quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Um desabafo envolto pela madrugada

Todo escritor já passou por bloqueios criativos. Fellini utilizou sua própria experiência como estímulo para seu excelente “Oito e Meio”. O ato de escrever para um público é uma troca constante, com o leitor sempre ajudando na “arte-final”, degustando aquelas linhas. Assim como o cozinheiro profissional trabalha buscando o sorriso de satisfação daquele que experimenta seu prato, o escritor anseia o apreço do seu leitor. Mas não é recomendável que os ingredientes sejam banais, a combinação de sabores deve surpreender os paladares mais exigentes. O erro está em entregar exatamente aquilo que o degustador espera. Correr riscos é essencial. Abordar temas controversos, mesmo sabendo que poderá perder leitores, teria que ser uma regra emoldurada na mesa de trabalho de qualquer profissional da área. Ao mesmo tempo, não consigo ficar indiferente à celebração de tudo que é mais medíocre, tolo e inofensivo.

O “fazer sucesso” parece estar intimamente ligado ao “não incomodar ninguém”, ser tudo o que a sociedade consumidora deseja que você seja. Por isso é comum que pessoas públicas não exponham suas convicções políticas e religiosas, uma “Luciano Huckzação” que se prolifera como fogo em uma floresta. Como o astro que precisa passar uma imagem de pegador, ainda que seja homossexual, por medo de perder oportunidades em sua carreira. Aqueles que se assumem como indivíduos com alguma personalidade, fugindo da lista de condutas ditadas por seus assessores de imprensa, são vistos usualmente de forma negativa. É uma realidade desgastante, já que você chega à conclusão de que, não adianta o quão forte sejam suas braçadas, nunca se afastará muito da praia. O artista que debochava contundentemente desse sistema medíocre em uma emissora pequena, pelo altíssimo salário que passa a receber em uma emissora maior, acaba abraçando emocionado tudo aquilo que considerava de má qualidade. No país onde o professor recebe uma miséria e o ator que não gosta de ler vive com muito luxo, o conforto financeiro é gota d’água para o náufrago, compra qualquer ideologia.

Estou sentado tentando vencer um bloqueio criativo, enquanto que, na televisão, os exemplares de sucesso atuais, os artistas de barro, são carregados nos ombros do povo. Fantoches midiáticos que ganham uma fortuna, sem interesse algum pelo aprimoramento, enquanto eu não receberei um centavo por todas as horas em que me dedico a escrever. Tem como constatar isso e não sofrer eventualmente um bloqueio criativo? Saber que eu poderia estar vivendo confortavelmente agora, caso tivesse jogado fora todos os meus anos dedicados à leitura, investindo cada precioso segundo no funk carioca, no sertanejo universitário, ou, quem sabe, cavando espaço em um reality show? Imagino o que um professor brasileiro pensa, quando checa sua conta bancária e a compara com o valor do passe de um jogador de futebol. 

Uma juventude que pensa apenas em concursos públicos, ao invés de objetivar sua vocação profissional, já que é filha de uma nação que não incentiva talentos individuais, empreendedorismo. A valorização da obediência subjugando o estímulo à inovação.  Vence aquele que possui mais facilidade de memorizar, uma habilidade mecânica que não diz absolutamente nada sobre a inteligência de uma pessoa. Vocês não imaginam a quantidade de profissionais frustrados, ainda que com a confortável estabilidade financeira, suportando o dia a dia em cargos públicos. E é importante que os pais passem essa consciência para seus filhos.

“Aqueles que desistiriam da liberdade essencial para comprar um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança.” (Benjamin Franklin)

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

"A Festa de Despedida", de Tal Granit e Sharon Maymon


A Festa de Despedida (Mita Tova - 2014)
O que não me sai da cabeça após a sessão, dentre todas as emoções despertadas por esse lindo filme israelense, é a ideia de um homem que se predispõe a aliviar o sofrimento de estranhos, enquanto parece ignorar a gradativa perda da sanidade de sua amada esposa. O conceito de que ele, confrontando as leis naturais com sua máquina de eutanásia, está operando uma fuga da sua própria realidade, reveste a trama com uma camada extra de complexidade psicológica. 

