sábado, 31 de dezembro de 2016

Mensagem de Final de Ano


Desejo a todos uma passagem de ano com muita paz. Que 2017 traga mais lucidez ao povo brasileiro, mais maturidade emocional, para encarar os muitos obstáculos que virão.

Que se leia mais. Que se questione mais. Que a bestialidade seja subjugada pela elegância. Que a breve experiência da vida não seja interrompida frequentemente por alarmes de WhatsApp. Que se valorize sobremaneira tudo que é feito com qualidade, ao invés de constantemente reclamar da existência daquilo que não tem valor algum. Que os discursos de ódio sejam obliterados pelo insaciável desejo existencial por aprimoramento. Que os jovens priorizem o respeito. Que os mais velhos priorizem a humildade. Que o olho no olho, o importante contato humano, volte a ser o usual. Como sempre afirmo: que se busque diariamente honrar o “sapiens” que sucede o “homo”.
Agradeço a companhia até aqui e espero sinceramente continuar contando com o carinho de vocês, caros leitores, queridas leitoras, por mais esse ano.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Adeus, Debbie Reynolds


Quando Carrie Fisher faleceu, além de toda a carga emocional que seu nome representa em minha cinefilia, pensei em sua mãe, Debbie Reynolds, uma mulher que transmitia fortaleza aos 84 anos, um dos símbolos da era de ouro da indústria, atriz, dançarina, cantora, historiadora do cinema, ganhadora do Prêmio Humanitário Jean Hersholt, uma figura discreta e elegante que encantou o mundo com sua participação no inesquecível "Cantando na Chuva".

Como não se apaixonar por Debbie? A minha contraparte adolescente ficava de queixo caído por ela na cena da imagem acima, quando Gene Kelly transforma um galpão em um mundo de sonhos ao som da bela "You Were Meant for Me", mas a personalidade forte de sua personagem Tammy, em “A Flor do Pântano”, uma lolita do interior, era irresistível. Ela se fazia notar naturalmente, parte da realeza genuína que não precisava impor sua presença. Se Carrie era princesa no cinema, Debbie, sem dúvida, foi uma rainha na vida real.

A sua morte, no dia seguinte do falecimento da filha, um baque devastador. Como revelou seu filho, Todd Fisher, suas últimas palavras foram: "Eu vou ficar com Carrie". Um desfecho triste e bonito, já que as duas sempre tiveram um relacionamento complicado. O amor falou mais alto. Que as novas gerações sigam se apaixonando por sua doce presença em seus trabalhos. Que nunca nos esqueçamos...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Adeus, Querida Princesa


A palavra "tristeza" não define o que sinto nesse momento, soa pueril, débil, pouco impactante. "Star Wars" sintetiza minha infância, a parte mais bonita e emocionante dessa fase da minha vida. George Lucas criou a mitologia de toda uma geração. E Carrie Fisher, como a inesquecível Princesa Leia Organa, representava a doçura que envolvia a trilogia clássica, o coração que pulsava mais forte que as batalhas espaciais.

Eu cresci e acompanhei seu trabalho em filmes como "Hannah e Suas Irmãs", do mestre Woody Allen, "Harry e Sally: Feitos Um Para o Outro", entre outros, mas nada me fascinava mais que a verdadeira Carrie, aquelas deliciosas participações em talk shows, boa parte delas disponíveis na internet. Uma personalidade complicada, insegura, extremamente carismática, sem papas na língua, uma aura enigmática que encantava sem fazer força. Ao expor publicamente seus problemas com as drogas, com extrema generosidade transformava sua angústia em show, divertindo outrem ao revelar suas cicatrizes psicológicas abertas.

Fiquei envergonhado ao ler comentários grosseiros sobre sua aparência no recente "O Despertar da Força", tenho certeza que essa reação também feriu a atriz, que estava presenteando os fãs com o retorno à personagem após todos esses anos. E ela se foi sem escutar o pedido de desculpas. Uma parte importante da minha infância e adolescência morre hoje. Que seus trabalhos sigam inspirando as novas gerações. Que nunca nos esqueçamos...

