extravasamento doentio de sentimentos baixos que despertaram intensos com a certeza da impunidade. O mal está apenas aguardando nas sombras, a sociedade não está livre de vivenciar algo até mais desumano, basta que um coletivo de indivíduos vire suas costas para a lucidez, rejeite a empatia e considere aceitáveis os discursos de ódio. Analisando a triste realidade atual, não estamos longe disso. É fundamental que nos mantenhamos vigilantes. 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Entrevista com a cantora Monica Mancini, filha do compositor Henry Mancini


Em mais uma entrevista exclusiva para o "Devo Tudo ao Cinema", conversei com a talentosa filha de um dos maiores e mais queridos compositores de trilhas sonoras da história do cinema, Henry Mancini. Monica é cantora e já trabalhou com nomes como Plácido Domingo, Stevie Wonder, Quincy Jones e Michael Jackson. Ela foi indicada ao Grammy em 2005, pelo disco "Ultimate Mancini". O trabalho de seu pai teve um papel fundamental em minha cinefilia, eu escutava a trilha sonora do primeiro "The Pink Panther" todos os dias, quando voltava da escola. Cantava "Nothing to Lose", de "Um Convidado Bem Trapalhão" (The Party), ao violão, "Moon River" (de "Bonequinha de Luxo") é uma das minhas músicas favoritas, mas a minha lembrança mais querida envolve seu trabalho em "Pássaros Feridos". Minha avó materna me presenteou com o livro original quando soube que eu, uma criança na época, estava acompanhando a minissérie na televisão.

O – Monica, você é uma cantora sensacional. Adoro o seu trabalho em "Anywhere the heart goes", parceria com seu pai em "Pássaros Feridos", uma das minhas favoritas no repertório dele. Essa minissérie foi parte fundamental da minha infância, um tremendo sucesso na televisão brasileira. Você pode compartilhar conosco as suas lembranças dessa parceria?

M - "Pássaros Feridos" foi, provavelmente, a minha trilha sonora favorita dentre todas as que o meu pai compôs. Ele escreveu muito para projetos televisivos, as pessoas normalmente não lembram disso, muitos temas ao longo dos anos. Esse, especificamente, foi um desafio para ele. Quando você compõe para um filme, você escreve uma hora de música, para um longa-metragem de duas horas. Uma minissérie como "Pássaros Feridos", foi algo em torno de oito horas de filme. Meu pai levou muitos meses trabalhando. E ele foi recompensado com um Globo de Ouro. 

O – Como uma criança que cresceu se divertindo com os filmes da "Pantera Cor-de-Rosa", protagonizados pelo genial Peter Sellers, e a obra-prima "Um Convidado Bem Trapalhão", eu sempre tive uma imagem do seu pai como o homem mais gentil da indústria de cinema. O trabalho musical dele, temas como "Royal Blue", "The Greatest Gift", "Piano and Strings" e "Dreamy", que eu escutava em loop durante toda a minha infância,  tem como característica principal a ternura, um especial calor humano. Ele realmente se importava com o que fazia, não era apenas um trabalho. Como era a figura paterna Henry Mancini? 

M - Se você perguntar para qualquer um dos associados do meu pai, eles irão te dizer que ele foi o homem mais agradável que já conheceram. A sua música fala por si só, mas o que eles lembram é da pessoa. Ele também tinha um maravilhoso senso de humor, algo que se refletiu em sua música, "A Pantera Cor-de-Rosa" é o melhor exemplo disso. Ele gostava de ficar em casa, então tinha um estúdio de gravação, algo que o tornava muito acessível, ele trabalhava em casa. Meu pai amava cozinhar massas nos Domingos, e, quando nós já estávamos crescidos, íamos lá, tomávamos muito vinho e cozinhávamos juntos. Ele aguardava ansiosamente por esse momento durante toda a semana! Se você conhece sua música, você conheceu ele. 


O – Como era o processo criativo para ele? Ele demorava muito tempo para finalizar uma trilha sonora? 