Os diretores Tal Granit e Sharon Maymon, com tremenda sensibilidade, comandam uma aula de construção de personagens, sem caricaturas, elementos que agem de forma orgânica e inesperada, num equilíbrio perfeito de humor e drama, vale salientar, em doses muito corajosas. Uma visão emocionalmente madura sobre um tema muito espinhoso, executada sem gordura extra, o que é cada vez mais raro. Existem poucas histórias que realmente precisam de mais de noventa minutos, três atos definidos em um roteiro bem escrito. Nesse caso, a criatividade comporta até mesmo um singelo e surrealista interlúdio musical, conduzido pelos falecidos, um recurso que ganha pontos por ser inserido de forma segura. 

Enquanto o tematicamente similar: “Amor”, de Michael Haneke, era extremamente contundente na manipulação de sua mensagem, “A Festa de Despedida” consegue ser tão brutal quanto, ao explorar as dificuldades que acompanham o crepúsculo humano, mérito da impecável atuação de todo o elenco, porém, evita estabelecer um julgamento moral sobre como alguns decidem lidar com o sofrimento. O roteiro, ao compor arcos de personagens essencialmente inconstantes, realistas, entrega para o público uma grande variação de argumentos divergentes. O foco não é a morte, ou como devemos lidar com o sofrimento, mas, sim, com a importância de saber viver com qualidade o pouco tempo que compartilhamos nessa incrível experiência. Cenas como a da reunião nudista, reforçam o valor do companheirismo entre soldados cansados da longa batalha em uma trincheira que será invadida, em breve, pelo exército inimigo. 

Uma resposta inteligente e adulta para outros projetos mais celebrados, como “Para Sempre Alice”, que disfarçam o tom exploitation da miséria, o que seria o Datena para o jornalismo, com uma abordagem que se leva a sério demais, o que desumaniza os personagens. É, com sua humanidade tocante, um dos filmes mais lindos do ano.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

TOP - Filmes Sobre Altruísmo e Desapego

Enquanto somos crianças, com sorte, costumamos escutar de nossos pais lições valorosas sobre a necessidade do altruísmo, os malefícios do egoísmo exacerbado e a importância de deixarmos como legado um mundo melhor do que aquele que nos recebeu. Crescemos e esquecemos estes ensinamentos, preocupados apenas em acumular o vil metal, fazendo dele um instrumento para conquistarmos poder, status social, fama. Poucos são os que utilizam seus recursos, financeiros ou intelectuais, para o bem maior. Ínfimos são os que reconhecem os esforços desses poucos. A questão que atinge a consciência com a força de um instrumento de silício: Vale a pena ser altruísta, sacrificar-se pelo bem maior, sabendo que existe uma grande possibilidade de, neste mundo moderno onde a elegância é alvo de deboche, você ser recompensado com o anonimato?

Selecionei, dentre meus favoritos, dez filmes sobre indivíduos que, com suas atitudes nobres e altruístas, modificaram positivamente o ambiente em que viviam. A lista não está em ordem de preferência.


Em Cada Coração, Uma Saudade (All Mine to Give – 1957)
A trama se passa por volta de 1850 e conta o drama de um garoto de doze anos que acaba de perder seus pais, necessitando cumprir a promessa que fez à mãe em seu leito de morte: distribuir seus cinco irmãos pequenos para boas famílias da região. Ele precisa amadurecer mais rápido e tomar uma decisão cruel, sacrificando seu amor pelos irmãos, objetivando o bem estar dos mesmos. É difícil manter-se insensível nos vinte minutos finais. Os pais, vividos por Glynis Johns e Cameron Mitchell, eram imigrantes humildes, analfabetos, constantemente hostilizados pelos habitantes da região. O garoto, no dia do Natal, acaba se tornando o disseminador de uma nova geração, que, levando em consideração a boa criação dos pais, constituirão uma cidade melhor no futuro. Essa é a mensagem que a bela obra busca transmitir.