sábado, 24 de dezembro de 2016

Uma mensagem diferente de Natal


Nos momentos ruins, a vida é uma sucessão de momentos ruins e bons, nem sempre se alternando com a mesma harmonia, aquele que não crê em nada sofre ainda mais, pois sabendo os truques do mágico, vê-se privado até mesmo do brilho no olhar e da excitação que a mágica opera naquele que desconhece o truque. E não seria importante esse brilho no olhar? Seja acreditar em Deus, em Buda ou em uma codorna falante, não seria uma experiência válida? Olhar para o céu e torcer para presenciar a aparição de uma nave triangular, ou ver na cura psicossomática de alguém um milagre divino. Essa escolha deve ser mandatória para todo ser humano. A fantasia foi um dos estímulos que fez com que o homem evoluísse através dos séculos. Hoje sabemos que existem vários planetas, nas diversas galáxias, que orbitam em zonas habitáveis. Quantas possibilidades. Como seres dedicados, buscamos entender da matéria de que somos feitos, e ainda nisso somos alunos no ensino primário, mas somos ignorantes perante as diversas possibilidades, que, em sua imensidão, zombam diariamente de nossa ingenuidade.

Qual a razão que validaria a abolição de todos os rituais? Quem é a formiga para regular o alcance do voo da águia, ou o colibri para entender as necessidades de um tatu? Vivamos em paz, respeitando todos, mesmo que questionando, e procuremos entender até mesmo o que nos prende aos rituais, ainda que continuemos vivenciando-os ano após ano. Não importa se em 25 de Dezembro você celebra o simbólico dia do nascimento de Jesus, comemora o Diwali hindu, celebrando a destruição de Narakasura por Sri Krishna, realiza o Chanucá judeu, honrando a histórica vitória dos Macabeus e o milagre do óleo, agradece ao Oxalá na umbanda ou simplesmente passa o dia como outro qualquer, entenda que a única verdade na vida é o amor. Então compartilhe o amor nesse dia e sempre.

Boas Festas a todos!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Rebobinando o VHS - "Fantasma - Noite Macabra"

Link para os textos anteriores do especial:


Ainda inédita em DVD por aqui, essa pérola pouco conhecida do terror/sci-fi, cultuada pelos fãs norte-americanos do gênero, costumava passar nas nossas madrugadas televisivas com uma excelente dublagem da Herbert Richers, encabeçada pelo querido amigo Ricardo Schnetzer, que dublou o irmão mais velho do menino que precisa enfrentar seus medos após o falecimento dos pais.


Fantasma – Noite Macabra (Phantasm – 1979)
Angus Scrimm, intérprete do enigmático Tall Man (Homem Alto), faleceu no início do ano, após filmar sua participação no quinto e derradeiro capítulo da franquia, poucos veículos comentaram. Mas, apesar do segundo e do terceiro serem divertidos e mais agitados, os roteiros desrespeitam tudo o que foi estabelecido no original, na intenção de transformar a alegoria engenhosa em um slasher simplório nos moldes de “Sexta-Feira 13” e seus similares.

É perceptível o amor do jovem roteirista/diretor/editor Don Coscarelli pelo projeto independente, feito com baixíssimo orçamento, com elenco em grande parte amador e filmado nos finais de semana de um longo ano, mas com intensa criatividade. Uma sutil referência evidencia o cuidado da direção de arte, um livro que aparece em um par de cenas, no quarto do menino, “My Name is Legion”, antologia de contos si-fi escrita por Roger Zelazny, mostra que a imaginação dele já estava sendo ativada como maneira escapista de suportar os baques emocionais recentes, a perda dos pais e, como o brilhante desfecho revela, a trágica morte do irmão mais velho em um acidente de carro. Outro detalhe que pode passar despercebido é o pequeno frasco de remédio prescrito que só aparece no quarto do menino na cena final. O roteiro insinua em vários momentos uma ligação psicológica entre os dois irmãos, um companheirismo bonito que vence até a descrença do mais velho com relação às influências sobrenaturais nos perigos que o mais novo sinaliza. E quando é revelado que tudo se passou na mente do garoto, com o falecido irmão representando o herói que ele perdeu, o espectador é levado a preencher lacunas da trama.

A pequena esfera prateada voadora que retira o sangue de suas vítimas, instrumento utilizado pelo coveiro Tall Man, símbolo óbvio que evidencia a impressionante fragilidade de nosso organismo. O grande problema a ser enfrentado pelo menino é o medo da perda. Na cena da experiência com o efeito placebo na pequena caixa preta, momento que sintetiza a mensagem do filme, ele reconhece que precisa trabalhar essa fraqueza psicológica, a compreensão da finitude humana é um dos degraus necessários na escalada da maturidade. “Fantasma” ganhou o prêmio especial do Festival Avoriaz, da França, e foi indicado na categoria “Melhor Filme de Horror”, da Academia de Filmes de Ficção Científica, Fantasia e Horror, dos Estados Unidos.