M - Alguns filmes eram mais fáceis, outros nem tanto. Quando ele estava inspirado, escrevia muito rápido, mas, por vezes, ele travava, esperava a inspiração brotar. Trabalhar com diretores diferentes trouxe para ele diversos desafios, alguns deixavam ele livre para criar, outros gostavam de se envolver diretamente naquilo que não conheciam. Os diretores dirigem, ele faz a música, esse é o correto. 

O – Que tipo de música ele escutava em casa? Ele tinha preferência por algum cantor/cantora, ou banda? Ele era amigo de algum músico brasileiro? 

M - Eu não me lembro dele escutando algo específico em casa, mas ele tinha um desejo profundo de estar por dentro de todos os gêneros musicais, para utilizar esse conhecimento em suas gravações. Ele gostava de Pop, Country, Rock e Jazz, ele amava todos os estilos. E tinha uma conexão muito especial com a música brasileira, ele visitou o país algumas vezes como jurado no Festival Internacional da Música, com Quincy Jones e Andy Williams. Sergio Mendes foi um de seus melhores amigos, eles tiveram muitas parcerias, ambos eram apaixonados por vinho de qualidade e pela "Boa Vida". 


O – Como uma artista no cenário da indústria musical, você pode escrever sobre a importância do legado maravilhoso do seu pai? Você consegue sentir sua presença criativa na música que é produzida hoje? Eu não consigo imaginar um mundo sem a música de seu pai.

M - Muitos compositores modernos foram influenciados pela escrita do meu pai. Até John Williams dá crédito a ele pela influência do Jazz em suas trilhas sonoras. Quando eu me apresento cantando suas músicas, as pessoas me confidenciam que elas as conduzem para um tempo específico de suas vidas, tempos memoráveis. Até Paul McCartney utiliza o riff de "Peter Gunn" em seus shows. Os jovens que nunca ouviram falar em Henry Mancini, conhecem, com certeza, as suas músicas, especialmente "A Pantera Cor-de-Rosa". O legado dele atravessa várias gerações.

O – Ele tinha alguma composição favorita, dentre todas as suas participações no cinema? 

M - A música favorita dele era "Two for The Road". Eu nunca soube a razão, mas a letra falava sobre seu relacionamento com minha mãe. Essa era a música deles. 


O – Você pode compartilhar alguma história interessante/engraçada envolvendo a relação de seu pai com pessoas como Blake Edwards, Audrey Hepburn e Peter Sellers? 

M - Meu pai teve uma amizade de trinta anos com Blake Edwards, que introduziu Peter Sellers em sua vida. Eu passei muito tempo com o Blake e com sua esposa Julie Andrews. Eu me lembro deles gargalhando juntos o tempo todo. Blake tinha um senso de humor tolo e perverso, assim como meu pai. Acho incrível que eles tenham conseguido produzir algo juntos! Eles confiavam muito um no outro, sem interferências criativas. Eu passei pouco tempo com Peter Sellers, quando eu era pequena. Ele era uma figura estranha. Ele era tão engraçado nos filmes, mas sombrio no convívio pessoal. Meu pai amava compôr para as cenas dele, ele considerava Sellers um artista brilhante. Audrey Hepburn era simplesmente apaixonante! Eu me lembro de ficar apenas olhando para ela, pensando em como ela era magrinha. Ela amava a forma como o papai compunha para seus filmes. Ela sempre requisitava sua participação. Eu ainda sou amiga de seu filho Sean, que vive na Itália, vejo Julie com frequência. Ela é uma das pessoas mais doces que conheço.


O – Qual a sua composição favorita do repertório dele? 

M - Creio que "Days of Wine and Roses" seja a minha favorita. Há algo na melodia que é tão simples, mas também tão profunda. Você conhece o filme ("Vício Maldito", de 1962), ele é bem intenso. Cantores de jazz normalmente trabalham nessa canção. E quando eu os lembro sobre o tema que ela trata, eles pensam: "Oh, eu nunca pensei na letra da música". Eu sempre penso na letra. 