Viver (Ikiru – 1952)
Na obra de Akira Kurosawa, Takashi Shimura vive um homem no crepúsculo de sua existência. Vítima de um câncer, ele descobre ter desperdiçado sua vida sendo um funcionário modelo, sem faltas e reclamações, sem momentos de lazer, plenamente dedicado a uma função burocrática, que qualquer um poderia fazer e que só satisfazia seu empregador. Balançando-se em um parque de diversões, emociona-se tentando voltar no tempo e corrigir seus erros. Sobrando-lhe pouco tempo de vida, ele então decide deixar um legado eterno, útil como algo tangível, na forma de um parque onde as crianças pudessem brincar, e filosoficamente eficiente, incentivando seus colegas a seguirem seu exemplo. Já que a prefeitura sempre prometia, mas nunca construía aquela área de lazer, ele se redimiria com seu esforço, construindo algo que sobreviveria por décadas após sua passagem. Somente quando estava prestes a morrer, o nobre senhor decidiu viver.


Uma Voz nas Sombras (Lilies of The Field – 1963)
A simples história de um homem desempregado, vivido por Sidney Poitier, em papel que lhe rendeu um Oscar, que, numa parada para consertar seu carro em uma fazenda, acaba conhecendo uma pequena comunidade de freiras. Elas o veem como um enviado de Deus para ajudá-las a construir uma capela no meio daquele fim de mundo. Inicialmente ele se recusa, chega a desistir na metade, mas acaba retornando para finalizar aquela missão. Não existe motivo algum para que ele ajude aquelas senhoras, tampouco seu trabalho será reconhecido, mas ele parece encontrar um significado para sua existência naquele exaustivo trabalho braçal.


Zorba – O Grego (Alexis Zorbas – 1964)
Cada personagem na adaptação da obra de Nikos Kazantzakis pode ser visto como uma representação de elementos da psicologia humana. O poeta/escritor britânico ao interagir com a força livre da natureza, o personagem “Zorba”, estabelece eficiente metáfora a todas as tentativas de se reconectar com suas potencialidades criativas. O personagem vivido por Alan Bates chega à Grécia com a finalidade de tomar posse da herança deixada por seu pai. Ele representa o elemento da comodidade, conduzido por motivações lógicas e cheio de regras autoimpostas. Afastou-se tanto de sua própria natureza/instinto, que drenou sua energia criativa. Sequer uma linha consegue escrever no papel de sua vida. Esquecido de si mesmo, ele encontra sua antítese na forma do falastrão Zorba, vivido brilhantemente por Anthony Quinn, que esbanja descontrole emocional e racional, apaixonado pela vida. Do encontro entre o racional e o impulsivo, nasce uma grande amizade, que enriquecerá a experiência de vida de ambos. 


Peixe Grande (Big Fish – 2003)
A melhor maneira de se compreender as atitudes de alguém, suas motivações e sonhos, é estabelecendo um muro que divida o que a pessoa acredita ser e sua real personalidade. Suas fantasias e desejos correspondem a uma imagem criada, por traumas, vitórias e derrotas. Uma infância de miséria e fome encaminhará a uma vida adulta em que o desejo por uma mesa farta seja prioridade. As fantasias de uma pessoa não mentem, expõem cruelmente detalhes que aos olhos treinados tornam-se páginas reveladoras em um livro aberto. O filho do protagonista de “Peixe Grande”, não se importava em decifrar os segredos contidos no livro aberto que era seu pai. Jovem ambicioso, preocupado demais com sua vida profissional, sem paciência alguma com aquele nobre senhor e suas histórias repetidas. A perspectiva da morte faz com que o jovem busque conhecer aquela incógnita falastrona, que sempre o deixava envergonhado em suas festas, com seus arroubos criativos. Angustiado com a recusa do pai em se mediocrizar, tornar-se comum, seu filho então decide conduzir uma pequena investigação, que acaba levando-o a constatar que somente a fantasia, o lírico, realmente satisfaz de forma plena. 