O – Sobre a relação de seu pai com o cinema, você se lembra de algum filme especial que viram juntos? Quais eram os filmes favoritos dele (fora aqueles em que trabalhou)?

M - Não costumávamos ir muito ao cinema. Acho que o último filme que vimos em família foi "O Exorcista", em 1973, no dia de Natal! Mas víamos muita televisão juntos. Ele amava comédias. Ele também amava os filmes do "O Poderoso Chefão", gostava também do cinema italiano. O seu filme favorito era "A Doce Vida", seguido de "Cinema Paradiso". "Meu Primo Vinny" era sua comédia favorita. Haviam filmes em que ele trabalhou, que não eram tão bons, mas a música era fantástica, então ele produzia mais do que acabava sendo utilizado. Ele lamentava isso. Ele teve uma trilha sonora descartada por Alfred Hitchcock, "Frenesi". O diretor achou que era "muito macabra", ele acabou usando música clássica. Meu pai ficou muito desapontado com isso.

O – Monica, você pode deixar uma mensagem especial para os meus leitores, os fãs brasileiros do legado do seu pai?

M - Eu nunca visitei o Brasil, isso está, definitivamente, no topo da minha lista de desejos! Gravei recentemente uma canção com Isabella Taviani, chamada "Sometimes", que meu pai e minha irmã escreveram para os "Carpenters", em seu disco mais vendido. Fizemos um belo dueto utilizando a faixa original de piano tocado por meu pai. Eu espero que possamos cantar juntas em algum show no Brasil.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

"La La Land", de Damien Chazelle


La La Land (2016)
A cena inicial sintetiza uma das propostas do filme, a proposta mais óbvia, a celebração do gênero musical, a importância de se apreciar a beleza de suas convenções. O ato antinatural de contar uma história utilizando o canto e a dança, a reclamação mais comum dentre os detratores de musicais, apenas agrega mais possibilidades criativas. É preciso ter sensibilidade. A sociedade está cada vez mais insensível, impaciente e intolerante, mas a música está sempre presente, de alguma forma, até mesmo no alarme de mensagens do celular. Ao optar por dar o tom da trama mostrando vários motoristas entretidos musicalmente, enquanto aguardam o trânsito fluir, Damien Chazelle evidencia a onipresença melódica que é capaz de nos conduzir para a infância, ou ajuda a relembrar amores perdidos e marca momentos especiais, nos faz rir e chorar, em suma, enverniza a vida com a matéria de que são feitos os sonhos. 

O timing de lançamento não poderia ser melhor, vivemos uma completa inversão de valores, a juventude despreza a memória cultural, a lavagem de dinheiro movendo o monopólio na indústria com péssimos estilos musicais, o público preguiçoso aceitando de bom grado ser manipulado pelas estratégias de marketing, aplaudindo a música de sucesso da semana, admirando artistas que sequer valorizam suas próprias carreiras. Sebastian (Ryan Gosling) é um alienígena nesse contexto, um jovem apaixonado por jazz e que se empolga ao falar do passado, alguém que se preocupa com a integridade de sua arte, frustrado por ser obrigado a desperdiçar seu talento entregando “música de elevador” para clientes que ignoram sua presença. Em um mundo medíocre em que a plateia prioriza a filmagem do show, logo, mais preocupada em exibir sua alegria nas redes sociais do que, de fato, aproveitar plenamente a experiência, o rapaz se surpreende positivamente quando alguém numa mesa próxima aplaude ao final de sua apresentação. Mia (Emma Stone) sonha em ser valorizada como atriz, apaixonada pela história do cinema, mas está inserida em uma engrenagem cruel que parece objetivar a destruição do ego dos genuinamente talentosos, para que haja espaço seguro para os pilantras. Os seus testes são frequentemente interrompidos, os responsáveis pela seleção demonstram desinteresse, como se estivessem apenas preenchendo um requisito necessário no jogo, sabendo que os papeis já foram conquistados horizontalmente por rostos bonitos e intelectualmente vazios. O casal simboliza a resistência, os enquadramentos abertos em planos sem cortes nas sequências de dança refletem esse aspecto, resgatando a tradição do gênero na época de ouro, quando Fred Astaire afirmava que a câmera não devia tentar dançar junto com ele. Nos poucos musicais modernos, os cortes rápidos constroem a cena, o dinamismo tolo que visa manter a atenção dos adolescentes idiotizados pelo entretenimento de massa. “La La Land” resgata esse preciosismo dos bons tempos, prestando respeitosa homenagem aos grandes coreógrafos, com referências deliciosas a clássicos como “Cantando na Chuva”, “Sinfonia de Paris”, “Os Guarda-Chuvas do Amor”, “Cinderela em Paris”, “A Roda da Fortuna” e “O Picolino”.