A Morada da Sexta Felicidade (The Inn of the Sixth Happiness – 1958)
A jovem inglesa, interpretada por Ingrid Bergman, que consegue fazer o impossível, resgatando e zelando pela segurança das crianças chinesas no período opressivo da guerra, conduzindo-as numa exaustiva e perigosa caminhada através das montanhas para um local seguro, havia sido inicialmente impedida de realizar seu sonho por não ter as qualificações necessárias para o trabalho. Ela precisou lutar para conseguir o dinheiro para a viagem, além de ter que se contentar com o trabalho de doméstica em uma hospedaria numa aldeia remota. Situação que conduz diretamente para um belo momento que ocorre no terceiro ato, um discurso belíssimo de Robert Donat, que estava muito doente e morreria pouco tempo depois, interpretando o Mandarim que, profundamente comovido com a força do espírito inquebrantável daquela jovem, declara a ela sua conversão para o cristianismo, fazendo questão de que aquela informação constasse nos escritos de seu povo. O roteiro e a atuação evidenciam que aquele gesto simbólico não feria ou desrespeitava suas crenças pessoais, apenas sublimava o conceito de religião como um elemento que, pela sua etimologia, existe como um laço de piedade com o propósito único de religar os seres humanos ao conceito subjetivo do divino, algo maior do que os dogmas de qualquer ideologia religiosa. 


Nenhum a Menos (Yi Ge Dou Bu Neng Shao- 1999)
A saga de uma professora obstinada e uma criança que não seria uma estatística. Esforço impressionante do sensível diretor Zhang Yimou em retratar o lado mais belo da natureza humana. Com um elenco de amadores que utilizam seus próprios nomes, e ocupam funções parecidas com a de seus personagens, o filme fala sobre uma jovem de treze anos (Wei Minzhi) que vive em um pobre vilarejo chinês, afastado da civilização. Quando o professor da humilde escola primária local precisa ausentar-se por um mês, o prefeito convoca a menina para ser a professora substituta. O modesto pagamento será dado caso ela consiga evitar a desistência das crianças. As famílias são paupérrimas e não existe esperança nos olhos dos alunos, que externam a angústia com atos de rebeldia. Yimou inicia a obra nos fazendo crer que a obstinação da menina é guiada apenas em função do pagamento, porém ao longo da trama ele nos emociona ao mostrar a devoção do antigo professor, que com um número limitado de gizes e sem dinheiro para repô-los, utiliza até mesmo o pó que resta em seus dedos, para concluir seus ensinamentos na lousa. Esse amor que só é explicado pela vocação genuína, acaba contaminando a jovem, que empreende uma árdua jornada, externa e interna, de amadurecimento, para resgatar o aluno mais peralta da classe, que havia fugido para a cidade grande, para encontrar trabalho. O emocionante final deixa claro que, onde antes dominava a desesperança e o caos, agora se faz brilhar a luz da autoestima. A mudança interna foi muito maior que a externa, advinda da jornada da jovem.


O Vento Será Tua Herança (Inherit The Wind – 1960)
A trama, baseada em um caso real ocorrido em 1925, é um exemplo de como Stanley Kramer conseguia esquivar-se do panfletarismo ideológico, buscando compreender os dois lados, retratando-os com o mesmo carinho. Não existem estereótipos, vilões detestáveis e mocinhos amados, apenas homens psicologicamente tridimensionais que realmente acreditam deter a razão, sendo colocados em natural conflito de ideias. É o que ocorre com os protagonistas vividos por Spencer Tracy e Fredric March, homens com um histórico de amizade e admiração mútua, mas que se encontram ideologicamente em lados opostos. Criacionismo e Evolução, conceitos que ainda hoje, surpreendentemente, podem incitar uma briga, sendo abordados em 1960. Admirável! O projeto fracassou nas bilheterias e dificilmente você verá sendo exibido na televisão. Na época, fanáticos religiosos berravam que o diretor era o “Anticristo”, exercendo a ignorância típica concernente ao fanatismo em qualquer área. Já na primeira sequência, o roteiro (de Nedrick Young, na lista negra e utilizando pseudônimo, e Harold Jacob Smith) explicita a essência da proposta. Um banner preso em árvores, ocupando toda a tela, com um nome: “BRADY”, esclarece a função do personagem de March na sociedade antes mesmo de sua primeira aparição. Ele é mais que um político, mais que um homem, ele é um símbolo de salvação, aquele que irá manter o demônio afastado da pequena cidade. E a evolução de Darwin era um diabinho inconveniente, que não podia ter voz. 