A trilha sonora de Justin Hurwitz garante o refinamento necessário, com destaque para “City of Stars”. “Another Day of Sun” é divertida, mas infelizmente remete à pasteurização irritantemente inofensiva do gênero nas últimas décadas. “A Lovely Night” é outro ponto alto, assim como a intimista “Audition (The Fools Who Dream) ”, emoldurando o emocionante desabrochar artístico de Mia, transformando sua angustiante dor em arte.  O encanto da trama simples, ajudado pelo carisma arrebatador do casal, reside no carinho nostálgico com que se dedica a “ensinar” o público moderno a apreciar o gênero musical, assim como Sebastian consegue fazer Mia compreender e apreciar o jazz, Chazelle organiza um fac-símile irresistível e especialmente emocionante para fãs, mas também um mágico despertar sensorial para aquele espectador que sente enjoo ao ver um personagem quebrar a quarta parede cantando as linhas de diálogo.

"Verão de 42", de Robert Mulligan


Verão de 42 (Summer of '42 - 1971)
Aos quinze anos de idade, Hermie (Gary Grimes) vai passar as férias na praia. Durante esta viagem, ele procura respostas para suas dúvidas sobre a vida, a guerra, o amor e o sexo. Com a cabeça repleta de interrogações e sonhos, ele conhece uma mulher mais velha (Jennifer O’Neill) e fica apaixonado. Começa assim, uma intensa relação onde ele busca aprofundar seu conhecimento sobre o mundo. E ela, por sua vez, busca no jovem adolescente, o amor ausente de seu marido que partiu para a Guerra.

É curioso pensar que teve uma sequência para essa pérola, “Class of ‘44”, focada no trio de amigos adolescentes, sem qualquer menção à personagem de Jennifer O’Neill. Quem, em sã consciência, aceitaria pagar o ingresso? A alma de “Verão de 42” (ou o péssimo título mastigado para o público brasileiro: “Houve Uma Vez Um Verão”) é Dorothy, um dos rostos mais bonitos da história do cinema, a mulher que povoou os sonhos de meninos introvertidos no mundo todo, no que me incluo. O roteiro de Herman Raucher é inspirado na experiência transformadora que ele viveu nas férias de verão de sua adolescência, mantendo os nomes verdadeiros de todos os envolvidos. Em uma entrevista televisiva anos depois, ele afirmou que após o sucesso do filme recebeu uma carta da Dorothy real, preocupada com as consequências psicológicas do seu ato outrora. Que nobre ingenuidade. O rapaz sortudo deve ter agradecido todos os dias pela manhã, ajoelhado no altar com sua foto.

Um elemento indissociável na trama é a belíssima trilha sonora de Michel Legrand, que capta com elegância o sentimento de nostalgia que abraça a obra, potencializado na qualidade quase etérea da fotografia de Robert Surtees. A direção de Robert Mulligan, responsável por “O Sol é Para Todos”, dedica precioso tempo à admiração silenciosa do menino por sua musa, equilibrando bem o humor das cenas mais atrevidas, como a aventura exploratória desastrada dos amigos pela anatomia feminina na sala de cinema, com a sensibilidade terna ao desenvolver o relacionamento de Hermie e Dorothy, sem nunca apelar para o fácil recurso da nudez. Não há erotismo mais provocante que a delicada dança dos dois no terceiro ato, envolta pelas lágrimas de ambos, a mulher mais velha que se sente perdida no mundo, o menino que descobre o lado mais doce do amor. Aquela figura maravilhosa que o faz se sentir tão bem apenas com um olhar, um sorriso que simboliza a promessa de um mundo novo, terreno inexplorado, tão gentil e, ao mesmo tempo, tão perigoso.