Como todo sacerdote de qualquer religião sabe, mentiras são necessárias para manter o povo sob seu jugo, sendo controlados pelo medo e pela possibilidade de redenção. E também sabem que a verdade é muito melhor amparada em argumentos, já que não se guia por um limitante livro de condutas, então a melhor solução é sempre impedir que os argumentos apareçam. Por essa razão, nas páginas da História, todos aqueles que buscavam alertar o povo para a verdade eram silenciados rapidamente. A discussão é uma ameaça, pois incita as pessoas a exercitarem o pensamento lógico, o raciocínio. O professor vivido por Dick York é afastado de sua sala de aula exatamente por estimular seus alunos ao livre pensar, ensinando-os sobre a evolução das espécies. A população da cidade é mostrada desde o início como zumbis, entoando hinos religiosos como máquinas. Kramer também evidencia a impossibilidade da coexistência entre ideologia religiosa e política, algo muito atual em nossa realidade, culminando no discurso final do personagem de March, um homem que possuía uma grandeza de valores em sua juventude, mas que se perdeu ao extravasar frustrações e complexos em sua crença. O mais triste é perceber que os zumbis agressivos mostrados no filme ainda existem em nossa sociedade. Vemos o povo demonizando cientistas e suas pesquisas, políticos querendo determinar leis de acordo com suas crenças religiosas, pastores acumulando fortunas, intolerância racial e homofobia. Podemos constatar pesarosos que o pensamento lógico e sensato ainda é um exercício facilmente substituível pela aceitação cômoda do cabresto. Stanley Kramer, falecido em 2001, continua sendo o homem mais corajoso na indústria.


Serpico (1973)
O protagonista está sentado descansando em seu jardim, escutando a ária “E Lucevan le Stelle”, momento marcante da ópera Tosca, onde o revolucionário Cavaradossi aguarda seus últimos minutos de vida em uma prisão. Um detalhe que pode passar despercebido, mas que demonstra a sensibilidade criativa do diretor Sidney Lumet, que adaptou a história real imortalizada no livro de Peter Maas. O trágico pintor de Puccini e o policial íntegro interpretado brilhantemente por Al Pacino possuem muito em comum, especialmente a qualidade de manterem-se fiéis aos seus valores, mesmo quando confrontados pela total desesperança. Frank Serpico só queria fazer seu trabalho, não defendia nenhuma causa nobre, mas cometeu o crime de ignorar que o sistema alimentava a corrupção que, em teoria, deveria combater. O roteiro de Waldo Salt e Norman Wexler mostra a gradual frustração de um jovem que tinha uma visão idealizada de como ser um oficial da lei. O desconforto inicial ao perceber os primeiros deslizes de seus colegas, o choque ao constatar que seus superiores temiam sua resistência a receber propina, pois acabaria se tornando como o rei sábio do conto que escuta de sua namorada, um louco aos olhos daqueles que beberam da fonte envenenada pela ganância. Ele não estava disposto a sorver sequer uma gota daquela água pestilenta. Com real interesse, ele atravessa uma fase em que tenta genuinamente compreender as possíveis razões por trás dos atos ilegais de seus colegas, o baixo salário ou problemas familiares, mas logo descobre que não há dificuldade extrema que não seja subjugada pela dignidade daquele cujo caráter não se dobra. Esse trabalho de construção de personagem de um impecável Al Pacino é auxiliado pela decisão do diretor de fotografia Arthur J. Ornitz, que, em diversas cenas, utiliza lentes que achatam a imagem, criando a ilusão de que o cenário se impõe sobre o protagonista, oprimindo-o cada vez mais em sua jornada inescapável rumo à descrença total na honestidade em sua função.


A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no Kamikakushi – 2001)
Impossível não compararmos a clássica história de Lewis Carrol com esta jóia de Hayao Miyazaki. Tanto “Alice” quanto “Chihiro” vivem em um mundo em que o real e o fantástico andam de mãos dadas, limitados apenas pela imaginação da protagonista. A meu ver, o roteiro do mestre japonês consegue, em sua simplicidade, superar “Alice no País das Maravilhas”, “Alice no País dos Espelhos” e qualquer outra obra similar a esses conceitos. A jovem japonesa se sente entediada no banco de trás do carro de seus pais, no que lhe parece uma interminável viagem. O mundo que ela vislumbra pela janela é desinteressante, assim como o falatório de seus pais, que lhe parece vazio. Sua mãe afirma que se mudar para outra cidade é uma aventura divertida, porém os olhos tristes da menina residem ainda em sua velha escola, seus amigos, laços que se desfazem à velocidade do vento que atravessa a janela do carro e perturba seu cabelo. O momento em que a fantasia se funde à realidade ocorre de maneira semelhante no conto de Carrol, quando Alice segue o coelho e adentra em sua toca. Chihiro e seus pais descobrem o que acreditam ser um parque de diversões abandonado, quando procuravam um atalho na estrada. As duas personagens encontram de forma inusitada um gatilho que desperta nelas a melhor fuga para seus problemas: um mundo paralelo, que reflete em lindas metáforas todos os estágios da vida, onde as jovens evoluem enfrentando obstáculos aparentemente impossíveis. Chihiro inicia o filme como uma garota ingênua, medrosa e mimada, tornando-se ao final uma mulher madura e valorosa. Miyazaki ainda encontra tempo em sua obra para incutir críticas ao capitalismo, uma sociedade que parece visar apenas o “ter”, não o “ser”. Com tantas animações que parecem subestimar a inteligência e sensibilidade das crianças, mostrar a seus filhos obras como as de Miyazaki, incentivar neles o ato de pescar, ao invés de lhes entregar o peixe já mastigado de animações similares, pode ser um presente inestimável e de efeito vitalício.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

"Whiplash - Em Busca da Perfeição", de Damien Chazelle


Whiplash – Em Busca da Perfeição (Whiplash – 2014)
A trama é trivial, cabe perfeitamente numa descompromissada “Sessão da Tarde”, mas, não há como negar, a sua execução é um primor. Como o boxe no “Rocky”, de Stallone, o jazz em “Whiplash” é uma metáfora para conflitos que todos nós, em variados níveis, enfrentamos na vida. Acho engraçado que alguns críticos estrangeiros tenham citado como demérito a visão caricatural do gênero, parafraseando a expressão mais utilizada nos textos: “grotesca”. É o mesmo equívoco tolo daqueles que reclamam que a quantidade de socos trocados nas lutas do garanhão italiano não condiz com a realidade do pugilismo. O interesse do diretor e roteirista Damien Chazelle está na transformação interna do jovem vivido por Miles Teller, alguém com baixíssima autoestima, que, de forma inconsciente, sempre colocou a culpa de seus problemas em outrem.

Solitário, carece da chama de segurança que facilita a saudável interação social. Ele tem um sonho artístico, idolatra o baterista Buddy Rich, porém, não encontra um sorriso acolhedor de aceitação na figura de seus familiares. E o erro dele era exatamente essa necessidade por aceitação. O responsável pela sinalização desse erro estrutural aparece na figura do mestre, vivido de forma impecável por J.K. Simmons. O nível de agressividade dele, algo que poucos levam em consideração, é equivalente ao nível de conformismo patético do aprendiz. O sadismo de suas atitudes, em alguns momentos, ultrapassa os limites, escancara a antinaturalidade da alegoria. Só a mensagem importa. As críticas costumam apontar esse aspecto na relação da dupla como pura brutalidade e humilhação, citando que o professor deveria ensinar o aluno a amar a música, falhando em compreender a real mensagem do filme, e, principalmente, que o exagero faz parte do processo metafórico.