Ele treme ao sentir o toque da mão dela em sua perna, ao ajudar enquanto sobe a escada para arrumar as caixas no sótão. Não há malícia alguma da parte dela, ele sabe, mas como ele gostaria que houvesse. Ele tenta puxar papo, disfarça o cansaço ao se oferecer para carregar suas cestas na rua, fica memorizando frases de efeito que considera elegantes para tentar impressionar. Ao visitá-la numa noite comum, ele se veste para uma ocasião especial, ele a respeita, ele a reverencia. Ela pode ser apenas uma bela mulher para os homens da região, mas para o menino ela é a realização de um sonho, a constatação de que há mais para se ver no mundo que a apatia na rotina de sua cidade. Ela é o mundo. E o mundo não é justo. O lindo desfecho representa essa triste realidade, a maturidade conquistada após uma carta de despedida. Mas ele a teve por uma noite, suas mãos alcançaram a divindade, a vida vale a pena.


* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

"Malcolm X", de Spike Lee


Malcolm X (1992)
Spike Lee lutou muito para que a cinebiografia de Malcolm X fosse finalizada, o estúdio tentou de todas as formas impedir seus esforços, até que ele buscou a ajuda financeira de amigos artistas e esportistas afro-americanos, que doaram altas somas sem qualquer interesse, sem participação nos lucros, apenas motivados pelo desejo de que aquela história fosse contada. A batalha nos bastidores é mais fascinante que a própria produção, que seria muito beneficiada com o corte de, pelo menos, uma hora de gordura extra, um primeiro ato arrastado abordando a juventude do protagonista, problema que compreensivelmente prejudicou o filme nas bilheterias, afastou o público adolescente e, a pior consequência, minimizou o impacto da bela mensagem que defende. E uma mensagem que segue extremamente relevante nos dias de hoje.

Malcolm X, que negava inconscientemente sua raça na adolescência, questionou o papel do negro na sociedade, ele questionou os alicerces do catolicismo, ele se viu seduzido pelo fanatismo religioso de um charlatão e teve brio de admitir o erro, ele não temia sequer a morte, o homem chegou a ser preso, mas talvez tenha sido a personalidade mais livre de sua época. A sua liberdade interna, a coragem de questionar tudo e todos, um elemento incrivelmente perigoso para aqueles que lucram com a ilusão. Jesus era negro, os discípulos eram negros, óbvia constatação ao analisar o berço geográfico deles, mas as pinturas imortalizaram o longo cabelo liso, os olhos azuis, a tez clara como neve. Você pode não concordar, mas uma grande parcela de religiosos não apenas discorda, como o faz com agressividade latente. Qual a razão? Qual diferença faz a cor da pele do líder religioso? Essa preciosa reflexão, transmitida na ótima cena do confronto com o padre, vivido por Christopher Plummer, representa o gradual despertar existencial do protagonista, metaforicamente no local em que a sociedade o colocou como prisioneiro.

Denzel Washington, na melhor interpretação de sua carreira, emula os gestos calculados e compreende com exatidão as motivações de alguém que, ainda criança, sentiu a dor da intolerância, ao ver sua casa ser incendiada por mascarados da Ku Klux Klan. As nuances trabalhadas no desenvolvimento de seu discurso, da insegurança travestida de empáfia, passando pela rigidez estúpida do pensamento extremista, até a sobriedade lúcida de quem entendeu que o amor é a única verdade. Apenas os mal-intencionados dividem para conquistar, a união e o diálogo são sempre melhores que o ódio.






* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Versátil", com a curadoria sempre impecável de Fernando Brito. O material extra inclui um making of e um documentário espetacular sobre o homenageado.