O mestre percebe o talento do aprendiz, em um cenário onde muitos são comuns. Ele também constata o apego do jovem pela autocomiseração, enxergando nesse vitimismo um obstáculo fatal em sua jornada. Todo seu inegável esforço seria em vão, ele sempre iria perder lugar para outros artistas, até menos talentosos, porém, com maior segurança emocional. A única maneira de despertar o garoto é instigando nele o ódio, a revolta, o desejo abrasivo pelo revide. O “olho de tigre” que Rocky precisou conquistar para vencer o oponente que o havia derrotado no terceiro projeto da franquia. Chazelle se apropria dessa fórmula altamente sensorial, estabelecendo um admirável senso de ritmo, conduzindo o público para um desfecho verdadeiramente empolgante. E considero brilhante o fato de que, ao final, o diretor escolhe ignorar os aplausos, cortando sem piedade o reconhecimento da plateia. Com essa inteligente opção, o roteiro evidencia que o jovem conquistou a confiança em seu trabalho, a grande mensagem da trama. Ele simplesmente não se importava mais com a opinião dos outros. O mestre então sorri para ele.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

"O Espelho", de Andrei Tarkóvski


O Espelho (Zerkalo – 1975)
Poucos filmes são tão herméticos, um fascinante amontoado das memórias do diretor, a sua expressão mais pura de poesia filmada. Tarkóvski utiliza os mesmos atores ao retratar fases distintas da vida do moribundo narrador, com generosa inserção de interlúdios emoldurados por poemas de seu pai, recitados pelo próprio. Os fragmentos apresentados representam sempre a maneira como essas recordações são despertadas na mente do homem, o que possibilita cenas intensamente surrealistas, como o vento que trespassa a relva em harmonia com os movimentos de um enigmático visitante, a utilização da água como símbolo indomável do tempo, ou, de forma mais sutil, um incêndio que sinaliza o elemento do divino na natureza, compondo uma jornada proustiana, sem concessões, no inconsciente fragilizado de alguém que busca respostas em seu passado distante.

No início, vemos o filho do protagonista, o seu legado, vendo na televisão uma hipnóloga tentando eliminar a gagueira de um jovem, um momento que parece a execução de uma mágica. Na parede, propositalmente, a sombra do microfone que capta o som da cena, a afirmação da teatralidade essencial naquele processo de sugestão mental, ou, indo mais além, uma afirmação da teatralidade na vida. A superação do bloqueio do garoto, uma alegoria para a coragem conquistada pelo diretor, com grande sensibilidade, de revisitar e compartilhar com seu público as suas experiências pessoais, inclusive, confessando erros cometidos. A desconstrução meticulosa de sua existência, perscrutando arrependimentos e angústias, como forma de tentar compreendê-la melhor. O mais incrível é constatar como podemos nos identificar, em variados níveis, com o resultado dessa autoanálise do realizador. Acho arrebatadora a transição da imagem da mãe dele no filme, vivida por Margarita Terekhova, para o rosto envelhecido da mãe real do diretor no espelho. Em breves segundos silenciosos, ele transmite uma sensação inexplicável de nostalgia que toca, sem dúvida, até o espectador mais desinteressado.

O esforço pela compreensão da narrativa em um primeiro contato, equívoco compreensível, pode minimizar o impacto de uma obra que merece ser degustada em algumas revisões. Somente na terceira sessão, especificamente para a elaboração desse texto, é que pude enxergar a emoção contida no desfecho. Alguns detalhes ganham mais significado, como o sentimento da solidão representado pela rápida evaporação do líquido deixado na mesa pela xícara de chá quente, na cena protagonizada pelo filho dele, quase sempre mostrado sofrendo calado o abandono, como na perturbadora cena em que o menino se encara no espelho, enquanto aguarda o retorno da mãe. Ele descobre que sua essência psicológica, a formação de seu indivíduo, foi forjada, para o bem e para o mal, no conflito de experiências de seu distante pai e de sua passiva mãe, encontrando, inicialmente, tremenda resistência no ato de revisitar a infância, simbolizada pela casa cuja porta principal está sempre trancada. Ele só consegue se enxergar através dessa arqueologia parental. Alexei, como nós, tenta identificar sua face original, sem as cicatrizes deixadas pelo tempo, no espelho de suas memórias.

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Versátil”, na caixa “A Arte de Andrei Tarkóvski”, que inclui também: “A Infância de Ivan”, “Nostalgia” e “Tempo de Viagem”, além de documentários analisando as obras.